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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Isto pode piorar? Ai pode, pode.

Camilo Lourenço escreve isto no Jornal de Negócios de hoje.

Diz que aquilo que não se fez em 1985 vai ser feito agora: a bem ou a mal.
O PCP bem quer "mudar de políticas"... estas não lhe interessam nada. Quer eleições. O Mélenchon em França também queria. E teve-as, mas saiu-lhe o tiro pela culatra porque as pessoas já não se deixam enganar com a "mudança de políticas".

A festa durou até às tantas

Como digestivo das leituras sobre corrupção apresento este pequeno escrito em forma de crónica de Baptista-Bastos, num Público do tempo em que Duarte Lima era alvo da atenção do Independente por causa da "Casa Cheia" em Sintra, com uma quinta de três hectares misteriosamente em nome da...sobrinha. Esta atracção fatal de Duarte Lima por parentela colateral já vem de longe.

A crónica de Baptista-Bastos ressuma água na boca por causa da descrição prandial que faz sobre os costumes de Lima. É ler...


O perfume invisível da corrupção

No fim dos governos de Cavaco e " sus muchachos" o problema da corrupção, fraudes e criminalidade económica em geral apresentava uma dimensão preocupante. Tanto que o Público relatava em 13 de Dezembro de 1994, pelas teclas de Eduardo Dâmaso, um assunto ainda em segredo de justiça:  "dois casos em fase de investigação, existem fortes indícios de corrupção; um outro, a correr na comarca de Penafiel, contempla o apuramento de uma eventual relação entre a emissão de facturas falsas e a construção das casas de dois ministros."  Este caso dos "dois ministros" que evidentemente Dâmaso sabe muito bem de quem se trata, nunca foi devidamente esclarecido. Por dois motivos ou três.

Um deles diz respeito à orgânica e funcionamento da máquina fiscal. Outro diz respeito à legislação e o terceiro ao modo como se investigava a criminalidade de gabinete, em Portugal.
Eduardo Dâmaso continuava: " As facturas falsas representam um crime que serviu para acobertar outras práticas ilícitas, que bem podem estar relacionadas com o financiamento ilegal de partidos políticos, favorecimentos em adjudicações de obras públicas, entre outras. Foi pelo menos, desde a revelação pública de um caso que envolvia as maiores empresas de construção civil- Soares da Costa e Construções Tecnicas, Mota e Companhia- que se gerou no país uma atmosfera de suspeição em relação à forma como foram adjudicadas as principais obras públicas nos anos de ouro do cavaquismo."
As suspeitas de crime de gabinete com as principais empresas de construção civil permitiu ao Público citar anonimamente um "alto dirigente político disse na altura ao Público que vários empresários lhe tinham dito, em tom de ameaça: " se cair alguém, cairemos todos de braço dado."
A História conta agora que não caiu ninguém. Porquê? Porquê?!

Nesse número do Público, aparecia o PGR Cunha Rodrigues a toda o comprimento da página 2 a emoldurar o artigo sobre " o momento zero do combate à corrupção em Portugal". Momento zero? Talvez. Momento zero a que se seguiu outro zero e outro depois disso e mais outro.  Porquê? Porquê?!
O Público explicava a problemática do ponto de vista da autoridade judiciária e do governo:

Era então o discurso da "falta de meios". A PGR, anos depois ( em 1998), perante a pressão mediática e a inoperância do MºPº em encetar o momento zero passando à era digital, explicou no sítio da PGR o que se passava com a incapacidade do MºPº se modernizar...e sobre o processo das tais facturas falsas explicou que "estes casos foram objecto de investigação em dois processos principais: um, foi julgado pelo Tribunal Judicial de Loulé, tendo sido proferido acórdão condenatório, em 8 de Novembro de 1996.
No outro, com origem em declarações públicas de técnicos de informática, foi deduzida acusação em 4 de Maio de 1995, no DIAP de Lisboa, contra 61 arguidos.
Na fase de instrução (requerida pelos arguidos), foi interposto recurso para o Tribunal Constitucional, em 7 de Maio de 1997."
Pouco depois disso, Cunha Rodrigues entendeu por bem  criar o DCIAP. Antes tinha já arranjado um NAT. O despacho de instalação é claro: investigação de crimes graves, designadamente os de gabinete e dos engravatados. Tal já foi explicado em tempos, aqui, do seguinte modo:

"O NAT de Cunha Rodrigues, de há dez anos, desnatou de vez e azedou. Para o complementar,em 1998, com a revisão da lei processual penal, veio o DCIAP, o departamento do Ministério Público, reservado aos grandes casos e processos. O DCIAP, surgiu na esteira de escândalos como o da JAE ( aberto por João Cravinho que denunciava já a corrupção visível e invisível) e para dirigir o sensível lugar de todos os crimes de corrupção, mais a prevenção que se anunciara como imprescindível e milagrosa para debelar o fenómeno e estancar a mancha que alastrava, apareceu Daniel Viegas Sanches, magistrado do MP, vindo do SIS. Em Abril de 2000, numa carta ao Público, a protestar por uma notícia do diário que “punha em causa a dignidade profissional de todos quantos trabalham no DCIAP”, dizia isto que parece espantoso, agora:
O DCIAP não é um órgão de investigação, mas apenas de coordenação e de direcção do inquérito, não devendo sobrepor-se aos órgãos de polícia criminal, eles sim responsáveis pela investigação” .
É evidente que o entendimento que do DCIAP tinha o seu então director era no mínimo...polémico.
Quem é que Cunha Rodrigues escolheu para dirigir inicialmente o DCIAP?  Daniel Sanches. Um magistrado do MºPº muito apreciado por Cunha Rodrigues. 
Fartou-se depressa do cargo ( disse que não tinha meios...e pelos vistos nem vocação tinha para investigar. Só para dirigir...) e saiu. Acabou no PSD e até em ministro da Administração Interna e no SIS. Passou pela nebulosa BPN ( diz que não é e que foi SLN ou coisa assim). Uma coisa é certa: foi convidado para " a política" por Dias Loureiro, o parceiro do tandem musical com Proença de Carvalho. 

Quando saiu deixou um rasto pouco recomendável... 

