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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Entrevista da PGR com uma nota importante

Observador:

A procuradora-geral da República (PGR), Joana Marques Vidal, admitiu esta terça-feira em entrevista à Renascença e ao Público, que existe “uma rede que utiliza o aparelho do Estado e outro tipo de aparelhos da Administração Pública para realizar atos ilícitos”, muitos na área da “corrupção”.

Desafiada a comentar sobre uma eventual crise de regime, depois de vários casos de corrupção terem sido tornados públicos envolvendo, alegadamente, altos quadros da classe político-económica do país, Joana Marques Vidal começou por dizer que não lhe competia “fazer análises de regime”, mas admitiu que existe uma rede de corrupção instalada no Estado. Mais: a PGR apontou as áreas da “Saúde e da contratação pública” como os terrenos mais férteis onde germinam este tipo de casos.

Esta parte da entrevista da PGR é a mais interessante porque revela algo importante: há neste momento a percepção de que a corrupção em Portugal é algo assinalável, preocupante e de vulto. O antigo PGR e a antiga directora do DCIAP andaram anos a desmentir este estado de coisas que tinham a obrigação estrita de percepcionar.
O caso do antigo PGR ainda é mais lamentável porque era amigo de quem o nomeou para o cargo e encontrou-se com ele na véspera de o mesmo ser preso por corrupção. Disse depois na televisão ( incrível e que denota o poder real) que foi apenas para falar de livros e viagens...e se calhar ficou a pensar que toda a gente acreditou.
A antiga directora do DCIAP disse recentemente que foi uma surpresa o que aconteceu agora ao antigo primeiro-ministro, apesar de ter sido informada da existência de contas off-shore em nome de familiares do mesmo e movimentando centenas de milhões de euros, relativos a acções de empresas nacionais, o que originou um inquérito que foi mais rapidamente arquivado do que levou tempo a abrir.

É sintomático que a actual PGR tenha dito com precisão que a corrupção se situa essencialmente nas áreas da "Saúde e da contratação pública".

Saúde tem a ver com aquisições de material e com o papel da administração pública, mormente dos presidentes das ARS. Os que mandam na ARS de Lisboa e Vale do Tejo estão aqui identificados. E em tempos já se escreveu aqui sobre o assunto, a propósito de uma notícia do Correio da Manhã de 1 de Março de 2013.

Assim:

"Um indivíduo com 57 anos, médico do Porto, exerceu "vários cargos de chefia" no hospital de S. João, no Porto. Parece que até foi assistente universitário de um das cadeiras do curso. Entre 2003 e 2008 foi presidente do INEM e quando Ana Jorge ( PS) era ministra ( num dos governos de José Sócrates) foi consultar para o ministério, até 2011. O quê? Não se sabe por enquanto porque o jornal não diz. Mas pelo caminho que a investigação jornalística leva, um dia destes ainda viremos a saber. Desde Outubro de 2011 o mesmo indivíduo ( na foto) é presidente da Administração Regional de Saúde. Um gestor do Estado. Não é público: é do Estado que é mais precioso.
O mesmo administrador, que é do Porto, quando era presidente do INEM, arrendou uma casa em Lisboa, em 2004. Onde? Começam as coincidências...
Foi no mesmo prédio da rua Braamcamp, onde José Sócrates e a mãe compraram uns magníficos apartamentos a preços convidativos, segundo foi  notícia de época, ( embora haja quem jure que não, como Herman José que também lá comprou e que jurou terem sido pelos preços certos. Não se sabe muito bem é a quem, com precisão de nomes, mas isso já lá vai). Seja como for, o apartamento arrendado pertence a uma empresa- a Convida, investimentos turísticos e imobiliários- administrada por um certo Paulo Castro. A empresa terá accionistas mas são secretos. O contrato de arrendamento, esse, também é porque ninguém quis dizer ao jornal quanto paga de renda o tal administrador que agora é director da ARS-Lisboa e Vale do Tejo. E quem é o tal administrador da Convida, Paulo Castro?
Ora, é o administrador da empresa Octapharma, em Portugal. A mesma que empregou José Sócrates como caixeiro-viajante para os affaires da América Latina. A mesma que em Portugal domina o mercado do plasma hospitalar e os milhões que movimenta, com uma quota de 60 a 80% do mesmo.
Portanto, resumindo ainda mais: O administrador da Octapharma, Paulo Castro, é também administrador de uma empresa imobiliária cujos donos não se conhecem e que arrendou um apartamento a um funcionário público de luxo, enquanto presidente do INEM, em 2004, consultor do Ministério da Saúde entre 2008 e 2011 e agora presidente da ARS.
A explicação para esta coincidência é dada pelo mesmo administrador da ARS: conhece Paulo Castro há um ror de anos e...são amigos."


