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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Media nacionais: estado da arte

CM de hoje:


Há um mistério que perpassa por estes números de tiragens: quem é que lê o Expresso, vendido em 65 mil exemplares?  Uma certa classe mediana na sociedade portuguesa. Professores? Duvido, pelo que ganham, mas haverá muitos, entre os cerca de 150 mil existentes. Profissionais liberais? Também, certamente. Mas quantos serão, uma vez que nem se encontram estatísticas?

Mas quem lê o Expresso lê a porcaria da revista do Expresso? Duvido muito. Então o que lê, verdadeiramente? As notícias de primeira página que raramente interessam por aí além ( excepto reportagens como a do incêndio de Pedrógão, excelente a todos os títulos)?

É um mistério, para mim, saber quem lê o Expresso com proveito verdadeiro. Esta semana foi jornal para se ler em poucos segundos que duram o folhear das páginas. E há mais semanas assim do que o contrário. 
E os que compram o Expresso lêem o CM? Duvido.
O Jornal de Notícias, para mim sem qualquer dúvida, o melhor jornal português de notícias puras, apesar do Camões, vende 38 mil exemplares. No Norte, certamente e comprado por todos os cafés onde se lêem jornais. Ou seja, sobrará muito pouco para compradores individuais.

Enfim, seria preciso um estudo aturado, em focus group ou em ambiente aberto para se saberem estas coisas.

Esse estudo não existe. Aliás, quem seria capaz de o fazer e explicar que género de pessoas lê o tal Expresso e outros jornais e a motivação real para tal?

Como método de realização de sondagem poderiam as empresas respectivas colocar uma dúzia de sondageiros nos locais onde se situam os quiosques com maior movimento de venda e inquirir os compradores, durante a manhã de Sábado ( lá entre as 11 e a 1 da tarde...) acerca de tais motivos:

"Desculpe o incómodo, ando a fazer um estudo e gostaria de lhe perguntar  porque razão compra jornais e esses em particular? Será possível  dizer-me, por favor? "
E se o interlocutor se mostrasse colaborante, acrescentar: " qual a razão pela qual lê o Expresso? Costuma ler tudo no jornal? É hábito antigo? Acha que o jornal esclarece os leitores sobre o que se passa no país?  Gostou de algum artigo em especial que tivesse lido nos últimos tempos? Acha que o jornal informa alguma coisa diferente do que outros fazem? " E por aí fora...

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Censura tem muitas formas

O jornal i de hoje tem na capa uma alusão ao livro de Joaquim Vieira sobre a vida de Balsemão, numa biografia "não oficial". Assim:


Lá dentro 4 páginas 4, não assinadas e portanto da responsabilidade do director, Mário Ramires, em que se transcrevem passagens do livro atinentes à vida particular, privada do dono da Impresa falida.
O excerto publicado é do capítulo 4, "O Jornal da família" em que se dá conta do carácter pessoal e profissional de Balsemão, em modo semelhante ao que José António Saraiva fez no livro que escreveu sobre algumas figuras públicas e a propósito do que foi muito criticado por transcrever testemunhos directos e desprimorosos de pessoas já falecidas.
Neste caso concreto e neste capítulo aparecem os nomes e testemunhos desprimorosos para o visado, de pessoas já falecidas: Baptista-Bastos, Ruben A. através de correspondência aberta com o visado. 

A escolha do capítulo não pode ser inocente na medida em que a personalidade de Balsemão, como "mulherengo" interessa nada de nada, mesmo que seja revelador que partilhava as amantes, induzindo amigos a dormir com elas ao mesmo tempo que se enciumava se outros lhe cobiçavam as conquistas.

Sobre a história da SIC e da aldrabice fatal para um uomo di onore deste calibre ( 40% de capital estrangeiro, captado através de um homem de palha, seu amigo de infância, e de proveniência estrangeira quando não o podia ser)  não aparece citada, tal como outros assuntos acerca do perfil de Balsemão na configuração do espaço mediático português nos últimos 50 anos.

É assim que opera a Censura, hoje, em Portugal. Tal como dantes mas ainda mais insidiosa.

Já agora, o capítulo 4 não termina da forma abrupta que o jornal indica. Para quem leu o jornal e ficou com água na boca, termina assim:



A mutação de valores: perdidos e achados

Hoje no Correio da Manhã aparece esta notícia sobre algo que nem devia ser notícia: alguém encontrou um envelope com dinheiro dentro e procurou entregar ao dono.
Os valores promovidos pela notícia são claros e subentendidos: honestidade, honradez, sentido de justiça em entregar o seu a seu dono e, no caso, ética profissional. Aprumo moral, como dantes se dizia.


Há 50 anos isto seria notícia, assim num jornal? Duvido, mas se o fosse teria  um sentido diverso: alguém ter perdido dinheiro e por sorte outrém o encontrar de modo a poder ser recuperado por quem o perdeu. Ou então, seria notícia para que o dono o pudesse recuperar.
Quando não era susceptível de ser entregue a quem pertencia por se desconhecer o dono e não haver notícia de jornal, havia um método usual de publicidade: nas igrejas, nas missas, o padre avisava no fim: "encontrou-se um envelope contendo dinheiro e entrega-se a quem mostrar pertencer-lhe".
Não se fazia pregão laudatório de quem encontrou o achado.
Nas cidades,  as polícias tinham uma secção de "perdidos e achados" que nem eram notícia especial.
Agora é isto que se vê, porque a raridade do gesto permite a notícia, tal como o homem que morde o cão.

Outra louça:

Este palerma que afirma gostar da fantasia de Corto Maltese não percebe o essencial da fantasia dos meninos e meninos e quer reconduzir essas fantasias ao nada materialista da ideologia comunista.
É mesmo um palerma com todas as letras e se lhe dessem o poder de mandar efectivamente, reduziria a democracia em que diz acreditar a um regime de concentração ideológica segundo o que afinal acredita: o estalinismo mais puro do totalitarismo ideológico:

O PÚBLICO resumia assim os livros: “No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no livro dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas. Mas a maior parte das actividades reproduzem uma série de velhos estereótipos. Apenas alguns exemplos: eles brincam com dinossauros, com carrinhos e vão ao futebol, enquanto elas brincam com novelos de lã, ajudam as mães e vão ao ballet; eles pintam piratas, elas desenham princesas”.
O que é que se lê nos trumpificadores? Escândalo, as meninas até aparecem melhor tratadas do que os rapazes. Não percebo bem como é que essa distinção entusiasma esses pais (querem os filhos mal tratados?) e justifica que diferença de tratamento (acham que as meninas sonham e os meninos fazem?). Mas tenho um conselho para lhes dar: se pensam que as vossas filhas vão ser felizes com vestidos de princesas preparem-se para um choque. Elas vão querer mesmo ter uma profissão e uma vida.

Não lhe basta a liberdade de os pais educarem os filhos consoante entenderem e "o mercado" conduzir as escolhas identitárias dos brinquedos disponíveis. Quer mesmo reduzir essas escolhas e impedir os que não pensam como ele de usufruir dessa liberdade, impondo a sua escolha ideológica como primordial e exclusiva. O estalinismo é isso. Ou o fascismo, o tal, o verdadeiro.

Louçã é um fascista em potência. Sempre foi.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A finalidade das penas

Este artigo de Pedro Soares Martinez no O Diabo de hoje mostra a discussão que se pode ter acerca das penas de prisão e da finalidade das mesmas.

Entre magistrados o assunto é muito pouco estudado e no MºPº prevalece uma cultura peregrina no sentido de o sucesso da actuação dessa magistratura se medir pelo número de condenações em penas de prisão.
É uma ideia estúpida mas seguida por muitos inteligentes...



O politicamente correcto é mais uma moda importada...

O Diabo de hoje:






Esta tendência em contrariar a realidade em prol do que parece ideologicamente adequado, tem raízes exteriores, como quase tudo, em Portugal.
O episódio com um tal Cabrita, um doido com provas dadas é apenas um reflexo disso:




segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A canalha do politicamente correcto manda no país?

