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sexta-feira, 24 de março de 2017

Enquanto houver dinheiro emprestado a juros baixos há geringonça...

No i de hoje, o antigo comunista José Magalhães, convertido à social-democracia maçónica, responde a algumas perguntas numa entrevista.  As iniciais chegam para definir um estado de espírito de uma esquerda que não tem paralelo na Europa na união contra-natura entre algumas das suas forças.
Magalhães, agora muito dado a contemplações maçónicas, depois de abater a suas colunas marxistas-leninistas percebe muito bem quem ainda as apoia e resume tudo numa pequena frase:

"Em Outubro de 2015 estávamos numa situação extrema. Ou uma solução inovadora ou mais quatro anos da Maria Luís de Passos. Temos um país que é prefeitamente desenvolvível ( sic) mas não com a canção do cagalheiro".

Essencialmente é este o argumentário de toda a esquerda, incluindo a de Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite, cada vez mais tapada do bestunto. Entretanto, o antigo parceiro de Magalhães, Vital Moreira, por seu turno também ensandeceu ainda mais um pouco. Também acha que o holandês disse que “não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda”, mesmo em modo metafórico e depois sem o ser, ao mesmo tempo, atribuindo-nos o costume.

Em consequência, o esquilibrista Magalhães sugere mesmo o casamento de toda a esquerda, fazendo o PS o papel de entidade parideira do consenso.
Este casamento assim arranjado vai gerar monstrinhos depois de parir nados-mortos. O PS social-democrata não casa bem com o comunismo leninista ou trotskista e tal é conhecido pelo menos desde o tempo de Mário Soares como líder daquele partido.
Essa quadratura de um círculo que aquele Magalhães frequenta será uma aberração.

Em França, o problema é bem conhecido e antigo e foi agora explicado numa edição do semanário Le Un.
Assim:






Em 1977,  quando por cá se enfrentava a primeira bancarrota directamente derivada destas aventuras de casamentos contra-natura, à esquerda,  o socialista Michel Rocard discursou assim perante os socialistas de lá que eram muito escutados pelos de cá, nesse tempo. E as propostas que fazia, ajudavam a definir os propósitos de uma geringonça que nunca chegou a funcionar. Et pour cause, uma vez que as contradições eram tamanhas que ainda não desapareceram.
De tal modo que a explicação para tal fenómeno natural é dada aqui num modo original e cativante: a esquerda é demasiado utópica para se entender com a realidade.



É esse o problema principal cuja impossibilidade de solução irá gerar as contradições que destruirão inevitavelmente uma geringonça feita para percorrer apenas o caminho sem grandes obstáculos que o dinheiro emprestado proporciona. Quando acabar essa mama desfaz-se a geringonça, do mesmo modo que se montou: à pressa e sem jeito.

O jornal de Negócios deste fim de semana mostra bem o roteiro do que nos espera, perante o cru panorama da realidade virtual:






Na página 3 Camilo Lourenço escreve sobre a alternativa e a ilusão desta geringonça, citando as declarações de um Michel Rocard da actualidade, chamado Jaime Gama.


Conclusão? A do título do postal







15 comentários:

Ricciardi disse...

Enquanto houve dinheiro emprestado não houve geringonça. A geringonca desenvolve-se numa altura em que o país, pela primeira vez, tem excedentes sobre o exterior. E reforça os excedentes em 2016 prevendo-se ainda maiores excedentes para 2017.
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Para geringonça não está nada mal.
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Isto demonstra que não há perigo algum em ter apoio parlamentar dos comunas e troikistas quando quem governa estabelece bem as fronteiras.
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Costa devia receber um prêmio Nobel.
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Vou mais longe. O pessoal tem dito por aí que isto só está a funcionar bem precisamente porque o PS não pode pôr em marcha o que quer e tem de conceder algumas coisinhas aos comunas. E, sim, nem tudo o que os comunas defendem é necessariamente mau. Creio mesmo que se juntou o melhor que os comunas podem oferecer ao capitalismo com a vontade de não sair do trilho capitalista que o PS não deixa de representar.
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O único fenómeno que pode pôr em causa a geringonça é o passos Coelho resolver sair do PSD. Se isso acontecer a geringonça esfrangalha-se. Até lá fazem o que é preciso fazer e até melhor do que seria expectável.
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Converti-me à geringontice. Até ver.
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Rb

muja disse...

