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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Fora o árbitro!

O Jornal de Notícias, já o escrevi, é o melhor jornal nacional a "dar" notícias. Tirando o naipe de komentadores que poderia dispensar na totalidade e o director que poderia ir dar uma volta ao bilhar grande, tem um grupo de jornalistas que só honra a profissão. Melhor que o Correio da Manhã.

A prova está hoje no jornal com três páginas assinadas por Nelson Morais e dedicadas a um assunto obscuro e típico da advocacia que temos em Portugal: a dos pareceres e arbitragens em que existe sempre um denominador comum: dinheiro público, aos milhões, em jogo. A alma deste negócio é sempre o mesmo: o segredo completo, maior que o de Justiça, mesmo sendo assunto da justiça.
Um dos reis desta advocacia é José Miguel Júdice  e o JN conta uma história assim:


O caso da Falagueira que nunca chegou a ser é apenas um entre muitos e a curiosidade deste tipo de casos é redundante: porque razão aparece Júdice e não aparece um qualquer Silva&Costa ou Costa&Silva, imaginárias parcerias de advocacia?  Esse é que é o segredo que nem o JN consegue desvendar porque é um tabu tão denso que se fosse possível lá chegar haveria uma pequena revolução em Portugal. Para melhor...

Resta dizer algo que já disse: Júdice, em entrevistas é sempre muito meticuloso em afirmar que a coisa que mais detesta é a corrupção. Acredito. Piamente. O indivíduo é um paladino, nesta área de luta.

domingo, 29 de janeiro de 2017

A História contemporânea em três penadas sobre um Homem de estadão



Tirando as fantasias de Spínola, havia em 26 de Abril de 1974 três forças políticas: o Partido Comunista (que tinha um programa), o MFA (que estava armado) e Mário Soares, que a Europa conhecia e estimava. No I Governo Provisório, Soares foi ministro dos Negócios Estrangeiros, com o encargo de “negociar” a descolonização (na balbúrdia dos tempos a trapalhada era quase uma regra). Muita gente o criticou depois, sem perceber que nenhuma “negociação” era possível quando o exército se insurreccionara precisamente para sair de África. Ficava a Soares, pela ausência de outro qualquer aliado, o trabalho de estabelecer uma democracia contra a vontade do PC e do MFA.

Vasco Pulido Valente, em três penadas resume  assim a nossa História contemporânea de um pouco mais de 40 anos.
Portanto, em “26 de Abril de 1974” ( que poderia ser 26 de Maio ou Junho do mesmo ano) havia três forças políticas e o resto eram fantasias, incluindo naturalmente as de Spínola.
Estas fantasias de Spínola,  VPV não as explica nestas três penadas mas já explicou noutras três penadas mais antigas, em artigo no Diário de Notícias, de 2004, por ocasião da efeméride redonda e que está reunido em livro de “Ensaios” de 2009, da Aletheia.
Nessas fantasias se insere a ideia de Spínola ser uma espécie de mentecapto parolo, “megalómano e autoritário, e, além disso, ignorante” que ainda acreditava no menino jesus relativamente à África portuguesa.  A ideia básica nessas penadas é essa. E por isso mesmo, a tentativa de Spínola “domar” o MFA à sua vontade expressa, em restituir uma democracia verdadeira a Portugal é entendida como “uma fantasia”. Curioso…
Por outro lado, VPV arruma nessas três penadas, mais as três antigas, tudo o que ressumava a “conservadorismo” que Spínola obviamente representava e que não se revia no antigo regime, tornado diabólico, fascista e tudo quanto a Esquerda comunista resolveu adoptar como designação pejorativa, com o aplauso de VPV e outros idiotas úteis nesta matéria. Nunca denunciaram tal manobra, adoptaram a linguagem reinventada para o efeito e assimilaram os conceitos novos sobre uma democracia que se apresentava ex novo  como VPV a define: MFA, PCP e Mário Soares. E é tudo.

Essas “fantasias de Spínola”, porém,  integravam uma multidão  de uma imensa maioria silenciosa, ou seja o povo português de uma raiz antiga que não comungava à Esquerda,  não se confessava jacobino nem aplaudia heróis de fancaria revolucionária e que  de repente, literalmente da noite de 28 de Setembro de 1974 para o dia seguinte, se tornou reaccionário, obscurantista, fascista e até nazi se preciso fora. VPV aplaudiu o fenómeno, mais retumbante que as aparições de Fátima.

