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quarta-feira, 5 de março de 2014

A banda sonora do PREC: pelo sonho se deixaram levar



Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, a música portuguesa , nos rádios, era virar o disco e tocar sempre o mesmo. Como não houve grandes novidades discográficas, para além dos já apontados discos de Sérgio Godinho, Fausto ( que publicou entretanto e depois do primeiro, o disco Um beco com saída, tão panfletário nas letras quanto genial na música)  e José Afonso, tocavam-se os antigos, do tempo do protesto e da “intervenção”, ad nauseam.

Durante o Verão de 1974 surgiu o sucesso da época: Somos Livres, de Ermelinda Duarte, uma  canção das novas peças de teatro (“ Lisboa- 72-74”) e que soou vezes sem conta nos rádios da altura a par do Sugar baby love dos Rubettes, ou My only fascination de Demis Roussos, de You´re having my baby de Paul Anka ou de Rock your baby, de George MacCrae, porque passavam mais vezes do que Oh very young de Cat Stevens e talvez tantas como Toro de lágrimas do brasileiro António Carlos ou oConto de Areia de Clara Nunes ( um clássico da mpb). 

Assim, ouvia-se o Operário em Construção, um poema de Vinicius de Morais, dito por Mário Viegas ou a Dificuldade de Governar, o poema de Brecht dito no mesmo disco e  de repente ouvia-se uma magnífica canção francesa, Danse, de Georges Moustaki ou alguns temas do disco brasileiro Temporada de Verão, em que Caetano Veloso e Gilberto Gil têm a parte de leão, com temas como O relógio quebrou, o sonho acabou ou a fantástica Felicidade ( foi embora), de Caetano Veloso, uma das melhores cantiguinhas de sempre, de todas as épocas e latitudes.
Da música brasileira poderia ouvir-se mais porque esse ano e o seguinte, de 1975, foi rico em sucessos. Clara Nunes e O mar serenou; Cyro Aguiar e Crítica; Carmen Silva e Amor com amor se paga, Fafá de Belém e Filho da Bahia que fazia parte da banda sonora de Gabriela ( e que seria vista por cá em 1977) e o grande êxito dos bailes de todos os tempos depois desse: Bilu Teteia, de Mauro Celso, só batido por outro da mesma altura: Meu amigo Charlie Brown, de Benito di Paula.
Em finais de 1974 quem queria ouvir boa música portuguesa e estrangeira, sintonizava o programa Página Um, que passava na Rádio Renascença das sete e meia da tarde ( pouco depois de terminar o Terço)  até às nove, de Segunda a Sexta.
As novidades discográficas eram apresentadas por locutores informados e com frequência apresentadas em primeira mão porque vindas da Inglaterra, onde o programa tinha colaborador permanente ( Fernando Tenente).
No último dia de 1974 o programa, nessa altura animado por Luís Filipe ( Paixão) Martins ( o mesmo da actual LPM) foi assim, tal e qual, como apontei a lápis numa folha de papel.Um certo Albarran substituiu o primeiro, durante o mês de Agosto e no ano seguinte, no Verão Quente de 1975,  houve borrasca por essa altura, lá para os lados da Embaixada de Espanha, tendo esse protagonista como figura...


Como se nota, deu-se conta do aparecimento de um grupo, com o nome de Banda do Casaco ,  e ouvido nessa altura um single, Lavados, lavados sim. O Lp, Dos benefícios de um vendido no reino dos bonifácios, foi passado integralmente, no dia 8 de Fevereiro de 1975 e estive lá, à beira do rádio,  para ouvir e registar.
O Página Um, nos meses do PREC, em 1975, foi um dos programas mais activos na passagem de músicos revolucionários e não havia uma única emissão, nesses meses de finais de 1974-75 que não passasse música chilena, francesa ou de outras bandas que não fosse de punho no ar e com as armas a cantar virtualmente mas com desejos de realidade utópica. 

Em meados de Fevereiro de 1975, o programa foi interrompido, devido a greve, para meu grande desgosto e só voltou a ouvir-se em 5 de Abril desse ano. O desgosto era de saber que não havia outro igual na rádio portuguesa da época e lá se iam as novidades musicais que só aí se apanhavam.  Todos os dias dessas longas semanas, tentava a sintonização , debalde e para ouvir o ruído típico da dessintonia radiofónica.  Um trauma que ainda hoje perdura…

Por isso aqui fica o alinhamento de alguns músicos e músicas da época, passados numa Messa 2000s, fabricada em Portugal e que ainda matraqueia nos dias de hoje, se preciso for. 


Sobre o lançamento do primeiro disco da Banda do Casaco, o grupo de Nuno Rodrigues e António Pinho, o Expresso de 8 de Fevereiro de 1975 fazia assim uma recenssão crítica pela pena de Pedro Pyrrait:


A Banda do Casaco, um dos grupos de música portuguesa mais fantásticos de sempre e que este ano que passou lançou no mercado duas caixas contendo todos os sete discos que publicou mais alguns temas inéditos, ( à venda em exclusivo na FNAC a 50 euros cada caixa), teve pouca sorte em 1975. 
Os tempos eram de luta revolucionária e apelo às armas, em sentido não metafórico. 

