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domingo, 26 de maio de 2013

A polissemia da palavra corrupção integra um crime perfeito

Paulo Morais, um "estudioso da Matemática" ( hum...hum..hum...) já foi entrevistado pelo Expresso para falar de...corrupção. Vai no bom caminho até porque a entrevistadora é uma "analfabeta", Clara Ferreira Alves. Não obstante o desconhecimento endógeno, a mesma articula algumas boas perguntas ao cavaleiro branco ( a "escritora" emplumada chama-lhe "cavaleiro da independência e da anticorrupção em Portugal" que "sabe os nomes e números de cor" ) nomeadamente aquela que contende com a circunstância de o mesmo "correr o risco de se institucionalizar e se tornarem a instituição contra a corrupção", através da Associação de Transparência e Integridade que fundou, juntamente com outros, como o falecido José Luís Saldanha Sanches.

Apesar desse risco se tornar evidente, esvaziando a força de denúncia de casos concretos, a verdade é que a entrevista de Paulo Morais tem pontas onde se lhe pode pegar para mostrar como estamos.
Esta página é reveladora de alguns fenómenos preocupantes que ninguém nos media alcança como potenciadores de corrupção e alguns deles mesmo sinais evidentes da sua existência atávica, na sociedade portuguesa actual.


Mesmo conhecendo estes casos e circunstâncias aqui aludidos, a antiga directora do DCIAP, Cândida de Almeida, mai-lo seu mentor profissional no MºPº, o PGR Pinto Monteiro, consideravam que os níveis de corrupção em Portugal eram negligenciáveis porque "Portugal não é um país de corruptos".
Isto dá que pensar uma vez que Portugal é mesmo um país de corruptos e em grau tal que as pessoas com responsabilidade para reconhecer o fenómeno já nem dão por ele...

O que se passou nos últimos trinta e tal anos em Portugal para chegarmos a este ponto? Valeria a pena reflectir nisso porque a principal razão está na mutação de alguns valores e oportunidades de vida dos que abraçaram a causa pública em modo permanente.
As referências antigas a honra, moral ( agora chamada ética), compromisso pessoal, trabalho, dedicação funcional à coisa pública, separação entre interesses privados e públicos, competência profissional e pessoal, modo de escolha de responsáveis políticos e técnicos, ensino de valores e referências culturais e morais, alteraram-se de modo significativo nestas últimas décadas, a tal ponto que o modo de viver a normalidade política mostra o que está à vista e só aqueles dois e mais alguns ( proenças de carvalho, jorges coelhos, júdices, etc etc)  não conseguiram lobrigar.
Alguns percebem muito bem o significado da palavra , simplesmente fazem-se desentendidos na conceptualização. Desvalorizam, apoucam, menorizam porque tal lhes confere a vantagem de continuarem a usufruir do discurso dominante que se instalou nos media.

A denúncia deste fenómeno social, evolutivo nas suas múltiplas manifestações, devia ser papel dos media em Portugal, mas não é, apesar destas mostras de preocupação, como a entrevista denota. A entrevista, em si mesma, é já um sinal do papel reciclador que os media assumem relativamente a estes "cavaleiros da independência" que nem se dão conta da absorção que o sistema já pôs em marcha para os domesticar ao discurso dominante, como aconteceu com aqueloutros acima nomeados. Para evidenciar o epifenómeno basta dar alguma atenção aos comentadores convidados pelas anas lourenços e outros. Alguns são exactamente os nomeados por Paulo Morais...

De resto, na entrevista de Paulo Morais só faltou designar o Expresso  e principalmente a SIC como fautores dessas manobras de permanente reciclagem, em que Balsemão se tornou perito há longos anos. Por um motivo: manter o estatuto de "tycoon" da ordem de valores dominante que produziu os fenómenos escabrosos a que assistimos todos os dias.

Se alguém quiser estudar o fenómeno da corrupção polissémica em Portugal nos dias de hoje tem um exemplo antropológico à vista: Jorge Coelho. Estude-se o percurso deste indivíduo, da sua entourage, amigos mediáticos e "sistema de contactos"  e "hádem" ver o fenómeno evolutivo a emergir do lodo.  É mesmo exemplar, a meu ver. E provavelmente nem tem ponta de crime que se lhe aponte...o que é fantástico e merecia tese de doutoramento, em vez de livros que defraudam a realidade, tipo "uma drogada suja" ( plágio descarado ao RAP). A corrupção de topo, em Portugal, não é crime porque a legalidade estrita cobre todos os parâmetros da tipicização. Menos um, intangível a não ser nas catacumbas filosóficas: o da moralidade que é coisa que não conta para nada, a não ser para impedir que todos comam, porque não há prato para tantos. Por essa razão, já o ilustrérrimo interpelante de um antigo ministro da Educação de Salazar dizia que " a ética é a lei". E tem sido assim que se safam sempre...o que Paulo Morais parece ainda não ter entendido.

3 comentários:

Floribundus disse...

além de possuir poli sentidos a corrupção tornou-se sistémica entre os 'magnáticos'.

morais que se cuide porque os 'moedinhas' fazem o 'serviço'
por 100€

José Domingos disse...

Paulo Morais, devia ter cuidado. Houve alguns jornalistas e comentadores, que também falavam e foram amanssados. O sistema reage mal, quando confrontado, se por qualquer motivo, a confrontação, tem força, o sistema utiliza o aparelho de estado, para repôr a "legalidade".
Arranja-se sempre qualquer coisa, para calar o incomodado.
Se não há, fabrica-se.
Não há volta a dar.........

Kaiser Soze disse...

Estava a ler este post e lembrei-me de uma reportagem que passou no Daily Show sobre a questão do controlo de armas comparando os EUA e a Austrália.

A dado momento, o "entrevistador" pergunta a políticos de ambos oa países o que torna um político bem-sucedido.
O Americano responde "ganhar eleições" e o Australiano responde "trabalhar para uma melhoria social".

Passando por imensas nuances, parece-me que o problema radica aqui, no momento em que a política passou a ser, apenas, a arte de conquistar e manter o poder.