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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A (re)visão permanente do esquerdismo militante

Este texto de José Vítor Malheiros ( o nosso Jacques Julliard porque quem não tem cão caça com gato)  no Público é bem o exemplo dos equívocos que lavram nos nossos media há mais de 40 anos a esta parte.

Parte logo de um pressuposto falso: o domínio dos media nacionais pela "não esquerda", ou seja e para simplificar, pela "direita" seja lá isso o que for e no artigo é identificado como a actividade política dos empenhados em " impor na esfera política e em defender no espaço público uma agenda de privatização de serviços públicos, desregulação económica, liberalização do mercado de trabalho, destruição de direitos sociais e demonização do Estado".
Esta parece ser a definição operacional da "direita" por contraposição à de esquerda, definida como a defesa das actividades "empenhadas em difundir um ideário de combate às desigualdades e à injustiça social e em noticiar a actualidade a partir de um ponto de vista socialmente empenhado e intelectualmente independente dos poderes vigentes."

Este equívoco enunciado em sofisma permanente é o ideário da divisão "esquerda-direita" tal como o conhecemos em Portugal desde há longos anos. Não é, no entanto, o ideário do tal Jacques Julliard que costumava escrever pequenos textos na revista francesa Marianne e que se pautava por critérios de esquerda, assumidamente. Portugal tem uma esquerda marxista marcada por longos anos de lavagem cerebral vindos directamente do PREC de 1974-75.

Leia-se agora o resto do artigo do esquerdista português que escreve em jornais como o Público para vituperar a existência de uma escrita desconforme e desviada dos cânones daquela esquerda enunciada do modo exposto:

 Imaginem que o jornal online Observador, em vez de ser um órgão de propaganda da direita neoliberal, criado e financiado por empresários conservadores empenhados em impor na esfera política e em defender no espaço público uma agenda de privatização de serviços públicos, desregulação económica, liberalização do mercado de trabalho, destruição de direitos sociais e demonização do Estado, fosse um projecto criado e financiado por pessoas ligadas à esquerda, empenhadas em difundir um ideário de combate às desigualdades e à injustiça social e em noticiar a actualidade a partir de um ponto de vista socialmente empenhado e intelectualmente independente dos poderes vigentes. 
É evidente que, nessas circunstâncias, não veríamos um elemento do Observador a ocupar um lugar cativo nos painéis de comentadores da RTP e, se por acaso esse jornal fosse alguma vez citado por outros órgãos de comunicação social, seria identificado como “o jornal de esquerda Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da esquerda radical” e os jornalistas que assim o identificassem considerariam estar a fazer uma descrição não só objectiva mas necessária da fonte em causa.
Porque é que isso não acontece, simetricamente, e pelas mesmas razões, com o actual jornal Observador e porque é que este não é sempre apresentado como “o jornal de direita Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da direita radical”?
Isso acontece devido à hegemonia do pensamento conservador que considera “normal” que se seja de direita, e portanto não digno de ser sublinhado ou sequer referido, e “anormal” que se seja progressista, e portanto exigindo referência que sublinhe esse “desvio”. Para este pensamento hegemónico, ser de direita não é ser nada porque essa é a posição “natural”, enquanto ser de esquerda é ser algo “não natural”. Era precisamente pela mesma razão que, durante o Estado Novo, os apoiantes de Salazar “não faziam política”, por muito radicais que fossem nesse apoio em todas as facetas da sua vida, e os oposicionistas eram considerados “políticos”. 
É evidente que os jornalistas, de direita ou de esquerda, sabem que é tão marcadamente ideológico ser de direita como de esquerda, mas por que razão sublinham então uma coisa e passam a outra em branco? Em certos casos, por mimetismo irracional. Muitos querem apenas to blend in e seguem a onda, imitam os colegas, as revistas, os famosos, os gurus que aparecem nos media – e estes são esmagadoramente de direita mesmo quando “não falam de política”. Noutros casos, por mimetismo premeditado. Querem apenas passar despercebidos e não pôr em risco o seu posto de trabalho. Noutros casos por cálculo. Querem fazer carreira, seja onde for, e aprenderam na escola de antijornalismo por onde andaram que a adulação funciona e que não se pisam os calos dos poderosos. Noutros caso por medo. A direita conservadora está no poder e tem o dinheiro, a força e muito da lei do seu lado. Noutros casos, devido ao ritmo industrial de produção imposto na maior parte das redacções, que obriga a aproveitar a informação primária tal como chega de algum centro de poder e a republicá-la sem tempo para a editar, reconstruir, verificar seja o que for ou sequer pensar. Noutros casos por pura distracção, porque o vento reaccionário é tão constante que se torna hipnótico. Noutros casos ainda, uma minoria, por consciente adesão a um modelo ideológico que se pretende reproduzir.
Estas circunstâncias têm todas algo em comum. São todas contrárias à deontologia que rege o jornalismo, que obriga a uma total independência dos poderes e à adopção de uma atitude de equidade e saudável cepticismo em relação à informação recebida das fontes, oficiais ou não.
Seja qual for a razão em cada caso particular, é por isso que continuamos a ver os noticiários cheios de citações nunca contraditadas de Pedro Passos Coelho, diga este as inanidades que disser no seu escasso léxico e por frágil que seja a sua situação política no interior do partido, e é por isso que qualquer pergunta a um político de esquerda está sempre dedicada a tentar encontrar brechas no entendimento parlamentar à esquerda, mesmo quando elas têm de ser inventadas por uma edição imaginativa. Porquê? Porque é preciso sublinhar, em cada momento, a contranaturalidade de um governo apoiado pela esquerda. Pensamento hegemónico da direita dixit. É também por isso que os pivots fazem uma careta quando dizem o nome de um dirigente do PCP mas não quando dizem o nome de um dirigente do PSD, numa demonstração de sectarismo que pode ser inconsciente, mas não é por isso menos sectária. É por isso que, numa entrevista de Catarina Martins publicada neste jornal, tem de ser colocada em título uma frase que dá a ideia contrária ao pensamento expresso pela entrevistada (dando a impressão de que, se fosse hoje, o BE não assinaria o acordo com o PS) mas que é conforme ao ar do tempo, sempre hegemónico, da direita.

