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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Há 40 anos, Soljenitsine, um reaccionário anti-comunista primário.

Faz agora 40 anos que o escritor russo Alexandre Soljenitsine provocou uma grande polémica, mediaticamente mundial por causa da publicação, no Ocidente, de um livro que na antiga URSS não lhe era possível publicar: O Arquipélado Gulag. A URSS, pátria.farol dos nossos comunistas de então que vituperavam o "fascismo" por não os deixar falar, reunir e publicar livremente as suas ideias, não deixava falar, reunir e publicar as ideias de Soljenitsine e muitos outros que não estivessem de acordo com os cânones da Academia das Ciências.

O livro, segundo se conta, foi escrito nos anos 50 e 60 do séc.XX, na clandestinidade ( a liberdade na URSS era assim...) e passou para o Ocidente, na clandestinidade de um micro-filme, tendo sido publicado em 1973, em França nas Éditions du Seuil, em  três volumes. Primeiro em russo e depois, em Junho de 1974, em francês; no ano seguinte, saiu o segundo volume e em 1976, o terceiro. O primeiro é este:

O tema do livro é muito simples: a vida no Tarrafal da URSS, chamado Gulag, no tempo de Lenine e Estaline. Qualquer semelhança com o Tarrafal português é pura coincidência e deveria ser tão semelhante como isto e isto.

Não obstante, os mesmíssimos comunistas que apoiavam os que criaram os gulags são os que depois se indignam muito com o Tarrafal. E com razão, diga-se. Mas com falta de lógica, diga-se também. A Antena Um anda a passar um programa com testemunhos dos tempos vividos no Tarrafal. Seria possível comparar com os Gulags e perguntar directamente aos que se vitimizam ( Edmundo Pedro, um deles) o que dizer dessa comparação?  E se o Tarrafal era uma imitação dos campos de concentração nazis, os gulags eram o quê? Colónias de férias para o povo?

Mais: o que fariam em Portugal, se tivessem chegado ao poder em 1974-75? À semelhança de todos os países comunistas, sem excepção, criariam os seus tarrafais. Porventura nos mesmos lugares...e com as condições psicológicas dos gulags, está bom de ver.

Em Fevereiro de 1974, após a publicação do livro de Soljenitsine, em França, começou a perseguição ao dissidente que só não terminou outra vez no Gulag ( que ainda existiam e só fecharam em 1986, ao contrário do Tarrafal que fechou décadas antes)  porque  o escritor era um premiado Nobel, ganho em 1970.

Assim, foi resolvido o assunto de modo mais expedito: expulso da sua terra. Desterrado. E foi esse facto que originou as notícias da época, como esta capa da Time de 25 de Fevereiro de 1974 que se vendia por cá, ao contrário da URSS onde era expressamente proibida esta imprensa capitalista, imperialista e reaccionária ( portanto, não era censura, era selecção para bem do povo).




O artigo de fundo era escrito por Patricia Blake que tinha lido o livro no original russo, com as passagens que foram seleccionadas. 




E por cá, em Fevereiro de 1974 como é que se davam notícias destas coisas? O Diário Popular de 21 de Fevereiro de 1974 mostra, citando uma notícia do New York Times ( que na URSS nem se mencionava por ser um órgão reaccionário do imperialismo) que mostrava à saciedade como os comunistas costumam ( ainda é assim) lidar com estes pequenos problemas de imagem: devolver a acusação. O livro acusava-os de encarcerar em campos de trabalho forçado milhares e milhares de cidadãos? Pois então, esperem lá... também os americanos prenderam e mataram milhares de comunistas, logo após a II Guerra Mundial!  Daí a conclusão lógica, para os mesmos: o americanos não tinham autoridade moral...e será que os comunistas portugueses têm assim tanta autoridade moral para acusar o regime de Salazar de coisas que eles mesmos  apoiavam aos camaradas soviétricos e que o faziam de modo mil vezes pior?! E sabendo expressamente de tal coisa?



Ora sobre esta autoridade moral é que a porca está sempre a torcer o rabo, com o Tarrafal e outras ocorrências. Mas em 2003, altura da efeméride dos 30 anos da publicação da obra maldita., o Diário de Notícias mostrava numa página o estado das coisas sobre o assunto . O título é novilinguístico qb porque fala em "campos de detenção" em vez da pura e simples expressão "campos de concentração". Ficava mal,  a preto e branco...

Em 1989, Gorbatchev ( o renegado comunista que deixou mal o PCP e Álvaro Cunhal em particular) já tinha autorizado a publicação do livro na URSS e em  2008, o mesmo e Putin homenagearam-no, aquando da sua morte.

Por cá, aposto que nos "centros de trabalho" do PCP nem querem ouvir falar no nome do traidor reaccionário e aposto que nem uma das suas obras lá terão. Nem aquela que Krustschev considerou ser uma "obra-prima" com direito a citação no Pravda. Igualmente sobre os campos e chamada Um dia na vida de Ivan Denisovitch...publicado em Portugal, em 1971 numa edição de livros de bolso, da Europa-América.



Quanto à lógica do PCP e respectiva moral é assim mesmo e quem quiser que tire as conclusões.

