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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Histórias da II Guerra Mundial

Em finais da década de sessenta, talvez motivado por filmes de guerra que se viam na tv, a preto e branco e livrinhos de cóbóis com historietas da II Guerra mundial em que os alemães apreciam sempre como os maus dessas fitas, comecei a interessar-me por saber um pouco mais sobre o que foi essa guerra.
As fontes de informação sobre o assunto não eram abundantes, em Portugal e nessa altura não se me colocava a questão de saber se a informação disponível era suficientemente isenta e imparcial. O que lia tinha quase sempre a chancela de editores que partilhavam a visão dos vencedores ou então consistiam em relatos de protagonistas que tinham sido vítimas, como os judeus.
Havia livros e foi por aí que comecei, a ver os catálogos das editoras.

A editorial Aster tinha uma colecção razoável, em 1969:


Foi por aí que comecei, em Junho de 1969, ao comprar a biografia de Rommel escrita por um alemão e depois, em 1971 com um relato da guerra vista por um soldado alemão:


O interesse por Rommel prendia-se à curiosidade pelas grandes batalhas e a campanha do Afrika Korps e duelo com Montgomery que o alemão perdeu, era contada pelo meu pai que chegou a viver os acontecimentos, na altura empolgantes,  pelos relatos da época.

Faltava-me uma história da Guerra e à míngua de melhor ( que custavam muito mais caro) comprei esta, em 1971, que aliás nunca li integralmente porque é um compêndios de mapas, diagramas e  narrativa tecnicista da guerra.


O que na altura queria mesmo eram estas edições em vários volumes, da Europa América e das Seleções do Reader´s Digest, a mais desejada e entrevista num catálogo que vinha com o almanaque de 1970:




Entre estas histórias da História da II Guerra fui lendo e descobrindo episódios de alemães que no fim da Guerra fugiram para países onde se tornaram virtualmente desconhecidos. Sempre acompanhei as notícias sobre esses indivíduos que escaparam a julgamento por crimes de guerra e se refugiaram na América doo Sul, onde havia dirigentes políticos como Perón na Argentina e Stroessener, no Paraguai que protegiam esses fugitivos, tal como os americanos protegeram outros que lhes interessavam porque eram cientistas com saber e conhecimentos úteis, como von Braun.

O primeiro de que ouvi falar foi Martin Borman, numa publicação que não recordo,  em relação ao qual havia dúvidas de que tivesse morrido e havia quem assegurasse que se encontrava num país da América do Sul. 
O que sucedeu no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, com o rapto rocambolesco e sucessivo julgamento em Israel, de Adolf Eichman levado a cabo por um judeu, célebre caçador de nazis, Simon Wiesenthal, alimentava as histórias e mitos sobre o assunto.
As Seleções do Reader´s Digest eram uma fonte desse género de informações.

Borman não foi encontrado porque nessa altura estaria morto, mas outros foram procurados e conseguiram escapar, como Josef Mengle, cuja história foi já mencionada aqui, por causa de um livro recente acerca da sua saga de esconderijo em esconderijo, até à morte, por afogamento,  no Brasil em 1979.

Em 29 de Junho de  1985 a revista francesa Le Figaro Magazine publicou uma reportagem extensa, saída originalmente na revista alemã Bunte sobre Mengele, no Brasil, tal como contada pelo seu filho Rolf. Curiosamente, o livro de Olivier Guez, La disparition de Josef Mengele, não cita esta reportagem nem o filho do fugitivo...

 

 


Antes, em Dezembro de 1971 já tinha lido a entrevista que outro fugitivo, descoberto por Wiesenthal no Brasil, dera a um jornal inglês- The Daily Telegraph- quando se encontrava preso na Alemanha, Dusseldorf a cumprir pena de prisão perpétua.
Na altura nem li a entrevista toda porque já tinha ideia que o que tinha acontecido nos campos de concentração e era contado correspondia à verdade. Nunca lera nada em contrário, nunca ouvira nada em contrário e tudo o que lera e ouvira confirmavam a existência dos mortos em massa nos campos de concentração, o que vulgarmente se chama Holocausto. Seis milhões de judeus.

Mais tarde, já nos anos noventa comecei a ouvir falar em versões diferentes e ainda mais tarde em negação do que tinha lido que acontecera. Até hoje.

Sem elaborar muito,  a ideia que tenho é que as mortes em massa e programadas,  aconteceram e se não foram seis milhões foram muitas centenas de milhar, mais do que os que morreram de doença ou causas "naturais".

A entrevista confirma tal facto.




domingo, 14 de janeiro de 2018

António José Saraiva nasceu há cem anos

No passado dia 31 de Dezembro do ano transacto passaram cem anos sobre o nascimento do historiador e homem de cultura, António José Saraiva.

Tirando os seus familiares directos, filho e neto,  que escrevem no Sol sobre a efeméride, ninguém se ralou. Estes,  para comemorarem esse centenário entrevistaram-se e publicaram a entrevista em 30.12.2017.