Para esta esquerda militante contra o neo-liberalismo ( dantes era apenas o capitalismo, tout court) não devia existir o direito de alguém poder desviar-se do cânone estabelecido por eles próprios, segundo um ideário marxista. E se o fizesse, como aparentemente será o caso do Observador, deveria, em nome da decência democrática, ser denunciado e apresentado em pelourinho de opinião publicada como herético e desvirtuado dos valores político-morais dominantes.
A fogueira virtual seria apenas simbólica mas real na intenção de censurar e podar ideias adversas, eliminando a liberdade de expressão de tais propósitos. Tal como há  quinhentos anos e desde então, em regimes que gostavam de ideário único e sem grandes contraditórios ideológicos. Esses regimes são precisamente os que essa esquerda apresenta como alternativa aos fassismos vários que apresentam sempre como o mal absoluto e irrefutável, o que se revela de uma contradição assinalável pela cegueira ideológia que ostenta.

Mesmo este argumento mergulhado na sua contradição, não encontra qualquer resistência uma vez que é contornado pela ideia simples de que o socialismo ou um regime de esquerda não é fatalmente catalogável entre os abominados totalitarismos, apesar de as evidências histórias o demonstrarem. Há sempre uma réstea benevolente nas virtualidades teóricas de tais regimes e por isso são desprezados os que denunciam a incoerência evidente. Pura e simplesmente, para esta esquerda, a realidade não a afecta porque vive sempre na virtualidade. O que é mau poderia ser bom e se fosse experimentada a receita certa sê-lo-ia pela certa. É assim que resolvem o paradoxo, do modo clássico e experimentado. O facto de ser sempre mau, com experiência comprovada de muitas décadas, não demove estes crentes da fé primitiva e original apresentada por Marx e desenvolvida por outros teóricos estudados.
O Mal absoluto para os crentes desta seita politicamente albigense que reescreve a História como uma permanente récita acerca de uma luta de classes é a famigerada "direita" que apesar de muitas vezes nem se assumir como tal é reconhecida pela preferência de classe. O sofisma, entranhado como está já não lhes estranha.  

É neste contexto que se pode ler a seguinte entrevista notável ( publicada no último número da revista História -Jornal de Notícias) do historiador do anti-fassismo primitivo, Fernando Rosas que teve um avô revolucionário e um tio salazarista e optou por afeiçoar as ideias daquele, eventualmente por defeito politicamente genético.

A entrevista não está completa porque a última parte não interessa tanto. Nestas páginas está o catálogo completo do ideário da esquerda comunista acerca o nosso devir histórico do séc. XX, contado do modo que sempre foi contado por estes esquerdistas: sempre a perspectiva marxista da luta de classes e sempre a perspectiva que denega a legitimidade histórica de quem governou Portugal nas décadas de 30 a 70 desse século.
Estas pessoas preferiam que Portugal tivesse sido regido pelo comunismo, apesar de tudo o que aconteceu nos países que tinham tal regime e que os mesmos tinham o dever de conhecer. Este Rosas particularmente e que se diz historiador tinha o estrito dever de perceber o totalitarismo aberrante que defendia como solução para o salazarismo. Não se dá por achado, continua na sua pesporrência ideológica a defender o indefensável e a acusar os demais historiadores que não pensam do mesmo modo, de "revisionistas" ! Pasme-se!

Gostaria que um Rui Ramos ou um Vasco Pulido Valente, citados na entrevista lhe respondessem e entrassem em polémica, mas isso é pedir muito, se calhar.
Porém, essa discussão tarda e não chega para recuperar o tempo perdido de 40 anos de esquerdismo militante nos media em modo de opinião unificada. A esquerda comunista conseguiu nos media o que nunca conseguiu nos sindicatos do trabalho: a unificação da linguagem.
Quando Rosas fala ( pág. 66) no ambiente vivido em Portugal nos anos do PREC é claro: a hegemonia era de esquerda. E os media acompanhavam, até hoje, com pequenos nichos de aldeias gaulesas ( o Observador, por exemplo)  que nem sequer lutam de modo igual para desbastar essa linguagem malfazeja porque nem se dão conta do mal que provoca. É esse o grande segredo da Esquerda ou pelo menos o mais bem guardado porque visível a quem o souber ver: a manutenção da linguagem esquerdista como referência léxica.






