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terça-feira, 30 de junho de 2015

Recluso 44: regressa a teoria da cabala...



O Diário de Notícias andava desde Novembro a tentar entrevistar o recluso 44, segundo escrevem Nuno Saraiva e Paulo Tavares na edição de hoje. Sempre negas. "No início de Junho" lá aceitou e o resultado sai na edição de hoje: uma entrevista cozinhada com o tempero do entrevistado e portanto toda ao seu gosto e paladar.
O jornal acha que isto é um furo jornalístico mas quem lê apercebe-se que é mais um logro porque é simples propaganda do recluso para reafirmar a sua "narrativa" e solidificar a ideia de que a sua prisão é uma cabala. Afinal foi organizada para lixar o PS nas próximas eleições...
Temos assim um MºPº conluiado com um juiz de instrução a que se juntaram mais uma dúzia de magistrados de tribunais superiores, todos arranjados na tramóia política de sapar as eleições ao PS e que pelos vistos estariam no papo.

A entrevista foi para passar esta mensagem e proclamar mais uma vez o estatuto de preso político. Sobre os factos puros e simples pouco ou nada. "O ex-primeiro ministro recusou pronunciar-se sobre as questões relacionadas com os ´empréstimos`de Carlos Santos Silva e o seu estilo de vida, por as considerar ofensivas e na linha dos interrogatórios do MºPº".
Tal e qual e o jornal aceitou e calou. Isto é que vai um jornalismo de frete, hein!? Coitados, nada mais podem fazer...senão cortam-lhes a colecta e o presidente do conselho de administração vigia...


A última pergunta é: "a política para si acabou?"
Resposta pronta: "oh, pelo contrário. Isto ainda agora começou".
De facto, assim parece ser e esta entrevista insere-se nesse propósito bem definido.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

As ocasiões e os milhões

Nestas três notícias do Correio da Manhã de hoje há um elo de ligação: milhões de euros do erário público geridos por governantes conhecidos, nos últimos anos. E outro ainda: a sindicância dos organismos de supervisão detectou anomalias que suscitam perplexidade pelo montante e importância dos valores envolvidos e geridos por quem deveria ser o mais rigoroso, isento, parcimonioso, sério, competente e transparente possível, ou seja aqueles que nos governam por mandato democrático e quem os mesmos nomeiam para exercerem funções públicas ou que lidam com dinheiros públicos.

Na primeira notícia dá-se conta que uma firma de consultadoria económico-financeira -Perella Weinberg Partners, com um sócio português, Paulo Pereira - assessorou o governo ( Parpública)  na operação de privatização da REN e EDP e por "ajuste directo" efectuado pela Caixa BI ganhou mais de dez milhões de euros ( seria interessante verificar a nota de despesas...).
 O Tribunal de Contas, entidade de supervisão,  apontou tal facto e criticou severamente tal operação que se lhe apresenta como um sério abuso de "facilidades": a Caixa BI foi contratada por ajuste directo e por sua vez subcontratou por ajuste directo também, a referida firma, numa operação desta envergadura.

Se isto cheira a esturrro? Para já é apenas o fedor da opacidade e irregularidade detectada..




Depois, o negócio que a mesma CGD do tempo glorioso de Armando Vara ( condenado num processo pendente em cinco anos de prisão efectiva por crimes similares ao de corrupção).
Lendo, fica-se a perceber o fedor e o esturro que ainda se encontra em análise no MºPº

Por fim, outro assunto envolvendo a "gestão autárquica" na Câmara de Gaia, pela dupla de magníficos Menezes&Marco. É ainda o tribunal de Contas a dizer que foi uma pouca-vergonha o buraco financeiro detectado nas contas da autarquia, cavado por aqueles autarcas, um deles agora no governo e com posição hierárquica de topo e o outro retirado e com as barbas de molho.
O descalabro nas contas detectado pelo TC deveria ser sinal impeditivo de qualquer oportunidade de participação na gestão de coisa pública destes dois indivíduos. Qual quê!

Portugal não é a Grécia, mas estes três exemplos colocam-nos ao melhor nível dos países da América Latina de antanho que eram os costumados países "terceiro-mundistas", sinal de que a democracia por lá ainda era uma quimera e que perigosamente nos lembra que por cá andamos perto dessa miséria.

Em Portugal, os avisos do Tribunal de Contas, com a seriedade dos indicados é coisa tomada como menor e não tem qualquer reflexo prático na responsabilidade política.
 Não admira por isso muito que alguns entalados excelentíssimos proclamem inocência, perante a perplexidade geral.  Um dos visados, o excelentíssimo Meneses,  já comentou o acórdão do TC dizendo que "é uma opinião de mercearia"...
Este indivíduo em tempos quis ser líder do PSD.

Tudo isto fica no limbo reservado da "responsabilidade política" que é tratada do modo indicado, pelos meneses de Portugal: coisas de mercearia.
Quanto à criminal, ainda menos atenção merece porque os crimes de administração danosa parece que são apenas para designar a actuação dos responsáveis pelo BPN ou o BES ou coisa assim  e que , aliás,  nem os podem praticar...

Esta forma de entender os negócios públicos e o modo de actuar da parte de quem governa é absolutamente vergonhosa e com laivos de crime escondido com milhões de fora e ninguém fala disto seriamente em on, preferindo esconder os off, pondo a falar os louçãs, jorges coelhos e demais bagões em quadraturas de círculo e prós e contras sobre o segredo de justiça. 

É que eles sabem o que valem estas ocasiões e os milhões que estão em jogo...e quem os aproveita. E se nestes casos tais negócios são "limpos" e sem mácula, o melhor seria então evitar os reparos das instâncias de supervisão. O contrário revela no mínimo uma incompetência que devia ser absolutamente incompatível para governar e ser escolhido como governante, mesmo e principalmente de autarquia.
Se as opiniões de mercearia são apanágio dos tribunais nestas contas de sumir, então deveria evitar-se que estes indivíduos tivessem ocasião de vender azeite fora da tabela ou passar mercadoria por baixo do balcão. A ocasião faz o ladrão, como diz o povo...

Tal como dizia o advogado Júdice há uns meses, aquando da detenção do recluso 44, pelos factos já então conhecidos dos milhões emprestados, se tal se revelasse verdadeiro seria sinal de uma enorme estupidez. Por uma razão que aliás explicou claramente: há outras formas de fazer as coisas que não dão nas vistas desse modo.

Ninguém na tv ( uma Lourença qualquer) teve o cuidado básico de lhe perguntar como é que se fazia e ele dava mostras de saber muito bem...

domingo, 28 de junho de 2015

Em Portugal é disto que temos...

