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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Uma aliança luso-americana no Ultramar português?

Em 1962, após o começo das hostilidades guerreiras em Angola, contra Portugal, Salazar mandou seguir tropa "rapidamente e em força" para defender a Província que verdadeiramente nunca fora colónia a não ser de nome, durante umas breves décadas, até ao início dos anos cinquenta.

Nessa altura Portugal ficou isolado da "comunidade internacional" e nem sequer os nossos velhos aliados ingleses  nos valeram.
Os americanos, esses, com Kennedy, eram abertamente anticolonialistas. Portanto, aparentemente,  havia apenas uma alternativa no mundo de então: o isolamento e a luta de guerrilha que aguentamos até 1974. Durante uma dúzia de anos fomos fustigados pela "comunidade internacional" e mediática que exigia a nossa rendição aos "ventos da História".

Havia outra alternativa? Haver, havia, mas...para Salazar a sua escolha seria quase uma capitulação. E no entanto, resta uma incógnita: saber o que resultaria daí se a tivéssemos seguido.

Os argumentos a favor estão aqui, escritos num artigo publicado num livro de autor, de 1962, de Manuel José Homem de Mello- Portugal, o Ultramar e o Futuro.
Os artigos que o compõem deveriam ter sido publicados no jornal Diário de Lisboa da época. No entanto, a Censura não o permitiu.
Para justificar a publicação do livro, o autor escreveu em modo de segundo prefácio ( o primeiro foi escrito pelo marecharl Craveiro Lopes) que " O patriotismo não é monopólio de nenhum homem, nem de qualquer corrente de opinião pública".
Salazar não pensava assim e não permitiu a publicação destes escritos nos jornais.

O argumento central é simples: deveríamos ter obrigado os americanos a envolverem-se no problema do Ultramar porque aí também se desenrolava, objectivamente,  a luta entre as grandes potências que então eram a URSS e os EUA.
Primeiro o prefácio de Craveiro Lopes:


E a seguir, as páginas sobre a questão:



Salazar dizia dos americanos, em 10 de Julho de 1946, o melhor possível: "essa admirável pátria norte-americana que trouxe para a luta, com o seu idealismo e bravura, a força decisiva da maior potência industrial, financeira e militar da Terra" .

Passados alguns anos nem podia ver os americanos. E no entanto, foram os americanos quem melhor combateu o comunismo, dentro e fora de portas. Dentro, com a "caça às bruxas", eliminou na prática os focos subversivos do comunismo. Por cá, tentou fazer-se o mesmo com a PIDE e com prisões a torto e direito, com Censura que nem sequer deixou que os portugueses soubessem quem era verdadeiramente Estaline.
Os americanos não tinham essa Censura e foram muito mais eficazes no combate à raiz do Mal.

E agora, que dizem disto? Que Salazar tinha razão? Nisto não tinha e foi esse um dos erros que nos custou, anos depois, o que temos agora.

52 comentários:

Zephyrus disse...

Aquilo por lá anda assim:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-3046924/Butchered-street-begged-mercy-Savage-moments-Mozambican-man-bled-death-gutter-victim-South-African-anti-immigrant-violence.html

As imagens impressionam mas devem ser vistas por aqueles que defendem certos «realismos fantásticos».

Zephyrus disse...

Os ingleses foram «espertos» e o Niall Fergunson explica bem a dita esperteza.

As multinacionais do mundo anglo-saxónico exploram até ao tutano as riquezas naturais do Terceiro Mundo. Em Londres especula-se sobre o preço de alimentos enquanto na Indonésia morrem à fome. Não há colónias, não há despesas com funcionários públicos. A Rainha permanece onde há brancos em maioria (Austrália, Canadá, Nova Zelândia) ou na Jamaica. E têm a Commonwealth, da qual faz parte Moçambique.

Com os americanos manipulam as elites corruptas e estúpidas e ainda há o lucrativo negócio da guerra.

Para Londres vai o dinheiro das elites de meio mundo, e ainda vão os talentos jovens. Muitos ficam por lá a trabalhar para o patronato inglês.

Estes foram práticos e realistas e não sonharam com o Quinto Império e com miscigenações.

José disse...

"Estes foram práticos e realistas e não sonharam com o Quinto Império e com miscigenações. "

É isto mesmo e ainda há quem não queira entender e sonhe com realismos fantásticos.

