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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O filho de Marcello Caetano fala sobre o pai

Vale a pena ler esta entrevista de Miguel Caetano, no Observador. Aqui se colocam algumas passagens que me interessaram particularmente:




Obs- Pedro Feytor Pinto, diretor de Informação de Marcello Caetano, disse-me que o seu pai, se fosse um animal, seria uma águia. E depois fez a afirmação que deu título à entrevista: «Marcello era muito mais às direitas do que Salazar». Quer comentar?

Miguel Caetano- Podia ser tanta coisa, podia ser uma águia, podia ser um leão… Dizer que era mais à direita que Salazar, era preciso conhecer o pensamento de Salazar. Agora, Salazar era muito mais conservador que o meu pai e isso viu-se quando o meu pai foi ministro da Presidência, era muito mais viajado, conhecia a Europa, África, quando falava das coisas não falava de cor. Era um homem preparado, professor de Direito muito considerado em Portugal e no estrangeiro, e isso dava-lhe outra visão, tinha outra abertura ao mundo. Mas tinha, ou talvez por isso, por ser professor, um espírito pedagógico permanente e isso criou nele uma tendência de ver quase todos como alunos, não aceitava bem que lhe dissessem o que fazer. Era um homem de convicções, mas procurava compreender as transformações que se iam passando no mundo. O facto de compreender não queria dizer que concordasse.
(…)


Obs- Falavam de política em casa?

Miguel Caetano- Em política, nesse sentido, não. O meu pai não trazia para casa questões políticas, mas dizia o que pensava sobre as coisas. Ouvíamo-lo falar com várias pessoas e sabíamos a opinião que tinha. Mas não havia doutrinação política lá em casa. Havia valores, isso sim. A sua profunda formação cristã levava-o a falar-nos do corporativismo como uma doutrina assente nas Encíclicas e na tradição portuguesa das corporações medievais. Durante a guerra, a de 39-45, que acabou quando eu fiz dez anos, sempre o ouvi defender os nossos aliados históricos, os ingleses.


(…)

Obs- Quando é que percebeu que defendia ideias diferentes das do seu pai?

Miguel Caetano- Não havia propriamente um confronto de ideias, e houve vários períodos da minha actividade que coincidiram com o tempo em que o meu pai não estava na política e em 68 até houve uma aproximação. Mas eu era parte de uma geração que entendeu sempre que era possível fazer melhor. Não escolhemos fazer uma revolução, mas apostámos que a transformação de Portugal passava por agarrar todas as oportunidades de fazer coisas novas, de encontrar novos caminhos, que nos conduzissem a ser um país mais moderno, através de mais criação de riqueza e da sua melhor distribuição.

Obs- Quando começa a afastar-se?

Miguel Caetano- A partir da eleição do presidente da República, em 1972. Na primeira fase ele está interessadíssimo em saber o que o meu grupo quer, falamos muito sobre o assunto.

Obs- E o que queria o seu grupo?

Miguel Caetano- Houve uma transformação de movimentos ligados à igreja, com percursos diferentes. O meu grupo convenceu-se que era possível e desejável transformar a sociedade portuguesa pelo desenvolvimento económico, pelos movimentos cívicos, pelas cooperativas e envolvemo-nos nisso. Evidente que na minha idade eu achava que se não fosse por esse caminho, não havia caminho. Agora, quem é que teve razão? Lá que não houve caminho, não houve, mas também não sabemos se pela dinâmica que propúnhamos íamos lá. O problema foi a descolonização, tudo o resto teria sido resolvido, mas sem a guerra colonial. Nós também não tínhamos solução para a guerra colonial. E aí dá-se um impasse: o meu pai achava que tinha de fechar a torneira, nós achávamos que fechando a torneira não se ia a lado nenhum.

(…)
Obs-Como era a sua relação com o Partido Comunista?