Pode então perguntar-se como é que  estas coisas da corrupção que não é corrupção mas tem outro perfume mais suave, acontecem. O perfume tem sido cheirado pelas autoridades judiciárias, incluindo o último PGR Pinto Monteiro que andava sempre constipado ( o verdadeiro gato constipado, afinal...) para assegurar que não cheira mal. De facto nem cheira. Em Portugal, disse-o "olhos nos olhos" a actual directora do DCIAP ( sucessora daquele Daniel Sanches) a uns ilustres políticos do PSD: não há corrupção, assim como dizem. Não há, pronto, é a dr. Cândida quem o diz. Tal como Laborinho antes dela e depois dele, Pinto Monteiro. E José Miguel Júdice. E Proença de Carvalho. E Jorge Coelho que também falou nisso em tempos, quando ainda era ministro das polícias.  Não há corrupção em Portugal. Criminal, entenda-se. Estou certo que Ângelo Correia concorda com isto. Há uns jeitos, uns arranjos entre amigos e coisa e tal, mas isso não chega a cheirar mal. É perfume de água de rosas cor de laranja, apenas.

O PCP em 1998, como mostra o Público de 31.5. 1998, pensava e dizia outra coisa sobre o perfume dessa corrupção que não é corrupção. 
O PCP que neste aspecto tem um papel imprescindível de grilo de pinóquio anda ultimamente interessado em "mudar as políticas" e por isso estes assuntos merecem-lhe pouca ou nenhuma atenção. O que lhe interessa sobremaneira é "mudar as políticas" e por isso não veremos tão cedo denúncias tão claras como esta, do tal perfume indizível da vidinha boa e da água de rosas com cor de laranja amarelada.

O falecido José Luís Saldanha Sanches também escrevia sobre estes assuntos, amiúde. E criava por isso mesmo muitos anti-corpos que infelizmente não lhe valeram para o manter vivo num papel que seria sempre de grande valor porque era corajoso e valoroso, nesse aspecto. 
Num Expresso dos anos dois mil (não anotei a data do recorte) escrevia assim sobre um determinado efeito a propósito do perfume que não se sente nem se cheira mas que existe, existe...

Em 2005, António Barreto no Público mostrava o que sentia com esse perfume invisível:


Alto! Alguém mais utiliza já a palavra-chave: pacóvio. Ou "pogresso".

A explicação mais cabal e completa para o nosso Estado a que chegamos é abordada nesta pequena crónica no Expresso on-line e publicada aqui, InVerbis:
Se usarmos o critério aqui exposto para aferir a qualidade das medidas políticas, legislativas e de "grandes opções" governativas teremos a chave para compreender muito do que nos acontece actualmente. Senão, vejamos:

Tiago Mesquita - A dívida do nosso país pode ter muitas causas. Endógenas e exógenas, micro e macroeconómicas, conjunturais ou estruturais. Há todavia um traço comum que, a meu ver, é a principal causa do estado a que chegámos, independentemente das dificuldades que todos os países enfrentam, da crise internacional e de tudo o resto que gostam de nos vender.
A causa de que falo é simples e nada tem de rebuscada: o nosso país tem sido governado por um grupo de pacóvios com tiques de parolo. Os novo-riquismo da política portuguesa é sem duvida o maior cancro da democracia partidária.
O dinheiro público, quando gasto de forma racional, não é contabilizável. A boa utilização destes recursos traduz-se em melhorias que, direta ou indiretamente, permitem à sociedade manter níveis de desenvolvimento elevado. E só com desenvolvimento o crescimento pode ser sustentável. E o pior é que isto nunca aconteceu neste país.
De que serve construir dezenas e dezenas de autoestradas se não temos dinheiro para nelas circular, nem tão pouco para as pagar ou sustentar? O maior centro comercial da europa? A maior ponte da europa? E ter alguma coisa à nossa medida, não pode ser? É coisa de pobre? De que serve gastarmos milhões em formação se não temos empregos? E aeroportos sem aviões? E dezenas de estádios de futebol às moscas? E escolas sem alunos? Submarinos ou cortes na saúde? Tanques ou reformas? E parcerias feitas para o Estado ser prejudicado? Privatizações em cima do joelho? E os dinheiro que jorrou da UE durante décadas, em que foi investido? Snack bares atrás do sol-posto? Jipes para passear nos montes alentejanos? Não querem gastar a próxima tranche da Troika em plasticina e paus de giz? Quem gastou o que não devia? Quem gastou o que não tinha? Quem gasta o que não tem? Que futuro pensavam estas alminhas iluminadas que iriamos ter? Imbecis.
A forma abusiva, parola, irresponsável, impune, pacóvia, descontrolada, despesista, acéfala e em muitos casos socialmente 'criminosa' como sucessivas gerações de governantes têm vindo a desbaratar o património de todos, os bens e o dinheiro que deveria ser alvo de uma gestão cuidada e rigorosa, é a principal causa do estado de falência em que estamos. O novo-riquismo, a falta de visão, a falta de formação, qualidade e competência dos políticos portugueses é a principal causa desta crise. A génese desta crise é política. Mas infelizmente a irresponsabilidade destas pessoas é directamente proporcional às responsabilidades exigidas pelos mesmos aos portugueses, com as quais são permanentemente confrontados, sem terem culpa alguma. Comemos e calamos.
Gastassem menos, parolos.

Tiago Mesquita | Blogues Expresso | 29-11-2012

Comentário: o melhor exemplo que me ocorre destes pacóvios que nos afundaram é...Marques Mendes. É verdade. Nem sequer é o fugitivo em Paris. É mesmo Marques Mendes. Poderia explicar porquê, mas prefiro fazê-lo com a cronologia mediática que ando a elaborar.Marques Mendes, quando os governos de Cavaco acabaram levou um grande elogio de Belmiro de Azevedo: nem para porteiro dos seus supermercados o queria. Na altura admirei-me e fiquei a pensar na causa de tamanho ressentimento. Obviamente teria que ver com expectativas que o patrão da SONAE não viu satisfeitas e que MM poderia ter ajudado a resolver. Facilitado, digamos assim.  Perguntaram então a MM o que iria fazer na vida. Disse que não sabia e que provavelmente iria advogar. Lembro-me bem disso como me lembro a seguir do que aconteceu: Marques Mendes nunca viveu tão bem ou foi tão próspero como depois disso...
Porquê? A resposta virá a seguir.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A corrupção central

 InVerbis, citando o Correio da Manhã, numa pequena crónica de um polícia e que vale a pena ler:

Manuel Catarino - A Justiça está longe de ganhar a guerra contra a corrupção. Faltam leis claras e adaptadas aos tempos em que vivemos. Mas, ainda que o País estivesse servido por uma eficaz artilharia legal, faltaria a coragem para a apontar ao coração do alvo.
A tendência da magistratura – juizes e procuradores – é, regra geral, para apontar ao lado. Não vá aleijar-se alguém...
As brigadas da Polícia Judiciária especializadas no combate aos crimes de 'colarinho branco' conhecem como ninguém este autêntico pântano que atola a investigação.
As dificuldades começam na fase de inquérito. Os procuradores do Ministério Público ora se ajeitam incomodados por se intrometerem em interesses milionários, ora lhes dá para serem tão cuidadosos que as investigações se arrastam sem chegar a lado nenhum.
Os tremeliques passam aos juizes de primeira instância. Quando os processos chegam à sala de audiência, os juizes mostram-se mais timoratos que nunca.
E se alguma condenação subir a recurso, os desembargadores encontram um erro processual que mandará o réu em paz. Nisto, como em tudo, há excepções.

