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domingo, 26 de abril de 2009

As gravatas apenas mudam com as modas

No dia seguinte ao 25 de Abril de 1974 tornou-se importante seguir os acontecimentos pela televisão, embora o rádio fosse o meio de informação privilegiada, em cima do acontecimento.

A televisão, na sua programação habitual e diária de desenhos animados, filmes e séries, pouco ou nada mudou de substancial de 24 para 25 de Abril de 1974, ou Maio e Junho do mesmo ano, mas um aspecto relevou de modo assinalável: antes era impensável apresentar as notícias sem fato e gravata. Depois, a começar no próprio dia, o locutor Fialho Gouveia ( já falecido) apareceu de camisa e sem gravata. Informal, como se diria, por contraposição ao formalismo rígido do dia anterior.

Se há semiótica que explique o fenómeno social ocorrido com o dia 25 de Abril, é esse: a descompressão social, mesmo na televisão do Estado, única. Sinal importante de mudança.

Como se pode ver pela revista Rádio & Televisão da época, a mais conhecida do meio de então, a programação anterior ao 25 de Abril de 1974, ocorrido numa quinta-feira, nada mudou , em termos de programa ou organização dos tempos televisivos, dois meses depois, nessa mesma quinta feira.
O que mudou, substancialmente, foram os noticiários. A liberdade de expressão era supostamente completa e sem restrições. O que aconteceu, no entanto, nesses meses? As pessoas passaram a estar melhor informadas, esclarecidas, atentas aos fenómenos e acontecimentos reais e a ocorrer em catadupa? Nem por isso. O que sucedeu em larga escala nos media, foi apenas isto:

Em vez da Censura do antigamente, passou a existir uma linguagem por vezes codificada e semântica prè-determinada em que certas palavras e expressões passaram a chavões, reduzindo significados e cortando significantes. "Fascismo" passou a designar o regime anterior. "Reaccionário", termo completamente desconhecido anteriormente, passou ao léxico comum e elementar. " Longa noite", em vez de se referir aos facas longas dos filmes e livros , passou a designar um período histórico português, como sendo a "longa noite do fascismo". Ainda hoje tem largo curso nos media e paleio parlamentar à Esquerda.

Em vez de António Victorino de Almeida ( este por pouco tempo) ou José Hermano Saraiva, passamos a ouvir falar de Lopes Graça ou Fernando Rosas ( apareceu anos depois mas já existia nesse tempo, como sectário insuportável).

A "langue de bois" do antigo regime passou a novas fórmulas e conceitos , eventualmente antagónicos mas muito coincidentes no espírito, continuando por isso, mas ainda pior do que já era.
O conhecimento da realidade prática e das instituições e pessoas, fechou-se ainda mais do que já era, pelo simples facto de entrarem no jogo social, mais nomes, mais grupos e mais instituições. Os media de então não esclareciam quem era quem porque lhes bastava a eles mesmo saberem.
Para além disso, afinavam quase unanimemente pelo mesmo diapasão: afinados todos à Esquerda, sem excepção relevante durante anos a fio. O Expresso, por exemplo, chegou a ser o jornal "reaccionário" por excelência, imagine-se! ( e foi dito publicamente na tv, por Vasco Gonçalves, durante o PREC de 75, incluindo no lote um jornal entretanto aparecido, Jornal Novo e ainda o jornal do PS, a Luta).

O povo continuou por isso na ignorância e atavismo e a própria palavra "democracia" começou a ter significados díspares e dissonantes. A simples palavra "popular" deixou de ter o significado corrente e passou a critério político preciso e determinado. "Socialismo," palavra antes proibida, continuou sem significado preciso, até hoje. O próprio José Afonso, em cantiga de 1978, chamada Viva o poder popular ( do disco Enquanto há força) , anunciava inequivocamente que " a palavra socialismo, como está hoje mudada! De colarinhos à Texas/sueca, sempre muito aperaltada..."
Inúmeras palavras e expressões, conceitos ou afirmações foram passando de mão em mão nos jornais e revistas, sem verdadeira compreensão do seu real significado e importância.
Com uma agravante: as explicações passaram a ser piores, infinitamente piores de modo que os enganados foram às centenas de milhar, porventura milhões.


Imagem da R&T de 5 de Janeiro de 1974 ( página da esquerda) e de 1 de Junho de 1974 ( página com imagem à direita)

Censura, depois do 25 de Abril? Nem pensar. Afirmar tal seria blasfemar contra a religião democrática que nos impingiram durante estes 35 anos. Mas...que lhas hay, las hay. E começaram bem cedo. Menos de dois meses depois do 25 de Abril de 1974.

