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domingo, 23 de julho de 2017

Pedrógão: e se afinal houver mais mortos que a contagem oficial, fica assim?

 Jornal i:


Isabel Monteiro, empresária de 57 anos, natural de Lisboa, reuniu uma base de dados com as vítimas mortais do incêndio dos concelhos de Pedrógão Grande e já contabilizou mais de 80 mortos, dos quais 69 estão confirmados pelas famílias com nomes completos, localidade e local da morte.
A intenção era criar uma lista de vítimas para a criação de um memorial na Estrada Nacional 236, hoje conhecida como “Estrada da Morte”, mas foi ao recolher a informação junto das famílias, funerárias, bombeiros e dados da comunicação social que Isabel constatou que o número de vítimas mortais seria superior ao número oficial divulgado pelas instituições do Estado. Começou então uma investigação de fundo e o total de mortos contados até à data, na sua base de dados, já ultrapassa os 80.
A experiência dizia-lhe que, para ser útil na situação de Pedrógão, teria de ir directamente ao local e perceber de que tipo de ajuda as famílias precisavam.
O instinto tem uma história. Em 1996, na guerra do Kosovo, Isabel viu um apelo da AMI e da Cruz Vermelha Portuguesa e decidiu ajudar, mas apercebeu-se que os donativos não estavam a ser encaminhados. Organizou, nesse ano, o Concerto dos Cobertores, na Praça Sony, cujo bilhete de entrada era um cobertor que seria enviado para Kosovo. O evento foi um sucesso e Portugal foi o segundo país a entregar o maior número de cobertores no Kosovo.
Isabel entrou em conflito com a AMI e pressionou o governo para ir directamente no avião C130, que transportou muita da ajuda humanitária enviada de Portugal. Quis ir directamente ao local dos acontecimentos entregar em mão a ajuda às vítimas do histórico conflito.

Isabel contou ao i que aprendeu com essa experiência a não doar dinheiro ou a entregar donativos sem ser directamente a quem precisava e, ao saber da catástrofe de Pedrógão, decidiu pôr em prática mais uma vez o método de solidariedade direta.
“Fui a primeira vez a Pedrógão no dia 21 de junho. Dirigi-me ao quartel dos bombeiros e fiquei mesmo muito impressionada com tudo o que vi. Decidi então recolher donativos e voltei no dia 3 de Julho. Fui directamente à junta de Castanheira de Pêra levar donativos que uns amigos da família que teve nove vítimas mortais me pediu para entregar”, conta. “Fui recebida por uma senhora que me disse que não era a Junta que tratava desse assunto e mandou-me entregar tudo aos Médicos do Mundo”.
Isabel que se recusa a entregar donativos às ONG, decidiu seguir caminho pelas aldeias. Foi então que o seu grupo de voluntários se cruzou com quatro senhoras que recolhiam sementes de eucalipto, na localidade de Vermelho, certificando-se de que estas árvores não voltariam a crescer perto das suas zonas de habitação. As mulheres, apesar de terem perdido todas as árvores e hortas, não quiseram receber donativos uma vez que as suas casas por dentro estavam intactas. "Foi aí que me disseram pela primeira vez que o número de mortos seria muito superior ao anunciado".


A Contagem
“Falaram-me de uma família de duas pessoas que salvaram tudo sozinhos e deixámos lá donativos, já que tinham dado abrigo à sobrinha que só tinha a roupa do corpo desde o dia do incêndio”, conta ao i.
Foi depois deste contacto que Isabel decidiu ir à aldeia de Nodeirinho, uma vez que tinha sido uma das localidades mais faladas na comunicação social. “Quando cheguei lá, as pessoas estavam todas reunidas na capela. Falei com toda gente, disseram-me o que lhes fazia falta e voltaram a confirmar a teoria de que o número de mortos seria muito superior ao anunciado” .
Isabel, intrigada com o assunto, terá falado telefonicamente no sábado dia 8 de julho com uma agência funerária em Vila Facaia que pelo telefone lhe confirmou, mais uma vez, que o número era muito superior. Abordou os funcionários com uma história que acabara de inventar. “Tive de inventar uma história, caso contrário nunca se iriam abrir comigo. Falei-lhes então que procurava um rapaz amigo de uma amiga minha que estaria a chegar para o tentar encontrar e que precisava de saber se o nome dele estaria entre os 64 mortos”.
Terá sido neste momento que a primeira pista lhe foi dada. Uma das funcionárias terá respondido sob pressão com um sincero “eu sei lá menina, são muito mais, só eu vi mais de 95 corpos”, desabafo que Isabel nunca mais conseguiu que se repetisse, já que a senhora em causa nunca mais o confirmou.

Isabel explica ao i que, nas suas visitas às localidades dos concelhos afectados pelo incêndio, “os locais estão muito pressionados politicamente e há um estado de medo instalado”.
Mas ao falar com as famílias de luto, a ideia da criação de um memorial surgiu. “É o mínimo que se pode imaginar depois de uma tragédia destas, nada faz sentido se não houver uma homenagem a todos os que morreram”.

A empresária de Lisboa terá então iniciado um processo de recolha de informação. "Primeiro procurei tudo o que a imprensa tinha escrito sobre os mortos, chegando mesmo a perceber que tinham dado como mortas pessoas que estavam vivas. Com o é o caso da dona Gina, que estava internada e viva e na comunicação social deram o nome dela como falecida”.
Ao verificar se os dados da imprensa estavam correctos, comecei a ir de família em família, a abordar bombeiros e cheguei a contar as campas frescas de um dos cemitérios para confirmar que os números são superiores, parece macabro mas tive de o fazer”.

