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segunda-feira, 3 de março de 2014

As canções PREC de 1974

Em 29 de Março de 1974, escasso mês até ao dia 25 de Abril, realizou-se no Coliseu dos Recreios de Lisboa um "Encontro da Canção Portuguesa".

O Cinéfilo de 6 de Abril desse ano mostra o que foi e quem lá foi. O artigo é assinado por Mário Contumélias, o jornalista que um ano depois seria saneado do Diário de Notícias pelo Nóbéll Saramago (pelo "colectivo de trabalhadores", em quem Saramago mandava como controleiro comunista).



Estavam lá quase todos os cantigueiros de Abril. Os cantores das armas. As cantigas tinham sido autorizadas pela Censura, negociadas uma a uma. Tourada, de Fernando Tordo, "foi vaiada"...
O autor do artigo, o tal Contumélias, escreve que nessa noite "senti-me".  A melhor expressão de mudança sociológica que se pode encontrar para os meses que se seguiram ao 25 de Abril e a loucura colectiva que tomou conta deste nosso pobre país,. foi o que o público disse a Carlos Paredes: "tira a gravata, pá!"
No dia 25 de Abril, à noite, na RTP, um dos sinais mais característicos da mudança, foram os apresentadores ( Fialho Gouveia, por exemplo) sem gravata, ao contrário do que era costume.

Pois bem, logo a seguir ao dia da Revolução, estes cantigueiros tornaram a juntar-se, desta vez no Porto, como conta a Flama de 17 de Maio de 1974. Eram os "cantores proibidos", alguns deles, como José Mário Branco, exilado em França e também Luís Cília, cujas músicas nunca tinha ouvido no rádio.


A vinda destes cantautores revolucionários tinha sido um acontecimento nacional, como o conta a revista já comunizada pelos alexandres manuéis que por lá pululavam. Não precisaram de fazer saneamentos...


A figura incontornável destes cantautores, a par de José Afonso ( que nunca fugiu...) era José Mário Branco. 
No próprio dia 25 de Abril de 1974 e seguintes, a par das músicas de bandas militares, ouvi pela primeira vez no rádio  a canção mais proibida, a Ronda do Soldadinho.  E ouvi Luís Cília que nunca tinha ouvido. E ouvi canções de Adriano Correia de Oliveira, que cantava poemas de Manuel Alegre. E Francisco Fanhais que era um padre revolucionário que se entregou a missões por conta da LUAR.

Essas músicas eram míticas de algum modo porque se sabia que nem todas passavam nos rádios, apesar dos discos que havia e não eram proibidos, exceptuando um ou outro, raramente.

Nas semanas a seguir foi um fartote de música em forma de PREC. José Jorge Letria, conta no seu livro de memórias que fora designado pelos militares ( major Moura, MFA) como uma espécie de controleiro da programação musical da Emissora Nacional. "Foi-me confiada a tarefa pelos militares de dar à programação musical da estação uma configuração mais adequada aos novos tempos que estávamos a viver". José Jorge Letria era comunista, dos sãozinhos, não dos afectados pela terrível doença infantil. E JJL deu essa contribuição, recomendando logo que fizessem "escolhas equilibradas que não pusessem excessivamente a tónica no repertório revolucionário português e estrangeiro". Isto logo nos primeiros dias após o 25...

O Expresso de 18 de Maio de 1974 mostrava também de que lado sempre esteve: do lado certo, como Pedro Pyrrait que já queria censurar os Black Sabath e os Uriah Heep ou até Alice Cooper... em nome do bom gosto. É a tal coisa. As palavras serviram sempre para justificar actos e a escolha das mesmas, agora cabia a outros. E os actos deixavam, ipso facto, de significar o que antes eram. Censura deixava de o ser e passava a ser controlo de qualidade...


Este caldo de cultura esquerdista só poderia dar no que deu: um PREC à maneira e com a publicação nos meses a seguir, de discos panfletários e abertamente revolucionários, com apelos às armas para derrubar a "burguesia".

O primeiro deles todos e o mais emblemático é o de Sérgio Godinho, À Queima-Roupa. É impressionante o teor das letras e que são inequívocas...nada deixando à imaginação das cantigas como armas.