Artigo de Maria João Avillez no Observador, sobre a nova Censura:

Desde 1974 que a “media” ignora, despreza ou suporta mal a “ideia” de direita ou mesmo de centro-direita, troçando ou destruindo os seus líderes e ajudando a acabar com eles, mesmo que o voto os legitime. Ao contrário da Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Holanda, e etc., em Portugal nunca se impôs, com substância e carácter definitivo, um jornal ou algo de parecido com um órgão de comunicação social de centro-direita, conservador ou menos conservador. O qual, como sucede nos países citados, funcionaria também como catalizador/produtor de opiniões, ideias, movimentos, debates ideológicos, pensamento político. Mas nem isso: o espaço continua semi-orfão, inorgânico, mal-amado. É um mistério.
A sociedade civil é tão débil quanto isso? As elites tão frágeis? A dependência do Estado tão avassaladora? Há metade do país sem voz nem vontade? O comprometimento deixou de ter significado e perdeu poder de convocatória? Não sei mas a fractura é grande. Do outro lado da guerra cultural em curso há quase só anestesia, mutismo, distracção, indiferença. E simpatia até, quem sabe?

Comentário:

Torna-se algo notável que alguém como a articulista, representante de topo da intelligentsia que deixou chegar isto onde chegou, venha agora com estas lágrimas que nem são de crocodilo mas de alguém que se distraiu muito no tempo do Semanário e do Expresso daqueles que agora estão falidos, precisamente por causa de terem dado voz a esta canhalha.

Um dos primeiros sintomas dessa distracção é a escrita segundo as regras do execrável Acordo Ortográfico. Ninguém obriga ninguém a escrever assim, mas ela escreve...para se lamentar acerca da inexistência de uma "direita" em Portugal.

A direita em Portugal, Maria João Avillez, não pode passar sem o regresso ao passado nem sequer muito distante. Carece de retomar o fio do tempo e mostrar a esta canalha que os valores que então eram os correntes ainda são aproveitáveis. Os do tempo de Salazar e Caetano.

A democracia não trouxe valores melhores, antes pelo contrário. O que trouxe, isso sim, foi a liberdade para  os mesmos serem destruídos paulatinanamente, como foram.  Com a alegre colaboração dos compagnons de route de que  aquela faz parte, os quais poderiam ter lutado pelos mesmos quando era preciso. Agora, se calhar será um pouco tarde.
Porém, se tem consciência disso é bom sinal. Ainda não estará tudo perdido.

Canalha é a melhor expressão para designar esta gente que quer impor um modo de pensar que substitui a Realidade. Canalha, no sentido de pequenos, de putos. 

Atentado ao Estado de Direito: uma realidade que nunca existiu

Uns patifes que chegaram ao poder em 2005, sob a batuta de um inenarrável político da nossa praça e a complacência de quase todos, quiseram dali a poucos anos tomar conta do poder mediático no país.
O chamado 4º poder, apesar de não ser reconhecido como tal, constitucionalmente,  é um dos pilares do Estado de Direito democrático e só uns juristas de trazer por casa de passe politicamente relevante,  desconsideraram tal entendimento, com pareceres de arquivamento liminar.

O Jornal de Negócios de hoje tem esta página:


Este jornal é da Cofina e por isso noticia estas coisas gravíssimas e de que afinal parece que ninguém se deu conta no tempo em que aconteceram, apesar de suspeitas e do conhecimento pleno do carácter inenarrável de quem as protagonizou.

Ainda agora os demais jornais, incluindo o do Balsemão, fazem vista grossa e não se importam muito com isto.
Ninguém questionou oficial e abertamente os detentores do poder judicial de então, em Portugal, a saber o PGR Pinto Monteiro e o pSTJ Noronha Nascimento, acerca destes factos, em modo de processo instaurado para os mesmos se poderem defender de suspeitas.  Porquê?! Porque é que o MºPº nunca o fez assumindo uma autonomia e uma isenção que devia ter?

Porque é que nunca se instaurou um procedimento criminal para se analisar a suspeita de favorecimento que estas circunstâncias claramente indiciam?

Porque é que nunca se procurou verdadeiramente saber o significado desta foto, datada de 8 de Setembro de 2009 e publicada na capa do Público no dia seguinte?



Sabe-se agora que o então bastonário da Ordem dos Advogados era o preferido daquele tal Inenarrável para lhe suceder...no Governo! No Governo, santo Deus! Porquê? Porque lhe seria fiel. E estou mesmo a ver um Marinho e Pinto a promover um Inenarrável ao cargo supremo da Nação. Agora estou porque nunca estive. Só esta especulação permite compreender toda a trama política que se preparava nas costas do povo, em 2009, altura da vitória eleitoral que o mesmo Inenarrável considerou "extraordinária", apesar de relativa. A fantasia, neste caso,  ficava aquém da realidade.

No dia 9 de Setembro de 2009 ninguém ainda sabia publicamente o que tinha acontecido no processo Face Oculta nem sequer quem eram os envolvidos porque os magistrados de Aveiro e o responsável pela PJ ( Teófilo Santiago) guardaram segredo de justiça completo sobre o assunto.  Mas os directamente envolvidos, particularmente A. Vara e J. Sócrates sabiam claramente desde o dia 24 de Junho desse ano, o que se passava porque nessa data foi violado o segredo de justiça do modo mais grave de que há memória em Portugal, em casos semelhantes.
O processo crime instaurado para descobrir quem foi o autor de tal violação acabou por ser arquivado no DIAP de Lisboa, então chefiado por Maria José Morgado.
Espero, por causa disso que esta não venha nunca a ser indicada como potencial candidata ao cargo de PGR. Seria muito mau. Muito mau mesmo.

Pergunta final: na foto, quem são os socialistas conluiados com poder que estava?  Pelo menos dois estavam.
E os outros dois? Acabaram por assistir, publicamente, como convidados, ao lançamento de um livro do tal Inenarrável, em que esteve presente um certo Lula, brasileiro, a contas com a justiça do seu país e condenado em pena de prisão. Para se livrar quer ser outra vez presidente da República...

Agora se sabe também que tal livro teve a participação muito prestimosa de um assistente de Direito   e pelo que se sabe recebeu grossa maquia, paga por aqueloutro que era então dono de 17% no jornal i.
O referido assistente chama-se Farinho.  Serão todos do mesmo saco?


Será preciso um desenho para entender isto ou a evidência lógica impõe-se por si?

domingo, 27 de agosto de 2017

O notável Balsemão também é um aldrabão?

Joaquim Vieira, jornalista tornado biógrafo de certas figuras públicas, deu à estampa a biografia de Francisco Balsemão que deve ter um interesse muito relativo, atenta a figura cinzenta da personagem.

No Sol desta semana ( o que tem a divulgação de escutas a Sócrates em que este faz profissão de fé política em...Marinho e Pinto, para lhe suceder...) esta página mostra que Balsemão, quando se propôs criar a SIC ( com o apoio da luminária Rangel) não tinha dinheiro suficiente para tal. E como a lei não permitia mais de 10% de capital estrangeiro, quando aquele precisava de 40% arranjou um "esquema" bem à portuguesa: um "testa de ferro" de nacionalidade portuguesa que aceitasse ser pau de cabeleira de Balsemão e enriquecesse de repente com os tais 40% que foram injectados naquela aventura televisiva. Rasca? Nem por isso. Simplesmente de português desenrascado...






A Impresa de Balsemão está assim, agora:

E uma tal Sá Lopes, que não deve perder pela demora, faz-lhe assim o obituário profissional:



O Expresso e a SIC nunca deram o devido destaque a fenómenos como este que duraram tempo demais para a nossa democracia do tipo daquela que Balsemão ajudou a fundar...

Se nos perguntarmos porquê, a resposta parece fácil: cumplicidade para com estes patifes, por causa do dinheiro necessário e que agora falta. A todos...e por causa disso.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Impresa de Balsemão está de rastos...

Do blog O António Maria, de António Cerveira Pinto:

A marca Impresa (Expresso, SIC, Visão, ...) está para a comunicação social como o BES estava para a banca.

Impresa pondera fechar Visão e outras revistas 
O grupo Impresa, detentor da SIC e de títulos como o semanário Expresso ou a revista Visão, pondera encerrar diversas publicações, se não conseguir vendê-las até ao final do ano, sendo certo que o Expresso se manterá no grupo. A solução foi comunicada pela administração esta quarta-feira de manhã aos directores de algumas das revistas em causa. Além da Visão (que inclui a Visão Junior e a Visão História), a Impresa detém a Caras, Activa, Exame, Exame Informática, Telenovelas e TV Mais, para lá do Courier Internacional, do Blitz e do Jornal de Letras. 
Público. LILIANA VALENTE e LUÍS VILLALOBOS 23 de agosto de 2017, 16:36 actualizada às 20:12Se não é ainda um fim anunciado, por perto andará.
Há muito que se conhecem as dificuldades da Impresa (1) e o nível insustentável da sua dívida. O lençol orçamental tecido pela Geringonça foi repuxado para o outro lado, o lado das bases sociais e burocráticas de apoio ao PS, Bloco e PCP. Para além das famosas cativações radicais, que ameaçam as infraestruras e a segurança do país, como vimos neste assassino verão de fogos florestais, teremos também dificuldades crescentes nalgumas empresas habituadas a um certo paroquialismo protegido pelos bancos e elites indígenas. Tudo somado, continuamos a ver crescer o desemprego estrutural, a destruição de capital fixo e humano, a implosão das classes médias, o aumento das desigualdades e da pobreza, a evaporação da poupança, a colonização financeira acelerada do país, a gentrificação das cidades, e um enorme sarilho no regime a menos de uma legislatura de vista. Marcelo Rebelo de Sousa terá que dar o seu melhor. Mas não sei se será suficiente.