 Daqui, memórias de um inteligente...chamado Daniel Oliveira

O “conto de crianças” que Tsipras e Varoufakis conseguiram ver aprovado em troca de mais financiamento foi um programa de combate à evasão fiscal, à corrupção e ao desperdício. De extensão de apoios sociais, com garantias de fiscalização. De aumento do salário mínimo. De combate ao endividamento das famílias e de mais justiça fiscal. Do fim do processo de privatizações. Da morte definitiva da troika, com a valorização da OCDE e da OIT. E de aplicação de parte de um programa de emergência social. Podem tentar transformar isto numa derrota. Se um governo nosso conseguisse, sem que Portugal esteja no aperto que a Grécia está, metade disto eu festejaria. É só um começo de uma guerra que será dura. Mas é um bom começo. Como fica evidente com o torcer de narizes do BCE e do FMI.

Em Portugal, há quarenta anos tínhamos deste tipo de inteligentes às dúzias. Foram os autores do PREC...e nada esqueceram e nada aprenderam, dos paizinhos ou dos inteligentes que os ensinaram.

Porque é que Portugal está condenado a ter estes palermas sempre a perorar sobre o que não sabem porque descuram o que é sabedoria chã e antiga?

É preciso ainda dizer que o couto privilegiado desta espécie de inteligentes é a Impresa do senhor Francisquinho Balsemão, outro finório. Tem lá toda a tralha que lhe faz falta para esta pouca-vergonha e não desiste de arruinar a decência que seria exigível ao jornalismo competente e sério.

Em tempo:

É preciso não esquecer que ainda há três meses havia outros inteligentes a pedir isto:

 Da esquerda à direita, são 70 as personalidades que apelam, num manifesto, à reestruturação da dívida. A dois meses do final do programa de ajustamento financeiro, várias figuras de relevo e de diferentes quadrantes políticos defendem a reestruturação responsável da dívida.

O teor documento é antecipado esta terça-feira pelo jornal “Público”, segundo o qual o documento inclui as assinaturas de personalidades como Adriano Moreira, Bagão Félix Manuela Ferreira Leite, João Cravinho, Carvalho da Silva, Francisco Louçã, Ferro Rodrigues e Manuela Arcanjo.

O manifesto visa “apelar à preparação da reestruturação responsável da dívida para crescer sustentadamente, para criar emprego, para que haja futuro, em vez de estarmos a repetir do passado e de, em austeridade em austeridade, estarmos cada vez pior”, indica à Renascença, João Cravinho, o principal promotor do documento. 


Quem os capitaneava? O incrível Cravinho, o mesmo que para combater a corrupção na JAE criou um sistema em que a corrupção aumentou...

Dogmática censória



O Estado Novo de 1933 aparece com uma Constituição cujos princípios não eram declaradamente os mesmos dos "países democráticos" ocidentais.  
Tal era assumido sem peias, após a experiência caótica dos anos precedentes e proclamou-se a superioridade do modelo como  novo, "para abraçar toda a actividade familiar, económica, social e espiritual da Nação, ajustando-lhe as instituições políticas em concordância com a sua índole e construindo o Estado sobre as realidades da existência coleviva."

Em 1930, a União Nacional que se criou visava integrar a Nação na sua estrutura política em via de se definir e "enquadrar nas suas fileiras de uma organização única, estranha a qualquer espírito de partido, quantos estivessem dispostos a trabalhar pela realização das ideias do nacionalismo português". 
Em 1937 o Estado Novo proclamava que "Portugal é hoje um país onde reina a ordem, existe a certeza do dia seguinte e a tranquilidade indispensável  ao fecundo exercício das actividades produtivas", porque "foi pela resolução do problema da ordem pública e da questão financeira que o País recuperou a consideração externa de que dependia a restauração do seu prestígio internacional".
"O terrorismo só é possível onde a matéria plástica da mentalidade colectiva está pronta a reagir simpaticamente. Num país onde se criou uma unidade moral e com ela a convicção da estabilidade das instituições e do valor da paz interna, os terroristas estrangeiros e os seus discípulos perdem o tempo e o feitio.
E a demonstração está feita. E está mesmo provado que tentativas dessa natureza só servem para estimular o espírito de defesa do grande número dos cidadãos que se erguem à compreensão da necessidade de se organizarem para a resistência contra os que pensem em perturbar a paz interna e ameacem a segurança dos lares portugueses.
Foi da lição do comunismo espanhol que resultou a formação dessa força magnífica de choque, decidida e pronta, que é a Legião Portuguesa.

Estes excertos são da obra O Estado Novo- Princípios e realizações, edição SPN 1937.
O terrorismo referia-se inequivocamente ao comunismo  internacional e que tinha chegado às nossas portas nesse tempo da guerra civil de Espanha. Estaline estava na URSS e a ambição internacionalista e "proletária" era evidente.
O Portugal de Salazar defendeu-se programaticamente para manter os valores que não eram de modo algum os comunistas.  Deus, Pátria e a Família que não eram conceitos discutíveis publicamente.
A ideia básica de Ordem nas finanças públicas, na sociedade e na administração conduziu necessariamente à repressão de quem  a pretendia subverter para substituir por uma outra ordem , no caso, comunista.
Na Educação, em  1936 operou-se uma mudança estrutural e fundamental:  "ela corresponde a uma nova compreensão , integral e perfeita, da missão do Estado na formação das gerações mais novas.
Até aqui cuidara-se apenas de instrução, entendendo-se por instrução a cultura intelectual que se endeusara ao ponto que a preparação física e moral deixara de contar. O nosso ensino fabricava em série uma multidão de pequenos sábios, com o cérebro mobilado por um sem-número de noções  mal assimiladas e de conhecimento em confusão que faziam deles enciclopédias baratas. (...)Rompeu-se com o estéril enciclopedismo racionalista para se lhe sobrepor a visão da finalidade de uma educação capaz de criar homens robustos, possuidores das grandes noções fundamentais para a sua função social e das virtudes do civismo e moralidade que se exigem nas gerações a quem havemos de confiar o destino de Portugal. "

Destes conceitos nasceram a Mocidade Portuguesa e a Obra das Mães pela Educação  Nacional e o SPN- Secretariado para a Propaganda Nacional que era um organismo de formação cultural dessas ideias, através de prémios literários e artísticos e a criação do Teatro do Povo e do Cinema Popular, para divulgação "pelos confins das províncias, às pequenas aldeias perdidas. essa forma moderna de expressão artística e de proveitosa lição das coisas."

