Páginas

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O estranho caso da juiza arrastada para um labirinto

Deixo aqui um problema elencado e que comentarei, se Deus quiser, daqui a uns dias quando sair a decisão da Relação...

Tudo começou numa sexta-feira numa sala de audiências de um tribunal penal de primeira instância. Um casal desavindo, já separado e com filhos, encontra-se em tribunal para julgamento do ex-marido, por violência doméstica exercida sobre a ex-mulher.
O caso é idêntico a tantos outros que pelo país fora  são julgados e cujo crime até aqui há uns anos era entendido como menor e desvalorizado penalmente.
O crime de violência doméstica é seguramente um dos que mais trabalho dá aos magistrados do MºPº em Portugal, actualmente. Curiosamente, desde que se começou a dar importância maior aos casos, têm aumentado os crimes de homicídio entre cônjuges, mesmo separados e frequentemente seguidos de suicídio do autor.
O fenómeno merece estudo porque é complexo e pode ser como os fenómenos da economia: paradoxais. Por uma razão: tanto uns como outros lidam com a natureza humana e se há alguém que não a entende são os jacobinos das ideias importadas, como há um ror deles em Portugal, a legislar.
Assim o que parece protecção individual pode redundar em agressão garantida, contra a vontade de quem pretendeu o efeito contrário.

O caso só foi notícia porque se tratava de pessoas com destaque mediático. A mulher como apresentadora de televisão e o marido, antigo político de partido, com notoriedade assegurada nessas lides e eventualmente por causa de truculência já demonstrada noutras ocasiões.  No meio, dois filhos pequenos que possivelmente não queriam ver os pais nestas andanças.

Portanto tudo começou com notícias que apareceram nos jornais dando conta da primeira sessão do julgamento. O Público não perdeu pitada logo que chegou aos ouvidos da redacção, pela voz de uma associação de...mulheres juristas (?!), presidida por uma desembargadora e que lavraram publicamente um protesto contra a juíza do caso concreto que teria um comportamento na sala de audiências pelas mesmas julgado inadmissível. Como tomaram conhecimento do assunto? Foram à sala de audiências? Tiveram acesso à gravação da sessão? Não esclareceram, mas teme-se o pior. Por outro lado, a dita associação nem foi questionada a propósito da interferência, na pendência de um julgamento, no próprio processo, com um sentido inequívoco de pressionar uma juiz de direito, titular do poder judicial naquele caso concreto, sobre o sentido da direcção da audiência, do que se pode esperar da mesma, etc etc.
A dita associação,  de "mulheres juristas" ( parece que não há associações de homens juristas...) entendeu por bem, com a ratificação de uma presidente que é juiz de direito, interferir directamente no decurso de um julgamento penal questionando directamente a legitimidade da juiz titular do processo e do poder soberano inerente, em se dirigir à ofendida em determinados modos  que a dita associação entende inadmissível. Ninguém questionou esta atitude da dita associação nem tão pouco a razão que a move ou sequer a razoabilidade das críticas. Antes aceitaram como boas as mesmas críticas e acrescentaram um ponto ao conto narrado. Um jornal até mencionou que a juiza em causa tinha simpatias pelos combatentes do regime nazi, porque expusera tal eventualidade nas "redes sociais".

Logo na Segunda-Feira, dia 16 de Fevereiro,  o Público replicou a indignação, sob a forma de notícia, como é típico desse jornalismo de causas. A notícia é construída para dar a ideia de que a juiz não era boazinha da cabeça...e que estaria preparadinha para absolver o culpado já transitado em julgado, no decisão entendida daquelas figuras críticas.


O mesmíssimo Público que tantas provas tem dado desta isenção jornalística deu mais uma no dia 21 de Fevereiro sob a pluma capciosa de uma cronista de costumes. Lendo, parece bem. Mas não é porque a ideia-base  continua lá: desautorizar o poder judicial do caso concreto. Entrar na discussão do assunto que se passou na audiência sem ter lá estado e copiando de outros sítios aquilo que porventura ocorreu, adoptando opiniões alheias de duvidosa objectividade. O jornalismo croniqueiro do costume.

Claro que perante este cenário que foi representado em todos os media, por essa altura, era inevitável que outro tipo de jornalismo interviesse.

Uns  a favor de uma:




  Outros de outro:


Porém, todos a questionar o modo como a juiza se dirigiu à ofendida, insinuando e afirmando abertamente suspeitas de parcialidade que originaram pedidos de recusa e por fim o pedido de escusa da própria juíza.