A economia virtual, a tal que foi gerada pelas bolhas especulativas, mas a que os bancos centrais, BOJ, BoE, Fed e BCE acrescentaram mais fantasias monetárias, tornou-se uma realidade estratosférica. Basta pensar, como sintoma desta incomensurabilidade, no passe pago pelo Qatar/Paris Saint-Germain ao Barça para contratar o jogador de futebol Neymar: 222 milhões de dólares. Ou ainda na capitalização de uma empresa tecnológica como a Apple: 752 mil milhões de dólares, mais do triplo do PIB português (204 mil milhões de dólares em 2016). Ou, para dar ainda um último exemplo sugestivo, a Uber, cujo valor supera a capitalização de toda a bolsa portuguesa. Nesta realidade que incha para lá de toda a nossa imaginação, empresas como a Impresa (que terminou a sua viagem pelo PSI20 com uma capitalização bolsista de 255 milhões de euros) e hoje deve mais de 160 milhões de euros à banca (80 milhões ao BPI) não passa de uma frágil casca de noz num mar de tempestade rodeado de tubarões e a ameaça crescente de um naufrágio.

A fragilidade de um país como Portugal é cada vez mais evidente, assim como a sua prática incapacidade de mudar a direção dos ventos que sopram. Se ainda nos uníssemos, em vez de alimentarmos a fogueira ideológica que António Costa acendeu e a Geringonça ateou...

NOTAS
Em meados de 1995 tentei explicar a Francisco Pinto Balsemão que o futuro da imprensa estava numa coisa chamada Internet. Mostrei-lhe então o que era a Internet num monitor manhoso ligado a um PC. O navegador de então chamava-se Mosaic. Creio que levou demasiado tempo a assimilar a informação que então lhe dei. A avalanche que se seguiria é hoje conhecida de todos. Mas o que ainda falta à burguesia portuguesa entender é que o Capitalismo mudou.



Comentário meu:

Pinto Balsemão era um jornalista nos anos sessenta que teve a seu cargo a herança do Diário Popular, que um tio lhe deixou.

Nos setenta foi deputado do grupo da Ala Liberal que congregava ainda Sá Carneiro, Magalhães Mota e outros que fundaram o PPD/PSD, logo em Junho de 1974.

Se o 25 de Abril não tivesse gerado um trágico PREC, Marcello Caetano poderia bem ter sido um apoiante do PSD...

No entanto, tal PREC determinou um virar de casaca do dito Balsemão que logo em 1974, com o seu Expresso, fundado no ano anterior e prestes a fechar portas por não conseguir impor-se no jornalismo nacional, adoptou a novilíngua dos comunistas e socialistas e contribuiu como compagnon de route para a nossa desgraça colectiva que dura há mais de 40 anos.

O actual presidente da República, filho de um dos ministros de Salazar foi outro que adoptou a novilíngua até hoje. Um traidor, evidentemente, aos ideais dos pais. Um liberal de trazer por casa cuja verdadeira personalidade continua a ser um mistério. Foi jornalista e director no Expresso e colaborou logo na revista Visão, em 1993.

As nacionalizações e a Constituição de 1976 tiveram o apoio inequívoco destes tartufos de sempre na política nacional.

A falência da Impresa e do grupo de Balsemão, agora e neste contexto, é trágico para duas centenas de jornalistas. Para os donos do grupo é apenas o que acabaram por merecer.

Balsemão durou estes últimos 44 anos por causa destas traições a ideais que eram o que depois deixaram de ser.

Está na hora de enfrentar a realidade, tal como o banqueiro Salgado, outro da mesma laia, enfrentou.

    quarta-feira, 23 de agosto de 2017

    Roma não costuma pagar a traidores


    Observador:

    A administração do grupo Impresa comunicou esta quarta-feira a intenção de encerrar a revista Visão, avança o jornal Público. Isso, sabe o Observador, acontecerá caso não seja possível vender o título até ao final do ano.
    À excepção da SIC e do semanário Expresso, todas as outras publicações detidas pelo grupo estão em risco: a Caras, a Caras Decoração, a Activa, a Visão Júnior, a Visão História, a Exame, a Exame Informática, a Telenovelas, a TV Mais, a Blitz, o Courier Internacional e o Jornal de Letras.
    Um comunicado enviado pelo presidente executivo Francisco Pedro Pinto Balsemão, filho do presidente e fundador do grupo, esclarece que a Impresa “procederá a um reposicionamento estratégico da sua actividade” que irá focar-se nas “componentes do audiovisual e do digital”, em detrimento do “sector das revistas”.
    A prioridade passa por continuar a melhorar a situação financeira do Grupo, assegurando a sua sustentabilidade económica, e logo a sua independência editorial”, pode ler-se ainda.
    A redacção da revista Visão está neste momento reunida em plenário, onde foi informada dos planos da administração.
    Os directores das revistas afectadas foram informados da decisão esta quarta-feira, numa reunião com a administração do grupo Impresa, presidido por Francisco Balsemão. Na reunião, ficou também a saber-se que o Expresso e a SIC se mantêm no grupo Impresa.
    O grupo Impresa teve uma diminuição de cerca de 7,6% das receitas, no segundo trimestre deste ano, em relação ao período homólogo de 2016. As receitas de publicidade tiveram também uma queda de cerca de 11,9% — o que contribuiu para a diminuição das receitas. No primeiro semestre o cenário tinha sido semelhante. Num comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, a Impresa revelou que as receitas consolidadas caíram 5,5% nesse período.
    Francisco Pedro Pinto Balsemão, filho do presidente e fundador do grupo, foi nomeado presidente executivo, no início do ano passado, substituindo Pedro Norton.
     
    Comentário:

    A Visão  começou em 1993, como uma espécie de continuação de O Jornal, fundado em 1975 e desde sempre um pagode da esquerda democrática e um pouco menos que isso, do lado esquerdista. Dez anos depois celebrou o aniversário convidando estes ilustres para escrever nesse número. Nessa altura já pertencia ao grupo de Balsemão, Impresa. Agora, passados 14 anos está falida.
    Falta-lhes o "o dono daquilo tudo"...e é sabido que roma não paga a traidores.
    E qual foi a traição? Continuar a ser esquerdista à moda de quem vai aos grelos quando o grupo de Balsemão tem raiz social-democrata. De direita, se se quiser. Da que os João Miguel Tavares e outras Maria João do Observador gostam.
    A Visão foi um dos berços da geringonça governativa que temos. Podem limpar agora as mãos à parede.



    Por cá também temos juízes assim...

    RR:

    Abdelbaki Es Satty, o imã de Ripoll apontado como o cérebro da célula responsável pelos atentados na Catalunha, teve ordem de expulsão de Espanha, mas esta não foi concretizada. O juiz revogou o pedido de com o argumento de que não era uma "ameaça real". O jornal espanhol “El Mundo” escreve que em Março de 2015 o magistrado Pablo de la Rubia, do julgado contencioso-administrativo de Castellón, revogou o pedido por entender que o crime pelo qual ele deveria ser expulso (tráfico de droga) era "um facto criminal único”.

    Argumentou também que Satty teria demonstrado "esforços para se integrar na sociedade espanhola", avança o jornal que teve acesso à sentença.

    A ordem de expulsão coincidiu com a condenação a quatro anos de prisão por tráfico de droga e deveria ter sido executada quando o imã saiu da prisão, a 29 de Abril de 2014
    .


    Por cá também temos juízes destes...

    Uma chuchadeira permanente e obscena

    CM de hoje:


    Este tipo de "reuniões" serviu para aprovar remunerações a gestores que depois autorizaram créditos que   se revelaram desastrosos e de gestão danosa.

    É um escândalo mas que permite perceber o óbvio: tachos assim, são para distribuir por apaniguados. O Estado paga, no fim de contas.

    terça-feira, 22 de agosto de 2017

    Os atentados terroristas e a extrema-esquerda...

