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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Freitas do Amaral, personagem queiroseana

Observador, crónica de José Manuel Fernandes:

Há em Portugal uma categoria de pessoas de gozam de um estatuto muito especial: onde quer que vão são apresentados como senadores. Num país sem Senado, é bizarro. Num país de doutores e engenheiros, é superlativo. É até melhor do que ser o “senhor comendador” das aldeias de outrora. Dispenso-me, por pudor, de tentar elaborar uma lista, mas já não me dispenso de citar um caso paradigmático: Diogo Freitas do Amaral.

É certo que ele já foi quase tudo, mas no quase tudo foi sempre, sobretudo, apenas o quase. Liderou o CDS, mas todos sabiam que era Amaro de Costa a verdadeira alma do partido. Esteve com Sá Carneiro, mas num segundo plano. Na AD não descansou enquanto não a abandonou, com um pretexto fútil. Ia sendo eleito Presidente, mas o fenómeno da sua campanha, o motor do seu êxito, era uma estrela em ascensão, Cavaco Silva. Saiu do CDS e ao CDS regressou, para o logro da “equidistância” e a consagração do “partido do táxi”. Julgou que ia mandar nas Nações Unidas e viu-se no papel de mero mestre de cerimónias. Foi ministro de novo, mas como adereço de José Sócrates, condição que tardou a entender. E depois fez-se “senador”. Não se sabe bem como, mas sabe-se bem para quê: para engrossar o exército de carpideiras que desfila pelas televisões, falando pausadamente e mostrando, sempre, um ar grave, pesado, omnisciente.

Foi lá que esteve de novo esta quarta-feira. Como grande entrevistado da Grande Entrevista da televisão que pagamos com as nossas taxas. Teve uma prestação ao seu melhor nível – o que diz tudo.

Atentemos, primeiro, na pose. Foi, como sempre, pomposa, grave, majestática. Com um tom professoral, catedrático. Freitas do Amaral é daquelas pessoas que fez sempre questão de colocar todo o seu peso, toda a gravitas, em qualquer coisa que diga, mesmo quando está a dizer banalidades ou a falar do que não conhece. Ou seja, a dizer disparates. Como sucedeu nessa entrevista.

Freitas do Amaral está, ficámos a saber, muito preocupado com a situação na PT, que considera “muito grave para o nosso país”. Mas tem uma solução: como as acções da empresa estão “baratas”, o Estado só tem de adquirir 33,4% e assim passar a mandar em tudo. Com aquele ar de quem é um homem informado e, também, de uma enorme abertura, subscreve a posição do PCP e do Bloco, com o detalhe de só não pedir ao Estado que fique com 51% da PT. Um terço chega, sentencia.

Quando alguém fala com a certeza no falar de Freitas do Amaral, esse alguém coloca-se acima de qualquer interrupção, ainda menos de contestação – e por isso passa incólume numa entrevista como a da RTP mesmo quando está a propor o impossível. Na verdade, a empresa que está cotada em Bolsa e que o professor de Direito se propõe comprar é a PT SGPS cujos únicos activos são uma quota na Oi. A PT Portugal, a que nos interessa, é apenas uma subsidiária da operadora brasileira, não está na Bolsa. O que significa que, se o Governo seguisse a sugestão da emérita figura, acabaria sem umas centenas de milhões de euros e com uma participação muito minoritária na Oi que para nada lhe serviria, pois não lhe daria nenhuma capacidade de influir no destino da PT Portugal.

Mas o nosso senador não se ficou por aqui. Sentenciou também que a forma como o Governo (e o Banco de Portugal) trataram o caso do BES reflecte uma enorme “vontade de fugir às responsabilidades” pois o que devia ter feito, no Verão quente do banco de Ricardo Salgado, era ter tido “uma política firme para evitar a falência do BES”. Como? O professor, claro está, tem, tinha, a solução: pegar no dinheiro da troika e emprestá-lo ao BES. Esqueceu-se foi de dizer o que isso representava: essa recapitalização faria com que o Estado ficasse com a maioria do capital e, também, das responsabilidades financeiras do velho banco, mas sem a segurança de ter as contas auditadas, isto é, sem conhecer a dimensão do buraco. Talvez se salvassem os accionistas, gente de bem e de Cascais, como o professor, não se salvariam é os contribuintes, mas isso são detalhes com que não se incomoda. Antes sentencia que “vamos pagar muito mais pela falência do BES do que pelo BPN”, porque o BES era “100 vezes maior”. Naturalmente não sentiu necessidade de dizer como isso vai acontecer, uma vez que o BES não foi nacionalizado, ao contrário do BPN.

Mas como se não fosse suficiente a forma ligeira, tão trapalhona e longe da realidade como pomposa, como abordou temas como o BES e a PT, a sua prestação sobre o Orçamento de Estado de 2015 chegou a ser penosa, tal a dificuldade que mostrou ter ao lidar com os seus números, que trocou, baralhou e confundiu sem nunca se mostrar atrapalhado ou hesitante. Como todos os senadores que desfilam regularmente pelas televisões, o professor também acha que o Governo não sabe como fazer a reforma do Estado (no que até tem razão), mas coloca-se sempre naquele plano superior de quem sabe muito bem como essa reforma devia ser feita apesar de nunca partilhar os detalhes connosco, comuns mortais e vulgares plebeus.