Como então se escreveu, o gestor do Estado não é suspeito de nada em especial. Repesca-se o escrito de então:

 Ora bem e falando sério: é preciso saber o que consultou Luís Cunha Ribeiro, desde 2008 a 2011, no Ministério da Saúde. Exactamente o quê e porquê. Onde colocou o nome assinado, onde interveio como consultor, quando ganhava pelo tacho etc etc.
Depois disso é preciso saber que tipo de relação de amizade pode justificar um contrato de arrendamento de um apartamento, por coincidência no mesmo prédio em que também estava a morar o primeiro-ministro de então, feito a uma empresa que era administrada pelo responsável, em Portugal , de uma multinacional farmacêutica que em 2008 conseguiu vários milhões de euros de negócios com o Estado e o ministério da Saúde em particular, onde aquele inquilino era consultor ( mas o que é que consultou, santo Deus? Pode saber-se, ao certo?).
Tudo isso por uma razão que é importante explicar: um gestor do Estado não deve aceitar viver num apartamento que arrendou a um amigo que é simultaneamente interessado em grandes negócios com o mesmo Estado e em que aquele inquilino está em posição de eventual conflito de interesses.
Para já o assunto é meramente ético. Depois, se o jornal descobrir mais coisas, logo se vê.
Evidentemente, eticamente isto é uma grande vergonha. Para quem a tem, naturalmente.

Ah! Já me esquecia: o senhor não tem condições nenhumas para continuar a ser presidente de ARS alguma.

E agora acrescento: depois destes meses todos, parece-me que o senhor em causa ainda menos razão tem para se manter no cargo que ocupa.  Perante o que disse a PGR é essencial que a transparência seja mesmo isso: transparente e clara. 

10 comentários:

Carlos disse...

Deixem o 44, perceber que está encurralado e sem saída, e muita bosta deve vir à tona
Penso eu de que!...

BELIAL disse...

Coincidências.
Há muitas coincidências quando o ps governa.

Se calhar, é o mesmo com outros

Pessoalmente, gosto mais de bater no "ceguinho".
É que nem na trafulhice evidencia competência e profissionalismo, dass!

Floribundus disse...

como gestor de marketing nesta área creio ser isto um grão de areia num deserto africano

infelizmente diz-se ser geral em todo o estado

o assalto ao estado foi a única razão do 25.iv

muitos dos apoiantes do tó syriza monhé sonham com o regresso à massa

'é tão lindo o maganão!'

Monchique disse...

Do Jornal Público de 16-1-2014
«Depois de ter nas mãos o estudo de uma consultora privada sobre a reforma da rede hospitalar que custou 90 mil euros, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) acaba de contratar o ex-presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) para apoiar e assessorar esta reorganização, ao longo deste ano, pelo valor de 74 mil euros.

A contratação, por ajuste directo, decorreu com rapidez, pouco tempo depois de o ex-presidente do INEM Miguel Oliveira ter constituído a empresa POP Saúde – Planeamento, Organização e Prestação de Cuidados de Saúde, Lda. O procedimento foi autorizado pelo presidente da ARSLVT, Luís Cunha Ribeiro, em 2 de Janeiro, a adjudicação recebeu luz verde no dia 8, o contrato foi assinado a 10, e Miguel Oliveira começou a trabalhar nesta terça-feira, 14. “Precisava de um médico hospitalar, não tenho nenhum na ARS. Ele ofereceu-se e eu propus pagar-lhe 30 euros à hora”, explicou ao PÚBLICO Cunha Ribeiro.