Miguel Caetano- Sempre colaborei com gente que sabia estar ligada ao Partido Comunista, ou a outros partidos de inspiração marxista, desde que os objectivos fossem comuns. Mas não tinha dúvidas sobre a concepção totalitária do Estado que perfilhavam. E ainda hoje me espanto quando vejo, num Estado que perfilha o modelo das democracias ocidentais, atribuir a Ordem da Liberdade a todos aqueles que lutaram contra a ditadura do Estado Novo para a substituir por outro modelo de ditadura. No entanto, sempre defendi que se devia caminhar para uma democracia onde partidos comunistas tivessem o seu lugar, deixassem a clandestinidade.

Obs- O 25 de Abril foi agridoce?

Miguel Caetano- O 25 de Abril foi um momento extremamente difícil e ambíguo. A esperança de que fosse o início da construção duma sociedade mais justa, mais livre, que não se podia transformar em alegria por significar simultaneamente a derrota, a prisão e o exílio do meu Pai. Permitiu acabar com a guerra, com a censura e com a polícia política. Descolonização exemplar não houve, nem sei se podia haver, mas não conseguimos proteger minimamente os interesses dos cidadãos portugueses. Penso que nos anos cinquenta, quando o meu pai foi ministro da Presidência, deixou bem claras as suas opções quanto ao desenvolvimento económico, a industrialização do país, a abertura à Europa. Creio que se tivesse tido oportunidade teria tentado pôr em prática as soluções que defendeu mais em privado para o nosso problema colonial: autonomia progressiva, integração dos quadros locais de todas as raças e etnias no governo e na administração, negociação ainda em contexto de paz.
(…)

Obs- Em que estado encontrou as empresas públicas?

Miguel Caetano- No final dos anos setenta, fui convidado para assessor do secretário de Estado do Planeamento e uma das minhas missões era assegurar a articulação do Instituto das Participações do Estado com a orgânica de planeamento. Não tive contacto directo com as empresas que constituíam o universo do IPE, mas o objectivo era pôr a casa em ordem. Entre 1980 e 1988, envolvi-me em duas empresas com resultados bem diferentes nas negociações financeiras. Encontrei um mundo de empresas descapitalizadas, dependentes da banca nacionalizada, numa altura em que as taxas de inflação se situavam entre os 20% e os 30% e os bancos cobravam juros na ordem dos 25% a 35%. Se reorganizar uma empresa, fixar objectivos, definir funções e métodos de trabalho, estava dentro das minhas competências, na gestão financeira eu era inexperiente. Num dos casos, encontrei esquemas de empréstimos concedidos em que o gestor do banco recebia uma comissão e vi o interesse desse mesmo gestor bancário na realização de negócios que eram prejudiciais à empresa em questão. Tentei, sem sucesso, apresentar a situação à administração do banco, que recusou tomar conhecimento. No outro caso, pelo contrário, encontrei gestores competentes e sérios, empenhados em colaborar na procura e concretização de soluções que fossem do interesse de ambas as partes.

Obs-Parece que não mudou muita coisa na banca…

Miguel Caetano- É evidente que toda a banca foi sempre permeável a esse tipo de situações. Simplesmente, havia umas mais estruturadas do que outras. E a seguir ao 25 de Abril era uma prática quase generalizada, digamos que as hierarquias estavam mal escolhidas, era fácil fazer, não havia controlo. Hoje é outro género, naquela altura houve algo parecido com a democratização da corrupção. De repente, parece que se descobriu que todos tinham direito a isso. Encontrei um ambiente incontrolado. Quando tentei resolver, percebi que estava tudo cheio de pequenos interesses.

(…)
Obs- Acredita que a sua geração de políticos era diferente da que está hoje no poder?