Manuel Catarino | Correio da Manhã | 29-11-2012

O fenómeno da corrupção em Portugal, desde o final dos anos oitenta do século que passou, foi sempre prato do dia.  A visibilidade do fenómeno começou praticamente com a passagem da democracia para a normalização dos governos constitucionais e da fixação de um núcleo duro de apaniguados de bloco central de interesses, incluindo políticos.
A criação do organismo Alta Autoridade Contra a Corrupção, em 1983 já mostrava bem a preocupação das entidades políticas em lidar com o assunto, pelo menos em termos de imagem pública.
Com a entrada de Portugal na CEE, e concomitante vinda de fundos aos milhões, para "estruturar" a nossa vida e formar profissionalmente milhares de pessoas, o problema agravou-se. Os programas de formação profissional foram aproveitados, até por vezes por entidades insuspeitas, como sindicatos, para se aproveitar de qualquer maneira os fundos colocados à disposição.
Parece e sublinho o parece porque foi essa a impressão da altura, que os governos de Cavaco Silva no final dos anos oitenta e início dos noventa, não cuidaram por aí além de evitar, pela via da prevenção, os desmandos que se verificaram em muitos casos, tendo alguns deles chegado aos tribunais. 
Em 1990 começou o chamado caso UGT, logo avocado pelo MºPº. O caso Partex, igualmente, este começado em 1991. O da Caixa Económica Açoreana, esse foi logo em 1988 e só em 1996 se deduziu acusação. A par desses havia cerca de mais duas dezenas da mesma índole, espalhados pelos DIAPs de Lisboa e Porto.
Para além desses, havia outros casos como o de Vale do Navio, começado em 1987 e o do aeroporto de Macau, começado em 1990 e o do ministério da Saúde, com Costa Freire, começado em 1989.
O avolumar destes casos em devido tempo enumerados pela PGR, conduziu a um interesse crescente da opinião publicada e das notícias avulsas. 
Em resultado da dinâmica entre as entidades de investigação e a legislação existente, não tardou a aparecerem problemas graves que entroncaram aqueloutros agora descritos na crónica de Manuel Catarino, acima publicada. 
 Em Fevereiro de 1992 a discussão na AR da autonomia do Ministério Público deu azo a esta manifestação inédita, no dia 27 de Fevereiro desse ano, data aprazada para a discussão na generalidade do projecto de Lei da autoria do PSD. Os magistrados do MºPº em peso e becados ocuparam as galerias da A.R. para desconsolo de um Pacheco Pereira que interpelou a "mesa" para saber quem tinha dado autorização para o desaforo que tivera lugar ao abrirem-se as portas antes dos deputados se sentarem nos lugares...Pacheco Pereira, sempre o mesmo. Ao seu lado e como chefe de bancada, estava Duarte Lima que nessa mesma tarde chamou a Jaime Gama uma "coisa gelatinosa", para ouvir em retorsão um mimo ao "bokassa" da Madeira. Pacheco Pereira sentava-se então lado a lado com esta elite e vituperava o despautério de se terem aberto as portas aos magistrados, sem a autorização de quem de direito no Plenário. Pacheco, sempre o mesmo.



Nesse contexto, a tensão entre o MºPº, autónomo, a Polícia Judiciária, dependente do Governo e o ministro da Justiça, entidade tutelar, estalou para níveis nunca vistos. Cunha Rodrigues e Laborinho Lúcio eram as faces visíveis do problema, como mostra este Público de 6 de Maio 1993.

Por causa disso, na altura sucediam-se as entrevistas desses protagonistas, com destaque para Cunha Rodrigues, então PGR e a braços com acusações veladas de gestão política dos processos...
Dizia por isso ao Expresso de 8 de Outubro de 1994 coisas com muita classe que nenhum outro que veio a seguir conseguiu igualar. Cunha Rodrigues tinha isso mesmo: classe. E sabia muito bem o que deveria ser o Ministério Público. Pena aquele caso do fax de Macau...


Perante a velha acusação dos investigadores quanto à endémica falta de meios, Laborinho Lúcio, enquanto ministro da Justiça fazia as honras da casa e assegurava o discurso politicamente correcto a que nem faltou a garantia de que "não somos um país de corrupção generalizada, mas somos um país onde há fenómenos de corrupção que vão bastante para lá da leitura estatística."  A costumada ideia de "uma no cravo outra na ferradura"...típica de Laborinho.


Entre estas disputas apareciam nos interstícios outros personagens que já vinham de longe....de muito longe:

Talvez por isso e por outras, uma crónica de Rogério Martins que foi um dos tecnocratas do marcelismo, no Público de 15 de Outubro de 1995 fazia um retrato do desejo geral de se ultrapassar o período do cavaquismo. Em 1995 toda a gente esperava...Guterres. Nem sabiam o que os esperava, no entanto.


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os sabidolas do comentário televisivo

O primeiro-ministro falou ao país através da TVI ( com uma Judite de Sousa demasiado agressiva e um José Alberto Carvalho mal preparado).  Explicou o que entendia do ponto de vista do governo e tentou justificar os sacrifícios impostos aos cidadãos. Sobre isto não critico nem aplaudo. O Governo, este governo ou outro, alguma coisa terá que fazer para reequilibrar as nossas contas e as nossas dívidas que outros governos criaram, particularmente o que antecedeu este. As opções deste ou de outro governo são legítimas e as alternativas também o serão. Porém, parece que não se pode fugir a uma evidência: temos que perder rendimento para equilibrar o que foi gasto a mais durante anos a fio. Veremos quanto tempo dura e se haverá remédio menos doloroso do que o que se anuncia.  O PS não faria melhor e provavelmente levar-nos-ia rapidamente para uma réplica da Grécia.