Zephyrus disse...

Espertos como são e foram não deram a independência aos pequenos territórios.

Por que não seguimos o exemplo dos franceses e dos ingleses e não ficámos com Cabo-Verde. São Tomé, Timor ou Macau? Estariam agora bem mais ricos do que estão. Timor é aliás um Estado falhado.

Zephyrus disse...

Angola, Moçambique e a Guiné eram areia a mais para o nosso camião.

Tal como o Ian Smith não deu conta da Rodésia nós não daríamos nos territórios continentais africanos.

Até a África do Sul, até esses estão a degenerar para o tribalismo mais primitivo e repugnante.

José disse...

O Caetano não teve tempo e Salazar perdeu tempo.

Zephyrus disse...

O Mário Soares em tempos recentes disse que se tinha arrependido de ter dado a independência a Cabo-Verde.

Lá no fundo também se deve ter arrependido de Timor ou São Tomé. O dinheiro do petróleo daria muito jeito ao Largo do Rato.

Quanto a Macau não sei se aguentaríamos. A pressão da China seria muita.

José disse...

Pois. Este problema costuma ter dois lados: de um estão os indefectíveis do Quinto Império, saudosistas do que nunca experimentaram. E do outro os antifassistas que acham que aquilo nem era nosso nem devia ser.

E no meio estão os que tentam perceber melhor as alternativas.

Uma delas era esta que o tal Homem de Mello, execrado pelos primeiros e principalmente pelos segundos, defendia: uma tentativa de chamar à pedra os americanos.

Por mim, não sei.

Zephyrus disse...

Não sou Historiador. Tento perceber qual seria naquele momento a alternativa que melhor defenderia os interesses portugueses naquele momento, e que melhor acautelaria o futuro da nação.

Com o conhecimento que tenho, sempre me pareceu que estando toda a África independente, nós nunca aguentaríamos Angola, Moçambique e Guiné.

Deveríamos ter sido maquiavélicos. Saído de lá assegurando os interesses económicos das nossas empresas. Nos bastidores, um Governo fantoche que defendesse os interesses da NATO, e os nossos. Se isto fosse preparado com antecedência e sigilo talvez houvesse resultado. E nunca acalentar os sonhos dos portugueses que por lá estavam. Realismo acima de tudo. Vejam o que está agora a suceder na África do Sul.

As ilhas e Timor eram fáceis de manter. Os independentistas seriam de manipulação rápida e qualquer despesa que dessem já estaria paga com turismo e petróleo.

Quanto a Macau tenho dúvidas.

José disse...

Eu também tenho essa opinião.

José disse...

Mas há os que sonham o que julgam que Salazar sonhava e se calhar nunca sonhou.

Um realismo fantástico.

muja disse...

Eu direi algumas coisas. Tenho necessariamente de me alongar um pouco e não será suficiente, mas pronto...

O autor começa logo por basear o seu raciocínio numa premissa fundamentalmente errada e que contamina - e invalida na tese geral - tudo o que expõe.

Impõem-se certas correcções:

a) não foram os totalitarismos "nazifascistas" que mergulharam o mundo no caos. Em boa verdade, nada obrigava as potências "democráticas" francesa e inglesa a declarar a guerra à Alemanha. Aliás, essa decisão, pelo menos no caso francês reveste-se de legalidade obscura, para não dizer duvidosa. Não foram cumpridos os preceitos a que a lei obrigava, e a decisão não passou pela Assembleia como devia (e era provável que dali não passasse, et pour cause).

b) As cedências que, no decurso da guerra, foram sendo feitas à URSS não foram produto de fatalidade histórica nenhuma, por vários motivos:

- os EUA apoiaram maciçamente, com equipamento militar e industrial, a URSS, totalizando cerca de 14 mil milhões de dólares em ajuda (programa Lend-Lease);
- no decurso desse programa foi enviada adicional e clandestinamente toda a espécie de informação sobre a geografia, infra-estruturas, comunicações, telecomunicações, capacidade industrial, etc, americanas;
- para além disso, foi enviado material altamente secreto (a investigação nuclear era supostamente a mais secreta) relacionado com a investigação nuclear, desde grafite a urânio e planos de reactores;