Segundo Isabel e dois bombeiros que não querem ser identificados, várias vítimas foram encontradas mortas depois de os números oficiais terem sido dado como certos. Terá sido o caso de Leonor Silva Henriques e Armindo Henriques Modesto que não estavam referenciados em lugar nenhum, mas morreram dentro do carro de Anabela Lopes Carvalho, de Sarzedas, que circulavam na EN236.
Otília, irmã de Anabela, teve de identificar o corpo da irmã na estrada e falou a Isabel dos dois acompanhantes da irmã que não faziam parte das listagens.

Também Fernando, de Campelo, foi encontrado carbonizado por uma local de Pobrais no meio do mato vários dias depois. “Estes corpos foram encontrados e enterrados mas os números nunca foram actualizados”, explica Isabel Monteiro.
O i contactou várias das famílias das vítimas que pertencem à listagem de Isabel e que pedem para não ser identificadas, mas que garantem que o número de mortos (64) dado pelas autoridades "está muito longe da verdade".

Isabel Monteiro e a sua amiga Ana Sousa e Silva juntaram algum dinheiro e, com a ajuda e confiança do padre da Paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes, no Parque das Nações, e um de Bragança, conseguiram uma quantia de dinheiro que lhes permitiu a aquisição local de animais e hortícolas para doar às famílias. Compraram 80 animais (com 208,99 euros) e com 197 euros compraram 700 mudas de hortícolas que transportaram às famílias afectadas pelos incêndios. Foi aí que constataram que, depois de 30 dias, a ajuda ainda continuava por chegar. “Chegaram-me a dizer que havia certamente mais de 100 mortos, eu não queria acreditar. Mas realmente assim que comecei a juntar toda a informação percebi que pelo menos mais de 80 mortos tínhamos listados”.
Para Isabel há demasiadas falhas em tudo que se relaciona com este assunto, como o exemplo dos questionários online para as vítimas dos incêndios. “Como é que o ministério da agricultura espera que idosos que não fazem ideia do que é usar a internet, depois de todo o trauma, ainda preencham formulários?”, pergunta. O formulário poderia ser entregue na Câmara Municipal até ao sábado dia 15 de julho.
Como Alcafache 
No dia 13 de julho, às 18h21, Isabel publicou a lista na sua página do facebook pedindo que a ajudassem a actualizar e a corrigir os dados disponíveis. “As chamadas, até hoje ainda não pararam, sempre com novas informações”.
“Isto como bombeiro não me surpreende, já tivemos situações destas em Portugal, como no caso do comboio de Alcafache que nunca chegaram a dar o número real de vítimas e soubemos de corpos enterrados em vala comum”. O bombeiro de Viseu conta que militares já lhe haviam falado de um número de mortos muito superior ao anunciado, logo no primeiro dia de acção em Pedrógão. “Entre pessoal das operações sempre se ouviu falar em mais de 100 mortos. Mas sempre se falou disto sem provas, eram apenas boatos. Agora há nomes, como é que se mentem nomes de pessoas?”.
Segundo a empresária e os dois bombeiros que o i contactou, têm sido várias as pressões para que este assunto “morra na praia”. “Disseram-me que devia estar calada porque isto envolve interesses nacionais. Mas eu não quero viver num país em que interesses do Estado valem mais do que vidas humanas”.
A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) reiterou neste sábado que o incêndio do mês passado em Pedrógão Grande fez 64 vítimas mortais, em "consequência directa" do fogo, e que outros eventuais casos não se integram nos critérios "definidos". Os critérios que foram identificados para apurar as vítimas do incêndio são "mortes por inalação e queimaduras", resultantes do fogo, adiantou à agência Lusa a adjunta nacional de operações Patrícia Gaspar.
Segue-se a listagem das vítimas mortais contabilizadas por Isabel Monteiro, que reuniu informação com famílias, populares, funerárias e bombeiros.

Comentário:

Factos são factos e mortos são mortos. Ou há esclarecimento cabal e completo ou ficar-se-á sempre na dúvida sobre o número de pessoas  que  pereceram na tragédia de Pedrógão Grande na tardinha de 17 de Junho de 2017.

Os serviços oficiais que dependem do governo e pouca autonomia têm para poderem ser autoridade credível e suficiente já contaram 64 vítimas e nem querem contar mais. O Expresso, ontem, relatava que houve uma pessoa que foi atropelada naquelas circunstâncias que rodearam o incêndio e por causa dele. Não a querem contar como vítima porque não pereceu devido a queimaduras ou inalação de fumo...e estamos nisto. Como terá sido atropelada por veículo que se pôs em fuga, nem o seguro quererá nada com ela...
Por outro lado, o que relata o i é assustador:

"Segundo Isabel e dois bombeiros que não querem ser identificados, várias vítimas foram encontradas mortas depois de os números oficiais terem sido dado como certos. Terá sido o caso de Leonor Silva Henriques e Armindo Henriques Modesto que não estavam referenciados em lugar nenhum, mas morreram dentro do carro de Anabela Lopes Carvalho, de Sarzedas, que circulavam na EN236.
Otília, irmã de Anabela, teve de identificar o corpo da irmã na estrada e falou a Isabel dos dois acompanhantes da irmã que não faziam parte das listagens.

Também Fernando, de Campelo, foi encontrado carbonizado por uma local de Pobrais no meio do mato vários dias depois. “Estes corpos foram encontrados e enterrados mas os números nunca foram actualizados”, explica Isabel Monteiro."

Isto são factos que podem ser investigados e confirmados ou não.  Será que alguém o irá fazer?


sábado, 22 de julho de 2017

Incêndio de Pedrógão: os 65 mortos que nos interpelam

O Expresso de hoje, de longe o jornal que melhor noticiou e investigou o assunto do incêndio de Pedrógão Grande, mostra a lista dos mortos: 65.