Spínola escreveu sobre essas fantasias num livro de 1978, que ninguém leu, nem quer ler, para se contar a História sem ser em três penadas- País sem Rumo:


Portanto, a democracia portuguesa “instaurada” em 25 de Abril de 1974 pelo MFA ( o Exército, fundamentalmente, em golpe de mão que revolveu o regime exangue de Marcello Caetano) era integrada, segundo VPV, pelo MFA “que estava armado”, pelo PCP que “tinha um programa” e por Mário Soares que era conhecido lá fora, na Europa então socialista das  suécias e das alemanhas e só. Uma Europa reduzida a uma expressão mínima cujos líderes se estavam realmente nas tintas para o dito Soares. A França não era incondicional de Soares, nem a Espanha, nem sequer a Inglaterra ou porventura uma Alemanha que acabou a dar-lhe esmolas. Alguns líderes trabalhistas, esforçados e que acabaram no poder dali a alguns anos poderiam ser, mas era tudo e era muito pouco.
Tal definição de “democracia” é muito curiosa e suscita logo observações de vulto: a democracia, burguesa, afinal não deveria ser um sistema em que as eleições, com voto secreto fossem norma, com liberdade de expressão, economia de mercado e multipartidarismo?
O que faltava em 26 de Abril de 1974 para tal noção se tornar realidade? É óbvio e faísca como o raio que precede o trovão ribombante: faltava quem representasse, nessa novel democracia, as “fantasias de Spínola”, ou seja, o povo conservador que acreditava nas fantasias de Marcello Caetano, por exemplo,  que englobavam um sentido de Estado que se perdeu, eventualmente para sempre. E eram muitas pessoas, muita gente,  como se pode ver  nesta imagem de 27 de Julho de 1973 na revista Observador ( não se encontra este tipo de imagens em lado nenhum, na imprensa portuguesa actual. Marcello Caetano nunca existiu). As imagens mostram claramente o que as fantasias de Spínola ainda conservavam mas que denotam uma reacção às fantasias de Mário Soares, em Londres, nesse ano:   



Portanto, a democracia portuguesa de que um homem de estadão ( ostentador e pomposo) e não de Estado se arvorou como constituinte originário, nasceu coxa, deficitária, amputada numa componente essencial: a representatividade do povo português no seu todo.
Nunca ninguém se incomodou com isso e muito menos VPV nos seus escritos em três penadas.
Mas a realidade é o que é: a democracia portuguesa foi e continua a ser um logro que aliás explica tudo o resto, das três bancarrotas à actual geringonça, termo crismado aliás pelo mesmo VPV.

A democracia portuguesa que surgiu em 26 de Abril de 1974 foi uma democracia de Esquerda, essencialmente. Falta-lhe para se poder afirmar com toda a legitimidade, a componente de Direita, conservadora que nunca apareceu à luz do dia por força de outro fenómeno que nunca preocupou a jacobinice ambiente: proibiram-na de se reunir ou associar, chamando-a nazi ou fascista. E essa designação por palavras simples colheu o consentimento da jacobinice e naturalmente de toda a Esquerda que se impôs na Constituição de 1976.Tudo o que poderia classificar-se à direita do partido de direito, o CDS que curiosamente se reclamava de centro, era fascista e portanto proibido constitucionalmente de se exprimir. É esta, ainda, a democracia que temos e desafio quem quer que seja a demonstrar o contrário.
As tentativas pífias, ainda em 1974, de tal Direita se afirmar esbarrou  no muro de intolerância democrática destes novos senhores de uma democracia nascente e anquilosada mas que vingou, muito por causa do homem de Estadão, considerado o pai desta proto-geringonça.

 Assim, sobre Mário Soares, também VPV já se pronunciou nas mesmas três penadas de 2004. Essencialmente, “em toda a esquerda que se opunha ao regime mas se recusava ser subordinada ou absorvida pelo PC, só ele percebeu que não existia independência possível sem apoio internacional, como sem apoio internacional não existiriam instituições democráticas”. 
Foi mesmo assim?
Então o papel dos outros partidos mais ao centro e da social-democracia foi nulo? Os 34 % do PSD e CDS ( “rigorosamente ao centro”, com aliás se confirmou nos anos vindouros, até agora) nas primeiras eleições “livres” para a Constituinte, em 25 de Abril de 1975, contam afinal como zero nesta equação? Só valem os 38% do PS de Mário Soares que em anos seguintes aliás  se mirraram e deram maiorias absolutas àqueles sociais-democratas rigorosamente ao centro?

Enfim retomemos outra passagem do escrito das três penadas: a da descolonização em que Mário Soares e o seu Sombra, Almeida Santos e outros ( Vasco Vieira de Almeida) assumiram papel relevante e determinante.