Disto dá conta o Major Racey Jordan nos seus diários publicados e pelos quais testemunhou no House Unamerican Activities Committee.

muja disse...

c) Continuando na senda da alínea anterior, no que toca a estratégia de guerra, é preciso notar o seguinte:

- Após a invasão da Itália, os ingleses pretendiam daí avançar sobre a Europa Central através do Adriático e atingir Viena, Budapeste e Praga. Tal não se fez por insistência do general Marshall na conferência do Quebec, baseado num documento intitulado "Russia's Position" que previa uma posição dominante da Rússia na Europa. Em vez disso, optou-se por uma invasão do sul de França (operação Anvil ou Dragoon) que em pouco serviu para auxiliar a muito maior Overlord no norte.

O general Mark Clark, comandante americano na Itália em 43 diz isto: “If we switched our strength from Italy to France, it was obvious to Stalin … that we would turn away from Central Europe. "Anvil" (the invasion of Southern France) “led into a dead-end street. It was easy to see why Stalin favoured Anvil … After the fall of Rome, Kesselring's army could have been destroyed if we had been able to shoot the works in a final offensive. Across the Adriatic was Yugoslavia … and beyond Yugoslavia were Vienna, Budapest and Prague … After the fall of Rome we ‘ran for the wrong goal,' both from a political and a strategical standpoint … Save for a high level blunder that turned us away from the Balkan States and permitted them to fall under Red Army control, the Mediterranean campaign might have been the most decisive of all in post-war history … A campaign that might have changed the whole history of the relationships between the Western World and Soviet Russia was permitted to fade away … The weakening of the campaign in Italy … was one of the outstanding political mistakes of the war.”

- Quem decidiu a partição da Europa nas linhas que emergiram da guerra foi, pelo menos aparentemente, o general Eisenhower. Em 28 de Março de 1945 Eisenhower informa Estaline, por telegrama directo, de que pararia o seu avanço às portas de Viena. Em 14 de Abril, informa os Chefes do Estado-Maior de que pararia a setenta milhas de Berlim, na linha do Elba. A tudo isto os ingleses protestaram sem efeito, urgindo os americanos a tomar, pelo menos, Viena, Praga e Berlim. O general Marshall, em Washington, notifica Londres de que aprovava tanto "conceito estratégico" de Eisenhower, como o seu procedimento de comunicar directamente com os soviéticos.

Portanto, já se vê que o autor demonstra uma certa ligeireza no enunciar da premissa fundamental de toda a sua tese.

muja disse...

Agora, vamos ao José, que diz foram os americanos quem melhor combateu o comunismo, dentro e fora de portas e Os americanos não tinham essa Censura e foram muito mais eficazes no combate à raiz do Mal.

Para além do acima exposto, que torna logo duvidosa a afirmação de que foram os americanos quem melhor combateu o comunismo, ainda há mais algumas coisas que se podem dizer:

- é sabido que foram os americanos quem apoiou Mao Tsé-Tung na China, com armas e dinheiro, sem os quais nunca teria conseguido chegar onde chegou. Na China, não haveria comunismo sem americanos;
- a guerra do Vietnam foi um desastre em todos os aspectos mas sobretudo no militar: não se combatem guerrilheiros com o aparato de uma guerra convencional (o Dragão, que percebe disto, é quem o diz). Não teriam lá eles quem percebesse?
- em virtude da aliança com os estados tribais do Golfo Pérsico mas sobretudo com o irracional apoio incondicional à entidade sionista auto-proclamada Estado de Israel, os EUA alienaram e passaram para a órbita soviética todos os países moderados do Médio Oriente dando origem ao sarilho que hoje tantas repercussões tem.

Geralmente falando, pode afirmar-se que, durante a guerra fria, tudo quanto os americanos faziam, por aparente inépcia, resultava, mais tarde ou mais cedo, na vantagem dos comunistas. Foi assim na Ásia, na América do Sul e em África.

Por tudo isto, penso que não só se não pode afirmar que "foram os americanos quem melhor combateu o comunismo", como é admissível interrogarmo-nos se este atingiria a dimensão global que atingiu sem o crucial apoio daqueles.

Por fim, em relação à "caça às bruxas", é preciso perguntar: quantas se caçaram? De um conjunto de nomes de alto perfil, - Alger Hiss, Whittaker Chambers, Harry Dexter White ou Harry Hopkins - os dois primeiros comprovados agentes soviéticos e os últimos fortemente acusados disso, apenas se prendeu o primeiro por perjúrio durante cinco anos...