Foi constituída uma associação de familiares das vítimas e algumas já se constituíram assistentes no processo criminal de inquérito que corre na comarca de Leiria. Ajudam o MºPº na investigação.

Uma delas disse o fundamental: Por que razão o comando operacional dos bombeiros falhou tanto e por que não foram disponibilizados os meios, se houve avisos com 48 horas de antecedência sobre o agravamento das condições climatéricas? Em duas horas, o que era fumo transformou-se numa catástrofe".

A primeira resposta a esta questão deve ser dada por um comandante de bombeiros de Pedrógão chamado Augusto Arnaut. Até me incomodou ao ouvi-lo falar na SIC, numa reportagem no outro dia. Não é possível uma criatura assim estar a comandar bombeiros...não devia ser possível. Mas foi.


 Entretanto o que faz este Governo? Censura, impedindo os bombeiros de falar. Por causa de quê?  Medo de perderem votos...o que é típico das democracias. Mas não a Censura...


O grande pecado de Ricardo Salgado



Entrevista de Ricardo Salgado ao DN de hoje:

A questão fundamental: quem liquidou o BES foi o BdP? Foi, segundo Salgado. Em meados de Julho de 2014 um investidor de Londres- Daniel Loeb, da Third Point LLC- foi ao BdP dizer que queria recapitalizar o BES e o BdP nem o ouviu.
Foi assim? E tal salvaria o BES da bancarrota iminente e evitaria a corrida aos depósitos? É preciso ouvir o Governador do Bdp mas não é crível que seja assim tão simples.

Outra questão: Salgado nunca se meteu em política, segundo diz, mas parece-lhe que outro governo que não o de Passos teria evitado a queda do BES.
Sobre meter-se em política ou não é preciso ouvir outras vozes, como a do primo Ricciardi que já disse ter visto o antigo PM, Sócrates, em conciliábulos privados e secretos com Salgado. O que combinavam? 
Sócrates já disse que foi um erro a resolução do BES…portanto, se estivesse no Governo, em 2014 teria evitado a queda do BES. Com que custo para o erário público? Basta recordar o que se passou com o BPN para adivinhar e multiplicar o custo, numa altura de crise e austeridade.
De resto o enquadramento geral é mais esclarecedor: quem levou o país à bancarrota? Quem ajudou no negócio da PT que destruiu o valor da empresa e provocou o que agora está a suceder com a Altice ( a empresa tem mais do dobro dos trabalhadores necessários…quem é que os contratou e porquê?)
Quem ou como se aliaram Ricardo Salgado e certos interesses para evitarem a opa da Sonae? Quem são os pivots desta tramóia em que "estavam todos feitos"?  
Quem é que incentivou o assalto ao bcp e o abuso dos dinheiros públicos da CGD para investir num banco que perdeu o valor que tinha em pouco tempo? Quantos milhares de milhões custaram ao país tais ideias e actuações? Quem as pensou e executou em modo determinante? Foi só o pindérico Sócrates?
Quem é que esteve sempre no meio dessas embrulhadas criminosas? Ricardo Salgado, voilà! E ainda falta falar nas “luvas” que permitiu fossem distribuídas a certos políticos. E não foi só a José Sócrates, como Hélder Bataglia sabe muito bem.E isso que para Salgado serão "peanuts" é o que conta agora para o julgamento em processo criminal, o que Salgado parece não compreender. 

E isso é imperdoável, a Ricardo Salgado. Porque além de ser um crime de corrupção que deverá ser punido severamente, atenta a dimensão da ilicitude (e não tanto da culpa, por causa da anomia vigente) foi a razão da nossa bancarrota de 2011. 
Fosse Passos Coelho a governar o país desde 2005 e Portugal não tinha passado por esta bancarrota, esta austeridade que ainda pagamos e estas dificuldades. E o BES ainda existiria, se calhar…
Ricardo Salgado sabe muito bem que assim é. O pecado que cometeu foi tão grande que nem o Papa lho pode perdoar. Só Deus Nosso Senhor. Se houver arrependimento e confissão, claro.

Pode dizer o que quiser, Salgado.  Claro que se o BdP não decidisse a resolução do BES o mesmo não teria falido do mesmo modo, sem falência declarada mas com extinção pura e simples do nome, o que juridicamente ainda dará muito que falar.Será que sobreviveria? É incerto e insegura, tal asserção.
Claro que se o governo de Passos Coelho lhe tivesse dado a mão, como o fez o governo de Sócrates ao BPN, o banco ficaria nas mãos do Estado que pagaria depois todas as contas. 

Claro quese não tivesse existido crise internacional em 2008 tudo teria corrido bem. Mas...correu bem para outros que resolveram os problemas de outro modo. Porque não correu bem para Salgado? 

Por uma razão simples: tal como o Inenarrável e pindérico Sócrates, nunca acreditou que lhe acontecesse o que acabou por acontecer.  Soberba, portanto. 
O tempo mudou e ela não voltou. A sorte, claro. Mas há quem lhe chame outra coisa. 

