Páginas

terça-feira, 14 de junho de 2016

Um crime público na primeira página do Correio da Manhã?


Esta notícia no Correio da Manhã de hoje é a notícia de um crime, tout court. O crime é de índole económica e o MºPº tem obrigação estrita de proceder a um Inquérito através desta notícia, pelo menos e se já o não fez por outras notícias que motivaram que se falasse publicamente na instauração de um inquérito parlamentar que tem outra natureza. O PCP, o PS e o BE não querem sequer ouvir falar no assunto,  o que é altamente suspeito e revelador do duplo critério que usam para estas coisas. O PSD e o CDS também passam bem sem tal incómodo porque lá tiveram no "board" as suas peças-chave, como foi o caso de Faria de Oliveira e Celeste Cardona, por exemplo. Tal sucedeu no tempo final que precedeu o desastre nacional com José Sócrates e a nomeação de Armando Vara, então licenciado em Relações Internacionais, de fresco, pela Independente e Santos Ferreira, um dos melhores alunos de Direito do curso de Marcelo Rebelo de Sousa e outros. A CGD, aliás, foi o retiro preferido de ex-ministros e secretários de Estado, durante anos a fio. Nada menos do que 23 nomeações de tão excelsas personagens que fizeram a figura que agora se vê e que iremos todos pagar, mais uma vez.Eles, estão reformadinhos com milhares e milhares de euros por mês. Reformas douradas e ninguém os incomodará nas suas idas ao Guincho dos restaurantes ou ao estrangeiro das compras.

Porém, o verdadeiro forrobodó e descalabro de contas em empréstimos com garantias para inglês ver ou nem isso, ocorreu no consulado daquela dupla fantástica, nomeada pelo ministro das Finanças de Sócrates, Teixeira dos Santos que agora fala na TV ao lado de outros economistas. Como dizia outro fantástico, o Jorge Coelho da Quadratura, antes de ir para a Mota-Engil, " a memória das pessoas é muito curta"...

A notícia do CM de hoje limita-se a interpretar os resultados de uma auditoria de 2015 às contas do banco público, agora com um buraco do tamanho de vários BPN´s mas que agora ninguém parece querer considerar um caso de polícia, ao contrário do que diziam daquele...e do desgraçado O. Costa, bode expiatório.

Os maiores créditos concedidos, pelos vistos foram-no sem grandes considerações acerca do risco. Se nos lembrarmos do que sucedeu no tempo do comendador da Bacalhôa, Joe "fuck you" Berardo, a propósito do assalto ao BCP, nunca verdadeiramente esclarecido apesar das entrevistas de alguns vencidos nestas andanças nos finais dos anos 2000( Jardim Gonçalves e Belmiro de Azevedo) então temos assunto para várias comissões de inquérito. Mais extensas, interessantes e proveitosas do que todas as que ocorreram neste âmbito bancário. Mais interessante que o BPN, o BPP, o BES ou o BANIF.

Curioso, suspeito e escandaloso são os motivos por que a Esquerda Unida quer esquecer o assunto, tendo como aliados os partidos do centrão.

Assim, todo o espectro político quer esquecer este escândalo e deixar passar impunes estas figuras de proa de uma ópera bufa que se desenrolou diante de todos nós que vimos o que foi, como foi e acabamos comidos com casca e tudo.

A única entidade que resta para dizer que este rei vai nu é o Correio da Manhã. E o PSD do Passos, se calhar, mas não se deve apostar muito nisso...

O articulista Eduardo Dâmaso escreve na última página que estes silêncio é criminoso. E é. Por isso o Ministério Público tem o estrito dever de agir, como nunca agiu nestes casos. É imperativo e já o deveria ter feito: um inquérito criminal para se apurar se houve favorecimento especial a certos clientes que passou pela negligência em se tomarem devidas precauções a propósito de garantias e exigíveis e que a auditoria revela.
No caso Duarte Lima este foi condenado por burlar o BPN de Oliveira Costa, o que continua a parecer-me extraordinário. Assim, entreguem o Inquérito ao Procurador José Pina. Para além de muito competente é implacável nesta matéria. 