São cerca de cinco mil euros por mês (excluindo o IVA), uma quantia que o presidente da ARSLVT considera adequada, tendo em conta a tarefa a desempenhar, e que passa pela “análise, planeamento, implementação, acompanhamento e monitorização” da reorganização da urgência metropolitana da Grande Lisboa e a reforma hospitalar na região, lê-se no contrato assinado com a empresa de Miguel Oliveira. No total, com IVA, este serviço de “consultadoria especializada” vai custar mais de 74 mil euros.

“É altamente vantajoso. É difícil encontrar alguém com a formação e a experiência [de Miguel Oliveira]”, sustenta Cunha Ribeiro, frisando que o médico vai acompanhar dois dossiers muito complexos.

“A pessoa em causa é o único médico em Portugal que tem uma licenciatura em Gestão, outra em Economia e ainda um mestrado em Medicina de Emergência, o que permite conjugar e integrar conhecimentos de saúde, de gestão e economia, imprescindíveis para uma perspectiva de gestão com a componente clínica”, reforça a assessoria de comunicação da ARSLVT, em texto escrito enviado ao PÚBLICO.

Miguel Oliveira foi nomeado presidente do INEM em Outubro de 2010 pela então ministra da Saúde do PS Ana Jorge e permaneceu no instituto durante um mandato de três anos.

Aos 43 anos, este médico especialista em cirurgia pediátrica tem competência de emergência médica e de gestão de unidades de saúde, foi coordenador das vias verdes do AVC e coronária na ARS do Norte e dirigente no Departamento da Qualidade da Direcção-Geral da Saúde. Essa experiência torna a sua contratação “uma mais-valia” para a ARSLVT, “especificamente nas questões relacionadas com urgência/emergência e possíveis reformas da oferta de serviços hospitalares”, frisa a assessoria de comunicação.

Miguel Oliveira e Luís Cunha Ribeiro conhecem-se há muitos anos e trabalharam juntos no INEM, entre 2003 e Janeiro de 2008, quando o segundo, que é medico hematologista, presidiu ao instituto. Miguel Oliveira foi assessor de Cunha Ribeiro ao longo desses anos e, em simultâneo, director regional do INEM no Norte. Depois de ter saído do instituto, em Outubro passado, o médico foi trabalhar para um hospital privado, onde permaneceu pouco tempo. O PÚBLICO tentou falar com Miguel Oliveira, que remeteu qualquer tipo de esclarecimento para a ARSLVT.

Apesar de já ter recebido o estudo da Antares Consulting sobre a reforma da rede hospitalar na Grande Lisboa, Cunha Ribeiro escusa-se a revelar os resultados, argumentando que a ARS está a avaliar e a discutir as propostas e deverá ter este trabalho concluído no final deste mês.»
Mais palavras para quê?

S.T. disse...


Vão chamar fascista à senhora PGR .

Zé Luís disse...

jose, e a notícia de que de 2001 a 2013, na gestão da D. Cândida, aquilo era uma bagunçada no DCIAP e não havia um mínimo de organização e inventariação de meios e recursos humanos sendo impossível gerir e sequer saber das existências no departamento?

Um must! (li no JN)

Hugo disse...

Máfia. Um perigo esta gente.

lusitânea disse...

Eles comem tudo e não deixam nada e depois o contribuinte salva...
Eu quero pagar mais prisões...

JC disse...

O advogado do 44 foi entalado pela jornalista.
A ver a partir do minuto 1,10


http://portugalglorioso.blogspot.pt/2015/02/advogado-de-socrates-apanhado-pela.html

Kaiser Soze disse...

não sei se a crise de regime não será mais profunda, ainda, que a questão da corrupção de forma independente.

O caso do António Costa andar a bater com a mão no peito pelo estado melhor do Estado quando falava com os chineses é sintomático de que a forma ultrapassou, em muito, o conteúdo.
Os Syrizas não são diferentes. O discurdo bélico para o exterior, mormente para os próprios gregos, e, depois, o baixar de calças real demonstram, outra vez, a diferença entre o que se diz e o que se faz...e apesar disso, andam os BEs de cá (ainda existem?) a defender isto.

A PGR falou mas vamos ver, agora, o que faz.