 

Em 1969, ano da entrevista que José António Saraiva efectuou ao pai, para o Comércio do Funchal, também a Vida Mundial entrevistou e deu a capa à mesma figura. Fernando Dacosta segurava o microfone e fazia as perguntas, já aqui apresentadas em tempos:


António José Saraiva apesar de ter publicado vários livros sobre fenómenos culturais portugueses ( Para a história da cultura em Portugal, publicado em 1946 e republicado em 1996 pelo Público e Crepúsculo da Idade Média em Portugal, também publicado pelo Público nessa altura) para além de uma História da Literatura portuguesa ( junto com Óscar Lopes)  está esquecido e não é lembrado senão pelos seus familiares.

Tal omissão reflecte o actual estado da cultura em Portugal.

Provavelmente tal ostracismo deve-se a isto:

Em 15 de Dezembro de 1990, o Expresso entrevistou-o a propósito do lançamento de mais um ensaio, dessa vez sobre as figuras maiores da geração de 70.

O que o afasta da actual moda de dizer mal de Salazar é a frase do final: "Salazar era um homem respeitável" :



Logo após o 25 de Abril de 74, AJS cronicou algumas vezes na Vida Mundial, explicando noções básicas de política para quem na altura carecia de tais informações. Vida Mundial 31.10.74


sábado, 13 de janeiro de 2018

Revistas da História: a nossa miséria ancestral

Temos actualmente em publicação regular, bimestral, estas duas revistas de História. A da esquerda vai  no 11º número e a da direita no 43º. São ambas de esquerda. A soft, com frequentes arroubos de escritos extremistas, sempre desse lado. Por cada Ramos há vinte Loffs à espreita. Esta sina portuguesa tem décadas e refinou na última dúzia de anos com  a ascensão curricular dos Rosas, Flunsers e Pachecos à porfia de quem consegue ser mais sectário e parcial no relato da História contemporânea.
Como já têm alunos formados nessa escola, o saber recolhido anda a espalhar-se como malina malcheirosa empestando todo o ambiente mediático.
























Desde logo há uma diferença notória entre ambas as revistas. A da direita publica imagens e refere a sua proveniência ( Getty images ou AGE/Fotobanco.pt, no caso mostrado); a da esquerda não se dá ao cuidado, a não ser nas imagens de proveniência nacional e actuais. O resto é tudo pirata, incluindo a imagem da capa. E nem se diga que é apenas uma ou outra. No artigo sobre Lutero e a Reforma, da autoria do "coordenador editorial", Pedro Olavo Simões , são dez imagens tiradas não se sabe de onde. E seria interessante saber, para não dizer mais.

Apesar disso pode ler-se algo especializado, mesmo enviesado, nos tempos que correm, em Portugal.  É um fenómeno recente porque antes existia quase nada para se poder ler do mesmo modo.  Sobre História contemporânea dos últimos 50 anos,  nem sequer livros havia e hoje as edições amontoam-se nos escaparates em títulos sucessivos sobre as mesmas temáticas, de origem caseira ou traduzidos.

Porém, a História abrange outros períodos, mesmo a nossa. Portugal não começou no tempo de Salazar e do seu terrível fassismo e para esconjurar males passados é preciso ir mais longe no tempo e conhecer o que se passou.

Para saber o que era um certo Portugal no século XIX, a origem imediata da contemporaneidade que nos relatam os rosas e flunsers será preciso ler Oliveira Martins. Vasco Pulido Valente ensinou há bastante tempo, quando recomendou o Portugal Contemporâneo, que tal autor era o guru dos actuais historiadores, sobre essa época. Uma fonte primária de conhecimento. Oliveira Martins também escreveu sobre os filhos de D. João I.  Esta crónica é da Grande Reportagem de Março de 1985.


Como hoje se fala muito na Inquisição, a maioria das vezes com uma propriedade duvidosa, conviria ler o que sobre a mesma escreveu Alexandre Herculano, "o maior historiador português", segundo se escrevia  no livro escolar do início dos anos setenta, Alma Pátria, Pátria Alma:  " é o nosso maior historiador. Deixou-nos Poesias, Lendas e Narrativas, Eurico o Presbítero, Monge de Cister, O Bobo, História de Portugal ( até D. Afonso III), História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal e 10 volumes de Opúsculos."

Estávamos bem servidos nessa época em estudos sobre História? Nem por isso. Faltou sempre o estudo de divulgação que havia noutros países, europeus e não só.

 No início dos anos setenta o conhecimento e leitura sobre acontecimentos históricos contemporâneos advinha do estrangeiro traduzido por cá. Jornais ou revistas especializadas não havia mas apareciam os originais estrangeiros e as traduções principalmente em compilações como estas da d. quixote, de 1971/1972:


Os volumes destes "cadernos" eram compactos , relativamente acessíveis e traziam o ar do tempo que se respirava lá fora, geralmente soprado do lado esquerdo. Assim se foram formando os "ventos" que viriam a soprar depois por cá e ainda não desapareceram.