Se o comunismo se não instalou nos EUA como nós o conhecemos aqui não foi certamente por uma caça às bruxas que não tinha apoio das altas instâncias, mas provavelmente porque não era do interesse de quem tinha algum interesse nisso...

Muito mais se poderia dizer, mas uma coisa é evidente: Salazar, como de costume, tinha toda a razão.

muja disse...

Não é preciso sonhar com o que Salazar sonhava.

É suficiente atentar no que ele deixou escrito e feito.

E muita prudência quando se lhe apontam erros.

Porque não só ele sabia mais que nós, em qualquer acepção, como aquilo que nós julgamos saber, de História por exemplo, é que pode ser um realismo fantástico para o benefício de alguns...

Porque ao contrário do outro que nunca tinha dúvidas, Salazar tinha muitas. Daí, igualmente ao contrário do outro, quase nunca se enganar...

muja disse...

Só mais uma pequena adenda em relação às palavras de Salazar citadas no livro.

Admitindo que são exactas, não querem dizer nada. Podem muito bem ser apenas uma contemporização, que nada nos custava, com os vencedores da guerra mundial.

Porém, é de descrer que Salazar tivesse opinião favorável. Durante a guerra houve gravíssima "tensão" diplomática com os EUA, que estiveram a ponto de invadir os Açores e mergulhar toda a península na guerra.

Além disso, operavam nos bastidores contra nós, procurando influenciar o Brasil a entrar na guerra, caso esse em que Portugal ficaria "sob protecção" militar brasileira. Salazar tinha conhecimento directo disto por relatórios manuscritos que lhe eram enviados, como se comprova aqui:

http://ultramar.github.io/pires-de-lima-sobre-o-brasil-da-2a-grande-guerra.html#titulo

Portanto, nem a citação vale de muito...

Floribundus disse...

os gringos continuarão a ser esclavagistas INTERNAMENTE

para fora exportam democracia burguesa para melhor explorar as reservas dos outros

as grandes empresas arrebanham o que podem
qualquer que seja o PR
sabem que nenhum deles presta para nada

queriam as colónias desse por onde desse.

diz-se que o boxexas fez o que os gringos queriam, mas enganou-se no cavalo

van der Meersch está traduzido em português
desmascara o meio médico

sábado temos que aturar as baboseiras dos lateiros

Floribundus disse...

nos comentários devia ficar o registo do Internet Protocol, IP para os utilizadores

Anjo disse...

Muja,

Uma pergunta de ignorante, mas, ainda assim, uma pergunta, retomando o que o José parece ter sugerido: e se Salazar tivesse informado mais sobre os perigos dos regimes comunistas, com exemplos retirados da realidade soviética? Podia ter sido útil para afastar as pessoas desses devaneios? Uma espécie de guerra de contra-informação e de desmontagem da propaganda comuna que por cá ia fazendo adeptos?

Poderíamos ter conseguido alguma coisa com uma tal estratégia? Salazar refere-se a estes regimes nos discursos, mas não em linguagem que todos pudessem entender facilmente.

Anjo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anjo disse...

O VSM vem com esta leitura do 25A:

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4522396&seccao=Viriato%20Soromenho%20Marques&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco

Põe o Cann ao serviço das suas conclusões:

"À sua maneira, este é um livro que ajuda a perceber a grandeza do 25 de Abril. A nossa revolução democrática não foi obra de militares derrotados, mas sim de militares que se cansaram do imobilismo de um regime que havia perdido o sentido estratégico do futuro".

josé disse...

"torna logo duvidosa a afirmação de que foram os americanos quem melhor combateu o comunismo"

A partir desta dúvida não se me oferece dizer mais...

majoMo disse...

O livro de Manuel José Homem de Mello, é expressão dos ventos predominantes nas Elites portuguesas de que o 'Cata-Ventos da História' da época registava e apontava: uma brisa americana ...