10 comentários:

JPRibeiro disse...

O artigo do Público é antes de mais um acto de intimidação: processo descoberto pelos nazi-fascistas e aperfeiçoado ao longo das ultimas décadas pela extrema esquerda.

Aníbal Duarte Corrécio disse...

Atenção José ao título do post...Parabéns pela análise.

Lura do Grilo disse...

O artigo é toda uma enciclopédia do autoritarismo chavista que a domina de umas décadas a esta parte.

lidiasantos almeida sousa disse...

PARABÉNS. O senhor tem uma paciência de santo. por enquanto não sou um robot, mas estou em vias se ser um robot coam inteligência artificial.


lidiasantos almeida sousa disse...

o programa do maior humorista do mundo, foi feito pelo Paulo portas, quando o CHAVES ainda estava vivo. Foi à televisão e com o ar mais compungido do Mundo disse. Desejo que o nosso Presidente Chavez melhore pois faz muita falta ao Mundo.isto quando substituiu o Sócrates no papel de caixeiro viaja ante. Um mês antes disse no PARLAMENTO O GOVERNO DA VENEZUELA E O SEU PRESIDENTE CHAVEZ É UMA DITADURA INFAME. ESTES TRICHAS NÃO ASSUMIDOS É O QUE ME VALEM PARA EU ME RIR.

Floribundus disse...

Eça: Campanha alegre

na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa. Apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal! As nossas
bandarilhas não têm cor, nem o branco da auriflama, nem o azul da blusa. Nunca poderão tão ligeiras Farpas ferir a grande artéria social: ficarão à epiderme. Dentro continuará a correr
serenamente a matéria vital – sangue azul ou sangue vermelho, dissolução de guano ou
extracto de salsaparrilha.

dizem por aí salsa porrilha

Floribundus disse...

+ Eça

o parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai, à uma hora, conversar, escrever
cartas particulares, maldizer um pouco, e combinar partidas de whist. O Parlamento é uma sucursal do Grémio. A tribuna é uma prateleira de copos de água intactos.
O ministério, o poder executivo, deixou de ser um poder do Estado. E apenas uma
necessidade do programa constitucional. Está no cartaz, é necessário que apareça na cena.
Não governa, não tem ideia, não tem sistema; nada reforma, nada estabelece; está ali, é o que basta. O País verifica todos os dias que alguns correios andam atrás de algumas carruagens –
e fica contente.

'mudaram as moscas'

Ricciardi disse...

Eu até vou mais longe. Ha jornalistas a soldo. E bloggers também (mas isso já se sabia).

A tarefa dos primeiros não é informar com a devida isenção. A tarefa é informar com parcialidade. A tarefa dos segundos é achincalhar e fazer chinfrim em avalanche nas redes sociais naquela ideia simples 'agua mole em pedra dura...'.

Note-se bem quem são os jornalistas sérios e aqueles que são comprados para relatarem parcialidades. Começa logo no título escolhido. O artigo pouca gente tem paciência para ler, o título é lido por toda a gente.
.
Jornalistas parciais há de direita e de esquerda. Mas não em número igual. Durante o governo paf a coisa passou a ser mais favorável aos propósitos pafianos. Como foram nos tempos socretinos (até o vislumbrarem como defundo). E estou convencido de que no fim do actual mandato governamental possa haver alguma inversão na última tendência, quando alguns jornalistas parciais do observador e do negócios, entre outros, forem chamados à atenção pelas respectivas administrações que sentem dificuldades na captação de receitas publicitárias.
.
Pelo menos na América dizem logo ao que vêm. Assumem-se. Um leitor já está automaticamente avisado para não acreditar naquilo que é transmitido. Gosto mais dessa franqueza do que a hipocrisia reinante nos media lusos.
.

Rb

josé disse...

O óbvio ululante nunca deveria carecer de explicação. O que precisa de entendimento é a razão da predominância da esquerda sobre todas as mundivisões.

Esse é que é o fenómeno enunciado, ou seja a floresta de enganos.

Mas há sempre quem se ocupe das folhas das acácias secas...

lidiasantos almeida sousa disse...

O ANTI SALAZARISMO DO PORTAS ALUCINANTES DIZIA O PIOR DO JOSE EDUARDO DOS SANTOS DE ANGOLA, AGORA RASTEJA AO SEUS PÉS COMO UMA COBRA CASCAVEL. AINDA BEM QUE SÓ SOU 50% PORTUGUESA, POIS O PORTAS NÃO É DA MINHA PÁTRIA.


https://youtu.be/OoKopYNd5AU