A tragédia que atingiu Salgado é shakespereana ou grega ou clássica, se quiser. Que medite nas causas. Algumas serão as que  acabei de enunciar.  E não, a culpa não é dos governos de Passos ou do BdP. É sua e só sua.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A troupe dos novos inquisidores

Observador, artigo de José Ribeiro e Castro:

A notícia de a Ordem dos Médicos ter aberto processo a António Gentil Martins obrigou-me a ler toda a entrevista ao “Expresso” que desatou reacções furiosas. Só tinha seguido títulos e um ou outro ataque da reacção ou respostas. Sem terceiros, quis fazer o meu juízo.
Confirmei a opinião que tenho, há muitos anos, sobre António Gentil Martins, um dos médicos mais notáveis da vida portuguesa, grande cidadão, homem bom. Se há justiça em Portugal e a queixa disciplinar versa sobre a matéria dessa entrevista – aquilo que se chama uma entrevista de vida –, o caso só pode resultar em público louvor e testemunho de gratidão a tão brilhante veterano da nossa saúde.
O que aprendemos (ou recordamos) com a entrevista de Gentil Martins?
Isto! Criou a primeira unidade multidisciplinar de oncologia pediátrica no mundo – não é coisa pouca. É um reputado cirurgião pediátrico e plástico. Tem 87 anos de idade e continua a trabalhar, depois de reformado por lei há 17 anos no Hospital de D. Estefânia, quando atingiu os 70. Permanece activo como cirurgião, no privado, a tratar e a salvar, e como consultor no “seu” IPO, a consolidar e transmitir experiência. Tem 63 anos de carreira hospitalar, sobretudo na Estefânia e IPO. Realizou mais de 12.000 cirurgias, destacando-se a separação de gémeos siameses. Quantos lhe devem cura, alívio, a vida? Quantos lhe devem felicidade e melhor qualidade de vida? Recebeu vários prémios – só neste ano, o Prémio Manuel Sobrinho Simões, da Liga Portuguesa contra o Cancro, e o Prémio Nacional da Saúde. É continuador de longa linhagem familiar na medicina portuguesa, desde meados do século XIX. Cresceu sem pai, morto precocemente num acidente de tiro, tendo sido criado apenas pela mãe. Quando se formou, em 1953, trabalhou dois anos sem receber, até obter reconhecimento bastante. Fez uma especialização de 3 anos em Inglaterra, em regime intensivo. Dedicou-se a cirurgias pediátricas, porque gosta muito de crianças e para tratar e corrigir malformações congénitas. Chegava a ir ao hospital com o pijama debaixo da roupa. Nunca discriminou um doente e trata todos por igual, nomeadamente heterossexuais ou homossexuais. O único lamento que carrega é o de ter prejudicado a vida familiar pela extrema dedicação à medicina, aos hospitais e aos doentes. Ousou inovações de tratamento oncológico contra protocolos internacionais estabelecidos, provando o seu sucesso e ajudando a estabelecê-las, mundialmente, como novas práticas médicas. Condena bruxos e charlatães. Denuncia a vigarice organizada em torno das células dendítricas e da exploração da ansiedade de doentes e seus pais.
Em matéria da competência disciplinar da Ordem dos Médicos não se tira desta entrevista – mais, não se tira desta vida! – nada que seja reprovável, antes quadro de honra e de exemplo. Em Portugal, Estado de direito democrático, creio que, se a Ordem dos Médicos ainda é Ordem e ainda é dos Médicos, o Conselho Disciplinar não poderá deixar de concluir por uma de duas: ou afirmação de incompetência estatutária para apreciar a queixa apresentada; ou mais um louvor ao exemplo de vida do seu antigo, insigne e bondoso bastonário.
Houve um trecho que desatou esta fúria. Não se tratou daqueles em que Gentil Martins confirma ser católico praticante e se assume democrata-cristão, “mais à direita do que à esquerda”. Também não foi o trecho em que verbera Cristiano Ronaldo por ter recorrido a barrigas de aluguer e em que se alastrou no seu, como diria Mário Soares, “direito à indignação”. Foi a parte em que afirmou que a homossexualidade «é uma anomalia, é um desvio de personalidade». Não discrimina, mas não aceita promovê-la – diz.
Ainda o “Expresso” estava quentinho e a manhã de sábado não chegara ao fim e já a deputada Isabel Moreira expedia o comando, por telegrama em caixa alta no Facebook: «URGENTE UMA DENÚNCIA À ORDEM DOS MÉDICOS». Emitia também a sentença: «Estas declarações violam a deontologia médica». O caso disciplinar da Ordem arranca daqui.
Também no Facebook, critiquei esta posição, o que Isabel Moreira (infelizmente, como é seu hábito) distorceu, a fim de desfocar o que eu disse e tentar vitimizar-se – quando se diverge, convém manter alguma honestidade, para a discussão poder seguir e não descair em zaragata. Em momento algum, acusei Isabel Moreira de ser da Gestapo ou da Stasi. Escrevi que «segue a escola de direitos humanos da Stasi e da Gestapo», o que é diferente e é rigorosamente verdade. Porquê? Porque Isabel Moreira tem-se especializado em perseguir e ordenar perseguições a cidadãos e a profissionais com base nas suas convicções, opiniões e afirmações, o que era uma das tarefas da Gestapo e da Stasi. De outras polícias políticas também. É um triste ofício e, não raramente, tenebroso.
Podemos constatar que esta obsessão com ordens profissionais e sua subjugação ideológica tornou-se não só uma mania da deputada e dos que a acompanham, mas um verdadeiro programa político. O propósito é claro: usar os poderes de autoridade pública das Ordens para perseguir, difamar e confinar os profissionais desafectos, impondo a agenda ideológica isabélica e condicionando a própria liberdade técnica, científica e profissional. Em qualquer Ordem, este programa é um abuso. Nas Ordens relacionadas com a saúde, o programa é um perigo – um perigo para a saúde pública.
Já há algum tempo que Isabel Moreira emerge a capitanear profissionais e dirigentes alinhados, como o guru destes movimentos disciplinares – melhor, direi a gurua, para não ferir hipersensibilidades de género e acreditando que a palavra se diz tal como perú e perua.