Na verdade não há, nesta entrevista de Freitas do Amaral, nada que a distinga de forma substantiva de muitas outras que deu nos últimos anos, desde que foi promovido ao Olimpo dos “senadores” da República. Na verdade, nem terá sido mais disparatada ou mais pomposa de que muitas outras prestações de outros dos nossos “senadores”. Não mereceria duas linhas de comentário se não fosse altura de dizer “basta!” a este novo tipo de parolice nacional que é o desfile de figuras egrégias pelos nossos espaços mediáticos, todas elas apresentadas como venerandas figuras que pairam acima da nossa vulgaridade de cidadãos, todas ouvidas com uma reverência incompreensível, todas elas com muitas responsabilidades no estado a que o país chegou mas todas elas, também, escutadas como áugures insusceptíveis de contestação, de simples contraditório.

Não deve haver em Portugal um só antigo político com mais de 70 anos que não tenha, nos últimos anos, optado por um discurso apocalíptico. Alguns têm-se mesmo excedido nos seus exercícios de indignação. Nada demais, vivemos em liberdade e democracia. Demais é só tratá-los como se pertencessem a uma casta de iluminados pois, face ao desnorte e desequilíbrio que tantas vezes demonstraram (lembram-se da Aula Magna?). É caso para dizer que, com senadores destes, só nos restam, como sempre, os honrados plebeus para salvarem a República.



Este indivíduo, um gouvarinho, é uma das figuras da falsa aristocracia democrática, surgida com a Revolução. Traiu os ideias marcelistas, salazaristas e tradicionais. Traiu é um modo de dizer porque só trai quem acredita em algo que abandona  enganando os que nele confiaram.
Tal como Marcelo Rebelo de Sousa,  poderia ter sido "tudo" e pouco foi que se visse. Será um professor sofrível de ideias políticas e pouco mais. Nem sequer conseguiu ser o que um Sérvulo Correia, da mesma geração,  conseguiu ser: um advogado com a firma ligada à parecerística do Estado, após um esquema engenhoso montado nos anos noventa, por diversos governos de bloco central,  todo legalmente engendrado para passar para as firmas de advocacia o grosso dos pareceres que antes eram  da competência das auditorias dos ministérios.
Nem isso foi capaz de fazer. Mas foi capaz de dizer que José Sócrates era um bom primeiro-ministro...mesmo depois do triste episódio na Independente.

6 comentários:

Floribundus disse...

dizem-me quando me insultam
'tarado sexual! vai tratar o alzheimer!'

afinal há quem se tenha comportado pior que eu e é sempre tratado
com 'pompa e cerimónia'

este nem para entertainer serve

os senadores vivem, como se dizia em tempos num blogue
'in die Welt anus'

BELIAL disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
BELIAL disse...

O homem passou-se da boneca quando perdeu as eleições por "meio estádio de futebol", mailos putativos episódios a posteriori e puxares de trapetes.

O ressaibiamento, desandou-o para o dark side - sem passar pela casa da partida.

Depois, tratou da vidinha.
E saliva, quando em vez, pelo novel entrudo governativo e seus nacos.

BELIAL disse...

""as contas já estão feitas, já ganhou o freitas"

Pensar que na puerícia andei com auto-colantes de semelhante gabirú...

Corja!

Floribundus disse...

'mudam-se os tempos, mudam-se as vontades'

borrou-se no cerco do Porto, e no C. Pequeno

o seu cds recebeu dinheiro da CDU germânica

e apoio fascista da direita dos gringos

Maria disse...

Este homem é inominável. Não tem vergonha, não tem personalidade, não tem dignidade, não tem honra, não tem integridade (lembremo-nos de uma das maiores traições feita ao Prof. Marcello Caetano, seu tutor e amigo sincero, com a maior das descontracções e cinismo, perante aquele que sempre o protegeu e ajudou nos estudos, inclusivamente cedendo-lhe o seu próprio gabinete no Ministério), é um vendido à maçonaria. Em poucas palavras, não vale nada como homem e sempre valeu zero como político.

O saudoso jornalista Alfredo Farinha, num excelente artigo no jornal O Diabo de há cerca de oito anos, contou todas as manobras de bastidores que se efectuaram entre candidatos para dar a vitória ao mafioso Soares nas eleições presidenciais a que ambos haviam concorrido e que, estava à vista de todos, iriam dar uma vitória esmagadora a Freitas. Tudo estava mais do que claro que iria ser este (futuro) vigarista o vencedor, assim atestavam todas as sondagens. Eis que de repente, contra a opinião do País inteiro e sem que nada o fizesse prever, dá-se uma reviravolta de último minuto e ganha o burlão Soares. Claro que, ainda segundo A.F. (que participou no escrutínio), por manipulação grosseira, vergonhosa e traidora dos boletins de voto.

E pensar eu que ainda fui a uma manifestação aplaudir este autêntico tratante quando a caravana em que seguia passou perto de minha casa. Diga-se em abono da verdade que havia uma multidão, todos ingénuos tal como eu, à espera da sua passagem. E pior um pouco, cheguei a votar neste vigarista para presidente da República(!!!), acto de que me hei-de arrepender para sempre.

Também nada teríamos ganho tivesse este vendido sido eleito presidente da República em lugar do outro criminoso. Eles são iguaizinhos na traição aos portugueses, só diferindo nos métodos - o primeiro, na maldade de que é possuído este verdadeiro satanista que levou a dor e a morte a milhões de portugueses inocentes; o último, na cobardia, falsidade e maquiavelismo com que tratou os milhões de eleitores que nele sempre haviam votado por nele sempre terem confiado cegamente desde a primeira hora.