O que pode fazer um juiz num caso destes em que o assunto é tornado público e comentado pelos pares e por tutti quanti, geralmente em modo depreciativo e quando não aparece ninguém a defender o essencial que é a independência do poder judicial, notoriamente posta em causa? Pouco mais tem a fazer do que aquilo que a juiza fez: pedir a escusa de intervenção, dando a contra-gosto razão a quem a questionou do modo indicado e prestando-se a um protagonismo prejudicial. 

Está apresentado o modo de tentar afastar um juiz que não pareça conveniente: provocá-lo com supostas indignações e descontextualizar afirmações colocando-as nos media com a expressão de indignação de idiotas úteis.

A revista Sábado da passada Quinta-Feira, 25 de Fevereiro, foi mais além e procurou fazer um retrato mais aprimorado da juiza, aumentando a carga de protagonismo desnecessário ao caso.

Comecei por escrever que comentaria daqui a uns dias, mas afinal já comentei. Não resisti...

As peitas

O pecado maior de um  magistrado é a peita que resulta em deixar-se comprar, no dito popular. Há várias formas de peita embora a mais vergonhosa porque mais explícita e branqueadora de más consciências das demais peitas, é a troca  de despachos ou sentenças favoráveis por dinheiro vivo, dentro ou fora de portas. Sendo a mais explícita porque mostra a toda a gente o modus operandi da peita não é a única e haverá outras mais insidiosas e perversas.
Há quem se peite por vaidade, aplicando a Justiça a  contrario,  aplicando a Lei e o Direito com fundamentação ajustada e gozando intelectualmente com isso, por ver o efeito do virtuosismo consagrar uma peita inefável mas real. Há um caso paradigmático na Itália dos anos oitenta do século que passou: Corrado Carnevale, o "amazza sentenze" que num tribunal superior arrasava o trabalho de anos e o labor de investigação e julgamento de processos envolvendo mafiosos, apenas por idiossincrasia pessoal. Nunca foi condenado por isso, apesar de ser acusado de tal.
Há ainda quem se peite por loucura imanente e desregulação do sentido de Justiça, afrontando outros poderes só porque sim. Afere-se esta espécie pela quantidade inusitada de recursos das suas decisões e pela indiferença desse resultado no peitado.  Há em Portugal casos destes, conhecidos de advogados e particularmente um que um dia destes se tornará escandaloso.
Há também quem se peite por distinções de classe e prebendas em género de cargos de prestígio. Também haverá casos deste tipo, geralmente protagonizados por aqueles que não têm medo de ninguém, na medida em que se sentem superiores, emparceirando apenas com quem os pode nomear, não se sujeitando à peita pecuniária do suborno puro e simples, porque não é isso que os move e o resto vem por acréscimo.
A peita de magistrados pressupõe que os mesmos tenham poder e o possam usar para favorecer quem os possa peitar ou peitando-se a eles próprios em satisfação intelectual. E há um efeito implacável em todos estes feitios de peita: a injustiça que representam. O efeito inevitável de dar a alguém o que não lhe pertence por direito ou justiça. É por isso um imenso abuso, seja praticado a troco de dinheiro, em género ou sem sinalagma expresso imediatamente.
Qual a peita mais perigosa? Não sei porque todas redundam em injustiça e todas pressupõem uma atitude dolosa só levemente atenuada nos casos de insanidade mental para a profissão.

Qual a atitude ideal do magistrado? Aquele que seria capaz de se julgar a si próprio, contrariando o ditado popular? Nem sei, porque a Justiça não deve funcionar como um algoritmo que contemple os bons princípios pessoais, apenas. E se alguém se lembrar de Javert, a personagem de Vítor Hugo, nos Misérables, saberá do que falo. Aquele que convence as partes de que foi aplicada Justiça? Nem tanto, porque a eloquência e o virtuosismo podem sobrepor-se à Justiça.
Então como deve ser? Hesito entre o que cumpre o seu dever como um imperativo categórico, caldeado pela noção de humanismo admissível e o que cumpre o mesmo dever, com a indiferença de que a Justiça pode ser dura porque alguém assim o determinou.
Enfim, um assunto que deve ser entregue à Literatura, mais que à Filosofia. Camus, talvez seja boa leitura para acicatar estas dúvidas.
Porém, acima de tudo, deverá prevalecer um princípio: o da honestidade. Ser honesto, na magistratura, é apenas decidir de acordo com uma consciência limpa de vaidades, honradamente, com uma rectidão aperfeiçoada pela personalidade e pelos princípios morais.