    De Espanha, também há bom vento...mas os media não o sentem. O que se passa com os media, afinal? O que se passa nas redacções?
    Será o medo de não ser esquerdista ou de passar por fassista ou direitista? Haverá já esse medo, em Portugal?

    Se houver, estamos em democracia como nos querem fazer crer?!

    domingo, 20 de agosto de 2017

    Ignorância, incompetência e desleixo: o Governo que temos.


    Esta notícia do Expresso de ontem motivou o jurista José António Barreiros a comentar na página do seu Facebook algo que merece atenção e me foi enviado por sms ( não tenho e não tenciono vir a ter Facebook).

    O jornal informa que se trata "do artº 1345º do Código Civil, onde mora desde 1976, e é intenção do Governo passar a usá-lo para tomar posse de terrenos abandonados" .

    JAB comenta que este artigo 1345º do C.C. não está lá desde 1976 mas sim desde a origem do código, em 1967, no tempo de Salazar.
    A menção a 1976, ainda de acordo com JAB, irá por isso além do mero lapso, para a intenção deliberada em identificar tal artigo como saído dos alvores da Revolução e dos governos daí saídos.  E como indicativo de que não será mero lapso de escrita, acrescenta ainda o jornal e comenta aquele JAB que o Governo convoca um outro artigo, relativo a usucapião e que se fixa no artº 1294º do C. Civil, original.
    Portanto conclui JAB que a intenção do Governo com estes anúncios ignorantes é passar a ideia de que estas medias são "revolucionárias" e afinal " a troca de 67 por 76 é apenas um sintoma de que, neste domínio algo anda mal. O problema é haver um diploma fundamental do País, um artigo que está lá há 48 anos, e afinal, o Governo descobriu agora que existe. Fantástico", escreve JAB.

    De facto, após 51 anos de Código Civil é mesmo fantástico como a caterva de assessores do Governo, juristas a eito e com estipêndio a preceito, acompanham a ignorância já pesporrenta deste primeiro-ministro que dizem ser também jurista e com curso que não é da Independente.

    Por outro lado, o ano de 1976 é importante para estes assuntos da propriedade fundiária, mas por causa de outra coisa: os baldios e a possibilidade temporária que então foi concedida a certas pessoas que ocupavam terrenos públicos em aceder à propriedade legítima. Mas isso é outra conversa. 

    A peça em falta no puzzle do Marquês

    CM de hoje:


    Proença de Carvalho é a peça que falta para se entender melhor o aspecto mais importante do puzzle do Marquês.
    Este advogado esteve dentro de todos os casos que se interligam no processo do Marquês, particularmente no da PT e desde o início, na OPA da Sonae até ao final. Por "dentro" significa ter participado como negociador ( ele diz que foi por conta da CGD...como se isso fosse apenas assim e o Governo de então nada tivesse a ver com o caso, mesmo depois de ter nomeado um tal Vara para um sector estratégico da administração) e como advogado do principal envolvido ( José Sócrates, que largou logo que o mesmo foi preso...). Diz-se que Proença foi o indivíduo que indicou o antigo PGR Pinto Monteiro, para o cargo. Por duas razões: a primeira tornou-se óbvia ao longo do mandato daquele e a segunda porque é quase da mesma terra e amigo chegado. As conversas entre ambos terão sido das coisas mais interessantes para se compreender o que ocorreu em Portugal de 2005 a 2009.
    Sem esta peça o puzzle fica incompleto e a Justiça quer-se completa e perfeita senão será sempre injustiça.

    O MºPº e o poder judicial têm que integrar esta peça no seu devido lugar e já tarda. Se isso acontecer  cairá o Carmo e a Trindade nos media afectos ( antigos da Olivedesportos, como se pode ler nas conversas do tal Vara com o comendador Joaquim, Oliveira dos desportos) mas é mesmo isso que tem que ocorrer: cair o carmo e a trindade deste período negro da nossa história mais contemporânea e que os estudiosos dos livros ainda não perceberam bem.

    Por outro lado o CM de hoje retoma o tema do ridículo da actual ministra da Administração Interna cuja dignidade no cargo é assim caricaturada:



    O povo diz que quem não tem vergonha todo o mundo é seu...

    sexta-feira, 18 de agosto de 2017

    As causas dos incêndios negligentes, segundo o primeiro-ministro...

     RR:

    “É importante que as pessoas saibam quais as zonas de risco para evitar comportamentos de risco, porque muitos deles são adoptados por negligência”, referiu António Costa, dando como exemplo as beatas lançadas para o chão, um churrasco e “até o trabalho com máquinas agrícolas”.

    Acrescento mais uma causa: a inteligência fulgurante deste A. Costa, com projecções à distância. Ou os peidos a que o Salvador Sobral se referiu.

    Salazar e Marcello Caetano sempre presentes no nosso imaginário colectivo

    Na "entrevista de Verão" de ontem, o DN publicou uma conversa com o embaixador e intelectual Marcello Duarte Mathias. É um estrangeirado típico, filho até de uma estrangeira e estudou em Oxford e  Paris.  É diplomata desde o tempo anterior ao 25 de Abril de 1974 e conheceu os antigos presidentes do Conselho, Salazar e Marcello Caetano.

    Sobre os mesmos diz isto:



    É um dos que deveria fazer a análise semiótica dos elementos desta foto:


    Sobre Salazar parece que o jornalista Miguel Pinheiro tem novo livro. Vou procurar e folhear para eventualmente ler e comentar.

    Sobre outro assunto que o embaixador intelectual retoma, o do romance Equador de Miguel Sousa Tavares que foi um sucesso há cerca de dez anos e que o intelectual embaixador recenseou em modo crítico , convém lembrar a polémica a propósito do alegado plágio que foi motivo de processo que condenou um jornalista em modo assaz vergonhoso.

    Há poucas semanas arranjei a edição original do livro Cette nuit la liberté, de Dominique Lapierre e Larry Collins, publicado em França pela Robert Laffont, em 1975.
    Fez  no passado dia 15 de Agosto 70 anos que a Índia se tornou independente do Império Britânico e em 1947 teria sido uma altura ideal para começar igualmente a pensar na independência das nossas então "colónias"... mas o tempo não estava maduro para tal. O "vento da História" não passou por aqui nessa altura. 

    Na altura da polémica sobre o eventual plágio de algumas passagens do livro em causa,  a revista Focus publicou duas páginas comparativas de passagens avulsas de um livro e outro, mas julgo que as originais do livro original afinal terão sido transcritas do inglês.

    Como estas coisas são curiosas e convém lembrar, aqui ficam as páginas da Focus e também do livro original para registo.




    quinta-feira, 17 de agosto de 2017

    Vem tudo ao caso...mesmo a defesa patética

    Este pindérico da patifaria política descarada julga que tem credibilidade suficiente para desmentir o óbvio e resulta já de inúmeros indícios probatórios recolhidos nos processos penais de que foi e é alvo.
    Com estes argumentos de defesa patética, no Público de hoje,  a contrapor ao que já se conhece e ainda vai conhecer, pode ir contando com dez anos à sombra, no mínimo.   Tantos, pelo menos,  como o seu comparsa de mão para a CGD, o BCP, os media, etc etc. Esse já averbou cinco, por conta e que irá ser cumulado juridicamente ao restante.

    Quanto ao principal aproveitador e mentor moral do efeito patifório que nos prejudicou enquanto sociedade por longos anos, pode ir contando com outro tanto. Salgado é o seu apelido.
    Isso porque a Justiça acabará por se fazer  ou muito grande seria a injustiça em caso contrário.


    Tal como Eduardo Dâmaso escreve na Sábado de hoje,  não há memória de patifarias deste género em Portugal e por isso, as pessoas acabarão por perceber o que se passou. E os juízes também, apesar da defesa patética deste salafrário.


    quarta-feira, 16 de agosto de 2017

    Araújo e os intelectuais da paróquia

    O intelectual A. Araújo na entrevista abaixo publicada teceu algumas considerações genéricas e particulares sobre aspectos da nossa vida contemporânea. Uma opinião, mesmo fundamentada ( o que não é o caso de Araújo) é sempre uma opinião, revestida do subjectivismo próprio e por isso relativamente insindicável no âmago do entendimento.

    Porém, há afirmações de Araújo que suscitam reparos por denotarem entendimentos peregrinos cuja origem é desconhecida.

