Passos Coelho, agora na Oposição ao Governo, disse ontem publicamente e com destaque noticioso em tv´s coisas simples e que todos entendem. Duas delas merecem ser mencionadas em primeira página por qualquer jornal que tivesse do jornalismo a noção que deveria ter: informar com isenção o que se revela útil para o conhecimento da nossa realidade.
Uma afirmação de Passos referia a descida no investimento público realizado por este Governo em comparação com o anterior, contrariando até propósitos declarados de keynesianismo inflamado.
Só um jornal de hoje refere tal facto na primeira página: o i.
Outra afirmação tem carácter ideológico e politicamente é um apanhado que nenhum jornal deveria ter deixado escapar porque revela uma clivagem político-ideológica capaz de suscitar uma discussão acerca da natureza da geringonça governamental: "Quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas?"
Nenhum jornal nacional de relevo se dignou mencionar em primeira página tal questão.
No entanto essa é uma das questões magnas na sociedade portuguesa actual, perceber a natureza do regime que temos, das contradições ideológicas que o atravessam e no final de contas compreender porque se chama geringonça a uma organização de governo com apoio parlamentar de partidos que não comungam ideologicamente dos mesmos propósitos e se encontram em campos opostos no modo de entender a sociedade e a política. A democracia não poderá funcionar sem problemas de maior se existir no seu seio quem queira acabar com a mesma, tal como é entendida na Europa ocidental.
O PCP, apesar dos aggiornamentos de décadas continua o mesmo de sempre e que levou Álvaro Cunhal a garantir a uma jornalista italiana do L´Europeo ( Oriana Fallacci) que Portugal jamais teria uma regime parlamentar semelhante ao da Europa ocidental. O PCP não mudou uma vírgula nesse entendimento ideológico de fundo; apenas de táctica, por muito que o deneguem, como aliás fizeram mentindo sobre aquele propósito declarado.
O BE, como se extrai das declarações avulsas dos seus líderes é um partido revolucionário, trotskista que se vai adaptando ás condições objectivas que encontra, oposto em muitas coisas ao PCP mas similar no desiderato: o socialismo não democrático.
Tanto o PCP como o BE são partidos de esquerda marxista com ideias muito afastadas das dos demais do espectro político no que se refere à organização económica da sociedade.
Esses factos e realidade são escamoteados continuamente por uma informação enfeudada ideologicamente a uma esquerda mítica, sempre a mesma, que tem apenas uma ideia base: a oposição ao capitalismo tal como se conhece. Agora chamam-lhe mercados, neo-liberalismo e outros epítetos, mas fundamentalmente é sempre a velha luta de classes que está impregnada no espírito de quem escreve e dirige os jornais. O PCP e o BE são os aliados naturais nessa luta de sempre porque uma boa parte dos jornalistas, os desta e os da geração anterior, estiveram sempre próximos dessa ideologia.
O que Passos Coelho disse- ninguém que tenha dinheiro para investir vai enterrá-lo num país que não protege ou garante o rendimento desse dinheiro- é uma afirmação de um senso comum que não se encontra nos jornais e tal fenómeno, só por si, merece estudo e reflexão.
Nos últimos 40 anos o discurso da esquerda marxista e mesmo daquela que meteu o marxismo na gaveta não suscita confiança nos investidores. O capitalismo desertou de Portugal em 1974 e nunca mais se recompôs tal como existia, apesar de essa esquerda marxista estar sempre a dizer o contrário.
As grandes empresas estrangeiras, os "monopólios", no dizer pitoresco dos marxistas do PCP e quejandos, não querem nada connosco porque conhecem muito bem o ambiente de prec permanente que existe neste Portugal de geringonça ideológica.
Os capitalistas endinheirados que surgiram em Portugal desde há 40 anos ganharam o dinheiro a vender mercearias e pouco mais. A indústria que existia e desapareceu nos anos 80 fruto da gestão inacreditável da esquerda não marxista, não voltou a aparecer do mesmo modo.
Os sectores que em Portugal exportam sabem pouco a português antigo e nenhum deles é capitaneado por qualquer capitão de indústria ou núcleo familiar que dantes existia.
As maiores exportadoras resultam de recomposições de antigas empresas que eram privadas em 1974, foram nacionalizadas em 1975 e resultaram em geringonças sem alma nacional, incluindo a TAP ou a GALP. As estrangeiras que vieram para cá estão no sector automóvel e similar e as construtoras civis de maior vulto são fruto do regime de proteccionismo prático e eventualmente corrupto através de verbas comunitárias para as autoestradas do futuro comprometido em PPP´s.
Nas vinte maiores empresas nacionais ( entre 10 mil milhões de euros e mil milhões de euros de facturação, o que é um retrato da nossa pobreza) as de energia e comunicações levam a parte de leão. Os merceeiros levam o resto que nem é muito, relativamente.
Quem produz artefactos para vestir e calçar mantém uma economia florescente no Norte do país, tendo sobrevivido miraculosamente aos precs. Quem produz na agricultura, idem. Mas são uma ínfime parte do que somos economicamente e uma sombra pálida do que poderíamos ser.
Não há muito tempo tínhamos cerca de 11 das 100 maiores empresas europeias a operar em Portugal. Em 2009, no tempo de um Inenarrável PM tínhamos 3 das maiores empresas de construção civil europeia e percebe-se bem porquê...
As vinte maiores empresas europeias nada têm a ver connosco e estão concentradas na área dos serviços e da construção automóvel.
A empresa suíça Novartis, do sector farmacêutico tinha há cerca de dez anos uma facturação que era quase o triplo na nossa maior empresa ( Petrogal).
A Volkswagen por exemplo e porque temos por cá uma espécie de entreposto deles, tem uma facturação anual de mais de 250 mil milhões de euros.
Em Portugal, há poucos anos, as 1000 maiores empresas facturavam nem sequer 150 mil milhões de euros, em conjunto...
Com estas realidade como é que se compreende que os jornais e os jornalistas nacionais dêem o destaque e a importância que efectivamente dão ao PCP e ao BE e ao mentor da actual geringonça que não sabe bem onde está e para onde vai?
Como é isto possível e principalmente durar ininterruptamente há mais de 40 anos, sem grande alternativa?