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domingo, 27 de março de 2016

Sem pudor

A ofensiva mediática de Carlos Cruz continua, agora no DN, com uma entrevista de Ana Sousa Dias. Para além do problema de base e de sempre- a credibilidade do que diz- acrescenta-se agora um dado novo que complementa um antigo : uma afirmação que é pura e simplesmente uma ameaça, retirada da entrevista de duas páginas, sem contexto e  por isso autorizada a interpretações dúbias. É este o jornalismo do DN...


Esta afirmação, aliás, complementa uma outra já com alguns anos em cima sobre a circunstância de o mesmo então se sentir como o boi que se atira ao rio para as piranhas se entreterem enquanto a manada passa, em paz e sossego. Por muitas interpretações que se possam emprestar à expressão, só uma releva no contexto. Aliás, como agora.

São estas pequenas coisas que retiram credibilidade ao que diz e este circo mediático nada ajuda na medida em que apenas subsiste uma voz: a do interessado, sem contraditório, sem interrogações lógicas. Numa palavra, sem pudor.
O que eu gostaria mesmo era de ouvir o embaixador Ritto se o mesmo se dispusesse a falar.

Por outro lado ponho aqui uma redacção muito bem feita de um catedrático ( sans blague) que escreveu assim, aqui, na altura em que o processo de desencadeou ( o blogue tem a data de 2010).

Coloco aqui porque os intervenientes de um programa inenarrável chamado "eixo do mal" continuam na mesma como há 10 anos atrás... nada aprenderam, nada esqueceram e nada querem mudar porque vivem daquilo, se calhar. É na SIC do senhor Balsemão.