    Quando afirma que o disco de Rui Veloso, Ar de Rock, tem a grande novidade de ser cantado em português, exemplificando assim o paroquialismo, não percebo o paralelismo.
    O disco de Rui Veloso é um dos que se seguiram a outros publicados nos anos sessenta, pela Filarmónica Fraude ou pelos "conjuntos" que vieram depois, como a Banda do Casaco ou ainda o autor Júlio Pereira ou mesmo José Afonso em certos temas ou Fausto ou Sérgio Godinho, todos cantantes na língua materna e que nada tinham de paroquial ou provinciano. Paroquial e provinciano, no bom sentido, era um Artur Garcia ou um António Mourão  que depois deram em Marcos Paulos e outros Antónios Calvários. E o celebrado poeta-barbeiro de Braga, Variações, copiador de estilo Sparks e glitter variado não deixava por isso de o ser também.
     Ar de Rock só é novidade por misturar géneros musicais estrangeiros, como o blues ou o rock n´roll, já abastardado, com palavras ditas em português. Antes disso, o português já tinha sido muito usado no Brasil, por compositores como Rita Lee ou Raul Seixas, no mesmo estilo de adaptação sonora de géneros anglo-saxónicos. E esses brasileiros não eram paroquiais.
    Quando o Salvador Sobral canta em português no festival da Eurovisão segue a tradição de décadas porque normalmente os países cantam nesses festivais na sua língua materna. A novidade de Salvador Sobral não reside nisso mas na habilidade e arte em cantar as palavras e conjugar uma melodia notável numa pequena cançoneta muito bem feita. Tudo menos paroquialismo  porque a música é universal.
    Torna-se por isso pedante citar um tal Sudhir Hazareesing para comprovar um ponto inútil e esta mania das citações é típica destes intelectuais enlivrados em leituras avulsas.

    Depois toma por assente a afirmação do entrevistador de que no tempo de Salazar nunca houve a preocupação com a elevação da cultura nacional".  Elevação da cultura nacional?! Mas o que é isso, exactamente? Elevação para onde e a partir de quê?
    Araújo não explica e cita Eduardo Lourenço ( et pour cause) que teria dito ( se o disse não foi o primeiro nem foi original, porque já Augusto Abelaira o tinha dito na Vida Mundial) que depois de 25 de Abril a produção intelectual e literária estiolou quando havia liberdade para se desabrochar nos entusiasmos proclamados por um Ary dos Santos e outros pândegos.
     A verdade, verdadinha é que os autores que Abril abriu eram medíocres, simplesmente.  Mas havia alguns que o não eram, por exemplo um Alexandre O´Neill ou um Cardoso Pires que já vinham de antes e eram de esquerda liberal. Depois disso, nicles e a culpa não era do Salazar, mas eventualmente da nossa pobreza intelectual de que A. Araújo é agora um exemplo bem concreto.
     Ao dizer que se "produzem muitos livros sobre Salazar, a sua governanta e as criadas, coisas mais de voyeurismo em vez de análises sérias ao regime" está precisamente a situar-se nesse limbo de patetice porque não compreende que a análise de um regime faz-se também pela análise concreta e o entendimento concreto dos actos, pensamentos, palavras e omissões dos seus protagonistas directos. O que era a Dona Maria, enquanto governanta de Salazar, na casa que este ocupava, de função e repartida entre andares que serviam a função pública e outros que estavam reservados à vida privada? Araújo compreende?  Saber que Dona Maria criava galinhas no quintal não é apenas uma anedota ou se se entender como tal,  a atitude será semelhante à do tolo que olha o dedo que aponta a lua...

    O que diriam A. Araújo e outros intelectuais semelhantes desta pequena foto de um pequeno quarto de dormir e do que ela representa?


    A foto foi publicada no O Diabo de ontem, num artigo sobre "os veraneios de Salazar no Forte de Santo António", de Fernando de Castro Brandão e é de um livro do jornalista Miguel Pinheiro.
    Como é que A. Araújo interpretaria o que tem esta foto e o contexto da mesma,  na época dos anos sessenta? Nesta cama dormiu Salazar que ficou neste quarto com um crucifixo a encimar, uma pequena mesa de cabeceira e eventualmente um "bacio" que não se mostra mas que era usual...

    Outra foto a merecer comentário destes intelectuais é esta, do cemitério do Vimieiro, na actualidade. Bastaria que se pronunciassem sobre o estilo das campas, como foram feitas e qual o significado...comparando-as com o magnífico exemplar, ao fundo, da arte contemporânea nos cemitérios. Ou mesmo da lápide encostada à parede, junto à campa de Salazar, já agora.



    Gostava de ler uma análise intelectual deste cenário, mas não terei sorte porque afinal seria um exercício de puro voyeurismo. Felizes aqueles que sabem ver...nos sinais que sendo visíveis estão ocultos a muitos.

    Um sinal desse oculto que não se percepciona é a afirmação já recorrente de A. Araújo no sentido de o regime de Salazar ser intrinsecamente corrupto no tráfico de influências como agora se diz, nas "cunhas, compadrios e colocação em cargos" . Por muito que estudem sinais aparentes só conseguem ver a superfície da realidade que lhes é mostrada e não descobrem mais porque nem sequer procuram.

    Por muito que leiam histórias reais sobre empreendimentos, obras públicas, realizações do tempo de Salazar, conseguem sempre enquadrar tais feitos, num período relativamente curto de 40 anos, num ambiente de corrupção por causa das "cunhas, compadrios e influencias na colocação em cargos".
    Estas pessoas que assim pensam são as mesmas que depois desvalorizam a corrupção autêntica em que se vive, no regime democrático e recusam analisar e comparar tais fenómenos com o que era antes.

    Bastaria ler pequenos apontamentos sobre o que foi a vida pública de Salazar, compilados por alguns dos seus próximos como Franco Nogueira e outros.




    Em jeito de anedota e porque Vasco Pulido Valente anda ausente de lides de escrita no Observador, gostaria de ler um comentário seu à palermice de o citar como usando a palavra "indígenas" com o sentido que Araújo lhe atribui...

    Por outro lado ao dizer que há "dezenas de livros sobre a PIDE, a censura e as torturas" não me parece que o exagero possa justificar-se na hipérbole de estilo. Conheço muito poucos livros sobre a PIDE e duvido que passam a dezena.
    Estes dois foram publicados logo nos meses a seguir ao 25 de Abril de 1974 e são catarses dos protagonistas que estiveram intramuros a expiar crimes de subversão ao regime, ou seja comunistas que fariam aos então fassistas, se tivessem o poder o mesmo que fizeram nos gulags e das prisões da STASI. Alguém duvida desta moralidade dúplice? Então o melhor é falar nisso, também, para se entender a objectividade dessa gente.



    De resto, Araújo repete outra vez a citação de Milton Nascimento sobre "todo o artista tem de ir aonde o povo está" e fica-lhe mal. Porque o que diz sobre Salazar e o seu tempo não inclui o povo que esteve lá, nessa época que Araújo resolutamente não compreende e por isso nem pergunta, apenas afirma.

    Sobre a "nova Direita" que segundo a tese peregrina de Araújo surgiu nas páginas do Independente de Miguel Esteves Cardoso, bastaria dizer que MEC não é de direita alguma e nunca o foi. MEC é um indivíduo que se formou numa cultura urbana e sem raízes de fundo. Com mãe inglesa e pai embarcado formou-se, como suspeito que Araújo se formou, a ler coisas e loisas. Enfim, dá no que dá, esta formação. Saberá o que é um caniço? Ou o que é mondar? E chegou a cheirar alguma vez a bosta das vacas nos currais de antanho que ficavam por baixo dos quartos de dormir dos donos? Conhecer o imaginário rural de antanho é essencial para se entender o povo português que não se reduz aos habitantes das cidades. Conhecer os hábitos e costumes de sempre e de séculos que se desvaneceram em décadas também. Sem isso, chapéu! Podem saber muito bem o percurso do 28 ou do 15 mas não conhecem os trilhos da memória desta pátria.

    Finalmente, embora a entrevista tenha muito mais que se lhe diga: a revista Olá, do jornal Semanário, surgido no início dos anos oitenta ( 1983) é apresentado por Araújo, em obra anterior e agora como o sinal do "renascimento da direita", por mostrar o ambiente social do país que "era impensável no imediato do 25 de Abril, quando as elites tinham fugido para Espanha".  A Olá do Semanário era uma revista que "mimetizava a Hola espanhola".
    Em primeiro lugar a Hola espanhola não era representante ou sinal da "direita". Não era então e não o é hoje em dia. Era sim, representante de um estilo de vida de festas e de burguesia decandente e não só, num ambiente fustigado pelo turismo de várias costas del sol. Como a Espanha ainda é uma monarquia torna-se de algum modo compreensível que apareçam condes e viscondes de lá quando por cá tínhamos a da Asseca e pouco mais. Ou seja, Portugal nunca teve matéria-prima para Holas, nem antes nem depois de 25 de Abril, apesar da dinastia de Bragança ter feito um casamento e arromba, subsidiado de vários modos na época áurea da Olá.