O que fizeram as tv´s agora mesmo, a seguir à entrevista?

A TVI24 convidou o sacripanta Louçã, o luzidio Assis, o lustroso Ângelo Correia e o frugal Ribeiro e Castro para comentarem a entrevista. O discurso destes é, fundamentalmente, de ataque ao primeiro-ministro.
A SIC-N convidou o sibilante António José Teixeira, jornalista de redundâncias; a jornalista de macro-economias Helena Garrido; o críptico Adelino Maltez e o jornalista-economista  José Gomes Ferreira.

O que poderemos aprender com esta gente? Nada. Esta gente nada  nos ensinou no tempo em que esta crise gravíssima se instalava, desde há uma meia dúzia de anos para ca. Não viram um palmo à frente do nariz e agora querem mostrar a sabedoria do prognóstico póstumo que não sabem fazer. O pior deles todos é o tal jornalista de redundâncias, o tal Teixeira. É formado em quê, este Teixeira? Em sibilâncias?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A nossa agricultura... e peras

Ontem na TVI 24, no programa de Judite de Sousa que congrega Medina Carreira e um ou outro convidado, apareceu um elemento da CAP, a confederação dos agricultores portugueses, chamado João Machado e que não conhecia.
O que o mesmo disse no programa sobre a agricultura portuguesa deixou-me bem disposto ( até Medina Carreira comentou no final que o programa tinha sido menos "soturno" do que por vezes acontece, e foi de facto assim) e deu-me alguma esperança num sector que sempre ouvi descrever como perdido e como abandonado pelos governos, depois de ter sido trocada a nossa agricultura pelos milhões  da CEE e sucessivamente da UE e do PRODER ( o equivalente ao QREN para a agricultura).
João Machado disse que produzíamos já muitos produtos para exportação ( tomate, cortiça, azeite) e que tínhamos boas perspectivas de equilibrar essa balança das exportações e importações, nessa área, até 2020. Tal desenvolvimento da agricultura portuguesa, segundo aquele, acelerou-se desde 2008-09. Portanto, não tem apenas a ver com políticas ideologicamente marcadas mas com decisões racionais e de bom senso.
Não obstante, parece que poderíamos ter feito ainda melhor, não fora o problema de sempre: a Esquerda comunista, parece-me. A que nacionalizou as terras, em 75 e obrigou pouco tempo depois a uma "celerada "Lei Barreto" ( do "fassista" António Barreto que até era então do PS).

Apesar disso, em 1972 apareceu este artigo no Diário de Lisboa de 9 de Outubro de 1972 em que José Hipólito Raposo, que não sei se terá algo a ver com a família dos Hipólitos.  Mas tem certamente a ver com este que já escreveu depois sobre estes e outros assuntos.
Por outro lado há um outro Hipólito Raposo que desenhou o célebre cartaz da "maioria silenciosa" com manifestação convocada para 28 de Setembro de 1974 e que correu mal: foi aí que começou o PREC.
Seja como for aqui fica o artigo notável:
As imagens aumentam com um clique e outro a seguir.

domingo, 25 de novembro de 2012

A essência do cavaquismo era a das "ideias que tinha"

Em 23 de Janeiro de 1995 o jornal Público dirigido então por Vicente Jorge Silva ( que hoje debita inanidades na tv) publicou uma extensa reportagem sobre a década prodigiosa do cavaquismo, isso "no dia em que Cavaco se define", ou seja quebrava o "tabu", ou seja desvendar o que iria fazer da sua vida. Poderia ter dito: acabou, falhei, nunca mais volto à política. Porém, como se sabe, a "História não acaba assim"...


Nos anos em que alcançou duas maiorias absolutas ( 87 e 91) Cavaco foi o "chefe" e poderia ter feito o que muito bem entendia macro-economicamente. Estávamos na CEE, em breve na UE e dali não sairíamos porque recebíamos milhões e milhões de "fundos estruturais". 
Mas...seriam os problemas de Portugal essencialmente económicos? E tinha Cavaco as pessoas mais adequadas para pensar esses problemas, mesmo económicos? E os outros problemas, de cultura, educação e desenvolvimento real, como é que o Estado e os três governos de Cavaco resolveram a equação, com as pessoas que tinha a governar em maioria absoluta e o país rendido, numa expectativa que se frustrou, como agora se deve reconhecer e em 1995 era já notória. Tão notória que apareceu outro salvador, da área do socialismo democrático, de seu nome Guterres que concitou outra maioria absoluta com promessas e bolos políticos e durante meia dúzia de anos enganou novamente os portugueses ( de tal modo que um dos seus ministros emblemáticos, Sousa Franco, pronunciou publicamente num restaurante que o governo de então "era o pior desde D. Maria"). Isso será outra História, a seguir,
Por enquanto fiquemos nesta, de Cavaco.
Em 22 de Abril de 1989, a Revista do Expresso publicou este artigo de página, da autoria de um insuspeito António José Saraiva, um intelectual como já não temos ( Eduardo Lourenço leva hoje no Público uma rabecada em grande, de VPV), sobre uma figura que já então suscitava curiosidade aos portugueses em geral: Salazar. É lero que Saraiva escreve: "Salazar foi, sem dúvida, um dos homens mais notáveis da história de Portugal e possuía uma qualidade que os homens notáveis sempre possuem- uma recta intenção." Os comunistas não gostaram desta prosa de um antigo camarada...que afinal não chamava fassista ao ditador.

Os governos de Cavaco suscitaram muita curiosidade e expectativa pelas promessas de "pogresso" ( era mesmo assim que Cavaco falava na altura, por isso...) e ideias de "homem novo" e outras expectativas que colocaram muito alta a fasquia do futuro melhor para todos.

Em Abril de 1992 apareceu a revista Fortuna, dirigida por Álvaro de Mendonça. O tema de capa era já Belmiro de Azevedo.

No interior fazia-se um apanhado jornalístico sobre os ministros de Cavaco, com apreciações do ponto de vista de um "sector de ponta" em vias de aparição e que nunca mais nos largaria- o dos economistas especialistas em gestão. Olhavam assim para os ministros de Cavaco:

Como se vê, o mais desgraçado de todos era...Braga de Macedo, visto como académico, desligado das realidades económicas e "não daria um grande gestor", segundo os gurus da revista.