Para além disso, "deve-se ao Estado Novo o ressurgimento da ideia de Império e com ela a formação de uma nova consciência das coisas coloniais. Recuperamos uma mentalidade afirmativa e construtiva, inflexivelmente disposta a realizar a nossa missão de grande potência. Renasceu o espírito de legítimo orgulho, de amor ao domínio, de tenacidade e decisão. Renasceu a vontade portuguesa de Império".  E tal foi proclamado oficialmente e com valor constitucional, no Acto Colonial de 1933 que "constitui o diploma fundamental do Império".
Eram estes os valores do Estado Novo, essencialmente.  "Uma concepção ocidental e cristã filiada no espírito da civilização nacional".

Devemos envergonhar-nos disto que foi a nossa História pregressa dos últimos 40 anos anteriores a 1974?  Não, no meu modesto entender. 

Em 1974 tudo isto ruiu com fragor porque o edifício que o  Estado Novo foi construindo estava minado quase desde o início, pelas infiltrações intelectuais da esquerda então reprimida mas subterraneamente activa. Praticamente desde os anos 40, conforme é reconhecido por aqueles que se lhe opunham.
Para sustentar essa Ordem e escala de valores que provinham da nossa ancestralidade católica e ocidental, essencialmente anti-comunistas e assentes no temor do que ocorrera na Guerra Civil espanhola , o Estado Novo carecia de meios e um dos mais evidenciados tornou-se a Censura das ideias esquerdistas comunistas.

Esta matriz do Estado Novo que proclamava efectivamente uma concepção ocidental e cristã e filiada na civilização nacional não poderia permitir veleidades de propaganda ao adversário que a procurava minar e destruir em nome de um internacionalismo comunista e que afrontava nitidamente os princípios da civilização ocidental e cristã. A defesa era então legítima. Os meios poderão no entanto, ter-se revelado excessivos. 
Uma das formas que o Estado Novo encontrou para enfrentar tal ameaça ( e é preciso não esquecer que o comunismo estalinista desse tempo era infinitamente mais duro e eficiente na repressão de quem se lhe opusesse, pois para o provar estão documentados os "processos de Moscovo" da mesma época) foi a Censura, para a além de uma polícia política de defesa do Estado.

A defesa do Estado Novo contra o comunismo passou sempre por aqui: a repressão pura e simples, com eventual prisão, das pessoas que aderiam a ideias comunista e quisessem propagandeá-las  em modo subversivo, partidário ( o PCP era já uma força política clandestina, proibida naturalmente, na lógica do que se passara em Espanha, como hoje é proibido o "fascismo")   e ao mesmo tempo a uma política oficial de silenciamento generalizado da propaganda  dessas ideias, com pequenos requintes de inquisição vinda directamente do século XVI ( com um index librorum prohibitorum quase recalcado da Igreja Católica)

A Constituição de 1933 assegurava como direitos dos cidadãos a " liberdade de expressão de pensamento sob qualquer forma", bem como a "liberdade de reunião e associação", no artigo 8º  na redacção após a revisão de 1959. Porém, num parágrafo subsequente estabelecia que " Leis especiais regularão o exercício da liberdade de expressão do pensamento, do ensino, de reunião e associação, devendo quanto à primeira impedir preventiva ou repressivamente a perversão da opinião pública na sua função social, e salvaguardar a integridade moral dos cidadãos".

Portanto, a legitimação da Censura era constitucional desde 1933 e com o objectivo declarado de poupar os cidadãos à propaganda comunista e de subversão de outros costumes. 

A questão que se pode colocar e que me parece fundamental dilucidar é saber se tal Censura foi eficaz nessa prevenção, se foi adequada e se resultou em algo positivo ao longo dos mais de quarenta anos que durou, porque se estendeu até 1974.
 Para tal, importa saber como se fez e que evolução tomou, no contexto político social das décadas em que vigorou.
Tentar-se-à a seguir compreender como tal aconteceu.  

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Ecos avulsos de um estranho silêncio com ruído de fundo

Este artigo de Dinis de Abreu no Sol de hoje revela uma opinião francamente minoritária nos media nacionais: apesar das evidências escandalosas do comportamento do recluso 44 continua o mesmo a merecer os favores de quase todo o universo mediático nacional, com honrosas excepções, entre as quais o Correio da Manhã e de algum modo, o Sol.
Parece, ao tomar-se conhecimento desta realidade que o assunto se politizou de molde a que os órgãos de informação tomam posição editorial ou de facto, sobre o assunto, partindo dessa perspectiva eminentemente política e afastando qualquer esforço de análise factual para além disso.
É impressionante viver num país com este contorno político-social.
Qualquer notícia, por pequena que seja, no sentido de abrir a porta de uma esperança  de libertação do recluso 44 do imbróglio e ordália em que se meteu, faz vibrar as redacções em parangonas entusiásticas. Qualquer facto com sinal contrário é tendencialmente omitido, obliterado ou abafado dos microfones ou câmaras à "hora certa". Incrível.


Ontem o Correio da Manhã noticiava que o processo administrativo de análise da validade do curso superior do mesmo recluso se encontra "parado há mais de dois anos" no tribunal administrativo  de círculo de Lisboa, sem notícias do mesmo e do  respectivo desenvolvimento. A PGR, chamada a pronunciar-se nada esclareceu e o jornal carregou na primeira página: " Justiça trava investigação a curso"...o que é mais uma machadada na credibilidade e transparência de que falava há dias o Conselheiro Santos Cabral na Figueira da Foz.
Mas o que é isto?!


ADITAMENTO -Sábado 27.6.2015

O Correio da Manhã de hoje relata a notícia dos cães que continuam a morder nos homens, ou seja, a normalidade de um senso comum que apenas foi quebrado pelo juiz Reis, numa estranha decisão ao contrário.
Esta notícia do CM é exclusiva porque as lourenças dos media não conhecem o seu relevo. Se ainda fosse outra ao contrário...

Significa isto que o recluso 44 já está em cumprimento de pena por ter sido já condenado mediaticamente? Não. Significa apenas que já para cima de uma dúzia de juízes se pronunciaram sobre os indícios e provas existentes no processo para considerarem que são fortes e justificam para já a medida de coacção imposta. Só isso que exaspera as lourenças mediáticas que "já não podem mais", acolitadas pelos anõezinhos e silva do palpite avulso, convidados amestrados do partido que quer conquistar o poder.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

A marca de Marco

A revista Visão traz hoje uma reportagem sobre uma personagem da nossa política: o actual vice-presidente do PSD, Marco António Costa, "um influente conselheiro de Passos Coelho".