ADITAMENTO:

Conforme  se torna evidente já há quem procure tirar o cavalinho da chuva e tirar dividendos políticos..e este ministro Centeno já tenta inverter a ordem das coisas e atirar as culpas para quem governou depois de 2011.

Onde estava o Centeno quando isto aconteceu? Além do mais, no Banco de Portugal e no Departamento de Estudos Económicos. Estas coisas passaram-lhe ao lado...


No entanto, no Relatório de Contas da CGD de 2010 era claro o papel a desempenhar pela Comissão de Risco que analisava estes assuntos do crédito concedido e a conceder:

"Análise de Risco: – o Grupo CGD tem implantado um sistema de identificação, avaliação e controlo do risco da sua carteira de crédito, que abrange todos os segmentos de clientes e é activo tanto no momento da concessão de crédito como na monitorização do risco ao longo da vida das operações."


Tem tem...não há dúvida que tem. E até aposto que quem lá trabalha na tal comissão de risco ganha salário chorudo que envergonharia qualquer funcionário público de topo.
Quem era quem no tal Gabinete de Risco, nos anos em causa? Os nomes são tantos que só uma auditoria poderá esclarecer...mas os relatórios de contas dos diversos anos podem mostrar alguns...

 E como é que recomendavam aos funcionários os comportamentos adequados? Por exemplo, assim, no Código de Conduta:

Corrupção
1. A CGD rejeita activamente todas as formas de corrupção, não devendo os seus Colaboradores envolver -se em situações propiciadoras de actos susceptíveis de associação a este fenómeno.
2. A actividade da CGD está sujeita a rigorosos mecanismos de controlo interno, os quais
incluem normativos internos orientados para a prevenção e combate à corrupção
.


Sobre isto, a ver vamos, como diria o cego...

Seja como for,  o assunto do crédito mal-parado ou concedido com negligência ao factor risco era tema de denúncia de...Garcia Pereira sobre  a «reiterada manutenção da impunidade»» e acusa a actual administração de ter «ocultado» à secretária de Estado do Tesouro (Maria Luís Albuquerque, que tutela a CGD) os vários «indícios de crime» denunciados, bem como várias informações vindas a lume em 2008, num relatório interno.
No documento – enviado à procuradora-geral da República, ao primeiro-ministro, ao ministro das Finanças, à referida secretária de Estado e ao director da Polícia Judiciária -, Garcia Pereira enumera várias situações em que aqueles responsáveis estiveram envolvidos. O documento foi enviado para o DIAP, onde já correm outros inquéritos sobre os factos participados pelos trabalhadores em litígio com a CGD.
A carta de Garcia Pereira foi entregue em mão a Nogueira Leite na véspera de este anunciar a sua saída da administração da CGD, mas o responsável já desmentiu que a sua demissão esteja relacionada com estes casos.

Portanto, processo-crime já temos. Mas não sabemos nada sobre o assunto, pelo que será altura de a PGR se pronunciar. Hoje já é tarde, porque ontem já demorava.

De resto, o banqueiro Fernando Ulrich,  em Setembro de 2012, "à margem de uma conferência organizada pela revista Exame, num hotel em Lisboa, o presidente do BPI declarou que "se fosse feita uma auditoria à gestão CGD no tempo dos governos socialistas, nenhum dirigente socialista teria coragem para fazer qualquer pronunciamento sobre a CGD". E mais: "Na opinião de Fernando Ulrich, uma auditoria encontraria uma "actuação que não é própria de um banco do Estado e permitiria demonstrar claramente que não tem havido vantagem nenhuma, para ninguém, em que a CGD pertença ao Estado".

Em 2013 a própria CGD pediu investigação criminal a alguns negócios do grupo ( os que abrangiam a Fundimo, por exemplo...)


Portanto, este assunto deveria ser tratado pelos jornais de um modo mais consentâneo com a função do jornalismo.
Para já quem o faz é o Correio da Manhã e suspeito que mais nenhum o fará tão cedo. Porquê? A Esquerda unida não está nada interessada...

8 comentários:

Floribundus disse...

no 'jardim da celestre'
o monhé segura o guarda-chuva para o beijoqueiro exibir o blá blá
sobre o divino reino de Pangloss

jbp disse...