Tirando isto também havia artigos avulsos e "livros condensados", alguns sobre História, nas Seleções do Reader´s Digest de proveniência brasileira. Todos os meses era um maná para quem queria saber algo mais sobre tudo. A divulgação, segundo os americanos foi, durante alguns anos a minha fonte primária de conhecimento de algumas realidades histórias. Foi lá que num certo mês li a história da captura de Che Guevara...assim como a história de dois guerreiros japoneses que se esconderam nas selvas do Bornéu, durante anos a fio, depois do fim da II Guerra por julgarem que ainda não tinha acabado.



 Nos primeiros anos da década de setenta- 1971 e 1972- a instrução periódica da História obtinha-se através de revistas de cultura geral, como estas brasileiras:

Esta trazia um artigo desenvolvido e ilustrado sobre Israel e os 4 mil anos de história. A família Bloch teria ascendência judaica, mas então não sabia. Foi a primeira vez que vi o muro das Lamentações em ilustração.






 Esta ainda era mais interessante e tenho vários números. O de Dezembro de 1971 trazia uma reportagem desenvolvida sobre os "quadrinhos". Foi a primeira vez que vi ilustrações a cores de Corto Maltese ( ainda nem era conhecido em Portugal,  tal personagem) e Pilllipe Druillet, além de Burne Hogarth. Foi uma descoberta.




Nas dez páginas finais tinha uma entrevista com Franz Stangl, o comandante do campo de concentração de Treblinka, traduzida do Daily Telegraph. Parece que isto será uma "fonte primária"...e o que diz na entrevista não pode considerar-se fantasioso...


Em 7 de Outubro de 1973 um anúncio no jornal A Capital chamou a atenção para uma novidade:


Quando apareceu à venda tornou-se imperdível  e era a Bertrand quem a vendia, por 30$00 o que era caro, para a época.



A revista Vida Mundial custava então 5$00 e continuou a custar até meados de 1974, altura em que passou para 10$00. Em 1976 já custava 15$00, fruto do progresso económico da democracia que nos trouxe então a primeira bancarrota. Se tivesse continuado o fassismo provavelmente continuaria a custar os mesmos 5$00 ou quando muito uma pequena percentagem mais, porque assim foi relativamente às revistas estrangeiras. Por cá, a Economia não gostou muito da democracia abrileira e assentou-lhe logo duas bancarrotas.

Também esta revista ajudava a conhecer a História como prova esta entrevista a um historiador que então então estava em voga e agora não está e colocava Deus na História e hoje não se coloca: Arnold Toynbee.


Até meados da década de setenta a História em publicações periódicas de vulgarização não passou além disto.

No final de 1978 apareceu a revista História, publicada pelas edições do O Jornal, a Projornal, dirigidas por José Carlos Vasconcelos, um eanista e pintassilguista e ainda salgadozenhista nos anos vindouros. Portanto, um esquerdista.

O nº2 trazia artigos de A.H. Oliveira Marques sobre Afonso Costa, por exemplo. A maçonaria entreajuda-se.
 Afonso Costa, aliás, já fora objecto de um número especial da Vida Mundial em 5.3.1971 por ocasião do centenário do nascimento.




O artigo da História de 1978 não era substancialmente diferente ou não fosse Oliveira Marques um mação de primeira água:


De 1978 até agora, quase 40 anos, a História em Portugal contou-se periodicamente através dessa revistinha de esquerda maçónica.

Como é que podemos ter alunos que tenham aprendido a História de modo diverso se os professores que ensinam nas universidades eram os que escreviam na revista?

Em Abril/Maio de 1990, por ocasião do centenário do nascimento de Salazar quem escreveu o artigozinho? César de Oliveira. Um dos MES...


Portanto, sobre História em Posrtugal estamos entendidos: é um assunto de esquerda desde há décadas a esta parte. Um reduto ideológico que explica em parte como chegamos até aqui, às duas revistas mostradas acima.

Quem quiser saber de outro modo tem que ler o que se escreve no estrangeiro e  sempre foi possível ler por cá tais revistas, mesmo no tempo da figura caricaturada acima.


Até a Espanha tem duas ou três revistas de qualidade, desde há décadas. A França nem se fala. Outra diferença entre essas revistas e as nacionais reside num pormenor que aqui se nota: tanto as espanholas como as francesas quando abordam um assunto, explicam as fontes onde foram ler e mostram onde se pode ler mais sobre os assuntos.



Por cá nem fontes primárias, secundárias ou terciárias se indicam quanto mais livros ou artigos para aprender mais. Nem proveniência de fotos. Nem sequer explicações sobre a escolha de certos temas. Graficamente as revistas de cá ainda deixam muito a desejar e por isso.

Entre nós o tema História ainda se aborda assim, como numa entrevista de 1987 no Jornal de Letras ( do mesmo grupo de O Jornal):




Nessa altura de há trinta anos este antigo monge ainda tinha relevo mediático. Hoje é um tal Rosas e uma tal Flunser.

Porca miseria!