Sobre o magistrado Orlando Figueira não faço juízos antecipados e já escrevi sobre o mesmo. Espero que um dia explique as suas razões e que se tiver culpa  a assuma e expurgue a desonra.

Hoje, o Expresso tem uma página que é das melhores que tenho lido sobre estes assuntos. Complexa nos factos, subtil nas informações e que ultrapassa tudo o que o Público e mesmo o Correio da Manhã escreveram sobre o assunto ( hoje até com um pequeno dossier). Parabéns aos autores.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Isto é o Diabo...

O marxismo está na ordem do dia, como dizem os ditos e O Diabo desta semana tem uma página assinada por Pedro Soares Martinez, um anti-marxista por excelência, sobre Karl Marx. Deve ler-se porque não há destas recensões em lado nenhum, na imprensa portuguesa.

Em 1997, o jornal Sunday Times passou um artigo publicado na revista americana New Yorker sobre o fenómeno marxista e que então entrou na moda, por diversas razões. Apesar da erudição de citações nem se compara ao artigo sucinto e preciso de Soares Martinez.



A propósito de marxismo e anti-marxismo, um dos poucos jornais que em Portugal enfrentaram claramente o marxismo foi O Diabo, no ressurgimento de 10 de Fevereiro de 1976. Escapou-lhe o PREC porque nesse período e também opositor do marxismo havia A Rua e um par de outros como o Bandarra, do mesmo Manuel Múrias e que foi preso pelo COPCON de Otelo, por causa de publicar esses jornais fascistas. De resto havia também os pequenos jornais de dioceses, pelo país fora.
Eram esses jornais que escreviam em oposição ao comunismo que procurava implantar-se em Portugal perante a passividade de quase todos, a displicência de muitos e o apoio de alguns.  Por isso mesmo eram simplesmente apelidados de "fascistas", abertamente e proibidos de circular, pelos poderes de então como era o caso do Conselho da Revolução, sob diversos pretextos, designadamente de ofensas ao presidente da República, crime improvável mas de verificação sumária e administrativa.
Estas histórias, actualmente ninguém as conta nos jornais porque muitos dos jornalistas que ainda trabalham foram protagonistas dessa epopeia para cortar o pio a esses "fassistas"...

O Diabo, aliás,  foi calado à bomba por esses democratas, logo depois da suspensão administrativa mas no seu lugar surgiu O Sol que teve pouca dura mas não interrompeu uma das poucas luzes, bruxuleantes , no breu marxista em que se vivia em Portugal e que ainda predomina.

A história do jornal será evocada amanhã, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no Palácio da Independência, em Lisboa.

Um pai e uma mãe...como todos nós





É verdade o que o BE proclama. Aqui está uma prova,  segundo os artistas de sempre que copiaram a mensagem do Evangelho:


A imagem é de Dürer e está na Wiki, no verbete A Sagrada Família. Quem não entende a História, a Religião e a Arte como deve ser, só pode publicitar bacoquices como se fossem achados.


Por outro lado, esta canalha de sempre deveria perceber que sempre que se metem com a Religião Católica, levam pela medida grande...ou seja, perdem em toda a linha. E por isso já recuam. Afinal o cartaz da estupidez é apenas para as "redes sociais"...pois, pois.



 As imagens são da revista francesa Paris Match de 23 de Agosto de 1975, em pleno PREC...

Por cá não havia imagens destas em nenhum jornal ou revista. Tinham medo...desta expressão de Liberdade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Diário Económico foi à vida.


 Observador:

O Diário Económico pode vir a entrar em insolvência. Os trabalhadores vão reunir esta tarde para decidirem se pedem eles próprios a insolvência, confirmou o Observador. A TSF já tinha noticiado, ao início desta tarde, que o cenário de insolvência tinha sido colocado em cima da mesa pela administração.

Não tendo obtido resposta do comprador, a administração do jornal pôs, perante os trabalhadores, em cima da mesa um cenário de insolvência. Perante isto, escreve a TSF, a Comissão Instaladora da Comissão de Trabalhadores propôs a apresentação, até à manhã de quinta-feira, dos cenários do Processo Especial de Revitalização (PER) e insolvência e as implicações de cada um deles
.