O que já se espelha na revista R&T de 1 de Junho de 1974.
Um caso anódino relativo ao despedimento de um jornalista chamado Ançã Regala ( onde estará hoje este indivíduo notoriamente afectado pela doença infantil do comunismo de então?- pelos vistos, já desaparecido, o que causa um breve calafrio por causa da noção do tempo e do que é importante)mostra bem que o problema que nos meses seguintes se agudizaria, estava ali mesmo em embrião: a censura e a repressão política não acabaram no dia 25 de Abril de 1974, como se verifica. Mudaram apenas de critério.
No caso, um jornalista comunista , de extrema-esquerda e notoriamente em comissariado político, fora despedido da Emissora Nacional.
Quem o despediu e por que razão? Uma comissão administrativa da tropa. E Jaime Gama, o indivíduo que actualmente preside à AR , na altura chefiava os serviços de noticiários da EN, justificava o despedimento, com ...censura por motivos estritamente políticos. Em nome de quê e de quem? "Critérios de informação". Censura, obviamente.

Causa cincreta de despedimento? Vale a pena ler ( clicar na imagem) o que dizia então Jaime Gama...e verificar a coerência entre os critérios da censura anterior ao 25 de Abril e os da nova censura e repressão...

Basta clicar na imagem e ler os novos critérios de censura: antes abrangiam os "subversivos" que incluiam indivíduos como Jaime Gama, socialista e iniciado. Agora restringiam-se aos "extremistas". Semântica democrática? Sem dúvida. Foi sempre assim, depois disso.
















10 comentários:

joserui disse...

Colossal José. No entanto o link da segunda imagem está para a primeira. -- JRF

joserui disse...

Sorry, monitor pequeno -- não vi que era a mesma imagem (referia-me à de baixo). Mas também não se consegue ler. Está a letra muito pequena. -- JRF

josé disse...

Então, vou colocar separadas. Vale a pena ler este triste do Jorge Gama.

joserui disse...

Obrigado. Estes detalhes revelam que é um excelente blogue, com consideração pelos leitores. Tenho gostado de passar por cá. -- JRF

MARIA disse...

Uma visão de época extraordinariamente enriquecida pelas imagens e pela sensibilidade crítica especialíssima do Autor.
Pudessemos nós adivinhar pensamentos e saberíamos que é feito da idealista esperança transformadora que uma vez se acendeu nesse Abril, no coração de alguns, apesar de tudo...

josé disse...

Mudei um pouco o texto porque Jaime Gama não era da tal comissão administrativa mas sim chefe dos noticiários.

Porquê Jaime Gama? Ora, ora...

lusitânea disse...

Qual será nos dias de hoje o farol luminoso dos antigos revolucionários anti-burgueses?
Tomando como exemplo os despojos do ex-ultramar e a quem é que calhou o melhor quinhão diria que os chineses ganharam...não sei se foi por causa de Macau e suas ligações ou pelos lutadores como o Ançã mas que ganharam, ganharam...
Por sua vez os chineses por cá só podem aprender o amor homo como aquele que foi morto e incendiado naquela cena de violência doméstica (a 2ª em pouco tempo)entre dois amantes estatisticamente masculinos...

Doca Seca disse...

José,
É um gosto passar por cá. Confesso que o faço várias vezes por dia, sempre na esperânça de encontrar algo de novo.

vml disse...

Junto-me ao coro de agradecimentos!

E acrescento um apontamento, só para que se tenha noção de que isto, tal como os atentados das FP-25 por exemplo, não se deveram "apenas" a 'excessos da revolução'.

Continuam, hoje, vivos e bem vivos, os tais 'excessos' a que poucos dão importância, pela mão dos que Rangel acusou de Trotskistas, reciclados digo eu:

Ainda no rescaldo das comemorações do 25 de Abril, inebriados pela propaganda dos cravos e pegando na resposta de Paulo Rangel (PSD), que acusou os membros do governo de trotskismo, lembramos uma figura ímpar do actual regime: Augusto Santos Silva. Em Novembro de 2005, o Ministro dos Assuntos Paralamentar respondia a um título do jornal Expresso - "Governo dá poder à ERC para censurar televisões" - com uma entrevista onde, às tantas, lia-se o seguinte: «Augusto Santos Silva garantiu ao EXPRESSO que os espaços informativos ficam salvaguardados desta legislação desde que, por exemplo, “no final de uma reportagem sobre uma manifestação da extrema-direita de natureza xenófoba o pivô se iniba de fazer comentários favoráveis à manifestação”». Elucidativo, mas só para alguns...Entretanto, também sobre censuras e livros proibidos, apreendidos, etc, há um pequeno vídeo no YouTube com excerto de segundos de uma reportagem da SIC, onde se vê um polícia (?) a exibir livros apreendidos, em Abril... mas de 2007: YouTube: livros proibidosTambém já tinha comentado, noutro post, sobre os "autos de destruição de livros", pelo fogo, ordenados pelo Ministério da Educação. No Estado Novo? Não, depois do 25 de Abril: Ministério da Educação manda destruir livros de "índole fascista".

Lídia disse...

Porque considera que o Ançã Regala estaria afectado pela doença infantil do comunismo de então? Não seria essencial?
Como já se apercebeu, tão insólita personagem morreu há 19 anos, vítima de ataque cardíaco. Felizmente deixou a marca de que se deve, sempre, lutar por uma vida melhor. Não só para o indivíduo, mas para a colectividade.

Ass. Lídia Ançã Regala