 Como não podia deixar de ser, Carlos Cruz continua a ter um papel destacadíssimo na comunicação social, usando-a a seu bel-prazer, para tentar alcançar na praça pública o que não logrou conseguir em tribunal. Ainda esta noite, no programa “Prós e Contras”, Carlos Cruz - na opinião de Marinho uma das “vítimas amarradas há oito anos ao pelourinho da ignomínia” – voltou a dispor de todo o tempo para clamar a sua inocência.
Não está em causa, evidentemente, que ele use um dos meios em que dizem ser mestre, para tentar a sua absolvição. O que está em causa é a constante mistificação que ele vem fazendo, de há oito anos a esta parte, do ambiente que rodeia o processo em que ele está envolvido.
A memória das pessoas é fraca, mas os factos aí estão para relembrar os mais esquecidos. Pouco antes de ser preso, mas logo que teve conhecimento de que estava sendo investigado e que, inclusive, se poderia saber que já antes tinha havido, sobre o mesmo tema, um processo arquivado – que até então não era do conhecimento público –, Carlos Cruz “visitou”, salvo erro na mesma noite, as três televisões, na hora de maior audiência, para em declarações emocionadas proclamar a sua inocência. Conseguiu até esta coisa inédita de um Procurador Geral da República – de facto, a nomeação para certos lugares deveria passar por exames multidisciplinares muito apertados! – vir declarar publicamente que, contrariamente aos rumores que corriam, a “Justiça nada tinha contra o Sr. Carlos Cruz”! Pouco tempo depois foi preso…
Uma vez preso desencadeou-se na maior parte das televisões e em muitos jornais uma campanha sem precedentes em defesa da sua inocência. Conhecidas personalidades, algumas delas com grande impacto mediático, outras “especialistas” em questões criminais, advogavam sem qualquer hesitação a sua libertação e faziam juras de vida sobre o “erro judiciário” em que se estava a incorrer. No clímax desta campanha, um seu assistente de produção, em tom grandiloquente, declarou às televisões: “É uma ignomínia o que estão a fazer a este homem! Se o Carlos Cruz é pedófilo, eu também sou pedófilo!”. E não é que se veio a saber depois que ele andava lá muito perto…e não se soube mais porque fugiu!
Fazendo coro com esta campanha, o seu advogado, que entretanto se juntou àquele que inicialmente se encarregou da defesa, passou a actuar – pelo menos, de acordo com os meus conhecimentos – não como um causídico, mas como um verdadeiro “mandatário eleitoral”. Havia em curso uma campanha, que, como a generalidade das campanhas, se tinha de ganhar na comunicação social. E desde então até hoje sempre assim vem actuando.
Depois, queixou-se da morosidade do processo, das audiências sem fim e esqueceu-se de acrescentar o número infindável de incidentes que levantou, os recursos interlocutórios que interpôs e as centenas de testemunhas que apresentou. Sobre isso nem uma palavra para que a culpa da morosidade recaísse inteirinha sobre a vilipendiada Justiça!
Mas também se esqueceu de referir por que razão os advogados de Carlos Silvino foram sendo sucessivamente substituídos, Silvino que até Hugo Marçal chegou a ter como advogado. Esqueceu-se de referir o que a irmã de Silvino disse publicamente em várias televisões!
Simultaneamente, foi-se passando para a opinião pública a ideia de que os “rapazes” – é assim que Carlos cruz os trata, como ainda hoje se viu e ouviu na RTP – eram prostitutos profissionais, com muita “escola”, capazes de mentir por dinheiro ou vingança e dispostos a entrar nas mais odiosas cabalas.
Apertados, ontem como hoje, sentiam-se na obrigação de reconhecer que alguns dos “rapazes” eram vítimas inocentes e que indiscutivelmente havia violações…mas nenhuma delas tinha autoria ou, quando muito, eram genericamente imputadas a Silvino desde então arvorado em “fornicador universal”.
Penosamente, o julgamento foi-se fazendo com Carlos Cruz e o seu advogado sempre na crista da onda, de uma onda que eles mediaticamente “surfavam” com a mestria que dizem ter, até que a sentença chegou, inevitável e condenatória.
Logo no tribunal, o advogado de Carlos Cruz desafiou a juíza – Marinho Pinto, que utiliza como bitola do comportamento humano sempre a acção mais reprovável, nem como bastonário se indignou …porque já viu quem tenha feito pior - e o condenado, um pouco mais tarde, “montou tenda” para através das televisões reclamar a falta de provas e de fundamentação e, logo a seguir, no seu site, para que o povo em geral tivesse acesso a algumas peças do processo, ao que ele supõe criteriosamente escolhidas.
Esta noite no já referido programa da RTP manteve o mesmo registo das intervenções anteriores - o registo da “monstruosidade jurídica” por falta de provas – e tentou ainda fazer uma interpretação deturpadora das declarações de uma das vítimas, logo abortada pela pronta intervenção de um psiquiatra presente.
Como não conheço o processo, não sei se, relativamente aos crimes por que Carlos cruz foi condenado, apreciaria as provas e formaria a minha convicção no mesmo sentido ou sentido diferente daquele a que o tribunal chegou. O que sei é que Carlos Cruz dispôs de meios que até hoje nenhum arguido, em qualquer outro processo, pôde usar para pôr a opinião pública do seu lado. Se não conseguiu…demérito seu e do seu advogado.
E também sei que num processo desta natureza, tendo em conta o tipo de crimes que estavam a ser julgados, a prova, nomeadamente a que vai para além da existência do facto, se faz – salvo situações excepcionais – mediante recurso a testemunhos. E que a prova testemunhal é livremente apreciada pelo tribunal: o juiz forma a sua convicção tendo em conta todos os elementos juridicamente relevantes. E a melhor doutrina até entende que o juiz (seja individual ou colectivo) do processo, salvaguardados os princípios do Estado de direito, dispõe de um poder discricionário na avaliação dos testemunhos, inalterável na sua concretização, pela proximidade e especial situação em que se encontra perante os factos. A título de exemplo: as imagens filmadas dos depoimentos prestados em Elvas, que Carlos Cruz colocou no seu site, não têm necessariamente o sentido que ele lhes pretende atribuir. Podem até significar o contrário do que ele supõe dever ser a interpretação do juiz. E também é bom que se diga que a concordância dos depoimentos pode não ser suficiente para formar a convicção do julgador, assim como a sua eventual divergência o não impede de a formar com base naquele que considera mais credível. Pode haver erros: avaliações deficientes ou interpretações erradas. O que não pode é haver condenação com dúvidas: se o juiz tiver dúvidas, não condena; se não tiver, condena.
Isto são coisas que – já não digo Marinho e Pinto, que é um caso perdido - Daniel Oliveira nunca vai perceber, já que das suas intervenções parece poder induzir-se que os actos de pedofilia apenas podem ser provados por documento escrito (eventualmente autenticado em notário) ou através de registos, de preferência cinematográficos ou televisivos, susceptíveis de deixarem um rasto tão indelével como os do “Eixo do Mal”.

16 comentários:

zazie disse...

«: “É uma ignomínia o que estão a fazer a este homem! Se o Carlos Cruz é pedófilo, eu também sou pedófilo!”. E não é que se veio a saber depois que ele andava lá muito perto…e não se soube mais porque fugiu!»

eheheheh

José Domingos disse...

Ainda se está a escrever a verdade, sobre este caso. A malta que foi condenada, é a parte de cima do icebergue........
Aguardemos, então............

João José Horta Nobre disse...

Ainda hoje eu acredito que Carlos Cruz foi vítima de uma cabala. Há muita coisa que não bate certo no caso Casa Pia.

JC disse...

"Ainda hoje eu acredito que Carlos Cruz foi vítima de uma cabala."

Claro que foi.
Basta ver o ar dele, nas suas aparições publicas.

Tem mesmo ar de quem está a ser vitima de uma cabala.
Qualquer um que tivesse sido erradamente preso por pedofilia, vitima de uma monstruosidade, agia assim, sempre no gozo, sempre a fazer piadas, como se a vida lhe corresse às mil maravilhas.