Por exemplo, no fim do ano passado, Isabel Moreira ingeriu grosseiramente no período eleitoral na Ordem dos Psicólogos. Por essa época, escreveu no “Expresso” um artigo elucidativo, cujo título diz tudo do descoco extremista em que anda: «Pode um psicólogo violar a Constituição?» Na altura pareceu ter dirigentes da Ordem dos Psicólogos por conta. Agora, também em médicas, surgiram esbirros servis à instrução Facebook – todas as classes podem albergar bufaria, delação, velhacaria traiçoeira, gestos pidescos. É da natureza humana, capaz do melhor e do pior também.
Se eu fosse a um psicólogo ou a um médico e este me mandasse esperar porque tinha de ir ver a Constituição, ou tal cena se passasse com alguém da minha família, aí, sim, é que eu faria queixa à Ordem, por estar diante de alguém manifestamente inapto para atender doentes. Os profissionais de saúde devem agir unicamente de acordo com as regras da sua arte e ciência, dando o melhor das suas capacidades técnicas. Algum que tenha a Constituição como fonte é porque não bate bem – e precisa de ir descansar. Seria de fugir a sete pés desse consultório.
Porém, a pergunta já tem inteiro cabimento aplicado à própria: «Pode uma deputada violar a Constituição?» Pelos vistos, pode. Não deve, mas, se for Isabel Moreira, acha que pode.
A Constituição garante: «todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio» – excepto, diz Moreira, se for Gentil. A Constituição assegura: «o exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura» – mas a deputada anda a montar uma maquinaria que, por vagas consecutivas de intimidação, construa apertada teia de censura e auto-censura. A Constituição estipula: «ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual» – mas Isabel Moreira e companhia pretendem ver prejudicados e privados de direitos os que têm convicções políticas e ideológicas que lhes desagradam e privilegiados e beneficiados os prosélitos. A Constituição determina: «os preceitos constitucionais respeitantes aos direitos, liberdades e garantias são directamente aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas» – mas Isabel Moreira entende que só se aplicam como, quando e onde quer; e ataca como se não se aplicasse na Ordem dos Médicos quanto a Gentil Martins. Este, por autoritário ditame isabélico, deixaria de ser um par para passar a ser um pária.
A constância e a força com que a deputada se aplica a este sórdido exercício recorrente fez-me pensar que a maquinaria que pôs de pé é servida por um poderoso tractor, importado da Coreia do Norte, para onde fora pela cooperação da defunta RDA: um clássico Kirovets de 1975, o tractor soviético K-701, máquina impressiva de 13 toneladas de envergadura e 300 cavalos de potência. Um mimo! Desgastado já para usos agrícolas, ainda dá bem para triturador de opinião, e os norte-coreanos apreciam ajudar nestes usos.
O quadro em que vivemos é tanto mais deplorável quanto a generalidade dos partidos consentem, quando não estimulam, estes desenvolvimentos persecutórios, em flagrante abuso das leis e do seu espírito, dos regulamentos e da autoridade pública. O problema não é só Isabel Moreira cultivar a manipulação do Direito como amarra carcerária, em vez de ferramenta e alavanca de liberdade. O problema é tudo isto rolar sem que ninguém com peso, com voz e obrigação de voz, reaja e ponha as coisas na ordem da liberdade.
Os partidos foram capturados antes das ordens profissionais, ou bem por esta agenda, ou apenas pelo politicamente correcto – e são, assim, pilotados pela tibieza, pela cobardia e pelo silêncio, quando não pela conivência e cumplicidade. Por isso, nesta hora, os protestos estão devolvidos unicamente à pura coragem individual e espontânea que se solte da cidadania e se levante da sociedade civil – isto é, a liberdade foi confinada ao território por excelência da liberdade, porque o Estado já não a garante, antes consente ser instrumentalizado para perseguir. É aqui que estamos.
Evelyn Beatrice Hall, biógrafa de Voltaire, escreveu uma frase célebre, que ficaria colada ao filósofo francês: «Discordo do que você diz, mas defenderei até à morte o seu direito de o dizer.» É uma bela frase clássica da liberdade de expressão, normalmente atribuída ao próprio Voltaire. Isabel Moreira e as duas médicas mancomunadas não conhecem a frase, nem a ideia; ou, se a conhecem, violam-na, tal qual a Constituição.
Percorrendo a literatura produzida por Isabel Moreira nestes exercícios persecutórios, constata-se a sua absoluta frieza policial e a implacável determinação do ódio que vocifera e com que pontapeia os seus alvos. Percebe-se que não vacila, nem recua diante do olhar de um homem ou de uma mulher, não hesita defronte da humanidade, não se impressiona com a condição humana, não se comoveria diante do choro de uma criança. Este caso de Gentil Martins mostra à sociedade e à saciedade que não respeita uma carreira, que não venera a idade, que não presta honra a um exemplo profissional, que não pára diante de cabelos brancos.
Podia dizer o que entendesse. Podia irritar-se e mandá-lo bugiar. Tinha o direito – e o dever – de discordar e contrapor assertivamente as suas convicções. Mas não pode perseguir. E, muito menos, pode montar a partir da Assembleia da República uma máquina de perseguição pública, orientada contra indivíduos e visando a subjugação ideológica de profissões.
Tem obrigação de ter respeito pela casa onde se senta e que aprecia ser conhecida como a Casa das Liberdades. A canção dizia: «Não há machado que corte a raiz ao pensamento.» Sim, não há Machado. Mas, perigosamente, há Isabel. E lá foi o poeta pelo cano.
No seu post enfurecido que tudo começou, Isabel Moreira escrevia «Chega!» É verdade. Basta! Páre com isto em nome da liberdade! Discuta. Responda. Contradiga. Mas não persiga. Conheça a fronteira da liberdade e não passe para o lado de lá.