Marcello Caetano:

«Enquanto a gente de Angola, desesperada, pedia auxílio e armas, Lisboa atravessava uma fase de perplexidade. Dera-se, havia pouco, o episódio da aventura pirata da tomada do paquete «Santa Maria» que houve quem relacionasse com os subsequentes acontecimentos africanos. Envelhecido, magoado e torturado, o Dr. Salazar parecia carecer da flexibilidade de movimentos, da rapidez de decisão e até da firmeza de convicções que o momento requeria. Nas Forças Armadas respirava-se um ambiente de inquietação». «E no Departamento da Defesa Nacional, como no Ministério do Exército, havia a sensação de não lhes serem dadas as facilidades indispensáveis para agir. Aliás, perguntava-se, haveria possibilidades de resistência eficaz contra o que parecia ser um movimento irresistível desencadeado pelos ventos da História? Não seria preferível entrar desde logo no jogo então conduzido pelos Estados Unidos da América? Nasceu daqui uma tentativa de golpe de estado, facilmente abortada»

in «Depoimento» - Marcello Caetano - pág. 26 e 27 - Edição «Distribuidoras Record» - Rio de Janeiro.

Fernando Pacheco de Amorim:

"O então ministro da Defesa Nacional, antigo adido militar em Washington, general Botelho Moniz, e o subsecretário de Estado da Guerra, então tenente-coronel Costa Gomes, ( ... ), tinham preparado cuidadosamente o terreno para que o surto terrorista impusesse pela força das armas a solução da autodeterminação, de acordo com as resoluções da ONU. Na verdade, quando tinham assumido os seus altos postos no Governo, encontraram no território de Angola um sistema de defesa militar que havia sido montado, logo após os acontecimentos do ex-Congo Belga, pelo então ministro da Defesa Nacional, general Santos Costa, dispositivo este que silenciosamente desmontaram, deixando a Província totalmente indefesa".

in Fernando Pacheco de Amorim, "Portugal Traído", Madrid, 1975.

P.S.: A UPA tinha ligações manifestas com a brisa predominante americana...

majoMo disse...

"Para mais, a União Soviética não desejaria que caissem em poder de Washington as posições portuguesas, e Washington não quereria que estas caíssem em poder daquela: as duas grandes potências excluiam-se mutuamente: e por isso Portugal ficava com a faculdade de optar entre três políticas, quer dizer, não ceder, ceder a Washington, ceder a Moscovo. As duas últimas políticas não ofereiam dificuldade: entregar é sempre fácil. Era mais difícil a primeira política: mas era essa que estava de harmonia com os direitos portugueses, os interesses portugueses, e o perfil histórico da Nação. E os tempos nem eram outros nem eram novos: estava-se em face de um quadro de ambições que repetia quadros passados: apenas diferiam os nomes, os personagens, e os mitos. Não se tratava de ser arcaico, ou de se querer regressar aos tempos imperiais, ou de se pensar que tudo é imutável e eterno. Tratava-se de se ser independente e de ter uma visão lúcida e realista da conjuntura".

""Todas estas propostas de solução, e outras semelhantes, giravam em torno de uma ideia sempre muito comum no escol português: a de que é possível adoptar simultaneamente políticas contraditórias e de obter de cada uma apenas os benefícios e afastar os respectivos prejuízos. No caso concreto, pretendia-se conservar o ultramar, manter o ultramar - mas sem luta, sem sacrifício, sem esforço. Quando se trata de fazer um sacrifício, o escol português (não o povo) logo pretende recorrer à habilidade, ao expediente, à esperteza, aparentemente na convicção de que os adversários são ingénuos ou tolos, e de que se deixam iludir com soluções que os satisfariam em palavras mas não lhes entregariam a realidade das coisas. Portugal era atacado em África por forças que queriam possuir Angola e Moçambique: sabiam perfeitamente quando é que deteriam essa posse, e não se contentavam com fórmulas, palavras, arranjos ou construções políticas ou jurídicas que não lhes dessem tal posse, de uma forma concreta, física, material. Recorde-se que no escol português havia quem advogasse uma política inteligente, uma política flexível, uma política realista, uma política que alcançasse o máximo e predesse o mínimo, uma política de negociação; mas em nenhum caso se definiam essas políticas, nem se desejava, nem se queria, nem se julgava que qualquer delas conduzisse à perda. E esses não pareciam ver que o adversário, por seu turno, era intransigente, inflexível, recusando compromissos, meias soluções e meias políticas".

in Franco Nogueira, "Diálogos Interditos - Parte Primeira (1961-1962-1963)", Ed. Intervenção, 1979.