A par desse disco, Fausto, muito arredado das cantorias, desde 1970, com um lp esquecido e um single fabuloso - Ó pastor que choras- voltou em 1974 com um lp, Pró que der e vier, ainda mais explícito que o de Sérgio Godinho e a pedir meças revolucionárias a quem quisesse. A música, essa, é irrepreensível e um dos melhores discos da música popular portuguesa de sempre. Um clássico, como os demais que Fausto publicou a seguir.


Por seu turno, José Afonso, o lírico revolucionário que ficou com marcas, para sempre, da doença infantil que o atingiu, publicou nessa época o primeiro lp pós 25 de Abril, com algumas, poucas canções revolucionárias. O coro dos tribunais é um magnífico disco de José Afonso, por isso mesmo.



A revista Mundo da Canção que se publicava no Porto e era notoriamente comunista, do lado dos bons, sem doenças, no número que saiu logo depois de 25 de Abril fazia um tal estardalhaço cultural que publicou na capa o comunicado de um "Colectivo de Acção Cultural" com nomes de sempre e que foram os do PREC da ocasião.


Na página 3 assumia uma autocrítica, considerando que tinha sido uma revista reaccionária e que ainda não era revolucionária...e a loucura começava a instalar-se.


Na página 5 mostrava o disco nunca visto de Luís Cília, da Chant du Monde francesa:



Na página 11 dá a voz a José Mário Branco, então "doido de alegria"...


E na página 15 já se falava em saneamentos...palavra então inventada para designar algo ignóbil e que deveria ser aceite revolucionariamente pelos futuros nóbéles e outros que tais.


Foi nesse mesmo número que li pela primeira vez a letra da Ronda do Soldadinho, a canção de José Mário Branco que para mim congrega a mistura da  confusão lírica e utópica do esquerdismo com a infantilidade inútil da imbecilidade irrealista. A música embalava o resto, como o Avante, Camarada, o Alerta e os Vampiros...


Só faltava o A cantiga é uma arma, mas é para já porque foi publicada no número a seguir, de finais de 1974 ( a revista tornou-se irregular, com as guerras entre os doentes infantis e os que queriam tratar-lhes a tosse...)


No ano seguinte a loucura continuou. Os discos viararam mas continuaram a tocar o mesmo. os tocadores continuam por aí e alguns deles nem arrependidos estão desta loucura.Outros dizem que foi coisa da juventude. Das doenças infantis, porventura.

E agora vou para o Carnaval que isto que então se passou foi mais que um Carnaval. Foi uma tragédia.

8 comentários:

João José Horta Nobre disse...

Excelente artigo!

Dá para ver bem como se destrói um país a cantar e a bailar...

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2014/03/as-cancoes-prec-de-1974.html

Cumpts,
João José Horta Nobre

Contacto: historiamaximus@hotmail.com

JC disse...

O artigo sobre a "D. Amália" constante da ante-penúltima fotografia de jornal é execrável!

Que gente mais nojenta.

Floribundus disse...

'porreiro! pá!'

vi 'en passant (como dizia o boxexas)' o cília e o irmão do janita

nunca ouvi o Irmão Fausto

como dizia um Jap 'manicómio em auto-gestão'

zazie disse...

Excelente, José.

Estas coisas metem impressão. Aquela imbecil a falar da Amália nem a ironia dela entendeu.

lusitânea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lusitânea disse...

A canção é uma arma que na mão desta rapaziada que só quer fazer "coisas" progressistas e fracturantes.Pá tanto faz descolonizar como agora nos colonizar...então dar cabo da "família" que agora é de geometria variável foi um ver se te avias...ao ponto de nas escolas das periferias 90% dos alunos andarem perdidos e sem verdadeira família tal o tamanho de Sodoma e Gomorra que cá criaram...e a caminho do Homem Novo e mulato...

Floribundus disse...

esta gente nasceu no tempo do fascismo
quando havia famílias numerosas

hoje não teriam nascido
devido às pílulas, preservativos

e principalmente à grávida doença politica chamada aborto

lusitânea disse...

No tempo do fassismo as famílias numerosas eram acarinhadas e os papás tinham alguma preferência nas hierarquias.Agora como são paneleiros...