Comentário:

Isabel Moreira é uma inquisidora. Se tivesse vivido no séc. XVI seria responsável por muitos mortos na fogueira. Se tivesse sido educada nos anos trinta, na Alemanha, seria uma eficiente agente da Gestapo. Se tivesse sido educada nos anos 50 na Alemanha de Leste, seria provavelmente uma das colaboradoras mais activas da STASI.
Quanto à PIDE, o seu pai dava-se bem com ela.
Porquê? Pela simples razão que esta Moreira por uma causa é capaz de tudo, mesmo denunciar ao poder do Estado quem pretende amarfanhar em virtude das suas ideias.
Conclusão: parece-me doida varrida.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A face oculta do passado político

Observador, crónica de José Manuel Fernandes:

PS. Em política o que parece é, e um dia até Pedro Passos Coelho terá de aceitar essa secular regra. Por isso, se já ninguém limpa a imagem do candidato do PSD a Loures depois das suas declarações sobre ciganos, quando se libertará o partido das consequências do que disse e diz esse desastre ambulante e incontinente?

JMF foi da extrema-esquerda. Nunca se esqueceu disso... e portanto o que escreve sobre o que passa é sempre ensombrado pelo que passou. Não consegue desligar o lado negro esquerdóide de uma iluminação liberal.


Visão desta semana:



MJM foi de extrema-esquerda. Nunca se esqueceu disso...e portanto o que diz sobre o que se passa na justiça é sempre ensombrado pelo que se passou. Não consegue explicar como se investigou e arquivou um processo que mostrava o lado oculto do mais alto poder do MºPº ( a violação de segredo de Justiça no Face Oculta,  no tempo de Pinto Monteiro), mesmo que ande sempre a falar de corrupção.

Pratt é outra louça: tem traço escorreito.

Artigo de Francisco Louçã, no Público de ontem, sobre Corto Maltese e Hugo Pratt.


Este pequeno escrito apedantado do primeiro prócere do BE torna-se pretexto para uma visitação à obra do desenhador Hugo Pratt tal como a conheci quando foi dada a conhecer por cá, no início dos anos setenta do século que passou.
Quem quiser escrever coisas apedantadas sobre Pratt ou Corto Maltese não precisa de ir muito longe e com dois cliques chegará lá depressa, como Louçã chegou. Aliás, não percebo muito bem a razão por que estes eruditos instantâneos, nestas como noutras obras, repetem e copiam informação que recolhem da internet, sem pudor algum e que qualquer pessoa pode consultar do mesmo modo.

Por outro lado, não se dá conta no escrito que a nova aventura de Corto Maltese está a ser publicada na revista francesa de "direita", Le Figaro Magazine, desde o passado dia 8 de Julho, semanalmente. A nova historieta é apresentada por dois "herdeiros" da arte de Hugo Pratt que antes de morrer autorizou a continuação das histórias desenhadas, por outros autores, agora espanhóis, sendo o desenhador Rubén Pellejero que nos anos oitenta colaborou em revistas espanholas de BD, como a Cimoc.



Faz agora, neste mês,  50 anos que Hugo Pratt publicou a sua primeira obra-prima, Una balatta del mare salato, com o herói Corto Maltese, em desenhos publicados em série na então inaugurada revista italiana, de Génova, Sgt Kirk e mais tarde no suplemento de um jornal italiano ( Corriere delle picolle, suplemento do C.d.Sera).
Mas seria Pratt ou Corto Maltese conhecidos em Portugal, nessa altura?  Nem de perto nem de longe. A primeira vez que vi qualquer coisa sobe Pratt e Corto Maltese foi na revista Tintin de 4.11.1972, num artigo assinado por Vasco Granja que reconhecia o desconhecimento injusto, na altura, em Portugal sobre a obra do desenhador italiano.


No artigo mencionava-se o lançamento de uma edição italiana sobre a obra de Pratt, publicada originalmente em 1971 e que actualmente vale centenas de euros no ebay.


Lembro-me de ver este volume à venda numa das livrarias Bertrand, aí pelos anos 1974 ou 75.
Porém, a primeira vez que li uma historieta de Pratt não foi a de Corto Maltese mas sim outra historieta de 45 páginas, publicada na Tintin belga, em 1973 e 1974.
Les Scorpions du désert foi publicada no número de 6 Fevereiro de 1973, logo em 12 páginas iniciais que continuaram depois durante alguns meses, em capítulos que terminaram em 26 de Março de 1974 ( nos números, 6, 9, 21 de 1973 e 11, 12 e 13 de 1974, com 11, 9, 5, 5, 7 e 8 páginas respectivamente). A primeira parte da historieta tinha sido originalmente publicada em 1969 na revista italiana Sgt Kirk, saída em 1967 que durou até 1973 e lugar primeiro da publicação da Una balatta del mare salato. 



O Tintin belga custava nessa altura( 1973)  15$00 ( 30 pesetas em Espanha e 18 francos belgas, na edição original), preço que se manteve até 30.4.1974 em que passou a custar 22$50. Em Outubro de 1974, custava 20 francos belgas, mas por cá tinha aumentado para 25$00 e em Espanha passou a custar 35 pesetas. Coisas do 25 de Abril...


A primeira vez que li uma historieta de Corto Maltese  foi igualmente no Tintin belga, de 9.4.1974 com a historieta antiga, O segredo de Tristan Bantan, em que  aparece logo na primeira imagem a célebre espreguiçadeira sita em lugares exóticos.




  O Tintin belga começou então a publicar as antigas histórias de Pratt, como se fossem novas, a cores suaves e com apresentação gráfica melhorada. Histórias que eu não conhecia e duvido que em Portugal fossem conhecidas nessa altura, a não ser que lessem a revista francesa Pif ( gadjet) destinada a putos e com artefactos associados na capa em saquetas de plástico. Foi no Pif, a partir de 1970 que se publicaram as historietas de Pratt, até 1973. A primeira, no nº 58, em Abril de 1970, 20 páginas de O segredo de Tristan Bantan:



Em 22 de Outubro de 1974, no Tintin belga,  seguiu-se "Por causa de uma gaivota", também já estreada anteriormente, na revista francesa Pif.