Ao longo dos anos habituei-me a coleccionar os primeiros números das publicações periódicas que foram aparecendo em Portugal e que tivessem alguma relevância mediática. Porém, o Diário Económico não faz parte do lote dos coleccionáveis. Por irrelevância, na época e que depois se manteve.
O maior boom editorial surgiu  na segunda metade dos anos noventa, quando Guterres esbanjava alegremente os fundos comunitários postos à disposição nos FEOGAs, FEDERs e outros QRENs, para nos "estruturarmos" como país europeu e que tão bem aproveitámos em subsídios a fundo perdido e em perdimento de fundos malbaratados.

A cornucópia das ajudas estruturais começou em meados dos anos oitenta do século que passou, em "pacotes" que o então "senhor Delors" prodigalizava em nome da Europa que nos queria ajudar sem perceber a índole de quem os aproveitava.  O Diário de Notícias que alguém agora subsidia em doses generosas a troco não se percebe bem de quê, noticiava há algum tempo:


Com a abertura dos bancos à iniciativa privada e depois as "desnacionalizações", nos anos oitenta,  aconteceu o "pugresso" prometido por Cavado e o desenvolvimento a motor da "paixão pela Educação" desse génio incompreendido chamado Guterres, tal como referia o jornal  Semanário de 5.8. 84 e 7.12.1985.






Nos jornais sentia-se este fervilhar de "pugresso" em bolha, tal como o Expresso contou depois, anunciando projectos editoriais. Foi nesta mesma altura que surgiu o tal Diário Económico, muito modesto mas que se afiança na Wiki que chegou aos mais de 200 mil leitores. Não dei por nada e nem sei se alguma vez teve páginas desportivas, a cores,  como a Bola, mas enfim:



O Diário Económico nasceu em finais dos anos oitenta, neste caldo de cultura e não me lembro de qualquer edição especial que guardasse como recordação de um jornalismo de mérito a reconhecer na posteridade. Acabou agora,  irrelevante como sempre foi. Jornalismo de investigação em matéria económica, no  referido diário, foi coisa de que nunca dei conta. E o tempo das "ajudas estruturais" era mais que propício a isso. Mas não era essa a vocação do jornal e principalmente dos seus directores que andam por aí nos media. Até um André Macedo ou um Martim Avillez Figueiredo que andam sempre de um lado para o outro neste tipo de projectos jornalísticos com falência garantida.

O seu actual director, Raul Vaz teve como antecedente um tal António Costa que perora frequentemente nas tv´s, não sei  porquê e é da mesma geração intelectual daqueles boomers que  há menos de trinta anos aprendiam os primeiros passos da comunicação social que temos e que se destina fatalmente à falência em todos os níveis.
 Aliás,   o tal Raul Vaz que emparceira com uma tal Ana Sá Lopes, inenarrável nos comentários na Antena Um, só comparáveis aos de outro inenarrável de seu nome Delgado que completa o trio. 

Os articulistas últimos do jornal são estes, segundo a Wiki:

Antonio Gomes da Mota, António Vidigal, Basílio Horta, Daniel Amaral, Francisco Murteira Nabo, João Cardoso Rosas, João Marques de Almeida, João Paulo Guerra, José Reis Santos, Jaime Quesado, Joaquim Miranda Sarmento, José Eduardo Moniz, Nuno Cintra Torres, Luciano Amaral, Luís Paulo Salvado, Miguel Coutinho, Miguel Setas, Paulo Marcelo, Pedro Silva Pereira, Raul Vaz, Victor Conceição Gonçalves e Vitor Bento.

Alguns, muito poucos, lêem-se. Os demais nem se treslêem sequer. 

Tenho pena que os jornais se extingam, mas deste Diário Económico, propriedade de uma tal Ongoing, queimada em lume brando pelo dono da Impresa e o seu valete Ricardo Costa, não tenho grande pena porque não fazia grande falta.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A vaca sagrada do velhinho marxista

"É a civilização capitalista, com as suas componentes políticas e culturais que os ideólogos socialistas aborrecem tal como aqueles que sem militarem expressamente a favor da versão totalitária do socialismo, tomam por adquiridos os seus principais postulados. Em última análise são os valores que são condenados e não apenas os insucessos práticos de um sistema de produção. O indício desta origem moral reside aliás nisto da condenação ocorrer com tanta virulência em caso de sucesso como de fracasso do sistema. Os anos de vacas gordas, a sociedade de consumo, o "emburguesamento da classe trabalhadora" são objecto do mesmo desprezo céptico e reprovação acidulada que as crises, o desemprego, a inflação. Quer os frutos estejam maduros e sumarentos ou secos e mirrados estão sempre envenenados".- Jean-François Revel, La tentation totalitaire, 1976.


