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segunda-feira, 16 de março de 2015

Portugal e o mundo moderno de há 45 anos

Se no tempo de Salazar os costumes eram outros, como eram os costumes no tempo de Salazar e do Estado Novo tardio?

É sobre isso que vou tentar mostrar alguma coisa e do modo habitual: com recortes de jornais. Para mostrar o tempo que passou nada melhor que factos registados desse tempo e imagens que no-lo devolvam na memória, seja  de quem o viveu seja o de quem o interpreta agora através dos sinais. Julgo que é uma boa forma de conhecer o tempo antigo que ainda perdura na memória de muitos, tentando perceber o que mudou, como e quando.
Não vejo outra forma de perceber o passado, sem ser através dos sinais que deixou e muitos mitos advêm da dificuldade em rememorá-lo ou em compreendê-lo através dos signos e testemunhos.

Em 1969 surgiu nos escaparates  uma revista de cariz popular, dedicada a espectáculos e manifestações culturais populares. Quando surgiu em Dezembro de 1968 tinha o nome de Cine Disco e depois de alguns meses de publicação quinzenal assumiu o nome de Mundo Moderno, um achado fabuloso porque mesmo moderno.

Nessa altura de finais de 1969 as manifestações culturais que se produziam cá dentro do país e as que vinham de fora, passavam pelo crivo da censura que era não só política mas também de costumes ( como noutros países europes o era também) .

A produção cultural-musical em Portugal era incipiente e centrava-se em festivais da Canção com imenso auditório nacional, por causa da divulgação televisiva a preto e branco. Nesse ano de 1969 começaram a aparecer os baladeiros e apareceu na tv o zip-zip.

Porém, do estrangeiro vinha a música pop e rock e os êxitos de lá eram os de cá, com um intervalo de alguns meses, suficientes para se publicarem os discos por cá, passando-os no rádio.

Assim, foi em 1969 quanto a mim que se operou uma mudança significativa neste campo musical popular e a revista traduziu isso em páginas de interesse pelo assunto.

Este número do início desse ano é exemplar da mudança que se operava na sociedade portuguesa, a começar pela capa, sem qualquer referência à foto e ao assunto. 


 As letras das canções pop do momento não se encontravam em mais lado algum ( no caso de Revolution dos Beatles, nem sequer no disco "branco")




 A revista tinha um concurso de "misses" que consistia na publicação de fotos de interessadas que concorriam... enviando deste género:

O fenómeno "hippie" aparecido e desaparecido na California em 1967, ainda era notícia por cá, em 1970, no número de 1 de Março desse ano...

Por outro lado, a música popular de qualidade tinha o seu espaço radiofónico no Em Órbita que nesse mesmo ano fez um "top".


Bob Dylan e o festival da ilha de Wight não foi esquecido no nº 37 da revista, de 1 de Junho de 1970.


A par disso publicavam-se alguns textos que dão uma imagem do Portugal de então que alguns ensaios não conseguiriam.

Vale a pena ler, sem grandes comentários porque acho que se apanha um retrato aproximadoo do que era a nossa Nação na primavera de 1970, há 45 anos. E como mudou...


14 comentários:

BELIAL disse...

Não foi assim há tanto tempo...mas parece.

O mundo moderno chegava em imagens soft, moda sem malícia, gente perfilada com aspecto decentezinho...como se fossem à comunhão solene.

Uma ternura, esses anos idos... :-)

Paulo Moreira disse...

Vale a pena ver as imagens desta biografia do Sérgio Borges e do Conjunto Académico João Paulo realizada pela RTP Madeira. Aos 5.48 minutos do video o ambiente é londrino e contrasta com o que se diz do Portugal daquela época. Isto, se as imagens corresponderem ao que está a ser narrado e tiverem sido captadas nesses "eventos".

https://www.youtube.com/watch?v=qKJhLWP9aWs

JC disse...

Excelentes imagens essas, Paulo Moreira, a partir do minuto 5.48.
Que movimento nocturno em Lisboa nessa época!
Que alegria de viver! Que frenesim!

