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sexta-feira, 29 de março de 2013

Dez perguntas...para Sócrates responder.

O Correio da Manhã de hoje pega num método já experimentado em Itália, pelo la Repubblica em relação a Berlusconi: dez perguntas ao dito, para responder. Berlusconi nunca respondeu, a não ser por ataque ao jornal, um dos poucos que não controlava no país e que foi a viva voz da contestação à pouca-vergonha do exercício do poder por aquele.
Por cá é o Correio da Manhã que imitando o estilo lança igualmente dez perguntinhas para Sócrates responder.
Como se diz por ditado vindo do Brasil "perguntar não ofende, né?" Ou seja, a pergunta feita da boa fé nascida da dúvida que suscitam os comportamentos dos políticos, não têm que ofender, por uma simples razão: os visados podem sempre responder cabalmente, desfazendo o efeito ou intenção maldosa que supostamente atribuem a quem as faz. Portanto, perguntar não deve ofender mesmo qualquer político que se preze.

Quanto a mim, as perguntas pecam por demasiado retóricas e imprecisas suscitando respostas fáceis e A primeira deveria ser reformulada e passar a ser assim:

1. Porque nomeou Pinto Monteiro para PGR e quem lho indicou concretamente? Ligada a esta viria a seguinte: Conheceu Noronha Nascimento presidente do STJ  e quando? Quantas vezes esteve com o mesmo em conversas públicas ou privadas? Sabendo que o filho do mesmo ingressou no SIS, no tempo em que era primeiro-ministro, soube disso e interferiu de alguma forma no processo?

A segunda pergunta ainda me parece mais desastrosa. Reformula-la-ia assim:
2. Tomou conhecimento do despacho do PGR sobre o caso Face Oculta em que esteve envolvido e em que se arquivou o expediente recebido pelos magistrados de Aveiro? Quando e quem lho enviou, concretamente? Antes ou depois de o mesmo ter sido enviado para o processo que estava no STJ, em "extensão procedimental"?

A terceira está mesmo a pedir um seco e rotundo não, sem interesse porque lhe falha a subtileza.  Diria assim:
3. Sendo conhecido, pelo teor de escutas que mal ou bem foram divulgadas pelos media, e pelo que revelou o director deste jornal, que o senhor tentou intervir em órgãos de comunicação social que não lhe eram afectos politicamente, tal ocorreu até que ponto? E em seguida: é verdade que usou influências junto de entidades bancárias, como a CGD onde se encontrava o seu amigo A. Vara,  para tal desiderato?

A quarta é simples mas carece de um intróito:

4. Sabendo que nomeou A. Vara e Bandeira, para administradores da CGD, os quais já foram apodados por Eduardo Catroga de indivíduos que "abandalharam" a instituição, não se sente responsável pelo descalabro nas contas do banco, particularmente nas imparidades resultantes de certas operações de crédito?

A quinta decorre da quarta, mas carece de maior precisão:
5. Não se sente responsável pelo que aconteceu a Joe Berardo, por exemplo, e a outros que causaram prejuízos de centenas de milhões de euros com operações bancárias efectuadas para tomar conta do BCP?

A sexta, "mais concreta e definida como outra coisa qualquer", pode ir mesmo assim porque é um murro no estômago da falta de vergonha.

A sétima igualmente, mas com um acrescento: o empréstimo que agora referiu na entrevista, "para estudar em Paris" foi efectuado quando? Confunde-se com o que a revista Flash noticiou em 21 de Março de 2011 e na qual dava conta de dois empréstimos que contraiu, para pagar no prazo de um ano: um em Maio de 2009 da importância de 30 150 euros e outro em Novembro do mesmo ano, da importância de 15 075 euros, totalizando 45 222 euros? E se não se confunde, como explica o pagamento das prestações que ascendem a mais de 4 500 euros por mês, se como primeiro-ministro ganhava pouco mais que isso?  E porque pede um empréstimo desse género para pagamento num ano? Que garantias prestou à CGD para tal empréstimo e quem lho concedeu concretamente, com despacho e assinatura no processo?

A oitava não a faria. A mãe de Sócrates já deve sofrer demasiado com isto e a única culpa que tem é a de não ter dado ao filho umas valentes chapadas quando era criança, ensinando-o a não mentir.
A nona já foi em parte respondida na altura em que tal assunto se questionou publicamente: parte do dinheiro veio de um empréstimo bancário pago num prazo relativamente curto ( até 2010).
A décima é outra pergunta concreta e definida que tem que ser respondida, agora em tandem com o amigo Luís Ribeiro que é seu vizinho no condomínio.
É uma pergunta pertinente e interessante.


4 comentários:

Luis disse...

E já gora. ele que responda ás pergunts que, no processo freeport, lhe ficaram por fazer, prejudicando de vez o resultado daquele processo... como se viu. E responsabilizar MESMO quem não permitiu que as perguntas fossem feitas no inquérito.

Kaiser Soze disse...

É muito cansativo este regresso do Sócrates...
Vi a entrevista e fiquei com a mesma impressão dos posts aqui publicados, em grosso.
Como não sou jornalista, fiquei na dúvida se a "mansidão" dos jornalistas se devia a medo/impreparação ou a um qualquer preceito ético que desconheço e que os impede de engrossar a voz quando quase insultados ou ouvem meias verdades escabrosas.

Sim, para mim, foi o que resultou da entrevistas, mentiras com pitadas de verdade manipulada, ou seja, a melhor maneira de mentir (e sobre isto tenho mais alguma experiência).

Kaiser Soze disse...

O que me preocupa, contudo, é:
1) a postura de animal feroz é eficaz, especialmente quando o termo de comparação é uma galinha como Seguro;
2) as mentiras mascaradas de meia verdade só são perceptíveis a quem tem alguma memória e essa não é uma das características mais marcantes da turba;
3) a citação de Dante é muito apropriada porque quando as pessoas se encontram em sofrimento nada mais lhes interessa do que o alívio do mesmo...ainda que impossível, ainda que meramente retórico. A esperança é uma coisa poderosa e propensa a cegueira;
4) o tempo que se perdeu com a entrevista (tanto nos orgãos de comunicação como neste blog, por exemplo) são a prova provada que Sócrates conseguiu o que quis.

Medo...muito medo!

PS. acho que o Sócrates padece de uma patologia clínica qualquer.

josé disse...

Não é tempo perdido, a meu ver. Dar importância a perigos públicos nunca é tempo perdido e a táctica de fazer de avestruz em casos destes, deu sempre mau resultado.

Primeiro vieram...e bla bla bla, na citação preferida dos judeus