Outra revista surgida uns meses antes, a Valor, no primeiro número de 8.11.1991 fazia uma apreciação da politica económica do governo de Cavaco dirigida por aquele Braga de Macedo e também uma certa Manuela Ferreira Leite, agora muito crítica do suposto neo-liberalismo deste actual governo social-democrata.


Na senda da descoberta do caminho certo para a nossa economia aditivada com as ajudas estruturais da CEE, havia como sempre os do "contra". Como é costume aquele que teve sempre razão deu azo a uma crónica de VPV no Público de 7 de Julho de 1990, em forma de "Carta ao patrão dos patrões", na altura o já notório Pedro Ferraz da Costa que merecia ser ouvido muito mais do que é- e seguido. Não foi por falta de aviso que os governos de Cavaco falharam. For por soberba, pura e simples. E devorismo de uns tantos cuja história virá a seguir.


Apesar da auto-suficiência e dos conselhos amigos de quem tinha experiência e saber acumulados, num dos governos de Cavaco, um ministro teve a ideia peregrina de convocar meia dúzia dos tais economistas especializados em gestão, formados em ideias anglo-saxónicas ( percursores dos cursos da Católica, onde aliás se formou Vítor Gaspar) e com grande pompa e gasto a condizer, convidou um dos então gurus da tal gestão tipo Drucker. Michael Porter was his name e só falava inglês, conhecendo coisas como "clusters", cuja tradução para português nem sequer foi tentada porque o parolismo da época transplantou-se para o presente e apesar de algumas firmas de advogados apostarem muito na língua portuguesa, continuam a falar para inglês ver. O fenómeno parolístico começou nessa altura. Será que os alemães também se exprimem nesse inglês técnico de gestão corrente?
Então a revista Fortuna de Dezembro de 1993 publicou uma separata sobre o famigerado "relatório Porter" e uma entrevista com o seu mentor Mira Amaral, que apresentava o dito cujo não sem esclarecer que "o que eu não tenho é o impacto mediático que tem o professor Porter. As ideias já eu tinha." Parolice maior será difícil encontrar: perante a incapacidade em mostrar e convencer os portugueses das "ideias que tinha", o cavaquismo convida um americano para estudar, conjuntamente com uma equipa ( os nomes vêm na revista e são uma dúzia de jovens formados nas tais escolas de "gestão") e elabora um relatório. Destino do relatório? Lixo. Nunca foi aplicado devidamente. Portugal e as ideias que o cavaquismo tinha foram assim mesmo: uma frustração em grande.
Quanto ao tal Mira Amaral que agora aparece bem posicionado na vida, na mesma altura declarava a uma revista de automobilismo que a sua maior ambição em carros era ter um Mercedes classe C. Outro que também aparecia a mostrar o seu desejo automobilístico era um tal Fernando Gomes, um dos tais economistas formados nas antigas escolas industriais e que foi presidente da câmara do Porto. Agora administra uma empresa pública com salário a condizer com o estatuto que então ambicionava: ter um BMW série 5. Está tudo dito...




Não admira nada por isso que a prognose póstuma efectuada pelo Público em 23 de Janeiro de 1995 fosse uma grande, enorme frustração e desencanto. Apenas sobre a Economia ficam duas páginas que mostram que afinal o cavaquismo foi mesmo a génese da nossa destraça colectiva. Alguém duvida? Alguém contesta?
 O nosso fado teria mesmo que ser este, com este Cavaco e estas personagens de opereta como dantes se dizia? Não tínhamos melhor? Se calhar não porque a seguir ainda veio pior...
Em 1995, o PS apresentava-nos 100 nomes 100 para nos governar. Deus meu, como foi possível acreditar outra vez nessa desgraça?  A História segue dentre de dias.





sábado, 24 de novembro de 2012

A década prodigiosa do cavaquismo e sus muchachos

Em 19 de Julho de 1987 "o regime mudou", assinalou por escrito, na altura,  Adriano Moreira. Mudou para um "presidencialismo do primeiro-ministro", no caso Cavaco Silva.

Dois anos depois, Vasco Pulido Valente escrevia uma crónica no Independente em que lembrava essa observação de Adriano Moreira, acrescentado que o regime se transformava aos poucos numa "ditadura plebiscitária".  As pessoas não elegiam deputados, mas apenas o chefe que escolhia os candidatos e VPV escrevia isso porque os deputados de então não tinham direito a opinião própria e se discordassem do chefe, traíam o mandato...
Quanto ao presidente da República, a sua força política fora esvaziada e ficara apenas com " a magistratura de influência", para além do exercício do lançamento da bomba atómica política, com a dissolução do parlamento.

Vale a pena recordar esses anos em que começou a década prodigiosa do cavaquismo até 1995-96 e o que sucedeu depois disso.

As primeiras imagens são do Expresso que em 10 de Janeiro de 1998 publicou uma separata comemorativa dos 25 anos do jornal e referem-se aos acontecimentos de 1987 e 1988. Os principais de natureza política foram a primeira maioria absoluta de Cavaco e a eleição de Soares para PR por...150 mil votos, muitos deles deitados de olhos tapados, pelos comunistas ( Soares garantia que era o presidente dos pobres...e o outro candidato " da direita" era o temível fassista Freitas do Amaral, que comia comunistas ao almoço como quem devorava croissants na Versailles, com um sombrio "loden" proveniente da ainda mais sombria Caríntia ou coisa que o valha). 


















Em 1988 o Expresso publicou no suplemento a Revista, de 31 de Dezembro desse ano, um artigo extenso sobre "o novo clube dos ricos" e começava assim a prosa, assinada por Sofia Pinto Coelho, mais tarde jornalista da SIC: " Subitamente, a ideia de lucro tornou-se mágica em Portugal. (...) até os filhos dos operários de Setúbal respondem, nos inquéritos das escolas, que, quando crescerem, querem ser "empresáros". O tempore! O mores! E a Constituição ainda a jurar que íamos a caminho do socialismo...




















No mesmo artigo retratava-se o panorama empresarial português da época, depois das nacionalizações de 1975 e antes das privatizações.