    Porém, afirmar como Araújo o faz que em Portugal era impensável no imediato 25 de Abril ter uma revista de feição socialite é manifestamente exagerado e esquece um fenómeno que apareceu ainda antes de 25 de Abril e continuou por muitos e bons anos: a Gente da editora Sepura, na praça de Alvalade em Lisboa.

    Reduzir a a imprensa "social" à Olá e acantoná-la ao seu aparecimento nos anos oitenta é sinal de pouco estudo da contemporaneidade portuguesa. Um sinal preocupante para quem se doutorou na matéria...
    Esta Gente deu origem, em 1976 à Nova Gente do empresário do social Jacques Rodrigues, fundador de outras publicações pindéricas e destinadas à populaça.

    Esta Gente que aqui se mostra é de 8 de Outubro de 1974 e já ia no 48 número semanal. Ou seja, muito antes de 25 de Abril de 1974 e basta dar uma rápida olhadela aos sítios de venda de coisas usadas para ver fotos de números anteriores que atestam a qualidade pró-Hola da mesma revista que continuou muito depois do 25 de Abril de 1974, até aos dias de hoje em que se multiplicam tais títulos.



     A Gente de Outubro de 1974 acompanhava o ar do tempo e dos nos personagens aparecidos na ribalta política e mediática.

    Começaram a aparecer os Barrosos do clã Soares a que seguiram depois os de outros clãs da nova nomenklatura, os empresários de sucesso no futebol regional, os artistas que estiveram sempre, sempre ao lado do povo a cantar 25 de Abril, sempre, fascismo nunca mais! e outros que tais que não vestiam apenas chita. Do mundo exterior sempre chegaram novidades da socialite, mas com uma explicação necessária: só a partir de meados dos anos setenta se começou  a dar importância mediática e alargada às notícias sobre "celebridades". 



    Quando vejo e leio estas coisas tenho pena do A. Araújo e modero a minha irritação inicial.

    terça-feira, 15 de agosto de 2017

    António Araújo, o intelectual perdido na História contemporânea

    No DN de hoje aparece uma entrevista "de Verão"  a António Araújo, apresentado com credenciais: historiador, crítico literário, responsável pela escolha dos autores da colecção retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos". Araújo também é conselheiro do presidente da República. É "licenciado e mestre em Direito e doutor em História". Publicou já vários livros sobre direito e história contemporânea e um deles mereceu recensão crítica aqui: Da direita à Esquerda-Cultura e sociedade em Portugal, dos anos 80 à actualidade.

    Araújo tem sido alvo de comentários pelo que diz ou escreve, neste blog. Devo confessar que me irrita, o que este indivíduo diz ou escreve. Não devia, mas é assim. A razão para tal é a importância que lhe vão dando como oráculo dos tempos modernos, do mesmo modo que há 40 anos davam a um Eduardo Lourenço e a estirpe intelectual parece-me ser a mesma.
    Enquanto Lourenço é da geração anterior, a do antifassismo militante e relapso, mesmo depois dos anos 50 e 60 e dos fenómenos que ocorreram no Leste europeu que vieram dar razão a Salazar e Caetano depois dele.
    Araújo é da geração seguinte, nascida nos anos sessenta e que não viveu esse período final do século XX como devia ser vivido para se poder contar com toda propriedade. Araújo escreve de cor e por ler muito e não me parece que apreenda uma certa essência da alma de muitos portugueses que viveram nesse tempo e davam o corpo e o manifesto por um regime que permaneceu durante décadas em Portugal, sintonizado com o que era o povo real, analfabeto e inculto e ao mesmo tempo a elite que então se formara para transformar o país. 

    As conversas com Araújo descambam sempre para o lado da análise sociológica e política, com a História contemporânea de permeio. Não sei qual o conhecimento de História de Araújo para poder perorar sobre os assuntos avulsos que retoma nas entrevistas, particularmente sobre o período salazarista e pós-marcelista. Sendo doutorado em História Contemporânea que significa tal coisa? Que leu muitos livros sobre este período que nos afectou a actual existência? E leu o quê? E percebeu o quê? E aprendeu o quê? Quem o examinou no doutoramento certamente lhe deu o summa cum laude, mas...e daí? Quantos doutorados em História Contemporânea temos em Portugal que estudaram o que Araújo estudou, leram o que Araújo leu e foram examinados pelos professores que doutoraram Araújo? Dezenas? Centenas? E um tal Rosas e uma tal Flunser não terão o mesmo género de qualificações académicas e afinal escrevem asneiras como quem debita um rosário de amarguras? E que dizem as teses daqueles todos que parece que nem se publicam como diz agora Araújo na entrevista ao DN de hoje?

    Araújo, publicamente vale pelo que escreve em artigos ou livros que se lêem. Confesso que leio e compro para descobrir algo que nunca li ou uma ideia original que me dê alento para ver se alguém assim tão intelectualizado academicamente mostra algo que seja revelador do que nós, enquanto povo deste rectângulo, somos e principalmente fomos, o que me parece ser a tarefa fundamental de um historiador.
    Em tudo o que Araújo escreveu a propósito e que tenha lido, até hoje, não descortino nada de novo, nada de revelador e pelo contrário leio o que me parecem aleivosias e opiniões idiossincráticas com que não simpatizo por me parecerem enviezadas pela insuficiência analítica e distorção da inteligência.

    Esta entrevista que fica e que mais tarde comentarei, continua nessa linha, com algumas observações que me merecem reparo que farei mais tarde.

    Araújo parece-me uma síntese de Eduardo Lourenço e Eduarda Dionísio dos tempos da modernidade, do pós-esquerdismo militante. Um desperdício.



    segunda-feira, 14 de agosto de 2017

    Os sérios e os sérios que não o são, a sério

    Isaltino Morais sobre Marques Mendes...no Observador:

    Passados todos estes anos, fala de Mendes com desdém.
    Um político é muito mais escrutinado, sim. Quando são, porque às vezes há uns que passam pela chuva.
    Quem é que acha que passa? No seu livro fala de Marques Mendes como um “facilitador de negócios”.
    Pois, exactamente.
    Acha que devia ser investigado?
    Que o investiguem como me investigaram a mim.
    Porque é que diz isso assim?
    Os jornais noticiaram como ele enriqueceu muito rapidamente, com negócios das eólicas e não sei quê. É o que dizem, é o que vinha nos jornais também. Nunca foi averiguado isso. Mas o Marques Mendes para mim já não existe, é um comentador político, é deixá-lo fazer os comentários.
    Incomoda-o ainda quando fala de si?
    Não me incomoda nada, às vezes até o oiço. Digo-lhe uma coisa, às vezes até dou comigo a pensar: Isaltino, tu estás a concordar com este gajo, pá. Quando uma pessoa fala de muita coisa, claro que diz disparates. Mas veja bem, eu não sou um tipo sectário, há muitos comentários que o Marques Mendes faz que eu até estou de acordo. Na maior parte não passa de banalidades, mas ele está lá todos os domingos tem de fazer o papel dele, não é? Mas há coisas em que estou de acordo e às vezes até digo: Isaltino não devias concordar com esse tipo, pá.

    Retratos de uma aldeia do Alto-Minho nos anos de Salazar e Caetano



    Esta foto foi tirada na tarde do dia 15 de Agosto de 1970, um Sábado,  também dia feriado religioso, numa freguesia do Alto Minho, aquela em que nasci e conheço bem.
    Retrata o momento da entrada de um novo pároco na freguesia, após a saída do anterior que aí estivera durante alguns anos. A freguesia,  por causa de um pequeno cenóbio beneditino, existente alguns séculos antes e transformado depois em pequena casa senhorial, tinha um “abade” que era assim a designação do pároco. O “senhor abade”.
    Uma análise semiótica ao que se vê como sinal, na foto,  permitirá entender melhor o que foi o nosso tempo no final dos anos sessenta do século que passou, já em plena fase do marcelismo e ainda com guerra no Ultramar acesa.
    Alguns dos seus habitantes jovens estavam na altura  a incorporar as fileiras das forças armadas, nesse Ultramar distante e que era depois contado pelos que vinham da guerra de guerrilha, com os pormenores da realidade vivida por eles e sem censura.
    Não me lembro de ter ouvido de um único a expressão “guerra colonial” ou sequer a caracterização política do fenómeno como acontece de há cerca de 43 anos a esta parte e que surgiu da linguagem comunista e socialista que pegou de estaca em 1974 e antes não existia no léxico corrente.
    A guerra aceitava-se como um sacrifício quase natural e decorrente das obrigações cívicas dos jovens que para lá partiam. Quem não queria, fugia para França e houve alguns que o fizeram, mas nunca por motivos políticos.
    O povo que se vê na foto são os habitantes da aldeia que na altura teria cerca de dois milhares, pelo que estavam  ali em peso Além do mais era Sábado, de tarde e feriado religioso e não se trabalhava no campo como nos outros dias da semana, se fosse preciso, como era, estar presente num evento desta natureza. 