Sobre Soljenitsine e os media, aqui em francês,  um extenso quanto interessante artigo que mostra as potencialidades da internet nestes assuntos e que nenhuma publicação em papel igualaria. Numa passagem cita-se Jean-François Revel que escreve e explica a táctica dos partidos comunistas, incluindo o português que nunca se dá por achado nestas coisas e Álvaro Cunhal era mestre nesta arte do embuste:

Cette tactique du PCF est dénoncée par Jean-François Revel dans L’Express :

" La psychologie de guerre froide [...] comporte l’assimilation de toute description réaliste de l’URSS à l’antisoviétisme de principe ; puis de l’antisoviétisme à un anticommunisme de préjugé ; enfin, de l’anticommunisme à une hostilité de contagion visant toute la gauche. De la sorte, ou l’on accepte en bloc et en détail les exigences communistes, ou l’on est réactionnaire. "



14 comentários:

Lura do Grilo disse...

Este escritor passou pela Espanha (ainda a sair de Franco). Maravilhou-se: livre acesso a fotocopiadoras, poder viajar livremente, ver jornais estrangeiros à venda, etc, etc.

lusitânea disse...

As "organizações" dos comunistas "limpam" e "depuram" tudo o que deve ser consumido pelas massas que só devem ter "confiança" na vanguarda.Isso permite-lhes fazer marchar e marchar e marchar os seus apoiantes a caminho de África, agora só cá dentro, depois das entregas de tudo o que tinha preto e não era nosso.
Aquilo no Tarrafal era duríssimo.Sol e mar com areia branca e umas hortas para cuidar.Agora existem uns milhares de turistas que têm que pagar muito para terem os mesmos direitos...
Para a próxima a direita tem que arranjar um "che" que beba , fume charuto e pratique tiro ao alvo para quebrar a monotomia...talvez um dia tenha direito também a camisola...

Floribundus disse...

goulag é acrónimo russo de 3 palavras que significam 'administração central dos campos' e criaram-no em 1934

de acordo com o dissidente Vladimir Bukowski que recebeu tratamento forçado em hospitais psiquiátricos apropriados

estes campos vitimaram milhões nos piores climas siberianos

os hospitais psiqiatricos chineses com carácter punitivo chamavam-se an kang

por cá temos o MONSTRO a solta e sem responsabilidades

no caso do Meco os pais das vítimas fazem investigações paralelas e fazem queixa-crime

ou seja 0+0=0

Floribundus disse...

a minha infância alentejana na zona da raia de Espanha foi marcada por:
guerra civil espanhola
falta de produtos importados,

vendeu-se o Ford T a peso e passamos a andar de charrette, carroça, mula, macho, cavalo e eu de burra velha e mansa

o taxi recebia o pomposo nome de 'ligaduras'

os comunas das 'edmundices' estagiavam no Tarrafal depois da saída frustada do Tejo

a IIGG marcou a minha juventude. ouvia os germanófilos e os pró-aliados e ficava na minha

lia-se Salgari, Motta, Verme, o socialista Amici, os clássicos.

a radio era a bateria, não havia discos, nem a facilidade de telemóveis, pesquizas na Net

comia-se melhor do que hoje no aspecto de saúde
sem problemas de diabetes, cardio-vasculares, degenerativos

poderia ter feito mais nos tempos livres e não pude por falta de tecnologia.

no tempo da Universidade não havia esferógraficas nem fotocópias

profissionalmente trabalhei 16 hora diárias

fui e sou muito feliz comigo próprio, apesar de mais de 60 anos de luta inglória contra o MONSTRO

fica um grave hiato previsto no 1º aforisma de Hipócrates
'ARTE LONGA, VIDA BREVE'

Paulo Moreira disse...

aqela musica da tonicha e do gin ary tirame do serio de seio duro e pequeno

;)

Paulo Moreira disse...

sorry, José
cmd 12181883

José disse...

A "Menina de olhar sereno, raiando pela manhã, de seio duro e pequeno,
num coletinho de lã, menina cheirando a feno, casado com hortelã"

tem outra referência: zip 30 014/s.

A original,claro e que tem do lado "b" o tema "mulher".

Explique-se melhor, p.f.

m disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
zazie disse...

Boa, boa, gostei do acrescento visual

josé disse...

É mesmo da altura...

josé disse...

Também tenho o Kissinger, da mesma leva.

josé disse...

E agora para algo completamente...igual, a crónica das almas censuradas no DN de 1975 pelo futuro Nóbél.

Vai já para o forno.

BELIAL disse...

Dos autores dos russos do século XX, AS foi o único que li
E os que li, gostei.

Tenho Gorki, mas não tenho tido coragem.."realismo soviético", blegh!!!
Hei-de ler umas páginas iniciais, a ver se será legível.

Alguém daqui apreciou Gorki?

João José Horta Nobre disse...

Nem o pobre do Soljenitsine a comunada deixou em paz... Mas tempo não lhes falta para andarem a homenagear o ranhoso do Saramago, um canalha que saneou o Diário de Notícias e passou a vida a branquear os crimes do Internacionalismo Marxista.

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2014/02/ha-40-anos-soljenitsine-um-reaccionario.html

Cumpts,
João José Horta Nobre

Contacto: historiamaximus@hotmail.com