Alguns meses depois, o mesmo Expresso na mesma a Revista de 8.7.1989 publicava um extenso artigo sobre "os grupos económicos em Portugal" e começava assim a escrever, Virgílio Azevedo: " Catorze anos depois das nacionalizações, os grupos económicos estão de volta. " O jornal seleccionou os "dez mais": Sonae, Jerónimo Martins, Amorim da cortiça, Vicaima, "grupo discreto" de Álvaro Costa Leite, Espírito Santo ( o único que se reorganizou integralmente depois das nacionalizações)ainda com Ricardo Espírito Santo, outra loiça que já não há , Entreposto de Dias da Cunha, RAR, de Macedo Silva, Interfina de um tal Ferro Ribeiro, testa de ferro de interesses orientais, Colep de Ilídio Pinho. E apresentava depois "outros grupos", quase todos do Norte, a saber, Salvador Caetano, Manuel Violas, Nelson Quintas, José da Costa Oliveira ( Riopele), Eduardo Pinto ( Soja de Portugal) e Fernando Guedes ( Sogrape) e ainda Vista Alegre e Mendes Godinho.
Eram esses os criadores de riqueza de então, em Portugal, para além, claro do IPE que agregava as empresas públicas.
É ler o artigo sobre o Espírito Santo e reflectir nas comparações.


Por outro lado, o Expresso de fim de ano de 1989, ( a Revista de 23.12.89) evidenciava o acontecimento do ano em Portugal como o início do processo das privatizações, ocorrido em 26 de Abril desse ano. E escrevia assim Luís Marques: " Ao contrário do 11 de Março de 1975, o 26 de Abril de 1989 não será recordado no futuro como uma data de referência na história portuguesa. No entanto, ambas balizam dois momentos de mudança na economia portuguesa: o primeiro com as nacionalizações e o segundo com o início do processo das privatizações."
E apresentava o panorama:


Ainda no final de 1988, o Expresso na sua a Revista de 24.12.1988, publicou este artigo de recensão dos acontecimentos do ano que passava e anunciava o silêncio das rádios pirata nesse dia de véspera do Natal, porque a legalização chegaria depois. À TSF e às demais que "passavam tudo o que se passava".

Entretanto já havia escândalos: Miguel Cadilhe, ministro das Finanças e que se propunha baixar a taxa de inflação para seis por cento ( ia quase no dobro) organizava os milhões que entretanto chegavam da CEE. E a par disso esqueceu-se de pagar uma sisa por uma permuta de um apartamento modesto por outro mais vistoso nas Amoreiras, usando carros da guarda fiscal para as mudanças...
Nada de especial e até Vasco Pulido Valente lhe consagrou uma crónica no Independente de 10.2.1989, intitulada "A caça a Cadilhe" onde lembrava "o caso da caleche oferecida a Costa Cabral por um certo Frescata em troca de uma comenda."...coisa mixuruca, dizia VPVporque pequena corrupção desta sempre houvera em Portugal e nem devia ser notícia. Além disso lembrava que " se Cadilhe fosse na realidade corrupto, não comprava andares nas Amoreiras, punha dólares na Suíça".
Enfim, o mote estava lançado para o devorismo que se seguiu. Depois de Cadilhe veio o caso Costa Freire.



"O sector de ponta" da advocacia portuguesa

Estas são as novas caras das firmas de advogados portuguesas, publicadas num suplemento de hoje do Diário Económico, essencial para se conhecer a nova realidade das firmas de advogados em Portugal. Estão mudadas. Os filhos tomaram o lugar dos pais e o discurso é outro, com sotaque anglo-saxónico e termos de gestão. Números, rácios, clientes, internacionalização, valor acrescentado, mercado, são os termos em voga. Onde vai a Alma da Toga! Os advogados portugueses da actualidade assemelham-se a gestores de bancos e seguradoras. Vestem-se como tal e devem ter os mesmíssmos valores. Os papás puseram-nos a estudar lá fora ou cá dentro nas faculdades com influências de fora e deu nisto: a Católica, a Universidade da Igreja, anuncia cursos de Direito, tipo pós-graduação com esta feição ( dirigido por Rodrigo Adão Fonseca que escrevia no blog Blasfémias) :
Holy shit! -como diriam os anglófonos.

Vejamos o perfil desta gente dinâmica e com ganas de sucesso como nunca se viu, nem nos tempos da primeira maioria absoluta de Cavaco:
. Diogo Perestrelo é da Cuatrecasas, Gonçalves Pereira que também alberga António Vitorino, o ex-ministro político do PS que preferiu ganhar dinheiro em assuntos de advocacia. Outro advogado da firma é Paulo Rangel. 
 Diz na sua apresentação: "Temos que ser mais eficientes. Temos que estar mais próximos do cliente". Quem são os clientes da Cuatrecasas? Não diz, mas a gente sabe. Uma das principais áreas é a das "energias renováveis"...e outra é a das PPP´s.
"A Cuatrecasas, Gonçalves Pereira, oferece um serviço jurídico baseado na experiência, na especialização, na obtenção de resultados e no compromisso com o cliente e os seus interesses.
Encontrar, a partir do Direito, soluções inovadoras para as questões complexas que os nossos clientes no contexto da sua actividade económica, nos apresentam, é o desafio ao qual fazem face diariamente os cerca de 1000 advogados que compõem este Escritório."

 João Vieira de Almeida é da Vieira de Almeida & Associados, uma das firmas do regime. Filho de Vasco Vieira de Almeida e notícia há alguns anos por causa de buscas judiciárias no assunto dos submarinos e outros. O negócio dos submarinos ficou por qualquer coisa próxima dos mil milhões de euros. É fazer as contas a honorários...
Além dessas também se efectuaram outras por causa do Freeport...
Tais buscas determinaram um ambiente de pé-de-guerra na advocacia de regime com apoio até do Bastonário que não perde pitada para malhar nos magistrados. Um atentado à democracia, disseram!

Vieira de Almeida filho diz agora que "o sector da advocacia em Portugal é de ponta. É uma história de sucesso". Pudera! À custa de quem?


Lino Torgal é advogado da Sérvulo & Associados. Sobre esta firma de regime por excelência nem é preciso dizer muito. Basta ler coisas antigas.  Torgal diz agora que "era desejável não falar da crise mas ela está presente". E de que maneira!

Manuel Santos Vítor é da firma PLMJ. Também não é preciso ir muito longe. Basta igualmente consultar coisas antigas.  Mesmo assim é preciso que se diga que a PLMJ foi eleita a melhor firma de advocacia da península ibérica em 2012. E conta com centenas de advogados.
Diz agora o novo rosto da firma: "durante anos os clientes batiam-nos à porta sem grande esforço da nossa parte. Esse período acabou". Estamos em período de vacas magras, perdão, de avenças magras. Do Estado, entenda-se. Por outro lado, há advogados da firma que tentam a sua sorte., no Direito Público. Tal como outros o fizeram antes, noutra área, neste caso fiscal, como Gonçalo Costa Andrade ( filho de Manuel Costa Andrade) e Diogo Leite Campos.