Isso agora não interessa nada.
É o pugreçu, aprendam. Cantando e rindo rumo ao tetra....do FMI.

Maria disse...

Magnífico e oportuno tema trazido/recuperado pelo Correio da Manhã e brilhantemente desenvolvido por José, com os necessários e essênciais artigos, entrevistas e opiniões pessoais que o confirmam. Como se tal ainda fosse necessário, tendo em conta os corruptos e corruptores, quase todos políticos e os restantes seus apaniguados, todos diplomados e com bastas e reveladoras provas dadas, que nos têm vindo a governar desde Abril de 74.
Parabéns ao Correio da Manhã e ao José.

foca disse...

Não consigo mesmo perceber a maralha da extrema esquerda.

Se é grave num banco privado (tipo BES), em que haverá perdas públicas mas no essencial foram os acionistas a perder tudo o que investiram, como é que aceitam na CGD em que os acionistas são os contribuintes?

Então e as filhas do terrorista, não querem voltar ao circo das comichões parlamentares?

Ljubljana disse...

Caro José,

Quando coloca o departamento de risco de uma desta instituições ao mesmo nível dos decisores político que por sugam directa ou indirectamente o capital, não me parece justo que o faça, isto é meter o departamento de risco no mesmo saco dos decisores políticos.
No CM de sexta-feira 10 de Julho de 2015, na página 4 e a propósito do negócio de Vale do Lobo, vem a notícia: "Quem interveio no negócio". Diz assim:
"A reunião do concelho alargado de crédito da CGD que viabilizou o empréstimo de 194 milhões à Wolpart, sociedade de Rui Horta e Costa, Diogo Gaspar Ferreira e Hélder Batíglia, juntou o presidente do banco, todos os administradores e vários directores de primeira linha.
Como acontece sempre nestas reuniões, o presidente Carlos Santos Ferreira, deu a palavra ao administrador do pelouro que trazia o negócio à consideração da CGD. Armando Vara, que ocupava o lugar de administrador com a responsabilidade das grandes empresas particulares na zona sul do país, fez-se acompanhar de um director seu de primeira linha: Alexandre santos, encarregado dos grandes negócios do Algarve. Feita a exposição dos méritos do negócio, foi a vez do departamento jurídico e do departamento de risco intervirem. É Vasco Loureiro, director do risco, que coloca algumas objecções, prontamente rejeitadas. O concelho aprova o crédito."
As duas últimas frases são verdadeiramente lapidares da forma como funcionava o processo de decisão nestas investimentos da CGD.

josé disse...

A responsabilidade penal dos "negócios para os amigos" pode vir daí, dessa circunstância. E ainda há outra: o departamento de risco só riscava em aspectos técnicos porque em determinada altura foi alargada e delegada noutras dependências a decisão de concessão do crédito.

Porém, isso não é motivo para se poder dizer que esse departamento nada tem a ver com o assunto.

Tem a ver tudo com a cumplicidade nos métodos que a própria instituição recomendava para não seguirem.

São funcionários descartáveis? Pois serão, mas têm que ser ouvidos e estabelecida a responsabilidade concreta porque quem assina documentos ou participa em reuniões têm actas que podem mostrar que papel tiveram em concreto.

Sabemos, no caso do BPN/Duarte Lima que o departamento do banco não deu parecer favorável ao empréstimo dos 40 milhões, mas o presidente O. Costa autorizou. E ainda assim o Lima foi acusado de burlar o banco...como se O. Costa fosse burlável neste aspecto.

No caso da CGD é perceptível que quem autorizou os empréstimos aos amigos foram os responsáveis máximos. Mas não com a oposição técnica dos intermédios, parece-me. A não ser que tenham salvaguardado a posição de responsabilidade...

josé disse...

Ou seja, estes indivíduos que compunham tais departamentos não podem lavar as mãos, assim e sem mais, continuando a receber o salário chorudo ao fim do mês como se nada fosse com eles....

BELIAL disse...

Eu digo: CORREIO DA MANHÃ - o mal que faz, pelo bem que sabe.

E vai sabendo muito do que diz, dizendo muito do que sabe...