Miguel Caetano- Na geração anterior à nossa, no caso do meu pai, por exemplo, o que se passou foi que se criou uma escola de discípulos. E ele sentia isso, que os tinha formado. Na transição, do fim do Estado Novo à consolidação do regime democrático, que é quando a minha geração vai para a política, não havia políticos de carreira. Havia independentes e chefes de grupo que tinham uma atitude integradora. E, mesmo com opiniões diferentes, havia uma enorme amizade. O nosso relacionamento de grupo era tão forte que a maior parte ainda hoje mantém relações de amizade. Os políticos de então, na maioria, continuaram a contribuir sem se entregar ao jogo do poder.
(…)
Obs-Como se define hoje, politicamente?

Miguel Caetano- Sou socialista cristão. Defendo o socialismo em liberdade, são os valores que escolhi e que mantive. O que não quer dizer que me reveja neste PS, que não revejo. O meu ponto de partida foi uma educação tradicional, de matriz católica, mais ou menos conservadora, mas aconteceu em 1958 a eleição de um novo Papa, João XXIII, e o início de um novo ciclo de vivência dos valores cristãos.

Obs- Os seus filhos, votam? Falam sobre política?

Miguel Caetano- Votam, em geral mais à direita do que o Pai [risos]. E conversamos, mas gosto pouco de discutir política. Aceito argumentos, mas cada um tem os seus.

Obs-A ideia que tinha de que o país podia ser melhor e o que vê hoje, que sentimento lhe deixa?

Miguel Caetano- Frustração.

15 comentários:

Kaiser Soze disse...

"E ainda hoje me espanto quando vejo, num Estado que perfilha o modelo das democracias ocidentais, atribuir a Ordem da Liberdade a todos aqueles que lutaram contra a ditadura do Estado Novo para a substituir por outro modelo de ditadura."

Lapidar.

Floribundus disse...

gostei do tratamento dado ao social-fascismo

e do sentimento de frustração

por mim nunca tive ilusões sobre uma 'democracia' de esquerda

os contribuintes privados estarão em breve
na fila para
'a sopa dos pobres'

Maria disse...

Excelente entrevista dada por Miguel Caetano e oportuna transcrição de pedaços da mesma. Pena não ser toda. Parabéns José.

josé disse...

A entrevista pode ser toda lida no sítio do Observador que "linkei". É muito extensa.

zazie disse...

O link é do Sapo, José.

Maria disse...

Obrigada José e Zazie, vou ler.

Josephvs disse...


Miguel Caetano- Sou socialista cristão.........

Miguel Caetano- Frustração.............

Estas 2uas foram o suficiente pra mim!

Bic Laranja disse...

Era. Sabia mais e havia de endireitar o mundo melhor que o pai. Frustrou-se.
Cumpts.

Bic Laranja disse...

A «democratização» da corrupcinha dos pequenos interesses vicejou na corrupçona dos magnos interesseiros. Maturou em tão grossas vergônteas que a árvore das patacas não aguentou e apodreceu. Democràticamente. Socialista cristãmente até...

josé disse...

Miguel Caetano não honrou o pai, ideologicamente. É pena, mas foi assim.

José Luís disse...

Miguel Caetano andou sempre mal acompanhado do ponto de vista politico.
Socialista cristão? O que é isso???

zazie disse...

Se continuassem com entrevistas de descendência seguinte, então é que ia haver surpresa da grossa...

muja disse...

É curioso como dessa geração há tantos assim que saem, politicamente, o oposto aos pais.

E curioso é também como depois se acaba por saber que os pais até davam bastante liberdade...

Em casa de ferreiro...

Maria disse...

josé disse...

"Miguel Caetano não honrou o pai, ideologicamente. É pena, mas foi assim."

Completamente d'acordo. E de facto foi pena.



José Luís disse...

"Miguel Caetano andou sempre mal acompanhado do ponto de vista politico.
Socialista cristão? O que é isso???"

O José Luís pergunta com razão o que é ser-se socialista e cristão. Eu, quando li essa expressão de M.C., perguntei-me exactamente o mesmo. Não há qualquer lógica naquela asserção. Política e ideològicamente M.C. não saiu nadinha ao Pai.

zazie disse...

O César das Neves fala disso numa entrevista recente