Nuno Galvão Teles é da firma com o mesmo nome: Morais Leitão, Galvão Teles Soares da Silva & Associados. Já foi notícia também pelos mesmos motivos: parecerística para o Estado. E outras coisas. 
Diz agora Nuno Galvão Teles que "há muitos anos percebemos que uma das nossas vantagens é a língua portuguesa. Estamos a criar uma rede de sucesso". Boa sorte. Desde que não nos suguem mais do Orçamento, está tudo bem.

Miguel Castro Pereira é da firma Abreu Advogados. Anódina? Nem por isso.  E são estudiosos.

E são estas as figuras de proa da nova advocacia portuguesa. Velha, quanto aos hábitos? Veremos como se safam com a crise.
O problema principal com estas firmas que aqui aparecem brilhantes e esplendorosas de sucesso em wishful thinking" é a sociedade portuguesa. A letra destes advogados não diz com a nossa careta.
Que empresários temos actualmente em Portugal capazes de sustentar estas firmas com centenas e centenas de advogados pagos por vezes miseravelmente, em termos relativos?
Que actividade económica permitirá sustentar estes sonhos e devaneios dos príncipes da advocacia nacional?
É esta questão que nem sequer é devidamente equacionada nos artigos da revista, com um glamour enganador. A sociedade portuguesa que gera riqueza não tem riqueza para pagar a esta gente toda, parece-me.
Até agora algumas destas firmas, as mais proeminentes como se pode verificar, sustentaram-se com o Orçamento do Estado. Directa ou indirectamente, através de pareceres ao próprio Estado ou a empresas públicas que dele dependem. Foram milhões e milhões e milhões que deram para montar grandes escritórios, comprar edifícios inteiros no Chiado etc etc. Foi um dos sintomas da corrupção endémica do regime, mesmo que em termos criminais tal seja irrelevante. A corrupção moral não tem punição penal...e aliás não existe como os próprios nos têm assegurado repetidas vezes. Com a ajuda de outros idiotas úteis.

E agora que a mama se acabou, como é que vai ser?

A acusação "surreal" vai ser julgada em tribunal...

 Sol:

O ex-presidente dos CTT Carlos Horta e Costa e mais 10 arguidos começam, na segunda-feira em Coimbra, a ser julgados por gestão danosa e outros crimes que terão causado prejuízos de 13,5 milhões de euros aos Correios.
Carlos Maria Cunha Horta e Costa vai responder no Tribunal de Coimbra por seis crimes de participação económica em negócio e um de administração danosa, incorrendo ainda na pena acessória de proibição do exercício de funções como titular de cargo público ou funcionário da administração.
Três outros arguidos - José Júlio Fonseca de Macedo, Pedro Garcez, Luís Vilar e Victor Camarneiro - serão julgados por corrupção para acto ilícito, os dois primeiros por corrupção activa e os dois últimos por corrupção passiva.
José Júlio Fonseca de Macedo foi também acusado pelo crime de branqueamento de capitais, incorrendo ainda na aplicação de medida de segurança de interdição do exercício do comércio como sócio-gerente ou administrador de sociedade comercial.
Este arguido, defendido pelo advogado Carlos Pinto de Abreu, pretende prestar declarações em julgamento, para rebater a acusação/pronúncia e reclamar inocência.
O arguido Marcos Tavares de Almeida Lagoa vai responder em tribunal por fraude fiscal.
O despacho de pronúncia que determinou a ida dos 11 arguidos a julgamento do denominado caso CTT foi proferido a 28 de Fevereiro de 2001 pelo juiz Carlos Alexandre, do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), que validou a investigação feita pela 9/a secção do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa.
Em causa estão crimes económico-financeiros consumados em actos de gestão dos Correios, entre 2002 e 2005, quando Horta e Costa presidia à administração da empresa. 

Quem é o advogado de Horta e Costa? Proença de Carvalho que na altura disse:

Quando a pronúncia foi conhecida em Fevereiro de 2011, Francisco Proença de Carvalho, advogado de defesa de Horta e Costa classificou de "aberração jurídica" o despacho contra o ex-presidente dos CTT.
O advogado considerou ainda o processo de "verdadeiramente sui generis" e "surreal", alegando que não foi cometido qualquer crime e que em julgamento o desfecho será a absolvição do seu cliente.
"Carlos Horta e Costa é a cara deste processo, sempre foi. Este processo só faz sentido se ele estiver. O processo morria sem Carlos Horta e Costa", declarou Proença de Carvalho, negando que com isso estivesse a insinuar que este caso tenha contornos políticos.

Veremos agora  quem é o arauto do surrealismo...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Aplausos ao ministro da Adm. Interna

Económico:

O ministro da Administração Interna vai pedir um parecer à Procuradoria-Geral da República sobre a legitimidade da PSP ter acesso a imagens de televisão não editadas.

Foi esta a decisão tomada por Miguel Macedo depois de ter recebido o relatório da PSP sobre o alegado acesso às imagens televisivas não editadas da RTP, relativas aos incidentes que ocorreram no dia 14 de Novembro junto à Assembleia da República.


É exactamente assim que se deve fazer. Espera-se é que no Conselho Consultivo da PGR já não haja por lá nenhum Lucas que demorava eternidades a escrever um parecer...
De resto aplaude-se a iniciativa do ministro ao pedir a um organismo oficial de magistrados o parecer sobre um assunto de Estado. As firmas da parecerística habitual ficam de fora, desta vez.

Burlas há muitas...

Ontem o DN dava a ler o que considerava a acusação deduzida pelo MºPº ( Rosário Teixeira, do DCIAP) contra Duarte Lima, pelos factos atinentes ao negócio que o levou à prisão preventiva e que foi amplamente mediatizada.
A acusação fundamentalmente assenta em pressupostos de que existiu uma burla criminosa. Duarte Lima terá enganado alguém, praticando actos que provocaram prejuízo a esse alguém, usando para tal um artifício fraudulento.
Lendo a acusação percebe-se que o enganado terá sido o BPN. Mas como se foi o próprio presidente do banco a dar autorização para o negócio, mesmo avisado pelos serviços do banco para o não fazer?