A verdadeira e ampla divulgação da obra de Pratt ocorreu no final dos anos setenta e seguintes, com a moda do exotismo romântico que até aí era coisa sem importância mediática.

Em Fevereiro de 1978 apareceu em França a revista (A)Suivre que logo no primeiro número começou a publicar histórias novas de Hugo Pratt e o seu herói de circunstância, Corto Maltese, sempre a preto e branco em tinta da china.
A (A)Suivre pretendia ser uma mistura de banda desenhada com o romanesco, a preto e branco e durante muitos números.

A primeira aventura de  Corto na revista foi uma historieta intitulada "na Sibéria", no Oriente e no tempo dos anos a seguir ao fim da I Guerra.


Porém, tal historieta que se prolongou até Setembro desse ano de 1978, tinha já sido publicada originalmente em Itália, em Junho de 1974 ( até Setembro de 1977)  na revista Linus, outra das paragens gráficas do autor:


 Não obstante, a (A)Suivre foi o paradeiro preferido de Pratt durante anos a fio, até à sua morte em 1995.


 No número 200 de Setembro de 1984 até oferecia um original de Pratt a quem assinasse a revista...que nesse número trazia uma história inédita do "último voo de Saint-Éxupery", em 1944.


Em Janeiro de 1979 publicou a grande história de Pratt e Corto, Fábula de Veneza que tinha sido publicada antes na revista italiana L´Europeo no ano de 1977.


 


E no número final da revista, em Dezembro de 1997, quase vinte anos depois, o obituário de ambos ( Pratt e a revista):


Para a posteridade fica a última imagem dessa revista, na contra-capa do número de Janeiro de 1979:  o mito em preparação, com a publicidade à editora. A BD, Pratt incluído, nunca mais foi a mesma...

 
Em Itália, em Outubro de 1983 surgiu a revista Corto Maltese com um grafismo de qualidade inultrapassável ( os italianos sabem dessa poda) que se dedicou desde esse primeiro número à publicação de autores italianos ( e não só: em Dezembro de 1987 publicou uma história completa de Dieter Lumpen, desenhada por Pellejero, o actual desenhador de Corto) de fumetti, de banda desenhada. Durou quase dez anos, até Julho de 1983 e foi aí que se publicaram as novas aventuras de Corto Maltese e republicaram algumas antigas, geralmente com duas dezenas de páginas, então coloridas em cores suaves, de propósito, como foi o caso, nesse primeiro número, de "O Segredo de Tristan Bantan" ( a primeira e originalmente publicada em 1970 a preto e branco, na revista francesa Pif, onde Pratt publicou até 1973 e como se viu acima republicada no Tintin belga em 1974) ) , a par da publicação, em continuação, da Casa Dourada de Samarcanda. 



E assim se faz um mito  do séc. XX e que veio para ficar. Até o Louçã fala nele...e acho que o bravo Vital também. Heróis de papel...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O título é a mensagem

O Público de hoje dá um espavento de página ao assunto de A.Ventura com os ciganos. E titula a mensagem devida que mais ninguém, nem o jornal, procura entender: porque é que as pessoas apoiam A. Ventura. Pressentem a razão mas não vão atrás dela, para a mostrar e é nisto que o jornalismo caseiro se distingue da Censura antiga: são os jornalistas e directores de informação que censuram, ainda mais que antigamente. Muito mais porque a Realidade actual não se espelha nos jornais e nesse tempo havia consonância entre o que se lia, sentia, via ou ouvia, apesar da Censura do regime que cortava certas notícias de factos que não truncavam a demais realidade.

A Censura actual é muito mais insidiosa e perversa porque capa do entendimento comum a realidade que todos observam mas não vêem espelhada e debatida nos media. Esperam com isso transformar a própria Realidade naquilo que artificialmente pretendem que ela seja. É esse o papel principal do jornalismo amestrado que temos em Portugal.

 Tenho para mim que uma das razões do apoio a movimentos e partidos de Esquerda logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, na semana seguinte, nos media em geral, logrando votar ao esquecimento e irrelevância uma direita velha e sem alternativas, se deveu à Censura então existente.
Se as mesmas causas, perante circunstâncias similares tendem a produzir os mesmos efeitos, mesmo socialmente, então devemos esperar que a actual Censura conduza ao mesmo destino: o contrário daquilo que pretende impor...e é isso que se pode ler neste título:



Quem não percebeu isto não entende o "populismo" ou os fenómenos Le Pen ou Trump ou mesmo o que se passa na Hungria ou Polónia.
Tarde ou cedo cá virar parar e então será demasiado tarde para os media se darem conta e esta esquerdalhice que abunda por cá se confrontar com a sua Mentira que toma por Verdade.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Aleluia!

JE:

O Supremo Tribunal de Justiça considerou nulas as condenações de vários jornalistas do grupo Impala que obrigava a indemnização na ordem dos 395 mil euros a Pedro Santana Lopes, noticia o jornal Expresso. 
O ex-primeiro ministro tinha colocado dois processos aos jornalistas da editora DescobrirPress, que pertence ao Grupo Impala, assim como à própria editora, em 2007 e que tinham resultado em condenações a indemnizações no valor de mais de 700 mil euros, valor que foi posteriormente reduzido pela justiça, recorda o jornal.
No entanto, o Supremo Tribunal anulou as condenações considerando que Santana Lopes sempre “tornou públicos aspectos da sua vida privada e familiar” e realçando sobre as críticas em artigos que constituíam “artigos de opinião e crítica política, envolvendo essencialmente juízos e apreciações valorativas (e não propriamente factuais)”
.

O  STJ descobriu que as condenações de Portugal no TEDH custam dinheiro ao país. Decisão sensata, por isso.

Os ciganos não são racistas?