E não ficou por aqui, Revel:

" A questão decisiva do debate é de saber não apenas unicamente se o capitalismo comporta defeitos mas se comporta mais ou menos defeitos que os demais sistemas económicos existentes ou tendo existido, e defeitos mais ou menos graves que os outros".




Esta discussão parecia arrumada desde o final dos anos noventa, mas não ficou de todo, porque o assunto é apenas, como diz Revel, um pretexto para se alterarem valores da civilização tal como a conhecemos.
O que estes velhinhos marxistas querem e sempre quiseram é apenas perverter tudo o que lhes pareça cheirar a mercados de concorrência ou não e nos últimos anos a crise do sistema financeiro mundial serve-lhes outra vez de pretexto para as mesmíssimas receitas de sempre e para os mesmíssimos argumentos estafados do antigamente.
As ideias estão em formol mas os micróbios permanecem agarrados ao frasco e continuam activos a espreitar para dentro.

Revel aduz um argumento interessante: " se se pretende julgar o capitalismo com referência a um outro sistema económico ainda  inexistente, pode-se aceitar que as suas imperfeições e incoerências podem parecer intoleráveis. Mas esse ponto de comparação, nesse caso, reveste um carácter especulativo e experimental que deveria incitar a uma maior prudência e humildade intelectuais e a muito menos dogmatismo e intolerância".

Isto que Jean-François Revel escreveu em 1976 no livro abaixo mencionado vem mesmo  a propósito dos que criticam sempre o capitalismo em nome de algo definido ou não.
Estas palavras aplicam-se como luva ao velhinho marxista Boaventura Sousa Santos que hoje é mais uma vez convidado de honra do jornal i, um exemplo da desorientação ideológica de uma certa geração de jornalistas que não sabe bem onde está nem para onde quer ir e herdou as ideias mirradas da geração anterior.
Se temos o que temos em Portugal no jornalismo, deve-se tal fenómeno a essas pessoas que tomaram o marxismo como uma mézinha ideal para curar maleitas como a pobreza ou o atraso no desenvolvimento. 


BSS profere na entrevista a palavra "democracia" uma série de vezes como um mantra sagrado que permite entender a chave do mundo. A democracia seria afinal o "fim da História" mas já houve quem pensasse nisso antes e muito melhor.

A ideia de democracia de BSS é abstrusa, no mínimo porque pressupõe que exista tal coisa em países cujo regime político apoia activamente, designadamente os do antigo terceiro mundo de que a Venezuela actual é um exemplo. Pelo contrário, para BSS não existe na Europa actual, dominada pelos anti-democráticos "mercados" como se estes pudessem obedecer a formas de organização eleitoral e com escolha de braço no ar...
Aquilo que resulta do discurso deste velhinho marxista encapotado na democracia de circunstância é apenas o desejo de lutar contra os "mercados globais" contrapondo um anti-mercado também golbal e apoiado no velhíssimo internacionalismo proletário na era da internet.
Estamos por isso perante uma mistificação, uma mentira que este velhinho marxista de sempre é useiro e vezeiro em adaptar aos tempos que lhe correm.
Tem por isso um movimento em marcha que se chama Diem25, liderado pelo Virafakas grego que é da mesma laia ideológica.

Há da parte destes velhinhos marxistas a esperança que nunca soçobrou de tirar as ideias do formol e adaptá-las ao mundo moderno, eliminando "Wall Street" e outras praças da finança internacional, substituindo-as por algo que não sabem bem o que seja mas também nem importa.

O que importa é denunciar tal capitalismo como anti-democrático porque "democracia" é palavra que todos entendem como sagrada e por isso uma vaca que dará leite sempre que se puxa pelo úbere.

Torna-se evidente, porém, que "democracia" para um velhinho marxista é uma palavra totalmente vã e apenas usada como instrumento de agressão ideológica.
Uma Mentira, portanto, já perfeitamente explicada em 1976 por aquele J-F Revel, entre outros. Nessa altura o agora velhinho marxista era um novo revolucionário das cooperativas como modo de produção de bens. Submeteu o povo de Barcouço à experiência utópica e falhou redondamente.
Mas não desistiu das balelas de sempre e agora arranjou um argumento de peso: a palavra democracia em que nunca acreditou verdadeiramente.
Ou não fosse mesmo marxista de uma capoeira em que apenas pretende ser galo a cantar para as poedeiras cantigas de ca´cá rá cá.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Avante, pelo debate que nunca se fez em Portugal sobre as seitas comunistas