A reportagem é uma espécie de resumo biográfico do dito Marco, nascido em 1967. Se tivesse nascido dez anos depois, diria que tem nome de telenovela brasileira, mas não. A mão militou em vermelho, em multidão e o pai não. No PSD de Valongo fez carreira à sombra do então presidente Fernando Melo, quando os médicos tinham prestígio suficiente para serem presidentes de Câmara,  nos idos dos anos noventa e  Marco ter-lhe-á passado a perna na gestão efectiva do executivo camarário.
Dali em diante foi sempre a subir e "foi o coala bebé de Luís Filipe Meneses". Teve portanto um mestre destas cerimónias.
Os amigos "satélites" de Marco, segundo a revista, serão estes e cada um deles terá uma história que permitiria contar a nossa História recente e da democracia que temos, porque são personagens nomeados para funções públicas ou semi-públicas, em cargos de confiança governativa. É para isto que existe o bloco central e é para isto que a democracia portuguesa evoluiu.
É desta estirpe que saem deputados, governantes e responsáveis por empresas em que o Estado tem mão ou influência.
É esta a elite que temos quer queiramos quer não.

Será que no Estado Novo estas pessoas teriam estes lugares? É pergunta que deixo ao vento que passa, para que me possa trazer notícias do meu país...
Verifico ali em baixo o nome de um indivíduo que escrevia despachos a verde...quando era funcionário público. Ainda escreverá, por conta do emprego que agora terá, depois de reformado,  no escritório do snr Bolota?


Enfim, esta reportagem tem como mote uma participação que o DIAP do Porto recebeu, de um certo Paulo Vieira da Silva e que sendo militante do mesmo PSD teve um rebate de consciência "em nome de um futuro melhor para os nossos filhos" . Por isso decidiu passar a escrito, em várias páginas, a denúncia dos "os homens de mão" do tal Marco e a "sua rede".
Os visados, segundo a revista, terão reagido com desdém, e até comentado que "ouvir o Paulo falar do PSD é a mesma coisa que ouvir o emplastro a dar palpites sobre o FCP".

Portanto, serão "alucinações" o que o tal Paulo escreveu?  Já li algumas dessas alucinações e tendo a concordar: não é assim que se deve participar seja o que for para se fazer investigação criminal e para denunciar "redes" ou "homens de mão" é preciso cuidado e muita precisão na denúncia. Os factos, que li algures, são tão vagos e de uma  generalização tão grande que deveria conduzir a um destino provável: o arquivamento.
Se alguém quer mesmo que se reformule este modo de se fazer política em Portugal e principalmente em ascender politicamente, o melhor é mais reportagens deste género. Por exemplo, pegando em algumas das personagens à vista e relatar-lhes o currículo público e as funções que exercem e em nome de quem...

Assim, teremos apenas o que a revista conclui: uma mão cheia de nada criminal e outra cheia de coisa nenhuma política.
E porém, ela move-se...


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Portugal em 1969, visto por António José Saraiva

Esta entrevista de António José Saraiva, por Fernando Dacosta, na Vida Mundial de 10 de Outubro de 1969 revela o que era Portugal nessa altura para a intelectualidade independente do comunismo do PCP mas ainda assim com laivos de esquerda qb.

AJS foi um intelectual que publicou várias obras sobre literatura e cultura portuguesas e que nos meses imediatos ao golpe de 25 de Abril de 1974 escreveu vários artigos na mesma revista, sobre assuntos básicos de filosofia política, seja lá isso o que for.

AJS é uma espécie de Agostinho da Silva sem pretensões mas com propensão a pensar fenómenos correntes na época em que viveu.

Esta entrevista é a prova disso e algumas passagens avulsas dão o mote. AJS encontrava-se na altura emigrado em França, a preparar livros culturais:

"Há entre nós, uma impossibilidade em realizar investigação em larga escala". Nas Ciências Humanas, claro está  e por opção ideológica uma vez que o regime de então considerava, e com razão, que tal área estava tomada pelo esquerdismo militante. Daí o caveat que agora não existe porque há um ISCTE, aliás aparecido na época.

"Portugal é dos países de que se fala menos lá fora, sob o ponto de vista da resistência intelectual. Somos um país que não chama muito as atenções."
Ou seja, os problemas do PCP na época interessavam a ninguém, lá fora, nem sequer por causa da guerra em três frentes que mantínhamos, no Ultramar. O fassismo ainda não tinha sido inventado como palavra-chave para designar o Portugal de então. Foi coisa posterior e serôdia.

"A juventude portuguesa não conhece a contestação dos outros países, a não ser através dos jornais e de uma informação livresca".  Bem, pelo menos isso, o que denega a censura total que alguns pretendem ainda hoje atribuir ao regime, na altura já com Marcello Caetano.
 " Não me parece que a juventude portuguesa esteja a par da dos outros países" . Bem, insto era inteiramente verdade e por isso havia a vontade de conhecimento que a Censura e os costumes impediam, de facto. Lentamente lá chegaríamos mas a pressa foi fatal, em 25 de Abril de 1974.

"Os poucos franceses com quem tive ocasião de falar têm, evidentemente, um nível cultural muito superior ao nosso,mesmo entre as camadas intelectuais". Isso parece ser um facto, ainda hoje. Basta ver as revistas que os franceses editam e a qualidade das mesmas. Impressionante.

De acordo com uma opinião de taxista, " De Gaulle era responsável pela entrada de negros em França, coisa que na sua opinião iria prejudicar gravemente o trabalhador francês." E AJS explicava esta opinião como "mística" mas o modo como a ouviu era de alguém com um saber muito preciso, muito exacto.
Isto lembra o que Jean-Paul Sartre dizia em 1975, quando nos visitou no PREC que a imprensa portuguesa era muito fraca porque nada explicava, ao contrário da francesa.

E faz um paralelo entre a sociedade francesa e a portuguesa que continua dividida entre o campo e a cidade.
 "O facto de um país viver da emigração é um sintoma de atraso, de país colonizado ou semicolonizado. Há portanto esse problema que se chama de criação de um pólo de desenvolvimento económico- que eu não tenho evidentemente competência para saber como se põe concretamente".

Porém, logo a seguir a 25 de Abril de 1974, com o PREC, apareceram os génios sabedores que fizeram o que fizeram...





segunda-feira, 22 de junho de 2015

"Em Portugal temos um problema com o segredo de justiça. Em Espanha o problema é com a corrupção..."

No Prós e Contras que decorre ( 22:08) sobre o assunto candente do "segredo de justiça" ( parafraseando João Marques Vidal temos agora, em Portugal, um problema com o segredo de justiça enquanto em Espanha o problema é com a corrupção) estão lá a falar algumas pessoas que merecem a pena ser ouvidas. Outras que não. Uma delas é um jornalista chamado João Garcia que em duas frases já disse  asneiras ( disse, além dos mais, que os jornalistas não violam o segredo de justiça, desconhecendo que em 2007 a lei foi alterada no sentido de o poderem) .

Há uma advogada cujo nome não apareceu ainda a dizer uma coisa fantástica: que os magistrados do MºPº e o Juiz de Instrução não deviam estar "contaminados", ou seja deveriam estar separados e cita logo os "órgãos de informação  que estão ao serviço"...