Como essas imagens contrastam tanto com a ideia que se quer passar de um País tristonho, amorfo, sem alegria de viver, à espera de ser libertado da "ditadura fachista"!

Floribundus disse...

fiz o serviço militar em 65 aos 34 anos.

tomei conhecimento na EPC da 'Parada da Paródia' dos 'Parodiantes de Lisboa'

apresentavam as Flausinas a fazer mini-saias da gravata do irmão

'mini-pilas e coisas à boca de sino'

a polícia dos costumes divertia-se a caçar os paneleiros no Parque Eduardo VII. ri-me perdidamente enquanto aguardava a libertação do 'mestre cusinheiro'

amanhã coloco factos da época que já escrevi

Maria disse...

Que maravilha de reproduções. Revistas e notícias deliciosas dessa época, algumas das quais mal me lembro porque não as comprava todas, só me recordo d'alguns dos assuntos e factos nelas abordados (por exemplo, assisti ao vivo num estúdio da RTP a uma actuação do Sérgio Borges que adorei, não só pela pessoa - era de uma simpatia transbordante, assinou-me o programa acrescentando uma dedicatória gentilíssima - mas também pela bonita voz) por lê-los depois numa ou outra do mesmo género que essas, sim, comprava quando vinha a Portugal de férias, antes de regressar a Londres novamente. Devo dizer que as que comprava e em quantidade razoável eram as de cinema norte-americanas, como boa cinéfila que embora muito novinha, já me ia transformando por influência directa de minha Mãe cinéfila ao mais alto grau, por sua vez influenciada pelo facto de meu Avô, seu Pai, ser amigo d'alguns dos grandes realizadores de cinema da época. Bonita e elegante que era, só não entrou no filme "Camões" porque os meus Avós não permitiram... Entrou neste filme uma sua amiga, igualmente muito bonita, que veio a ser muito mais tarde madrinha de baptismo de um dos meus irmãos.

Parabéns José por tão magníficas reminiscências.

José disse...

Então conheceu o António Lopes Ribeiro...

Floribundus disse...

conheci
Baptista Rosa
'imagens de Niza (1949-35mm-P/B) - Realização'

e um outro realizador também militar que pertenceu a Loja onde fui obreiro

a 'volta dos tristes' era Lxa-Sintra-Cascais ou vice-versa

josé disse...

Essa da "volta dos tristes" diz mais sobre esse tempo do que um tratado.

josé disse...

Mas suponho que a geração mais jovem nem sabe o sentido da expressão.

Floribundus disse...

Sobre a moralidade no tempo do fascismo
Décadas 30-40
Por desconhecimento do DNA existia no Alentejo o ditado ‘é meu todo o gado que nasce no meu curral’.
As camponesas diziam aos rapazes cheios de entusiasmo ‘tudo bem menino, mas que o meu marido nem sonhe’. Uma dessas ‘velhas’ teria uns 30 anos e eu 12, viu-me de calções de ginástica junto ao Tejo e disse ‘que vergonha, andam todos desnalgados’. Vim a saber que era conhecida por ‘só é bom do ½ para trás’.
Os rapazes e moças do meu tempo brincavam todos nus aos casados e tiveram a 1ª amante aos 12-14. De dia trabalhavam no campo, à noite dormiam a sono solto.
1948
Namoros de inverno com guarda-chuva para ocultar beijos e não só. Namoros de verão: nas rochas depois da Boca do Inferno uma pedra sobre uma toalha exigia privacidade. Por essa altura as meninas fizeram o favor de não de dar importância, principalmente na praia onde a minha magreza contrastava com os matulões musculosos à Charles Atlas. Vivia numa ‘horta’ ou quinta nos Olivais e, como pela vida fora, andava sempre mal vestido. Tinha por companhia uma parente a quem esconderam o soutien acolchoado, e maldosamente chamavam filha de oficial da marinha por ter o convés corrido
1960
Regresso à pocilga para fazer a vontade a minha Mãe que desejava ver-me trabalhar, casar e terminar com a minha vagabundagem (7 liceus, 3 universidades portuguesas). Instalo-me em casa particular durante uma semana enquanto me organizava para morar na zona suburbana onde trabalhava. Conheci uma moça do 1º ano de medicina com menos 10 anos (minha 1ª namorada), pensávamos casar, mas os pais opuseram-se a qualquer casamento antes de terminar o curso. Era vizinha de familiares meus. O namoro foi tão discreto que ninguém até hoje se apercebeu.
Os meus parentes frequentavam na Lapa uma pensão familiar muito discreta duma senhora viúva que ‘fazia apresentações’ e tinha filhos da idade deles (horroriza-me a promiscuidade física). Um dia um deles subia a escada da moradia e descia um ministro.
1972
Fui almoçar a um restaurante. À porta encontro os ditos parentes e a moça com a família. Fomos apresentados:’-muito prazer Dra Antónia / -o prazer foi todo meu dr. Rui’. Viramos costas para não romper às gargalhadas. Posteriormente fui-lhe apresentado mais 2-3 vezes.
Fiz em segredo um tratamento eficaz para não deixar descendência fora do curral.
A moda muda em todo o lado e este processo foi abandonado quase à nascença por ser barato.
1973
Conheço de vista uma moça que andava sempre de saia ao contrário das amigas que usavam calças. Preguntada por amiga respondeu que não era por não concordar com a masculinização da mulher, mas pela acessibilidade.
1995
Ambos viúvos convidou-me para almoçar na zona do Campo Pequeno. Demasiado velhos e doentes não pensámos casar e afinal ainda estamos vivos. Rimo-nos perdidamente de várias peripécias que as ocasiões nos proporcionaram.