Durante o ano formou-se um "colectivo" capitaneado pelo revolucionário José Mário Branco, o mesmo da Canção é uma arma contra a burguesia e chamaram-lhe GAC- Vozes na luta. 

A leitura do "prospecto" é o programa. É ler e apreciar a loucura desta gente, em 1975. Foram os mesmos que nos anos vindouros apoiaram moralmente os sucessores do PRP-BR. FP25 e tutti quanti prometiam um "mundo novo" esperando que o povo acreditasse nas balelas. Como não acreditou viraram-se para as canções infantis, alguns deles e outros, continuam por aí, sempre de braço no ar "enquanto à força no braço que vinga... ". Outros arrependeram-se e tornaram-se os inimigos que queriam então abater...





Na Primavera de 1975 houve o acontecimento musical daqueles anos: o grupo britànico Genesis veio a Portugal, a Cascais,  para um concerto. O grupo tinha lançado no início desse ano o duplo lp The Lamb lies down on Broadway, passado no rádio de então, a primeira vez por um João Filipe Barbosa que o apresentou pelos primeiros acordes do piano desafiando os ouvintes a identificar o som ( e eu estava a ouvir e lembrei-me de ter lido a crítica na Rock & Folk dias antes).

Antes do Verão Quente, houve ânimos exaltados quando os bilhetes não chegaram para todos. 

A Mundo da Canção nº 42, de Maio de 1975, escreveu assim:


 O Expresso( Pedro Pyrrait) nem assim escreveu porque dedicou umas linhas e alguns parágrados ao assunto...do anúncio do concerto, na edição de 1 de Março de 1975.



De qualquer modo, nessa altura já se ouvia Led Zeppelin e Physical Grafitti ou Rory Gallagher e o disco ao vivo Irish Tour ´74. Ou os Traffic de When the Eagle flies ou ainda os King Crimson de Red. 

Quem tinha isto para ouvir, integralmente ( passavam integralmente os discos em certos programas do rádio, à noite, como no Espaço 3P, do RCP,  apresentados por Fernando Balsinha ou Jorge Lopes) não precisava das canções revolucionárias para nada. 
Esta é que era a música revolucionária porque nunca mais se fez outra igual...

11 comentários:

zazie disse...

Incrível, como já anotava e organizava tudo.

E, ainda mais incrível, como conseguiu guardar e não perder tudo isso.

":O)

Lura do Grilo disse...

Impossível, impossível era já ouvir "Uma gaivota voava, voava .." quando pretendiam transformar o país num galinheiro

josé disse...

Por isso é que me lembro de tudo isso como se fosse ontem.

E tenho mais dias de registo da Página um. De Janeiro e Fevereiro de 75 mais os meses de Maio e Junho de 75.

Com as músicas todas e os intervalos de publicidade.

As anotações sobre as músicas são ipsis verbis aquilo que o Luís Paixão Martins anunciava e anos mais tarde, em meados dos oitenta, no tempo das rádios piratas, tive um programa em que tentava imitar o mestre. E gravei alguns...

josé disse...

A gaivota é o Somos Livres.

josé disse...

Há um nome que apontei, de ouvido, em 31 de Dezembro de 1974, o de Gary Chesterton que afinal é Gary Shearston, australiano. E tem uma música que vale a pena ouvir: i get a kick out of you.

Floribundus disse...

o PREC regressa amanhã com o desfile da 'BÓFIA'.

dizia-se que a banda da GNR usava menos um nota
'tocava sem dó'

o poder 'caíu na rua' em 25.iv e nunca mais se levantou

sempre que há um vazio,
alguém o ocupa

Putin na mó de cima

se os homens engravidassem não havia tanto aborto no mercado

mujahedin مجاهدين disse...

"Porque não se acaba de vez com as cadeiras, os lugares marcados, a discriminação de bilhetes?"

acabar com a discriminação de bilhetes... ahaha

zazie disse...

Pode crer. E acabaram mesmo nos cinemas e teatros com lugares marcados.

Despediram os arrumadores em nome da igualdade da fuçanga de ver quem chega primeiro ao melhor lugar.

Unknown disse...

"I geta kick out of you"...
Desculpar-me-à, Doc, coisas da idade, sabe...
Mas essa música/poema do Porter, só pelo Francisco Alberto ou por "ela"...
Uma eventual concessão à Julie London , que a canta "pecaminiosamente"...

josé disse...

Ah! Então vamos lá aos preciosismos de rigueur.

A música a que me refiro foi um single que saiu nessa altura e que foi incluido num lp que tenho.

Nesse disco de Gary Shearston intitulado Dingo, editado pela Charisma ( CAS 1091) em 1974, o tema citado vem escrito como sendo I get a kick out of you, tal e qual. E é a canção de Cole Porter porque lhe são atribuídos os créditos, no disco.

É a única que vale a pena ouvir, no disco e é uma versão fabulosa.

Calculo que deve ter inúmeras versões, incluindo a que aparece escrita como i geta kick out of you. Será a do Sinatra?

Unknown disse...

Claro ,Francis Albert Sinatra , a.k.a The Chairman of the Board,Old Blue Eyes , etc.
Só não menciono um dos outros "nicknames", The Voice. porque esse também é aplicado à Fabulosa Ella, a Fitzgerald...
Como pode ver, sou velho que me farto...