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quinta-feira, 31 de julho de 2014

José Sócrates: vítima por quanto tempo mais?

A notícia da Sábado sobre José Sócrates resume-se a isto:



Há uma associação do antigo primeiro-ministro ao processo conhecido como "Monte Branco", mas ao mesmo tempo o título é equívoco. Na capa escreve-se "Sócrates é suspeito no caso Monte Branco". No artigo interior, apenas " Sócrates na rede do Monte Branco".  É coisa diversa tanto mais que no desenvolvimento da notícia se escreve que "A operação Monte Branco, que já deu origem a vários processos crime autónomos" e depois " No inquérito-crime onde José Sócrates é visado". Tal inculca a ideia de que há efectivamente uma investigação criminal em que José Sócrates é "visado", directa ou indirectamente e é aqui, nesta diferenciação que a Sábado pode ter "abduzido" sem grande fundamento.
A notícia da Sábado parte desse pressuposto, depois, para especular sobre intenções do MºPº em vir a deter José Sócrates para interrogatório, trazendo à colação a detençãod e Ricardo Salgado para o mesmo efeito.

Para sustentar tais alegações, a revista vai buscar investigações eventualmente em curso a um familiar ( o primo "gordo" do Freeport) e um amigo empresário de José Sócrates ( Carlos Manuel Santos Silva, comprador das casas da mãe de José Sócrates)  para  fazer a ligação e tirar a ilação.  Escreve que há milhões na Suíça, mas ao mesmo tempo que " não conseguiu apurar se este dinheiro suspeito, ou parte dele, que foi sobretudo encaminhado para contas na Suíça. é efectivamente de José Sócrates".

Esta notícia da Sábado é assim uma desilusão porque  se baseia apenas nisto e nada mais. Em especulações dedutivas sobre factos inconclusivos. Seria preferível ter mais factos e menos deduções. Mais certezas e menos especulações porque informar é contar a verdade do que se conhece como tal, desde que a mesma posssa ser contada, em nome de um interesse público e sem prejuízo para ninguém que suplante esse interesse.

Haverá prejuízo pessoal para José Sócrates e constituirá isto um crime de difamação, por se tratar de uma "canalhice" como dizia ontem o antigo-primeiro ministro?
Nem tanto, por vários motivos.

José Sócrates oferece de bandeja os motivos para a especulação que se torna legítima porque exerceu altos cargos públicos, com um poder executivo ímpar e modos de actuação duvidosos em algumas situações como é exemplo a do Face Oculta no que a si dizia respeito e que grita lá do fundo do silêncio a que a remeteram,

Pode José Sócrates continuar a armar-se em vítima, insultando  detractores porque a verdade é que tem de aceitar um escrutínio que até nem tem sido muito penalizador, perante os factos e o modo de ser costumeiro e brando, em Portugal. Se fosse noutros países, mormente em França, José Sócrates já tinha sido queimado vivo politicamente, no pelourinho da opinião pública. Porque é assim que as democracias modernas funcionam e José Sócrates tem que saber que assim é, porque fez o mesmo a outros, quando era "simples deputado" e voltará a fazer logo que se propicie. Aliás, é isso que faz nos comentários dominicais no programa escandaloso que lhe deram na RTP1.