Esta causídica que já está a dizer coisas ignominiosas sem fundamento e sem razão, está a insinuar que a violação de segredo de justiça parte dessas entidades porque " a investigação tem interesse em trazer cá para fora certas coisas"...

E a moderadora dá uma achega à advogada sem nome até agora, dizendo que a investigação terá sido a responsável pela divulgação do interrogatório publicado por uma revista ( a Sábado, claro, mas não é citada) .
Entra agora na liça um outro advogado também sem nome em rodapé a dizer que o juiz das liberdades, ou seja Carlos Alexandre ( já não restam quaisquer dúvidas que o programa é para atacar a investigação do processo Marquês e particularmente este juiz. Ou seja, um nojo inominável, mais um a que a RTP dá voz...) devia ser uma voz que se opusesse ao MºPº. Esta tese é a de uma juiz do Constitucional   que em tempos o disse a um jornal ( Fátima Mata-Mouros, indicada pelo CDS para o TC).

O juiz Olindo Geraldes põe um ponto de ordem na mesa: o segredo de justiça tem uma função fundamental que é a protecção da investigação e reflexamente a honra dos visados. Tal e qual, mas não é isso que está em discussão, neste programa...
 E diz agora que começou no jornalismo, no República de Raul Rego, o pena de ouro do jornalismo e maçónico. Olindo Geraldes, V. é da Maçonaria?

E a tal advogada fala agora nas provas que não são válidas processualmente e acaba por citar o Correio da Manhã...o que denota bem o objectivo deste programa: atacar quem noticia factos que são prejudiciais para certos interesses político-partidário do momento.
Esta advogada, ainda incógnita, é uma lídima representante destes interesses ocultos.

E o jornalista João Garcia acaba de dizer mais uma asneira solerte: "até parece que o segredo de justiça existe para os jornais se venderem"...

E desenrola citações de jornais do tempo do caso Casa Pia para denotar algo que redunda noutra asneira: ligar notícias sobre tendências dos juízes em pronunciar ou não ao segredo de justiça.

Costa Andrade, de Coimbra, refere que a situação que temos é indesejável e intolerável porque há um conjunto de normas que são diariamente violadas. E os jornalistas também podem incorrer no ilícito da violação do segredo de justiça. E diz que defendeu em 1997 que o segredo de justiça deveria ser assimilado às outras violações de outros segredos, profissionais.
E isto, hoje,  representa uma falência chocante do Estado de Direito, diz Costa Andrade, porque estas leis não são observadas.
E refere que hoje, no processo acusatório, em contraposição ao antigo, inquisitório, pode perguntar-se se há interesse em manter esse valor. E a moderadora lá fala outra vez no caso do processo de José Sócrates...a mostrar qual é mesmo o objectivo deste programa de hoje.
Costa Andrade acaba por dizer que ainda acredita na validade do segredo de justiça e não apenas pela eficácia da investigação, mas também por outros motivos, como por exemplo os factos que advêm das escutas telefónicas, das intromissões na vida privada, etc.
E refere o caso do "agente encoberto" que é metido em casa...como se isso fosse coisa comum e banal. Pois não é: não me lembro de um único caso desses nos últimos vinte anos.
E refere que uma notícia sistematicamente repetida provoca uma ideia geral no público que conduz à condenação antecipada...o que é argumento curioso, porque o contrário pode ser igualmente verdadeiro.
E Costa Andrade interroga-se, citando Séneca, ( já cá faltava...ahahah) que para a investigação deve colocar-se a questão: "para quem é que foi bom?"

Olha, para Costa Andrade e quem dá pareceres na Univ. de Coimbra tem sido muito bom...ahahahah.

E após o intervalo começa o juiz Cardoso, do laço, para comentar o que disse Costa Andrade. E cita o que deve ser citado: hoje em dia os mandados de busca já têm que dizer uma série de coisas sobre o que se busca.  Porém, não têm a informação toda, na medida em que ainda não esteja consolidada. Esta informação é importante e quase ninguém a diz e Ricardo Cardoso esclarece que isto aconteceu depois do processo Casa Pia.

E cita a hipótese de esse mandado ser divulgado por outras pessoas que ao mesmo têm acesso. E até refere uma hipotética empregada doméstica que vai dizer ao patrão o que leu no mandado...
Estas coisas são inéditas em televisão, mas poucos se interessam em saber disto e muito menos aquela tal advogada incógnita que ali está.

Ricardo Cardoso, sendo da Maçonaria, ainda vai dizendo coisas acertadas.
E a tal advogada refere a "pressão da comunicação social", insistindo no ponto-chave do programa...

Rui Cardoso contesta algumas das afirmações da tal advogada incógnita e que está ali, notoriamente para passar uma mensagem...
Diz que até ao momento em que são entregues a certas pessoas algumas peças processuais, como os tais mandados de busca, nada se sabe ou conhece e cita um caso particular da detenção de José Sócrates que foi filmado pela SIC de modo completamente fortuito, sendo certo que nunca houve imagem senão de um carro que poderia ser de qualquer pessoa...
O advogado anónimo que afinal se chama Paulo Farinha Alves refere mais coisas sem interesse e adianta que "a investigação funciona como uma justificação externa dos actos que pratica". Isto quer dizer o quê? Nada.

E depois aparece outra vez o tal João Garcia a debitar mais asneiras. É incrível. E ainda refere, claro, que não é pelos jornais apontarem suspeitas ao "engº José Sócrates" que o mesmo vai ser condenado...
E acaba por revelar quem violou um segredo de justiça, num caso de uma busca a um escritório de advogados: foi um dos advogados da tal firma, para se defender e esclarecer que a busca tinha um motivo diverso daquele que aparentemente tinha.

E Rui Cardoso fala sobre o segredo de justiça como sendo uma vaca que não deve ser sagrada e retoma a ideia de Rui Pereira: sempre que não esteja em causa a violação de qualquer um dos bens jurídicos em causa, não deve haver segredo protegido. Exactamente.

E temos o juiz Olindo Geraldos ( como é possível num programa destes, dois membros presumíveis da Irmandade?) outra vez: fala sobre a fundamentação das decisões judiciais.  E diz que para um juiz não tem interesse algum que o acusado esteja ou não "queimado"...referindo que o que se passa na comunicação social tem pouca influência. E Ricardo Cardoso reafirma tal indicação.
Por acaso também penso assim.

E Ricardo Cardoso refere o nome da tal advogada: Mónica Quintela ( advogada de Coimbra, defensora da inspectora da PJ acusada de homicídio...) que já é conhecida por declarações sui generis...