Vivendi disse...

"Estes foram práticos e realistas e não sonharam com o Quinto Império e com miscigenações. "

É isto mesmo e ainda há quem não queira entender e sonhe com realismos fantásticos.

O José esquece-se sempre do exemplo do Brasil...

O Brasil recebeu mais imigrantes europeus na sua época colonial do que os Estados Unidos da América. Entre 1500 e 1760, 700.000 europeus se instalaram no Brasil, enquanto 530.000 europeus se instalaram nos Estados Unidos no mesmo período.

Hoje a Angola e Moçambique poderiam ser algo do mesmo estilo. Foi por pouco. Mais 2 décadas e estava feita a civilização à moda do V império.

Hoje a África até mete nojo.
Esta semana na África do sul andam a dar porrada nos brancos...

josé disse...

A questão é:

E se? E se tivesse existido o pacto com os americanos?

josé disse...

"O Brasil recebeu mais imigrantes europeus na sua época colonial"..

Como? Eram voluntários?

josé disse...

Angola e Moçambique é terra de pretos. O Brasil não era.

Vivendi disse...

José,

Onde andam agora os ventos da história?

Na Síria, talvez?
E a provocar remoinhos no mediterrâneo para em breve entrar em solo europeu...



"A Europa de portas arrombadas, os seus povos transidos pela inquietação que roça o medo, os governos impotentes, tiranizados por décadas de auto-flagelação cultural. O que faz o primeiro-ministro britânico ? Veste-se de Sikh e reza a Akal Purakh para angariar votos. O que faz SS o Papa ? Ora, diz aos migrantes que entrem e que se instalem. Será o princípio do fim."

Miguel Castelo Branco

josé disse...

A ideia de Franco Nogueira é a do realismo fantástico. Não conta.

Vivendi disse...

Angola e Moçambique é terra de pretos. O Brasil não era.

A proporção de brancos na época da colonização era de 30% o resto eram caboclos, índios e negros.

Zephyrus disse...

O Brasil era terra de outra raça.

E a colonização pura e dura começou logo nos quinhentos, pelo menos no litoral, e isso faz muita diferença.

Do outro lado do Continente a raça era a mesma, com outro avanço civilizacional, mas o que fizeram os espanhóis? Mataram-nos, chacinaram milhões de nativos. E fizeram o mesmo nas Canárias aos guanches.

África era terra de doenças, como a famigerada doença do sono. E isso afastou muito tempo os europeus, que tinham destinos com ares mais saudáveis, e mais seguros, para se fixarem, como o Novo Mundo...

Perdidas as colónias nas Américas, no século XIX, as potências europeias viraram-se para África...

Mas o negro que vive abaixo do Sahara é outra raça... bem como o zulu da África do Sul... sangues diferentes, para quem me entende...

Terra de pretos, com colonização efectiva muito tardia. Não daria resultado.

Zephyrus disse...

«Mais 2 décadas e estava feita a civilização à moda do V império. »

Acho que está a ser ingénuo.

Duas décadas? Não ia dar.

Com toda a África independente e sem aliados. Gente de cabeça fraca a receber de fora a mensagem contra o branco colonizador que oprime o pobre povo negro.

Na África do Sul o rei Zulu falou e agora matam os outros negros. O que fariam aos brancos?

Zephyrus disse...

Aquilo só daria resultado se tivesse começado a ser desbravado muito cedo, séculos atrás. Iria haver chacina de nativos, pela certa, pois de outra forma não seria possível. Genocídio, portanto. E Portugal estava mais virado para o comércio e evangelização, nunca houve por cá vontade de matar nativos. Quem teve esse talento foram os espanhóis. Já agora, África era terra de doenças, com uma dimensão que não havia nas Américas.

João José Horta Nobre disse...

"Passados alguns anos nem podia ver os americanos. E no entanto, foram os americanos quem melhor combateu o comunismo, dentro e fora de portas. Dentro, com a "caça às bruxas", eliminou na prática os focos subversivos do comunismo. Por cá, tentou fazer-se o mesmo com a PIDE e com prisões a torto e direito, com Censura que nem sequer deixou que os portugueses soubessem quem era verdadeiramente Estaline."