Um dos aspectos mais interessantes do livro de U.Eco O Nome da Rosa é a dissertação, ao longo da narrativa, sobre o papel das seitas religiosas heréticas aparecidas em Itália e no Sul da França do século XIV.  Uma delas, a dos dolcinitas, suscita mesmo uma conversa entre  protagonistas da história contada no livro.
Os dolcinitas heréticos rebelavam-se contra o poder do Papa em nome da pureza religiosa e por isso foram perseguidos e aniquilados pela mesma Igreja de Roma, numa Inquisição impiedosa, em função de crimes cometidos em nome dessa mesma pureza religiosa.

Em Portugal a seita  comunista participa de uma nova religião que combate uma mais antiga, tendo como Livro os escritos marxistas. Esta seita fundada há pouco mais de cem anos divide o mundo em classes e afirma-se defensora da classe dos oprimidos, alvo permanente da  exploração pela dos possidentes.
Em Portugal tal seita configura fundamentalmente um Partido que tem os seus sumos-sacerdotes e devotos fiéis que comungam assiduamente no graal da crença utópica da sociedade sem classes que há-de um dia governar o mundo.
Em nome desse ideal fantástico cometeram as maiores barbaridades à Humanidade nestes últimos cem anos, semelhantes à que outros perpetraram em nome de princípios ideológicos igualmente totalitários que que defendiam igualmente uma socialização dos bens a que acrescentaram a liquidação de algumas raças perdidas para tal desiderato.
Há cerca de 25 anos a evidência dos erros e crimes daquela seita comunista tornou-se lugar-comum na Europa e no mundo em geral, menos em Portugal.

O fenómeno não tem suscitado reparos de maior da intelectualidade vigente e suspeito que a última razão dessa condescendência reside na circunstância de a mesma ter sido parte integrante da seita numa época de crenças fervorosas nesse graal. Os que sobraram adaptaram-se e suavizaram o discurso em ao mesmo tempo abandonarem os ideais.

Por isso mesmo poderemos ainda hoje ler nos jornais relatos e depoimentos desses sumo-sacerdotes de uma ideologia morta mas ainda nefasta que permanece conservada no formol de publicações e discursos de panfleto para a liturgia do culto.

Ontem o jornal i publicou duas páginas de uma efeméride que juntou membros proeminentes da seita. "Alguns deles colaboram com o jornal desde 74". Nem admira porque o discurso não mudou uma vírgula, em quarenta anos de mudanças no mundo.
Segundo se anuncia a efeméride da catástrofe de Chernobyl, ocorrida em 26 de Abril de 1986 foi agora lembrada em livro por uma das então residentes na Ucrânia, a jornalista  Svetlana Alexievitch que já publicou recentemente "O Fim do Homem soviético" e até ganhou o Nobel.
O PCP de então, acerca da catástrofe, terá alinhado imediata e patrioticamente pelo discurso oficial de Moscovo:  
 Nessa altura, estudavam na Ucrânia e Bielorrússia algumas dezenas de estudantes portugueses. Tendo em conta a gravidade da situação, Aníbal Cavaco Silva, então primeiro-ministro, dispõe-se a apoiar a retirada dos estudantes e familiares da Ucrânia. O Partido Comunista Português enviou instruções internas para que os estudantes recusassem a proposta para não contribuir para a “campanha difamatória” contra a URSS.

O Avante de então deve ter contado a História...e alguns dos seus redactores são os mesmos de hoje.




O que se torna estranho é esta afeição a um símbolo de uma tragédia da Humanidade que foi o comunismo e a sua seita de hereges espalhados em partidos.
 Esta condescendência permanente perante o Horror totalitário que não é concedida ao nazismo, regime que comunga do mesmíssimo pendor sanguinário.
Isto é que se torna estranho e permite que um pequeno estaline chamado Domingos Abrantes,    arribado ao país nos primeiros dias após o 25 de Abril de 1974,  depois de ter fugido à prisão por actividades subversivas e terroristas, tenha o desplante de dizer sem contraditório  ou aviso a leitores incautos, alarvidades deste género:




Essencialmente o antifassismo era e ainda é,  isto:



Esta foto da época mostra a chegada chegada ao país da brigada principal do  "antifassismo" primitivo,  ao aeroporto da Portela, três dias depois de 25 de Abril de 1974. O "antifassista" originário, de dentes ralos, aparece atrás do chefe e acompanhado da mulher, vindo das trevas exteriores onde se acoitou para fugir ao fassismo.
Agora insulta António Barreto, chamando-lhe "abencerragem" com o maior desplante da desmemória de gulags, terror estalinista, ditadura, totalitarismo, censura, polícia política e perseguição às liberdades fundamentais que acolitou nos países de Leste e acusou o fassismo de praticar de igual modo. O desplante, despudor e obscenidade é de tal ordem que o pequeno estaline devia estar remetido a um silêncio tão cavernoso como as ideias que professa. Mas não: há sempre quem esteja pronto a dar-lhe altifalante e guarida mediática, como se estes homenzinhos do terror tivessem alma a declarar.




Em 1976 a revista francesa L´Express publicou um artigo extenso com transcrição de passagens de um livro de Jean-François Revel acerca da ameaça totalitária comunista. E vendia 1 milhão de exemplares. Lembro-me de ver nos quiosques a revista e comprei este exemplar. 







Por cá era impossível ler em qualquer jornal ou revista artigos como este, em 1976, no qual se denunciava a duplicidade da linguagem, o terror comunista, o estalinismo como prática corrente mesmo depois da morte de Estaline e da suposta "desestalinização" de Krutschev, o qual aliás, enviou tropas para os países satélites depois de denunciar o sistema estalinista.

O articulista cita Tolstoi no Guerra e Paz para elucidar que "com a aproximação do perigo há sempre duas vozes que falam com força igual na alma humana. Uma, muito razoavelmente, diz ao homem para olhar  friamente a natureza do perigo e recensear os meios de defesa. Outra, ainda mais eloquente, sugere-lhe que é demasiado penoso e deprimente deixar-se obcecar com esse perigo e que o curso das coisas ultrapassa a vontade individual, havendo uma espécie de fatalidade no destino e que os meios de escapar não estão ao alcance da mão humana. Por isso é melhor viver a vida e deixar andar. "

Por cá, como se escreveu nenhum órgão de informação deu conta dos verdadeiros perigos do comunismo internacionalista do qual o PCP era um dos arautos mais proeminentes da causa.
No Expresso o melhor que se fazia, em Março de 1975 era dar voz resumida ao mesmo Revel que esteve por cá. 


O jornal Tempo, um dos poucos que resistia ao PREC era assim tratado...em 1975:


E havia outro: a Rua, jornal pró-salazarista que não tinha medo de o ser.Obviamente era fassista. Em 17 de Setembro de 1976 O Jornal noticiava que a publicação tinha sido "processada por apologia do fascismo". Tal e qual...



Se isto não é elucidativo do tempo que passarmos e do que vivemos...porque nessa época não havia debates sobre o assunto. O mais longe que se ia era apenas na tímida abordagem da tendência eurocomunista, prontamente sacudida por aqueles sumo-sacerdotes, zeladores da ortodoxia da seita.

Eduardo Prado Coelho, em 28 de Abril de 1978 ainda falava em euro-comunismo...mas ninguém ouvia nada.
É tempo por isso de colocar aqueles Domingos Abrantes no sítio de onde nunca deveriam ter saído: do museu dos horrores do comunismo internacionalista. Denunciar os crimes contra a Humanidade e esfregar-lhes com os factos nas ventas.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

O meu Eco




Há pessoas cuja morte nunca imaginamos e Umberto Eco é uma dessas. Na verdade Eco não morreu completamente para a posteridade porque ficam os seus livros que para um leitor é o mais importante. Em entrevista de 1982 à revista francesa Magazine Littéraire, transcrita pelo Jornal de Letras de 14 de Setembro desse ano U.Eco dizia que escrevia para desafiar a morte, para dar filhos ao mundo.

E foi isso que aconteceu, agora. Os filhos ficaram órfãos, mas já são adultos.


Em Setembro de 1982 já tinha ouvido falar do livro O Nome da Rosa mas ainda sem ser em português. Em francês, porque a revista L´Express de 9 de Abril desse ano já tinha publicado duas páginas que me tinham deixado água na boca, para ler o livro que ainda não estava traduzido em Portugal. Tal só aconteceu um par de anos depois.
1982 é o ano do terrorismo de "Carlos", o mentor dos ataques aos atletas judeus em Munique, em 1972. Dez anos antes...