Mónica Quintela, chamada outra vez a dizer coisas, continua a insinuar imputações avulsas sobre quem viola o segredo de justiça com o objectivo de defender algo que não se compreende...

Rui Cardoso explica à advogada que não se deve dizer que investigação não controla a manutenção do segredo de justiça porque o dever é de todos, particularmente quando os intervenientes processuais passam a ser outros para além do MºPº.

E explica ainda que o crime de violação de segredo de justiça é um crime punido com pena de prisão até dois anos, igual a uma condenação por condução sem carta.
Pois...é esse mesmo o problema: o crime de violação de segredo de justiça é uma coisa lateral e que é tomada como sendo muito importante porque não interessa fazer Prós & Contas sobre...corrupção. E interessa sobremaneira fazer disto mais uma plataforma de defesa do recluso 44. Objectivamente é isso que resulta do programa.

Voilà! É este o âmago da questão: este programa da Fátima Campos Ferreira é apenas por causa do recluso 44...
Mais um.

Costa Andrade mais uma vez: no que toca ao direito positivo,  por exemplo quando se publica um interrogatório ipsis verbis isto devia ser investigado. E cita  a possibilidade de quebra do segredo profissional e o jornalista poder revelar as fontes de informação em certos casos.
E diz que os jornais, sobre o caso Sócrates ( mais uma vez explicitamente citado pela moderadora) estão divididos e não buscam a verdade.
E nesse caso da violação de segredo de justiça o caso da publicação do interrogatório merece uma investigação porque se nada se fizer o melhor é acabar com o segredo.
E acaba por dizer uma coisa incrível: que mais do que a defesa do direito à honra, também há que respeitar o direito à imagem e à palavra. Como se aqueles que vivem mesmo disso, como é o caso do dito, não vivessem precisamente da manipulação dessa imagem e palavra. Ou seja, vivem disso, mas precisam de protecção contra isso...
Só visto! E é o professor Costa Andrade a dizê-lo.

Em resumo: mais um programa, da RTP1 que redunda num frete ao recluso 44. A questão, em Portugal é o segredo de justiça, não é a corrupção. Em Espanha é ao contrário...

O Correio da Manhã merece uma comenda.

Se não existisse o Correio da Manhã e CMTV com a linha editorial que apresentam, o que saberíamos do caso do "processo do marquês"?
Talvez não seja difícil a projecção hipotética se nos lembrarmos do que sucedeu há cerca de dez anos com o caso da Casa Pia. Não quero com isto dizer que seja muito bom todo o bruábruá mediático à volta destes casos, mas como se torna inevitável tropeçar nos mesmos, perante o paradigma informativo que existe ( e por vezes deixa saudados da Censura de antigamente) o melhor é saber algo com um mínimo de rigor informativo.
Nessa altura os media ainda não estavam preparados e apetrechados com jornalistas e redacções capazes de perceberem o mínimo sobre o funcionamento da Justiça e a maior parte das redacções, com particular destaque para as direcções, foi manipulada por "líderes de opinião"  que ainda andam por aí a fazer as mesmíssimas tristes figuras ( caso do Sousa Tavares, por exemplo) e por interesses politico-partidários, logo que entraram em jogo tais interesses, particularmente do PS.

O caso da Casa Pia é um case study dessa manipulação e bastaria pegar num único jornal- Jornal de Notícias- e ouvir a propósito dois jornalistas- Tânia Laranjo e Carlos Tomás- para se perceber o que sucedeu e até o que se modificou entretanto ( no caso da Tânia Laranjo).

Hoje em dia, felizmente, essa situação não é a mesma em todo o lado, apesar de se ter refinado na maior parte dos media, sendo mais sofisticada, perigosa e subtil tal manipulação noticiosa.

Em 2004 e 2005 quem quisesse saber algo mais do que as  notícias veiculadas pelos jornais, na sua esmagadora maioria sem grande credibilidade em assuntos deste teor,  teria que se socorrer de meios de informação alternativos, digamos assim.
Por exemplo um Portugal Diário, um sítio na net onde começaram a escrever jornalistas que hoje trabalham para os tradicionais, integrados numa máquina que não mudou de estilo nem aperfeiçoou critérios de isenção e objectividade ( caso do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e outros Expresso).
Hoje em dia temos uma proliferação de lugares noticiosos e de opinião, nos meios tradicionais e net que frequentemente propagam ruído e nada mais.
A informação útil, objectiva e de algum modo isenta porque reflectindo uma realidade tangível, plausível e muito aproximada à verdade factual, rareia outra vez nos dias de hoje mas menos do que há dez anos.
O Correio da Manhã e grupo editorial insere-se neste pequeno grupo que tenta de algum modo prosperar mostrando  as facetas dessa realidade percebida mas ainda oculta pelo ambiente deletério da corrupção efectiva e real ( Portugal continua muitíssimo mal colocado nas sondagens de opinião que reflectem a imagem que as pessoas têm desse fenómeno) que campeia em Portugal apesar  das declarações peremptórias de algumas pessoas com poder de influência mediática, algumas delas directos beneficiários desse clima.

O jornalismo do CM não é perfeito porque não é de rigor imaculado ou de profundidade filosófica e analítica. Reflecte além disso um populismo, seja lá isso o que for, que capta a atenção de quem não exige muito da informação. E por isso vende muito papel e tem audiências seguras. Mas tem a "recta intenção", como dantes se dizia e isso é o mais importante e perdoa tudo o resto.

Ora é esta linha editorial que confere de algum modo uma garantia de certa independência no tratamento das notícias que outros não conseguem indagar, mostrar e revelar porque estão amarrados a interesses particulares de grupos económicos apostados numa linha política de corrupção permanente e numa ligação umbilical a interesses partidários muito precisos e concretos que só não são evidentes porque os escondem.
Os jornalistas que trabalham nesses media pouco ou nada podem fazer que alinhar pela corrente de panurgo que os orienta tacitamente, sob pena de perderem o emprego. Ou seja, não são independentes porque o não podem ser.

O Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF, além do mais, tendo as administrações e direcções que têm, são órgãos de informação condenados à subserviência vergonhosa a interesses em não provocar ondas noticiosas que afectem o grupo politico-partidário que sempre apostou numa actuação de repartição do bolo orçamental e de influência partidária condizente.

Os escândalos de corrupção como é o de José Sócrates não lhes interessam minimamente, como não interessou o caso do Freeport ou da Cova da Beira ou até o da licenciatura do então primeiro-ministro em "estado de graça" que permitiu o que agora se vai descobrindo e poderia ter sido descoberto na altura e por isso mesmo evitado.