Eu já critiquei por diversas vezes a actuação da PIDE que perdia muitas vezes tempo a ir atrás de pobres camponeses semi-analfabetos, em lugar de se concentrar naquilo que realmente era essencial.

As obras comunistas deviam de ter sido leitura obrigatória nas escolas. Eu com 15 anos já dava os meus primeiros passos no "Das Kapital" de Marx.

Resultado: Tornei-me um anti-comunista ferrenho...

José disse...

Ainda bem que me lembra isso porque tenho um "recorte" interessante sobre o assunto.

Mais logo mas nem prometo que hoje é dia de escravatura.

muja disse...

Hão-de desculpar, mas nem vós, nem ninguém tem o direito de dizer o que daria ou não, eventualmente, resultado, como justificação para alienar uma coisa que era nossa, incluíndo dos que estavam para vir, lá como cá.

Só depois de tentarmos tudo quanto pudéssemos, de fazermos o melhor que pudéssemos fazer, se poderia chegar a conclusão semelhante. Fizémo-lo? Não. Podia ter-se feito mais e melhor.

Depois, é uma profunda falta de consideração pelos pretos, e não eram nem foram poucos, que deram a vida pelos brancos. Pretos que se sacrificaram para salvaguardar as vidas de patrões e amigos quer no início quer no próprio fim da guerra dos quais há inúmeros testemunhos.
E os pretos que combateram ao lado de brancos nas Forças Armadas em uniforme português, e deram a vida pela Pátria como muitos brancos não souberam nem quiseram fazer.






muja disse...

Em relação a um pacto com os americanos, que pacto seria esse, concretamente?

Que garantias nos oferecia?

Demais a mais, com que americanos se realizaria?

Porque é preciso notar que os americanos são, na realidade, vários grupos e interesses frequentemente em concorrência uns com os outros. Mesmo dentro das administrações, dos governos, é comum os departamentos rivalizarem entre si e possuírem doutrinas e objectivos muitas vezes opostos: o de Estado o dos Estrangeiros, o da Defesa...

Francamente, fico espantado que ainda haja hoje quem entretenha essa ideia ingénua, depois de tudo quanto se já viu da forma de actuar americana em relação aos seus "parceiros"...

Unknown disse...

"Depois, é uma profunda falta de consideração pelos pretos, e não eram nem foram poucos, que deram a vida pelos brancos. Pretos que se sacrificaram para salvaguardar as vidas de patrões e amigos quer no início quer no próprio fim da guerra dos quais há inúmeros testemunhos.
E os pretos que combateram ao lado de brancos nas Forças Armadas em uniforme português, e deram a vida pela Pátria como muitos brancos não souberam nem quiseram fazer."

Porra, estava a ver que ninguém dizia isto!
O que é isso de Angola é terra de pretos? Portugal é terra de brancos?
Felizmente ensinaram-me outra doutrina: Portugal é terra de portugueses. E traidores brancos também nunca faltaram.
Mil vezes "fascistas como o Silvério Marques", que via Portugueses onde hoje se vê o Outro.
Hoje é fácil defender que devíamos ter vendido Aquilo a quem dava mais, que mais valia recebermos uns trocos do que sair de mãos a abanar. Pois sim, talvez. Mas na altura havia gente que achava que isso seria indigno. E, verdade seja dita, nesse aspecto Marcello esteve sempre do lado certo.

Miguel D

José disse...

Deixemo-nos de romantismos miscigenados.

O preto é preto e o branco é branco.

Isto não é racismo mas pura realidade.

Em Angola nunca seria possível um primeiro-minitro branco, caucasiano. E Moçambique idem.

E isto nada tem de especial. Os pretos e os brancos são todos filhos de Deus e por isso não distingo as raças com essa conotação de estabelecer padrões diferenciados de qualidade.

O que distingo é que quem nasceu em África e tem origem nesse continente, é preto. Quem nasceu nas Américas é índio, sendo nativo original.

Quem nasceu na Ásia é asiático e tem olhos em bico que são diferentes dos nossos.

Os eslavos são diferentes dos teutónicos ou dos latinos romanos.

E essa diversidade rácica tem tudo uma origem que para mim é Deus.

Por isso escusam de me acusar de racista que comigo não pega.

Vejo é diferenças onde elas existem e não sou hipócrita.

Unknown disse...