josé disse...

É o filme de uma vida. O que importa é que seja uma longa metragem e tenha um final feliz.

Floribundus disse...

encontrei ultimamente 2 dos 8 volumes de quase diários manuscritos que registei por dormir sentado durante 4-5h
1) Roma 2005 no Pontifício Colégio Português
2) registo de peripécias recolhidas ad hoc de Amigos e conhecidos (80 pg) com o titulo
'confissões de Alberto Berguilha' que vou deixar a um editor Amigo


Floribundus disse...

Obrigado Caro Amigo

Maria disse...

José, os meus Avós terão conhecido de certeza absoluta Lopes Ribeiro. A minha Mãe, pessoalmente, não creio, porque não nos falou nele em especial. Só falou do grande Leitão de Barros (Camões) e de Perdigão Queiroga, estes dois (pelo menos) tiveram relações d'amizade com os meus Avós.

Esta amiga dos meus Pais, que entrou no filme Camões com um papel pequeníssimo, para minha surpresa tem o seu nome no elenco. Constatei este facto há sòmente dois ou três anos por mero acaso, na verdade nunca pensei que o seu nome lá estivesse, quando resolvi pesquizar na Internet para verificar se podia mencionar este pormenor a propósito do dito filme, noutro espaço. Esta Senhora, que era tão bonita quanto as mais bonitas actrizes de Hollywood da época, não prosseguiu uma carreira no cinema porque - e perante a minha surpresa e à pergunta de qual a razão de tal não se ter verificado - segundo a minha Mãe "ela não conseguia decorar os textos...".

Pouco tempo depois das suas curtas andanças pela Tobis, parece ter tido o princípio de um caso amoroso com Perdigão Queiroga, que se terá apaixonou loucamente pela sua estonteante beleza. Paixão essa que não terá durado muito. Isto porque algum tempo depois e ainda segundo a minha Mãe, ele tê-la-á trocado pela Milú! Esta, então no princípio de carreira e sendo bonitinha embora, era muito menos do que a sua rival. A Milú parece ter conseguido seduzi-lo por ter uns ciúmes exacerbados da colega por quem Queiroga se tinha (e continuava) realmente apaixonado!

Pouco tempo depois ela foi para Luanda onde casou pela Igreja. Casamento mal sucedido, durou pouco tempo porque o rapaz era homossexual...
Voltou para Lisboa, mas como não podia casar novamente, teve um relacionamento como casal (viveu junto, como agora se designam estes casos ainda que noutros contextos) com um Senhor conhecido da Sociedade que se apaixonou perdidamente por ela, relacionamento este que durou até ao fim da vida de ambos.