As tv´s, verdadeiro poder mediático em Portugal e que formam efectivamente o grosso da opinião pública que vota, têm sensivelmente o mesmo perfil de isenção e independência, ou seja, quase nulo. Com uma agravante: não se metem em detalhes a não ser que os mesmos se tornem fait-divers de imagens apelativas ( um carro penitenciário a fugir de repórteres é um must noticioso para essas tv´s que reparam no acessório e esquecem o essencial).

A RTP, a SIC, a TVI alinham todas pelo mesmo diapasão de costumes: não fazer demasiadas ondas mediáticas com os casos que envolvem estes fenómenos que lidam directamente com quem lhes dá o pão para a boca, seja empresa privada ou governante futuro, presente ou passado cujo poder de manipulação da rede de poder permanece inalterável.

É por estas e por outras que temos sorte em ter um Correio da Manhã e por isso coloco aqui três recortes da edição de hoje que mostram o que mais ninguém quer mostra.

Em primeiro lugar um pequeno editorial de Octávio Ribeiro, director do jornal e que diz o essencial que certos magistrados não entenderam ainda: 


Depois o da denúncia de um trampolineiro que teria tudo para ser tudo em Portugal e merece ser apenas um nada, sem credibilidade sequer para ser líder de opinião. Quem tem como fontes em assuntos desta natureza, os programas Quadratura do Círculo e Eixo do Mal não merece qualquer crédito. Ainda por cima, depois de asneirar com prejuízo para as instituições, não reparar a asneira e por isso mesmo sendo relapso e perigoso.



Em tempo, e em 29.6.2015: o CM de hoje noticia que MRS corrigiu a informação que dera há duas semanas. Afinal " quem passou as escutas telefónicas à Sábado não foi o MºPº".  Se foi assim continua a emendar o soneto. O que deveria ter dito era apenas: não sei quem terá sido e quando disse que fora o MºPº baseado nas minhas fontes disse uma asneira porque não sei se foi ou não.

Por fim o editorial de um jornalista que percebeu o essencial e não foi há meia dúzia de anos.


O Correio da Manhã e a CMTV, onde em assuntos judiciários têm como comentadores pessoas que sabem do que falam ( Carlos Anjos e Rui Pereira, por exemplo) e não dizem asneiras a eito, merecem o encómio de serem um oásis no panorama deletério dos media nacionais.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Que esperavam de Marinho e Pinto?!

Observador:

Uma cisão violenta na véspera da reunião que elegerá o Conselho Nacional do Partido Democrático Republicano (PDR). Eurico Figueiredo, ex-deputado do PS e apoiante desde a primeira hora de António Marinho e Pinto, o líder do novo partido, ameaça abandonar o projecto enviando uma carta dura, em que acusa Marinho de “falso profeta” e de estar a transformar o PDR de “partido caudilhista em partido fascista”, e pede que convoque as eleições noutros termos.
“Conhecendo a sua falta de bom senso, espero, contudo que o Espírito Santo (do céu, e não da terra) o inspire.
Sem o menor respeito pela democracia dentro PDR, o sr. presidente está a transformar-se num “falso profeta”, a proporcionar a saída do PDR dos democratas que acreditaram em si, e a avançar inexoravelmente, de um partido que já é caudilhista, para um partido fascista”, escreveu por email a Marinho, tornando pública a mensagem no Facebook. “Não o farei com gosto: mas com convicção. Repita as eleições em condições de respeito pelas diferentes listas. Acredite que virei a ser completamente diferente de si, se não dá a mão à palmatória. E que em breve compreenderá a diferença: fascismo nunca mais!”.


Quem continuar a dar-lhe voz nas tv´s é cúmplice deste indivíduo que devia, sei lá, aconselhar-se com um psiquiatra...

Caso Marquês: a irmandade em falta...

O acórdão do TRLisboa sobre a questão da "especial complexidade" do processo da Operação Marquês suscita algumas perplexidades e preocupações.

À míngua de um acesso integral ao seu teor e particularmente à declaração de voto de um dos desembargadores- José Alberto Martins dos Reis, novel desembargador na 3º Secção Criminal do TRL, com cerca de 25 anos de serviço, depois de ter sido juiz nas Varas Criminais de Lisboa...- socorro-me das transcrições que o jornal Sol desta Sexta-Feira efectua para mostrar que esse juiz considera que "branqueamento e corrupção são faces da mesma moeda, irmãos siameses da mesma mãe. Se um falta dificilmente se pode falar em irmandade. "

Logo em seguida conclui que não há "descrição da origem dos fluxos financeiros", para evidenciar que a falta de tal origem impossibilita a definição da genealogia criminosa e fica-se apenas com um filho bastardo que obrigaria à libertação imediata do prisioneiro vítima desta cabala agora enunciada por um desembargador, porque não existindo nada se está a investigar o vazio, ou vice-versa...

Portanto, o que temos no processo e nos foi dado publicamente a conhecer através da divulgação do conteúdo de peças processuais, em segredo de justiça que já não o é de todo, é um "abundante achado de fluxos financeiros" na expressão do desembargador que é...nada.
Todo o conteúdo argumentativo dos vários juízes desembargadores e conselheiros sobre a consistência de indícios fortes dos crimes imputados resulta afinal num nada embrulhado num vazio.

Preocupante, sem dúvida e a merecer melhor análise do acórdão e desse voto de vencido, com um pormenor estranho: o desembargador em  causa não se limitou a juntar o seu voto de vencido, mas integrou-o com o projecto de acórdão que elaborou.

Sobre este assunto nada mais se poderá de dizer de relevante sem ler o tal "projecto" libertador do recluso 44.

Para já, no entanto e para complicar um pouco mais estas considerações, deixou um pequeno excerto de um estudo de 2013, da autoria da drª Ana Brito, no CEJ , sobre o valor da prova indirecta em processo penal.



 "(...) a apreciação das provas indirectas pressupõe “grande capacidade e bom senso do julgador”, que “as complexas operações mentais que o manejo da prova indiciária implica exigem raras qualidades”

E enumera: “inteligência clara e objectiva, experiência esclarecida,integridade de carácter, ausência de fácil ou emotiva impressionabilidade”.

Avançaria três notas elementares:

- A prova indirecta é muito frequente e muito importante.

- Nada impede que a convicção assente exclusivamente em prova indirecta.

- Uma conclusão segura sobre a força persuasiva das provas – directas ou indirectas – retirar-se-á, sempre e só, no concreto caso.

Sobre a força latente da prova indirecta pode ver-se o trabalho de Euclides Dâmaso, dando notícia da jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça de Madrid sobre provas indirectas.

Aí, em 2007, o autor incita a um “movimento de ultrapassagem dos rígidos cânones de apreciação da prova que leve descomplexadamente à assunção dos critérios da prova indirecta, indiciária ou por presunções, como factores válidos de superação do princípio da presunção da inocência”. 