O Sol de hoje explica mais um pouco:
Lima enganou Oliveira Costa? Enganou mesmo? Mesmo, mesmo? Como isso se os serviços do BPN de então não deram parecer favorável e quem autorizou o negócio de empréstimo foi o próprio Oliveira Costa que terá acreditado nas potencialidades do negócio?
E afinal qual o artifício fraudulento usado por Lima para enganar Costa? Segundo o Sol foi o facto de o convencer que os terrenos para os quais pedia financiamento valiam mais do que realmente valeriam. Falta aqui um pormenor muitíssimo relevante e que poderá conduzir ao esvaziamento completo da eventual burla: os terrenos poderiam valer o montante indicado ( 20 milhões, 40 milhões ou até mais) se o projecto para o local tivesse sido aprovado- e não foi. Não foi mas poderia ter sido...o que deita por terra o argumento fundamental do artifício fraudulento. É que para existir um crime de burla torna-se mister que o elemento fundamental do engano, o ludíbrio, fosse já factual na altura da actuação. E não era. Na verdade os terrenos ainda poderiam ter sido aprovados para urbanização nessa altura. E das duas uma: ou se prova que nunca o poderiam ser e Lima o saberia, ou então Oliveira Costa foi cúmplice ou mesmo co-autor da actuação que lesou accionistas do banco. Crime de burla, aqui? Crime de gestão danosa, como noutros casos, talvez. E que seria punível apenas no caso do banco ser do sector público ou cooperativo. Infidelidade? Talvez.Agora, burla...

Portanto, fraude fiscal haverá. Burla ao sócio até poderá haver. Mas...burla ao BPN é que me parece muito difícil de existir em termos penais.  Veremos.

Outro caso com contornos semelhantes e sem qualquer efeito do mesmo género ( os autores da golpaça continuam por aí a gerir bancos e outras entidades, como é o caso de A. Vara) é este denunciado por Nuno Fernandes Thomás, administrador da CGD, no Sol de hoje:

Nas páginas interiores o mesmo explica que "De todas as coisas más que se passaram na Caixa, a que me faz mais confusão, é ter-se usado o banco do Estado para se fazer um assalto ao BCP. É inaceitável. Porque já erros no crédito que têm que ser contextualizados no tempo, mas há outros que não tem essa desculpa."  Refere-se o mesmo administrador ao facto de as garantias dadas para os empréstimos serem acções de empresas que hoje valem muito menos em bolsa. Garantias insuficientes para qualquer gestor que se prezasse e que a CGD da época aceitou como boas, por os administradores terem autorizado.
Recorde-se que a CGD administrada por Vara e Bandeira ( que segundo Eduardo Catroga "abandalharam" a instituição) emprestou a Joe Berardo centenas de milhões de euros para comprar acções do BCP ficando como garantia de reembolso, as próprias acções compradas...
Repare-se nos contornos deste caso: o conluio entre vários intervenientes e até actores políticos de relevo, ainda na sombra mas nem sequer muito densa ( um deles anda por Paris, fugido) constitui-se como indício muito forte de artifício fraudulento provocador directo do dano sofrido ( as acções desvalorizaram de modo brutal, o que deveria ser previsível como acontecimento possível) e uma actuação concertada para enganar alguém ( os accionistas do BCP).
O assalto ao BCP não terá contornos de burla ainda mais sofisticada do que aqueloutra perspectivada do modo que agora é apresentado?
Então porque é que o DCIAP não actuou do mesmo modo?

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O deslumbramento cavaquista e a voracidade do sucesso

Começou assim, conforme conta a revista Visão ( herdeira do património ideológico da esquerda de O Jornal) no seu número primeiro de 25.3.1993.
Primeiro os delfins, apaniguados políticos ou de outra ordem. O melhor de todos ainda é o mesmo: Braga de Macedo, sans blague. O pior, nem é preciso dizer. A primeira frase do artigo é de antologia: "quando a filha casou, Cavaco Silva convidou apenas dois ministros: Fernando Nogueira e Dias Loureiro. O mesmo aconteceu por ocasião da festa do 50º aniversário de Maria Cavaco Silva."

Na viragem da década, o cavaquismo quis mostrar obra e o que mostrou foi o primeiro exemplo do que não deveria ter sido feito: o Centro Cultural de Belém é uma pequena maravilha arquitectónica, fica muito bem enquadrado no local mas não era preciso naquela altura em que nem tínhamos outras coisas mais básicas. Além disso foi obra despesista até dizer chega e até hoje. É bem um exemplo do que correu mal no cavaquismo e no que se lhe seguiu.
 Não me parece que Viena, por exemplo, tenha uma coisa destas...mas o Porto tem. Olá se tem: a Casa da Música, outro sorvedouro de dinheiro público e no mesmo sentido de obra emblemática. De resto, o Porto tem mais prédios a cair do que qualquer outra cidade...

Depois deste primeiro passo na senda da desgra..perdão, pogresso, quantos quilómetros mais não foram percorridos para chegarmos ao abismo em que nos encontramos?
Não são apenas os velhos do Restelo que assim pensam. São provavelmente os mais novos, se lhes contarem a História como deve ser. Portugal teve falta de capacidade e inteligência. De quem mandava. Parolismo a esmo foi o que se viu a seguir, sendo as auto-estradas em triplicado o mais recente exemplo da má governação e do crime que cometeram. Porque é disso que se trata.
Parafraseando o velho ditado, se querem ver o novo-rico, dêem-lhe dinheiro para a mão... e em Portugal o que não faltou foram exemplos desse novo-riquismo aparolado. Os bancos apenas aproveitaram, como sempre, aliás.
A seguir, vem a história do BCP.


O fado tem sido sempre o mesmo...

Em 1985, com a entrada na CEE, havia quem jurasse que o nosso fado tinha terminado. Agora é que ia ser..e foi mesmo:


Em 20 de Maio de 1988 saía o jornal semanário, dirigido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas que iria dar cabo do cavaquismo enquanto modo de vida de governar. Os escândalos devoristas eram tantos que todas as semanas havia um...
De resto, a cruzada moralista de Paulo Portas foi apenas mais uma hipocrisia, algo maquiavélica. Basta lembrar o caso dos submarinos e de um tal Jacinto Leite para entender isso, tal e qual.
Portanto, o nosso fado é sempre o mesmo enquanto esta canalha ( não tem outro nome) não for devidamente responsabilizada pelo que fez ao país. Não precisaram de mais do que vinte anos para estuporar isto tudo, outra vez.