Nunca vi Carlos Cruz com ar pesaroso, com semblante carregado, preocupado com o que lhe estava a acontecer - como devia estar e estaria certamente se estivesse a ser vitima de uma cabala.

zazie disse...

É só cabalística para as mentes fracas

josé disse...

Ao indivíduo basta-lhe transformar o caso numa questão de fé e como se sabe isso é insondável na mente de cada um.

Estes inteligentes são sempre assim: a melhor mistificação é apenas a de lançar uma dúvida que por muito ténue que seja encontra sempre algum eco.

E se a tal se juntar uma vontade em desacreditar uma qualquer instituição é sopa no mel.

Floribundus disse...

a culpa é sempre dos outros

a maior parte do cumentadores e cumentários revela um primitivismo assustador

o rectângulo em marcha atrás

Apache disse...

Não sei se o Carlos Cruz é pedófilo ou não, registo apenas que um bissexual não é necessariamente um pedófilo. Mas tenho muitas dúvidas sobre outros, acusados no processo, que se safaram em grande estilo, apesar de…
Ainda em relação ao Carlos Cruz, acho estranho que, sendo uma figura tão conhecida, nunca (ao que consta) ninguém o tenha visto na “casa de Évora” onde alegadamente ocorreram os abusos.

«foi-se passando para a opinião pública a ideia de que os “rapazes” – é assim que Carlos cruz os trata, como ainda hoje se viu e ouviu na RTP – eram prostitutos profissionais, com muita “escola”»
Não todos, mas fiquei com a ideia de que alguns dos "abusados"/acusadores (nomeadamente os que o acusam directamente a ele) são ou foram, de facto, prostitutos.

Maria disse...

"Estes inteligentes são sempre assim: a melhor mistificação é apenas a de lançar uma dúvida que por muito ténue que seja encontra sempre algum eco." José

Precisamente. E o que é mais, todos eles sem excepção e mais alguns que não pertecem à seita maçónica (que proege até ao infinito os seus membros mesmo os que praticaram os mais graves crimes sangue e outros igualmente graves e repugnantes, independentemente do grau de gravidade, conforme os próprios maçons já o afirmaram mais do que uma vez), mas a que se lhe juntaram à custa de ameaças, suborno, oportunismo ou isto tudo junto, sofrem de uma doença gravíssima terrível que os irá destruir sem que se dêem conta, a síndrome da mentira adquirida. Mentem consecutivamente e já interiorizaram que as brutas mentiras que diàriamente lhes brotam da boca para fora, são verdades imaculadas e nada nem ninguém os consegue convencer do contrário. Alguém poderia tentar mostrar-lhes a verdade dos factos e seria certamente uma tarefa árdua e muito demorada, mas perante este género de gente desavergonhada e vil, mas tratar-se-ia de uma tentativa, ainda que louvável, simplesmente inútil. Esta gente há-de morrer a mentir.

Kaiser Soze disse...

Acho que muita gente saiu à tangente mas não papo que o Cruz é inocente.

BELIAL disse...

"Daniel Oliveira nunca vai perceber, já que das suas intervenções parece poder induzir-se que os actos de pedofilia apenas podem ser provados por documento escrito (eventualmente autenticado em notário) ou através de registos, de preferência cinematográficos ou televisivos, susceptíveis de deixarem um rasto tão indelével como os do “Eixo do Mal”.

BULLS EYE !!! :-)

BELIAL disse...

Há quem diga que quando o sexo se torna demasiado fácil e promíscuo - com tempo vai precisando de algo mais forte, radical, extremo.

Depois as relações e o que se obtem delas, através de uma convivialidade cúmplice.

Primeiro como "chegador".
Depois, a pouco e pouco, umas aparições, umas "brincadeiras".

Uns filmezitos.

Muitos anos a virar frangos - dá nisto...

josé disse...

"Há quem diga que quando o sexo se torna demasiado fácil e promíscuo - com tempo vai precisando de algo mais forte, radical, extremo."

Isso associado ao meio propício dos "artistas" e da homosexualidde de muitos deles.

Também acho que será essa a explicação.

E quando tudo aparece como suspeita que se torna intolerável surge a negação.

josé disse...

A única alternativa possível seria assumir, explicar o inexplicável e tentar relativizar o que agora não é possível.

Daí a negação permanente perante a impossibilidade de redenção se fosse assumida a coisa.

josé disse...

No fundo é a vingança do jacobinismo. Tanto tentaram desnaturalizar o que é natural que acabaram vítimas do truque diabólico.

Maria disse...

"E quando tudo aparece como suspeita que se torna intolerável surge a negação." (José)


"Daí a negação permanente perante a impossibilidade de redenção se fosse assumida a coisa." (José)

Estas suas duas frases traduzem à perfeição aquilo que lhes retira o sono durante as noites (afirmam o contrário dizendo que dormem lindamente, mas mentem) e que lhes corrói o espírito tanto em vigília como de dia, até ao momento em que sucumbem, porque "a negação permanente" é humanamente insuportável e justamente porque o é, acaba por matar.