    Atrás está um "monte" que era o de Santo Amaro, muito verdejante e pejado de pinheiros e que nesta época era palco de um incêndio ou outro, aliás muito raros e que eram apagados, sempre antes de os bombeiros chegarem, quando chegavam, pela população local que acorria sempre que se ouvia o "sino a rebate".  As pessoas até sentiam chieira de apagarem o fogo antes dos bombeiros chegarem...
     Só nos tempos da "democracia" os fogos no local atingiram proporções dramáticas e que consumiram mais hectares que em todo o tempo do regime anterior...

    As pessoas que se vêem na foto estão vestidas do modo como iam à missa: roupa de Domingo, gravata para os homens, lenço na cabeça para as mulheres- que era assim que iam à missa.  Roupas escuras e a denotar viuvez, em alguns casos.
    Primeiro sinal: não há jovens adolescentes, rapazes,  na foto. Há algumas raparigas, poucas, mas rapazes não. Onde estavam os rapazes, nesse dia 15 de Agosto de 1970? Algures, eventualmente no rio, a dois quilómetros dali, porque era Verão embora esse dia não estivesse particularmente quente.  Mas se não estivessem no rio também não seria provável que ali aparecessem e ninguém achava estranho porque a adolescência é mesmo assim.
    Mas há muitos putos, à frente do cortejo, como era costume. Todos vestidos com roupa “de Domingo”, com excepção de um ou outro, por motivos que adiante se explicarão. Todos alegres e activos como é próprio da idade e representativos dos extractos sociais da localidade, aliás bastante homogéneos. Não havia ricos ou “senhores” cujo modus vivendi se distinguisse em modo assinalável dos demais habitantes.
    Havia sim, alguns pequenos proprietários que ostentavam esse título profissional e que também se representam na foto, mas a homogeneidade do extracto social era comum a todos: nascidos no campo que era a aldeia, trabalhadores no campo, um ou outro nas fábricas ou pequenas empresas locais, em diversos patamares profissionais. Uns eram “artistas”, procurados para os acabamentos das casas; outros eram encarregados ou feitores dos proprietários locais, uma meia dúzia, se tanto. Havia os merceeiros, dois ou três; o pequeno construtor civil local que não se distinguia dos restantes trabalhadores a seu cargo a não ser pela maior mobilidade, com a “carrinha” que era também  o seu automóvel e os restantes trabalhadores das pequenas obras de construção civil .
    A maioria dos habitantes tinha as suas pequenas courelas, adjacentes ao quintal ou espalhadas pela freguesia e que permitiam a economia doméstica de subsistência básica, com pouco excedente e mesmo assim alguma poupança para as horas difíceis de alguma desgraça ou doença, porque não havia assistência social com rendimento mínimo garantido. O trabalho, no campo ou nas pequenas empresas, era o valor primordial para ter algum rendimento. Alguns, poucos, sem courelas, trabalhavam para outros, “ao jornal”, para ganhar a subsistência de si e dos filhos que por vezes eram muitos.
    Os animais, vacas, porcos, coelhos, galinhas, etc. eram a fonte de sustento imediato e permanente da maioria.
    As vacas mantinham-se para ajudar nas tarefas dos campos, com carroças de madeira, já com rodas de ferro forjado e que permitiam carregar as ervas, os milhos, as palhas, o estrume, as cargas mais pesadas dos pipos de vinho na altura dele. As carroças do gado eram um instrumento essencial para desenvolver o amanho das terras, com a ajuda dos animais e quase toda a gente que tinha terras e animais também tinha uma carroça ou carro de bois. Onde se compravam esses apetrechos, fabricados por artesãos regionais? Nas feiras semanais numa localidade situada a meia dúzia de quilómetros que se faziam a pé, para lá ir mercar.
    O trabalho nos campos carecia de horário alargado: de sol a sol, geralmente. E por vezes pela noite dentro, em desfolhadas, por exemplo, no tempo delas, para o fim do Verão e antes das vindimas. Toda a gente que tinha campos tinha vinhas e em Janeiro-Fevereiro podava-as e sulfatava-as,  para ter vinho novo no Outono. As vides da poda guardavam-se em molhos para queimar na lareira e também se queimavam nas fogueiras do S. João, no calor de Junho.
     O leite que as vacas davam servia para consumo caseiro e para vender, existindo um posto público de recolha desse leite que as raparigas novas ( não eram os rapazes que faziam tal tarefa)  transportavam à cabeça ou em canecos mais pequenos, ao fim do dia, para alimentar as fábricas de laticínios regionais ( Póvoa ou Ponte de Lima). Havia um camião dos lacticínios, organizados em cooperativas que recolhia diariamente as barricas de leite, feitas de metal branco de alumínio e que soavam quando se entrechocavam no camião que as transportava, sinalizando a passagem do veículo.
    A tarefa do encarregado do posto do leite era a de assegurar a medida e as condições de sanidade do produto, por visão directa, rejeitando o que não lhe parecia prestar.
    O resto servia para o queijo Limiano e para o das Marinhas, cuja manteiga ainda hoje é das melhores do mundo.
    Os trabalhos no campo giravam sempre à volta dessa actividade que envolvia os animais e o ciclo da sua alimentação e retorno que provocavam ao proprietário quando se vendiam as crias ou  o leite.
    Tal implicava a existência de cortes para os animais, de “astro” ou seja cama de tojo que era preciso recolher nos campos e montes e por isso os mesmos eram limpos dos matos, o que além do mais evitava os incêndios.
    Na foto vê-se um monte ao fundo e por vezes ardia, no Verão. Mas era fogo de pouca dura por um motivo simples: as pessoas acorriam logo que viam fumo. Logo era mesmo isso, deixavam tudo e iam acorrer, havendo situações em que se tocava o sino “ a rebate” quando um incêndio ameaçava tomar maiores proporções.
    Não me lembro de na infância assistir a um incêndio que demorasse mais de uma hora a ser extinto. Lembro-me de uma vez começar um fogo numa casa vizinha e após os gritos de socorro da habitante os vizinhos acorrerem em bloco com cântaros de água tirada do poço e extinguir o incêndio antes de os bombeiros chegarem, o que aliás era usual.   
    Ninguém se queixava particularmente da dureza da vida, para além do que todos sentiam: era preciso trabalhar e havia sempre trabalho para quem precisava ou queria.
    Na análise pormenorizada de algumas pessoas da foto nota-se o seguinte:


    Com o número 1 está a figura do padre que entra de novo na paróquia. Ainda na casa dos vinte anos, vindo de outra paróquia em concelho distante,  foi acolhido pela população em peso, como se pode ver na foto, no largo principal da aldeia, junto a uma capela cuja torre se vê na foto, ao fundo. No mesmo plano nota-se um “coreto” que servia para albergar a banda de música nos dias da festa anual, no Domingo de pascoela. Esse coreto, a par de outro, no outro lado do adro, foi construído em cimento para substituir os de madeira, amovíveis e montados todos os anos, com grande esforço das comissões de festa, donativos locais e mão de obra também da terra.
    Com o nº2 está o presidente da Junta de freguesia, por acaso meu pai, com o meu avô, logo atrás ( nº6) . E porque é que a Junta de freguesia se associava oficialmente a este evento? Porque nem se pensava que tal não fosse assim, como aliás continua a ser nos dias de hoje, embora com maior distância jacobina.
      