Eu diria mesmo mais: enquanto houver dinheiro emprestado, há regime...

josé disse...

Vou corrigir: enquanto houver dinheiro fácil e barato. Emprestado pode haver, com juros mais ou menos altos.

Ricciardi disse...

Corrijo também: enquanto houve dinheiro fácil e barato não houve geringonça.
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Rb

Floribundus disse...

a dívida, único aspecto com interesse e do qual não se pode falar, aumenta porque a geringonça não a irá pagar

esta geringonça funciona maravilhosamente para os sectores que mais riqueza produzem:
funcionários públicos
reformados

o ministro do confisco falou do defice ou seja da degradação do estado

temos entertainer e monhé diariamente a palrar

parecem papagaios a repetir o que ouvem

asinus asinum fricat

josé disse...

As dívidas deste género não são para pagar, lá dizia o outro que disso sabe como ninguém porque tinha um amigo que era barriga de aluguer de dinheiro de comissões. Ou seja, da corrupção.

foca disse...

Ricci
Pela primeira vez o quê??
Isso aconteceu sempre durante o Estado Novo (agrada-me ver que apreciaste essa época)
Na nossa "democracia" foi o Passos que lá chegou.

O teu mais de tudo voltou para trás
Entretanto no tal ultimo trimestre maravilha cresceram as exportações, mas as importações cresceram mais.
Percebeste a coisa? somar cinco e subtrair seis não dá lá grande saldo.
Posso fazer um desenho se for mais fácil

zazie disse...

Um Rocard ajuizado e nada burro. Consegue explicar-se muito melhor que o JNP nas Conversas

Floribundus disse...

Insurgente

Orçamento de Estado português 2017

Despesa total 57 mil milhões de euros
Número total de páginas 270 (Lei 233 + Normas de Execução 37)

Orçamento do Reino Unido 2017

Despesa total 784 mil milhões de libras (900 mil milhões de euros)
Número total de páginas 68

Número de páginas por cada milhão de euros

Portugal 4,7 / Reino Unido 0,076
Rácio de verborreia 1 para 62

Floribundus disse...

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
...
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
...
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

joserui disse...

Nobel para o Costa! Foi aqui que li isso a primeira vez!
Essa do Insurgente sobre a verborreia tem imensa piada porque é mesmo assim. Ainda há pouco tempo sobre uns projectos culturais no Porto eu dizia a uma amiga que há gente cuja única vocação é concorrer a esses projectos, com imagino eu o mesmo rácio de verborreia que o orçamento de estado, imagino eu — muito apreciada, imagino eu outra vez.
De qualquer modo, ela respondeu-me que não é vocação, é treino. Que seja. De uma forma ou de outra há gente que não faz mais nada senão verter treta para o papel.

joserui disse...

Hoje chegou-me aqui um livrinho que comprei e ainda não li mas vou gostar: On Bullshit de Harry G. Frankfurt.

joserui disse...

No meu primeiro comentário há imaginação a mais, mas percebe-se! :)

josé disse...

Estive e ler o resumo. Por aqui aparece também um bullshitter frequentemente.

Há gente que gosta de se manter enganada desde que isso não perturbe as convicções, por vezes igualmente erradas.

muja disse...

E, já agora, este Eurostat vai buscar os números onde?

É que eu era capaz de apostar que nem o governo, que o gasta, sabe para onde vai o dinheiro, quanto mais o Eurostat...

Quem gasta mal também não tem incentivo para contabilizar bem.