Se não se enveredar por aqui, temo bem que o processo do Marquês recluso e inocente jurado, fique em águas de bacalhau, atenta a dificuldade em convencer desembargadores, como o referido, para além da prova directa, imediata e evidente que parece ser a única que existe e é aceite como tal.

As provas em processo penal, muito tarifadas, não podem servir apenas para absolver inocentes. Devem servir para aferir a culpa de inocentes excelentíssimos que só por isso o querem ser e portanto suscitam toda a cautela quanto às desculpas que apresentam para os factos devendo o cuidado ser acrescido quando se pretende modificar a natureza dos factos judiciários em políticos.
O senso comum é um dos factores diferenciadores  da tal  "grande capacidade e bom senso do julgador” e podemos pressupor que isso não é dado assente em todas as circunstâncias.


Em tempo:

O Expresso ( Hugo Franco e Rui Gustavo) exulta com esta decisão singular do juiz José Alberto Reis, novel sexagenário do TRL: "Numa extensa declaração, o juiz José Reis arrasa com o trabalho do Ministério Público (em concreto com o do juiz de instrução criminal Carlos Alexandre) no caso que envolve José Sócrates, suspeito dos crimes de fraude fiscal agravada, branqueamento e corrupção."

Não se percebe bem porquê, mas entende-se o motivo exultante: finalmente, depois de mais de uma dúzia de juízes de tribunais superiores dizerem de sua justiça em conformidade com o sentido comum das coisas, aparece um que diz o contrário. É o caso do homem que morde no cão?
Vejamos mais pormenores:

Numa extensa declaração, José Reis arrasa com o trabalho do Ministério Público no caso que envolve o ex-primeiro-ministro, suspeito dos crimes de fraude fiscal agravada, branqueamento e corrupção. 

O magistrado lembra que os dois últimos dois crimes enquadram-se no conceito de criminalidade altamente organizada. Só que, frisa, "criminalidade altamente organizada não significa, só por si, que o procedimento se revele complexo". E nem o facto de o processo contar agora com sete arguidos significa que seja mais complexo. "Trata-se de um número de arguidos frequente, mais que normal e muito longe de ser excepcional". 
Sobre o primeiro interrogatório judicial realizado a Sócrates, logo na altura da sua detenção, em Novembro do ano passado, o juiz considera que em momento algum o arguido "foi confrontado com quaisquer factos ou indícios concretos susceptíveis de integrar o crime de corrupção. E seguramente não o foi porque simplesmente no rol de factos eles inexistem."

Portanto, todos os demais magistrados consideraram o contrário e aparece um a dizer o contrário dos demais...o que deveria desde logo suscitar alguma apreensão e indagação pela simples razão que é estranho. Pura e simplesmente estranho.
Será este juiz o mais fino entre todos os demais  que não viram tal coisa? Será este afinal a referência jurídica fundamental para a resolução do problema que aflige a troupe socialista que apoia o recluso 44 desde a primeira hora, a começar pelo decano deles todos, com declarações deste género?
O Expresso que assim exulta não nos diz mais porque se limita a transcrever passagens do acórdão só no que respeita ao voto de vencido do referido juiz José Alberto Reis. E nem sequer explica por que razão um relator escolhido para decidir acaba por ficar vencido e afastado da decisão vencedora por maioria, apesar de protestar com junção do projecto da sua decisão como sendo a declaração de voto de vencido.
Sobre as considerações jurídicas vencedoras nada. Nicles. Niente.
Estranho, não é?
Será isto o tal jornalismo de referência?
É, para o Expresso é mesmo assim. E se é, então poderiam dizer mais alguma coisa sobre o tal juiz José Alberto Reis. Por exemplo saber quem é e como se explica esta decisão que dá alento a tanta  gente que andava já com a esperança perdida...
No fundo, a justiça quer-se transparente e o cidadão se souber quem decide este tipo de pleitos ficará mais ciente de que essa justiça se aplica em nome do povo, como manda a Constituição. É que não foi uma máquina a decidir, mas uma pessoa concreta com uma idiosssincrasia concreta e como o caso se configura como de um juiz contra todos é uma situação de alcance noticioso notório.

Ou não será?

Ainda em tempo ( Sábado):

O jornal i de hoje traça um breve perfil do juiz em causa. Diz que nasceu em 1952, tem 26 anos de magistratura, dois de Relação onde é auxiliar e..."não é nenhum truta", ou seja, é um mediano como a esmagadora maioria dos magistrados ( e em todas as profissões, aliás). Por outro lado, parece "querer ensaiar algum protagonismo" segundo "um dos magistrados" ouvidos pelo jornal . Mau sinal se for verdade. Para já tem os dez minutos ou dez dias de fama mediática, mas falta perceber o que dizem os colegas que o desacompanharam na decisão algo insólita, pela temeridade que evidencia.

Entretanto, o advogado Araújo que faz do segredo de justiça gato-sapato e diz o que lhe apetece para aviltar a magistratura, anda a proclamar agora que a Justiça em Portugal é dominada totalmente  pelo Ministério Público ( "João Araújo, advogado do ex-primeiro-ministro José Sócrates, considerou na sexta-feira que há um “domínio absoluto do Ministério Público” em Portugal e o país atravessa uma situação “perigosa” na Justiça.") e acolita-se com uma luminária de um senso aperfeiçoado como Garcia Pereira ( o que representou  um tal Pequito e queria à viva força perseguir meio mundo, incitando o MºPº de Cunha Rodrigues a tal tarefa inquisitória) e que agora diz que este Ministério Público anda dominado pela "direita e extrema-direita".

São estes cromos que agora aparecem com os holofotes todos focados a dizer da sua Justiça particular em defesa dos seus interesses privativos de causas evidentes e sombrias. 

No caso do advogado Araújo, antigo defensor de supostos terroristas das FP25,  sabemos já de ginjeira o que pretende: mediatizar de tal modo o caso do Marquês e radicalizar o assunto de molde a colocar a discussão fora dos factos e no âmbito político, .a fim de salvar o cliente excelentíssimo de uns dez anos de prisão que se afiguram mais que prováveis... se forem provados os factos já conhecidos.
Quanto à luminária Garcia Pereira ainda continua no MRPP, um partido cuja representação é um colosso democrático de meia dúzia de saudosos do maoismo.

A loucura em Portugal, com estes indivíduos na ribalta, parece ser o costume a que nos habituaram há 40 anos. Porém, já é mais que tempo para lançar estes cromos no caixote de lixo da História e não os repetirem sempre que surgem casos de atentado ao senso mais chão.

Isso para que a inteligência mediana do jornalismo não sofra ataques tão solertes e não caia nas mãos de um prec serôdio e de efeitos deletérios.