    O presidente da Junta foi aliás quem arranjou modo de construir a via em que todos passam. O caminho anterior, de ligação daquela parte da freguesia à Igreja principal, fazia-se em lugar apertado por campos de proprietários que tinham possibilidade de deixar crescer as vinhas por cima dele, fazendo copa e sombra no Verão, mas como era também passado por aqueduto de águas livres da chuva de Inverno, tornava-se intransitável sempre que chovia demais. Por isso a necessidade em abrir novo caminho cuja construção foi igualmente participada pelo povo local, assim, na foto de 1965:

    Nesta foto está o presidente da Junta ( o mesmo) com “fato de trabalho”, o pároco anterior ( com óculos e de quase perfil) e o responsável da Câmara ( atrás do presidente da Junta) . A olhar para nós, na foto está o Luciano, um ano mais velho que eu e que já morreu, há uns anos, de cirrose ou doença hepática.
    O Luciano era filho de pais pobres, muito pobres e com vários filhos que emigraram para França nos anos sessenta, precisamente a época da foto. Na escola não era barra e começou a trabalhar nas obras muito cedo. Basta olhar para ele e adivinhar dificuldades de vida diária, na família ( pai que gostava de beber) e mãe que trabalhava de vez em quando porque tinha mais que fazer. O cabelo era cortado em casa, certamente, com o método artesanal da tijela.
    O Luciano excedia numa coisa: a jogar à lerpa ou a desenrascar-se no trabalho. E nessa ocupação dominical, nas tardes junto ao coreto e escondidos das autoridades que pudessem passar ( e passavam se desconfiassem que aí se jogava a dinheiro...) o Luciano era dos ganhadores. Habituei-me a observar o Luciano e outros como ele, com esperteza suficiente que ultrapassava a inteligência necessária e uma vez arrisquei as cinco coroas ( moeda de 2$50) que o meu pai me dava para gastar no Domingo ( e provavelmente durante a semana, em gastos supérfluos). Joguei e...perdi. E perdi outra vez. A lição foi proveitosa porque nunca mais me tentei por jogos de sorte e azar. Fiquei vacinado com essas experiência. 
     
    A máquina era da Câmara e a mão de obra, toda, exclusivamente do povo local, como mostram estas fotos do mesmo evento:


    Será caso para repetir o slogan esquerdista , “se isto não é o povo, onde é que está o povo?” …

    O nº3 na foto é o sacristão que o foi durante décadas. Figura importante na paróquia, encarregado de preparar as alfaias religiosas, ajudar à missa, antes da introdução dos acólitos ( fruto da renovação do Vaticano II) , recolher as dádivas dos fiéis, nas missas, tocar o sino nas diversas circunstâncias dos dias, lançar os foguetes nos dias de festa, pregoar nos leilões ( precisamente no dia da festa que se iria celebrar no dia seguinte. 16 de Agosto), etc.
    A foto nº4 está relacionada com esse dia porque  é de um seminarista quase a ordenar-se padre, autor das fotos sobre a “obra da estrada da Igreja” acima mostradas e que iria proferir o sermão da “Missa de festa” naquele dia, a convite do novo pároco.
    Esse seminarista era filho da figura com o nº11, um pequeno lavrador local que vivia do que a terra produzia, os animais que tinha, o vinho que guardava e  a economia assim gerada. Já o pai era assim e os filhos deixaram de o ser porque dos três que tinha, só a filha continuou a tradição. Esta, na adolescência, estourou inadvertidamente uma bomba de foguete sem rebentar que trouxe para casa e ficou sem uma mão. Tal não a impediu de fazer as tarefas diárias, até hoje.
    Com o nº 13 e quase encoberta está a figura da professora primária local, uma senhora que sendo já cinquentenária tinha vindo de longe quando foi colocada na freguesia nessa função, ainda nos anos cinquenta e que fora professora sucessiva de várias gerações. Casada com um funcionário superior dos caminhos de ferro era “ a Professora”, não podendo faltar ao acontecimento.
    Com os nºs 5, 8 e 10 estão figuradas três pessoas da aldeia, típicas: um indivíduo solteirão, lavrador quase abastado, quase analfabeto, de famílias antigas da freguesia e com peso representativo pela posição social ocupada.  Vivia em casa de família com mais duas irmãs, também solteiras e a história da família poderia ser um compêndio do Portugal rural desse tempo, nestas terras do Norte. Pena que ninguém a faça…
    A que tem o número 8 é uma viúva, tal como a que se lhe segue imediatamente atrás. Vestidas de preto e de extracção familiar pobre, não se sentiam diminuídas pela circunstância. A que segue atrás tinha a família emigrada em França. Na aldeia trabalhavam nos campos dos outros, como jornaleiras.
    Uma das netas casou com o rapaz que tem o nº12 e que também aparece na foto seguinte, com as mãos nos bolsos. Era um aluno inteligente, estudou um pouco, até seguir para França onde os pais já se encontravam também, desde os anos sessenta a trabalhar na construção civil e seguindo as pisadas dos mesmos, chegou a gerente de grande firma de construção até ser abatido por um cancro há alguns anos. Era o “Tone redranga”, um ano mais novo que eu.
    Com o nº 10, uma "mãe solteira", já com uma neta ao colo e  que teve dois filhos, de vizinhos, casados e que apesar de se saber tal, nunca foi motivo de  discriminação social ou de comentário público aberto depreciativo. A censura de costumes era essa: sabia-se do assunto mas quem sabia não propalava sem necessidade de tal. Os filhos eram de "pai incógnito" que eventualmente ajudaria, pouco claro e consoante as posses, a criar os filhos bastardos. E o equilíbrio social fazia-se desse modo discreto e com aceitação de harmonia de séculos de costumes.Havia na aldeia alguns casos destes, muito poucos, mas todos integrados desse modo.
    Com o nº7 aparece outro rapaz que tinha a alcunha de “pitomorréu” devido à pronúncia característica dos pais que apareceram na aldeia, pouco tempo antes, vindos de outra mais distante e cuja pronúncia das palavras contrastava com a local. Um dia, a mãe, vendo um pinto pequeno de asa caída e quase a entregar as penas ao criador perguntou ao marido “ Ó Jé, o pito morreu?” , e como a conversa foi escutada por vizinhos que estranhavam a pronúncia “estrangeira” a alcunha pegou de estaca, logo que contada a história na mercearia local.
    O filho do “pitomorréu” era pobre, filho de pobres, alcoólicos como alguns da aldeia e como se vê, ia descalço, ao contrário dos demais. Apesar disso, a dignidade que tinha como indivíduo não era menor às dos demais, porque os valores então, eram outros que não exactamente os de agora. Não era só a pobreza ou riqueza, mesmo relativa que impulsionava as opções políticas e as ideias sociais, como agora acontece com as ideias de esquerda fundamentais e de "luta de classes". Era outra coisa que também abarcava isso mas de modo mais sincrético e completo.

    São esses valores, intrincados e imbricados em todas estas circunstâncias locais e de educação, com as instituições referidas, as personagens elencadas e as idiossincrasias próprias da época que se tornam imprescindíveis entender para que a História se faça de modo correcto e não por um prisma apenas politicamente correcto.
    O que falha actualmente quando se escreve sobre o tempo do Estado Novo ou até mesmo o que se lhe seguiu como é aquele retratado nas fotos é essa compreensão clara de todos esses fenómenos.
    Quem viveu sempre nas cidades ou apenas conhece as aldeias de cor não poderá apreender todos os cambiantes culturais e sociais que determinam essa História e ajudam a compreender a sociedade portuguesa desse tempo.
    Quem viveu ou conheceu apenas o Sul não poderá ajuizar o Norte do mesmo modo, sem conhecer tudo isso.
    Sempre que leio alguma coisa agora publicada sobre o tempo do Estado Novo ou do antigo regime lembro-me sempre disto e de como é impossível escrever sobre esse tempo, desligando-o destes fenómenos e principalmente sem ter a noção sequer da sua compreensão obrigatória.
    É por isso que escrever sobre esses assuntos não é para todos, parecendo-me que aqueles que têm escrito e são o gotha da nossa intelectualidade lusa têm falta desses requisitos mínimos para tal e por isso escrevem burricadas e obras de ficção sobre a História que tentam narrar.
    Ler o que escrevem assemelha-se muitas vezes a um relato de sociedade sub-tropical efectuado por um nórdico das tundras: só apreende as aparências e interpreta os sinais com um código errado.  Logo, torna-se desprezível como documento de realidade histórica. 

    Por último e com o nº9 o fotógrafo da aldeia vizinha que aparecia sempre a documentar estes acontecimentos festivos, As fotografias que tirava eram reveladas do modo antigo, em papel que perdurava décadas. Havia dois fotógrafos para estes eventos e eram ambos pobres, amadores e andavam de bicicleta. O que tirou a foto é um deles; o outro é o retratado que traz a máquina ao colo para depois tirar os retratos individuais a quem o solicitasse. 
    As fotos de ambos mostram mais que muitos livros escritos pelos Rosas&Flunser...e eram quase analfabetos.