 Observador:

José Maria Fernandes, presidente da União Romani – a Associação que representa a comunidade cigana em Portugal – reagiu aos comentários de André Ventura sobre a etnia cigana. “Parece que estou a responder ao Hitler”, disse para descrever os comentários do candidato do PSD e CDS à Câmara Municipal de Loures, André Ventura. 
 Depois das declarações de André Ventura, onde afirmava que existia “uma excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas” e que “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”, vários foram os que se insurgiram contra o candidato. O Bloco de Esquerda disse tratar-se de um “ataque vil, gratuito e preconceituoso para com as pessoas de etnia cigana que, como tal, é punido pelo Código Penal Português”, e apresentou uma queixa-crime na Procuradoria Geral da República.

Ontem no programa Prós&Contras, um activista dos direitos dos ciganos, um tal Piménio, disse claramente que "nós temos em Portugal um paternalismo branco".
Aliás, todo o programa foi concebido como um ataque ao pretenso racismo contra os pretos e ciganos, para além do mais. As "organizações" convidadas não foram confrontadas com nenhum dos factos que levam normalmente as pessoas a falarem dos pretos da periferia de Lisboa e dos ciganos em geral, do modo como realmente se fala.  Nenhuma pessoa presente se atreveu a mencionar o que muita gente conhece relativamente a ciganos e aos pretos e que nada tem a ver com racismo mas com desrespeito generalizado das regras de convivência social plasmadas nas leis penais. O tráfico de droga não foi mencionado e a contrafacção de mercadoria têxtil nem aflorada foi.

Assim, ao dar-se espavento ao discurso do tal Piménio, de cunho evidentemente racista e até de ódio, está a contribuir-se para a apologia pública de um crime, o que é muito mais grave do que aquilo de que se acusa o advogado Ventura. 

Quanto ao BE, resta apenas dizer que vozes de burros não chegam ao céu.

As câmaras corporativas estão na moda

JEcon

Governos espalhados pelos diferentes pontos do globo estão a recrutar “tropas cibernéticas” para manipular o Facebook, o Twitter e outros meios de comunicação social, denuncia um estudo da Universidade de Oxford, a que a Bloomberg teve acesso. O objectivo desta acção é orientar a opinião pública, espalhar desinformação e controlar as críticas.
O relatório informa que há 29 países onde esta situação acontece. As tácticas são implantadas por regimes autoritários, mas também por governos eleitos democraticamente.

Só agora é que descobriram o que o governo do Inenarrável já praticava com proveito e sem exemplo há dez anos atrás? 
Hoje em dia a tarefa é deixada a papagaios que se topam à légua e recebem a ordem de serviço para postar onde calha e lhes apetece, sempre em prol da voz do dono.

Palermas, há muitos! E bloquistas de direita ainda mais...

Artigo de João Miguel Tavares no Público de hoje:


 A  notoriedade deste komentador residente no Público e na tv ( num programa que alberga Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira, todos da mesma área político-intelectual, embora com o habitual disfarce daquele que nem precisa do falsete para mostrar identidade)   permite-lhe agora escrever sobre palermices no mesmo tom.

Atira-se ao "quase nonagenário" Gentil por causa da afirmação a propósito da "anomalia". Ora o komentador deste Bloco de Direita acha que dizer coisas destas, no seu entender palermices,  não assume importância porque o assunto está arrumado desde 1982, pelo menos. Foi nessa altura que por decreto imaginado pelo komentador a "a prática [da anomalia] deixou de ser criminalmente punida, em Portugal."
Por causa da afirmação arriscada fui ver ao código penal anterior a 1982 que vinha de 1886 e sofrera várias revisões ( mas não tantas como o novo já sofreu) se tal era verdade. Um mero fact-checking jornalístico. Azar! Confirma-se ser uma palermice do komentador, pois o código antigo nem do assunto se ocupava no capítulo IV, sobre os "crimes contra a honestidade".
Nem uma palavra no código antigo sobre a homossexualidade, ao contrário do actual ( de 1982) que lhe dá honras de cidadania para criminalizar a "homossexualidade com menores".
O antigo código não criminalizou a homossexualdiade ao contrário do que se propala nos fora da esquerda em bloco e que este komentador papagueia, apalermando-se como companheiro de caminho.
Mas nem é esse o ponto em mais esta palermice. O que Gentil disse foi o óbvio ululante ( expressão de Nelson Rodrigues, muito citado por este bloquista de direita): é uma anomalia que se pretenda perpetuar a espécie sem a natural contribuição do sexo oposto. E isso até os filhos deste bloquista de direita devem compreender e aceitar como natural, sendo anti-natural o oposto.

O lamento final do komentador acrescenta ainda outra palermice: o que o médico Gentil disse não é falta de respeito para com os homossexuais que agora serão legião, de acordo com os desejos destes novos convictos. É apenas senso comum sem a distorção do politicamente correcto. Respeitar a homossexualidade como opção pessoal é uma coisa que Gentil pratica. Promovê-la como se fosse a moda nec plus ultra da evolução humana é uma palermice final.  E assim ficamos.

A par disto, o editorial do Dinis, Dinis, alguém assim quis, é revelador do ambiente mediático que prolifera em Portugal. Gostaria é de saber o que o patriarca Belmiro pensa disto...e dos milhões que esportula para subsidiar estas ideias peregrinas que assentam como politicamente correctas:


Entretanto o Dinis, Dinis, alguém assim quis, deixou publicar esta ignomínia que o Livro de Estilo do Público recomenda. Porventura até terá o seu aplauso...
Imagine-se o que seria se em vez deste texto imundo fosse publicado outro com tendência homofóbica...verdadeira ou imaginada!
A esta hora o articuleiro putativo já estaria despedido da colaboração regular, pela certa.