Além do mais, José Sócrates tem mantido um vida privada muito opaca para um político tão público. Se não fossem falados motivos poderia mantê-la, como faz Passos Coelho e outros. A partir do momento em que por qualquer motivo legítimo de curiosidade pública sustentada em factos duvidosos, torna-se imperioso esclarecer, sob pena de se alimentar o monstro mediático, como acontece com José Sócrates. Um caso recente, mal comparado, mas com suficiente carga explicativa é o de Judite de Sousa. A exposição pública da sua vida privada e do filho é obscena, mas é o que deve esperar da figura pública que alimentou e apresentou. O fenómeno das celebridades é de alguma maneira idêntico.
Um político como José Sócrates que iniciou o cargo de primeiro-ministro acompanhado de um boato sobre a homosexualidade não deve admirar-se destas coisas, embora as mesmas sejam execráveis, de facto.
Poderia isto ser diferente?  Podia no caso de não se suscitarem dúvidas públicas, sobre condutas privadas que a generalidade da opinião pública ou não aprova ou politicamente se torna incorrecto aprovar. Assim, ai de quem é vítima deste processo.
O melhor modo de lidar com ele, será, no caso de ser efectivamente difamatório, explicar rápida e exaustivamente, os factos e afastar qualquer dúvida. Mesmo assim, haverá sempre quem não ouça ou nem queira ouvir as explicações. Medina Carreira foi há algum tempo vítima desta voragem mediática, mas teve o senso de usar o método rápido e que não deixou dúvidas. Porque é que José Sócrates não fez o mesmo? Poderia mesmo fazê-lo? É essa a dúvida.

Quando José Sócrates diz, como ontem disse na RTP1, que não tem contas bancárias no exterior; que sempre teve a mesma conta na CGD de há 25 anos a esta parte; que não tem "capitais" e que os seus rendimentos se resumiram ao que recebeu como funcionário do Estado ( tendo mesmo renunciado a receber compensações legalmente admissíveis, após a saida do Governo) está a suscitar interrogações legítimas a qualquer cidadão que por ele foi governado ( e eventualmente prejudicado com as suas políticas supostamente "keynesianas").
São essas interrogações que por aqui tenho colocado e vejo agora nos media, particularmente, nos do grupo Cofina ( que José Sócrates enquanto primeiro-ministro quis abafar, sendo tal facto demonstrável por diversas vias) a serem recolocadas, quanto a mim, com toda a legitimidade e fundamento.
Não me parece que numa democracia tal seja criminoso, por difamatório. Difamatório seria imputar-lhe um facto falso e atentatório da sua honra pessoal, o que no caso não se verifica porque apenas se questiona como é possível uma vida assim sem os meios conhecidos para tal e se apontam factos suspeitos que obrigariam José Sócrates ou seja quem for a justificar publicamente as dúvidas levantadas. Aliás, foi o que o mesmo fez ontem, na RTP1.
Negou qualquer irregularidade, qualquer suspeita do género, mas ao mesmo tempo manteve a cortina de silêncio sobre o que afastaria qualquer dúvida a qualquer pessoa, ou seja, mostrar o que é a sua vida pessoal, dentro dos parâmetros da reserva da intimidade. Isso, José Sócrates nunca fez. E contribui, sempre que se levantam suspeitas, para as adensar. Ter um primo com dinheiro a rodos, sem se saber bem a sua origem e em relação ao qual já se levantaram suspeitas, mesmo não concretizadas, é um facto desagradável que José Sócrates não pode desvalorizar com duas tretas, como fez ontem.

Questionar o modo de vida de José Sócrates perante as imensas dúvidas que o mesmo sempre se recusou a explicar e justificar, como faria qualquer pessoa de bem, não é nem pode ser crime, sob pena de termos um regime sem liberdades fundamentais.
Há vários factos da vida de José Sócrates, pessoal e pública que merecem destaque pela negativa, e nunca foram devidamente esclarecidos quando o poderiam ter sido, facilmente, pelo próprio. Por que não o fez e prefere acusar quem o tenta fazer de o denegrir e de ser "bandalho" e outros mimos?
Isto lembra a táctica de Berlusconi ou de Sarkozy que se julgam acima do dever de prestar contas de factos e actos publicamente relatados sobre os mesmos e com incidência pública, atirando para quem investiga ou para os media a culpa de violarem a sua vida privada ou os difamarem.

Não chegará a lado nenhum por aí e porventura tal se virará contra ele se algum dia se descobre alguma coisa comprovadamente negativa.

Isto faz lembrar o recente caso Sarkozy e o inevitável efeito deletério sobre uma putativa candidatura a cargos políticos. Possivelmente, José Sócrates nunca mais seria notícia caso se afastasse da roda da política e ficasse apenas a "trabalhar" como ontem disse, embora sem especificar em quê e para quem.

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