José,
A sua resposta sai totalmente ao lado.
Em primeiro lugar não o acusei de racismo, Deus me livre. Nunca vi nada escrito por si que me indicasse que considera existir diferença de dignidade conforme etnias, pelo contrário.
Nem referi que preto não é preto ou que branco não é branco. É óbvio que preto é preto e branco é branco. Essa não é a questão.
A questão é: preto de África pode ser português? A resposta durante os consulados de Salazar e Marcello foi clara: pode sim senhor. Qualquer leitura de hoje sobre "o que teria sido se..." não pode é passar por cima do facto de Salazar e Marcello considerarem indigno vender o Ultramar porque para eles aquilo ERA Portugal e os que lá viviam eram portugueses.

Miguel D

José disse...

Eu percebo que tenha dito sem aquela intenção implícita. Mas há quem tresleia e por isso fica já esclarecido.

Quanto aos pretos poderem ser portugueses e os brancos angolanos nada a opor.

A questão é outra:

Um branco caucasiano pode ser facilmente presidente de Angola ou Moçambique.

E um preto poderia ser presidente da República de cá?

E ainda outra mais especiosa: qual seria mais fácil de acontecer?

Essas realidades fantásticas da miscigenação é que não me convencem e julgo que também não convenceriam o próprio Salazar.

Unknown disse...

O actual presidente da Zambia é este.
http://en.wikipedia.org/wiki/Guy_Scott

É certo que é a excepção, mas demonstra que não é impossível.

Miguel D

muja disse...

Pois também eu não falei em racismo; falei em falta de consideração, e reitero.

Porque dizer não era possível fazer nada daquilo, e mais argumentando-o com exemplos do presente, é desconsiderar quem lá se esforçou para que o fosse e quem não foi dada a oportunidade de levar a cabo esse trabalho.

Muitos colonos e brancos lá nascidos se esforçaram. Mas também muitos pretos que por lá nascidos se apontam incapazes. Por força das circunstâncias, muitos, admito mesmo a maioria, talvez o fossem. Mas outros não eram porque as circunstâncias estavam a mudar. E menos seriam à medida que o tempo passasse e os fundamentos da sociedade portuguesa se enraízassem e fundissem com os elementos válidos das culturas que por lá havia. E tal ia acontecer porque é o que acontece quando as pessoas vivem em paz e justiça e se lhes dá tempo e espaço para que se compreendam mutuamente.

De qualquer maneira, a ninguém competia dizer que não era possível. A todos competia tentar ou não estorvar quem tentasse.

josé disse...

muja: o suicídio pode ser um acto nobre, mas apenas em certas culturas. A japonesa, por exemplo.

muja disse...

Mas qual suicídio afinal?

Objectivamente, e na altura, qual era o suicídio?

Porque vir agora dizer que os pretos na África do Sul ou sei lá onde são assim ou assado, também eu... Depois de lhes martelarem a cabeça com toda a trampa, e de serem agitados sem descanso, tanto faz que fossem pretos como às pintas...

josé disse...

O suicídio é entrar em aventuras sem regresso a salvo.

Em Goa, Damão e Diu não houve suicídio mas parece que havia quem o quisesse...

muja disse...

Já se explicou para que era.

Não tinha nada que ver com suicídio, mas sim com ganhar tempo para manobras diplomáticas.

josé disse...

Eu também concordo com isso, mas...tal seria o que era proposto pelos adeptos da aliança luso-americana.

muja disse...

No postal acima tem a razão pela qual essa proposta era, como dizia Franco Nogueira, uma idiotice.

Não ia ganhar tempo, ia precipitar tudo. É o próprio Marcello Caetano quem lho diz.

Os ataques contra Portugal não se iam alterar, iam aumentar. Não íamos ficar menos isolados, íamos ficar mais. Para encurtar o prazo...

Fascista não tem perdão...

José disse...

Quod erat demonstrandum.

muja disse...

Não demonstra nada porque no caso de Goa, a manobra diplomática era com a China e não com a Índia, com a qual já não podia haver discussões, apenas imposição de condições pela força. Era essa força que se buscava com as manobras diplomáticas.

E não podia precipitar mais nada porque já se tinha precipitado tudo.

No caso de África era diferente. Não se tinha precipitado tudo, éramos perfeitamente capazes de nos defender contra a agressão, como fomos.