  A génese do livro de Eco já havia sido contada naquela entrevista. Eco, um universitário, fizera uma tese de licenciatura sobre a estética de S. Tomás de Aquino e paralelamente interessava-se por Joyce ( cujos primeiros textos serão sobre os princípios tomistas) por se confessar interessado nos problemas da arte e da literatura. Através de Joyce chegou à Idade Média. As seitas heréticas e milenaristas tinham sido ponto de interesse anos antes a propósito de outros estudos . Quando lhe pediram um romance policial, na segunda metade do anos setenta do século que passou,  juntou os ingredientes e como já tinha notas tiradas sobre monges, abadias, venenos, Guilherme de Ockam, bibliotecas,  o trabalho durou o tempo de se construir uma "cosmologia" tal como aparece no romance saído originalmente em 1980.


O Nome da Rosa nunca mais me saiu da ideia mas foi apenas em Maio de 1984 que o li, precisamente numa edição de bolso da Livre de Poche. Custou 580 escudos numa das então Distrilojas ( Restauradores onde hoje é a Xenon).
Umberto Eco esteve cá nessa altura, na Universidade do Porto, nos primeiros dias de Janeiro de 1984, como se mostra na imagem. Sherolock Holmes e Arséne Lupin, personagens romanescos da minha adolescência e mencionados a propósito desse livro, era fatal interessar-me.  A história é simplesmente fascinante, tem vários níveis de leitura e já a li várias vezes, em viagens. Uma vez, há uns anos,  fui a Melk, na Áustria só por causa da referência. Tem lá um mosteiro e uma biblioteca, aliás.
Mais tarde, já nos anos noventa descobri um sítio na Internet- Porta Ludovica-mas numa versão anterior e  que me captou a atenção e mostrou os níveis possíveis que subjazem no romance de Eco. Fantástico. 


O Castel del Monte, lugar real para a ficção do romance fascinava-me, tal como as histórias à volta do romance e que Eco contou numa "Apostila" que foi publicada em Itália e que nunca chegava por cá a tempo.

Foi nesse ano que Eco foi alvo de atenção em Portugal, com entrevista no Expresso e artigo no D.N.



Os livros seguintes de U.Eco tornaram-se interessantes por causa desse romance, mas tal como os amores, o primeiro acaba por se tornar um pouco mais marcante.






ADITAMENTO no dia seguinte:

Comprei o Público para ler as anunciadas três páginas em modo de obituário de Eco.

Alexandra Prado Coelho faz uma resenha em duas páginas da obra de Eco, coisa que qualquer pesquisa no Google consegue obter melhores resultados. Para emoldurar o artigo cita dois universitários portugueses ( Moisés de Lemos Martins, professor de semiótica na UMinho e Maria Teresa Cruz, professora de Ciências de Comunicação na Nova) e ainda o historiador Diogo Ramada Curto.
Esta mania dos jornalistas, para escreverem os seus pequenos ensaios de jornal, falarem com académicos é praga que se espalhou sem remédio à vista. Este "novo-jornalismo" em busca da caução intelectual de uma academia sem relevância conhecida  torna-se a antítese do propriamente dito e é coisa significante de uma esterilidade que Eco poderia comentar na Bustina di Minerva da revista italiana L´Espresso, onde escrevia habitualmente uma crónica de página.
Em vez de uma opinião pessoal sobre a obra ou sobre livros, passagens de livros, aspectos particulares e factos novos ou a relembrar, temos depoimentos de académicos cujo interesse é quase nulo e remete para uma aparente incapacidade em escrever na primeira pessoa, tomando sempre o lugar professoral da secretária de madeira de fórmica ao lado do quadro negro da irrelevância intelectual ou prazenteira. São escritos que se tornam "uma seca",  semioticamente falando.

Dois outros comentadores- Gustavo Cardoso ( professor do ISCTE-IUL) e António Guerreiro ( sem referência e não me apetece agora procurar no Google) pouco mais adiantam neste modo de escrever sobre Eco.
O tal Guerreiro passa o tempo todo do seu artigo enfatuado a explicar o que fazia Eco segundo ideias que leu algures, porque não se inventam assim. Borges, o argentino que Eco afeiçoava, ao ponto de dar o  nome Jorge ao monge fanático e assassino do Nome da Rosa, explicou tal coisa  num livro. Aparentemente cita sem mencionar autores e plagia ideias avulsas sem motivo aparente. Não sei para que lhe deram uma página para isto.

Salva-se o escrito daquele Gustavo que conta coisas na primeira pessoa e que devia ser o único que o jornal poderia ter aproveitado.