O estribilho corrente é sempre o mesmo: Soares nada podia fazer perante umas Forças Armadas desmotivadas e derrotadas psicologicamente e afinal segundo VPV “ O MFA nascera para impor o abandono imediato de África”.
Em primeiro lugar isto parece falso. O MFA nasceu como uma reivindicação corporativa, inicialmente. Se escolheram Spínola, o das “fantasias” como líder e depois como primeiro presidente da República, não eleito mas aclamado popularmente como Marcello Caetano o tinha sido no ano anterior, tal significa que não foi para tal efeito que o MFA nasceu. Aliás é contraditório afirmar tal coisa e dizer a propósito do 25 de Abril que nasceu porque o Exército não queria continuar a guerra.
É coisa muito diferente dizer que o Exército e por antonomásia a maioria do povo português estava farto da guerra do Ultramar e afirmar depois que o MFA se constituiu para entregar de mão beijada e imediatamente o poder aos antigos terroristas.
Tal efeito surgiu sim, mas por causa da esquerda comunista E também de Mário Soares e isso é preciso que se fixe como uma verdade histórica indesmentível.
As entrevistas que Mário Soares deu em Junho e Agosto de 1974, nomeadamente à Newsweek e Der Spiegel,  mostram claramente isso e se preciso fora existe a circunstância história de um “pacto” firmado antes de 25 de Abril de 1974, entre o PCP e o recém-formado PS, em Paris e com Mário Soares, o sentido de outorgar a independência a essas nossas antigas províncias ultramarinas.
A questão principal e que definiria um Homem de Estado e não de estadão como Soares sempre foi, seria esta: entregar,  como? Deixar à sua sorte as centenas de milhar de portugueses que lá estavam? Abandonar tudo o que tinha sido efectivamente nosso, em matéria de propriedade?  É esta a questão a que Mário Soares respondeu na altura: sim.
E isso é um pecado mortal para um Homem de Estado.
Nem De Gaulle, nem Churchill ou o reino belga fizeram tal coisa como os ingleses também nunca fizeram. Mário Soares fez, em nome de uma ideologia, apenas. E essa ideologia era a Esquerda, comunista e socialista. Fosse democrática, mesmo amputada como a existente ou outra, a do PCP que é “avançada”.

O que Mário Soares deveria fazer se fosse um Homem de Estado e português de gema ( que nunca pareceu ser) era impor-se, como se impôs na Frente Luminosa, ao PCP e extrema-esquerda,  nessa matéria.
Impor-se significaria dar voz e atenção “às fantasias de Spínola” e rejeitar o processo revolucionário que depressa entrou em curso. Mário Soares só acordou para tal perigo quando lhe foram aos cabedais, no República. Só aí percebeu o que estava em causa e nessa altura já não tinha força alguma para se impor ao que quer que fosse.
Tinha rejeitado as “fantasias de Spínola” e também de Sá Carneiro e perdeu essa oportunidade de ouro na História de Portugal para se tornar um Homem de Estado. Hoje seria reconhecido como efectivamente um Homem de Estado. Assim transformou-se num Homem de Estadão, adepto da pompa e circunstância do seu ego que impôs aos portugueses que votam, por falta de alternativas de Esquerda democrática.
Foi presidente da República, em 1986 apenas porque a esquerda comunista votou nele, numa manobra táctica para impedir uma cripto-direita mirífica e social-democrata de se impor no país, como acontecia na maioria dos países europeus. Tal resultado foi a machadada final na democracia inclusiva porque assinalou o desaparecimento da Direita que fora uma fantasia de Spínola. Desde então surgiu outra raça que se reproduziu como coelhos: os tartufos como basílios, freitas, júdices e quejandos.
A nossa bela democracia é isto, hoje em dia e por vicejou esta Geringonça que mais ninguém tem na Europa. Linda democracia!

O PC não queria impor aqui o “socialismo real” da Europa de Leste, que os russos não podiam sustentar. Como Cunhal se fartou de explicar, só queria uma “democracia de tipo diferente”, um conceito muito falado na guerra civil de Espanha e agora tirado do ferro-velho da seita. Em que consistia essa antiga monstruosidade? No meio da retórica do costume, consistia em fazer o Estado tomar conta dos “commanding heights” da economia (a energia – incluindo o petróleo – a banca, as seguradoras, a indústria pesada e as grandes propriedades fundiárias do sul). Ao resto de Portugal, o PC dava licença de ir à sua vidinha, com os sindicatos submetidos à CGTP e a administração central e local ocupada por militantes e por “amigos com provas”.

O bom povo compreendeu que este magnífico plano o levaria rapidamente à miséria e uma larga parte dos militares, duramente analfabetos, acharam que na sociedade do dr. Cunhal ficariam ao abrigo de qualquer represália, excepto evidentemente das represálias que o dr. Cunhal lhes resolvesse aplicar por desobediência ou “desvio” político. O problema do dr. Soares era instilar um pouco de bom senso e realismo em algumas cabeças do MFA; e ir resistindo ao assalto do PC ao Estado e às “culminâncias” da economia, uma benemérita actividade a que a “inteligência indígena” prestou os seus zelosos serviços.

Posto isto, o PS precisava também de reforçar a sua organização e de se estender a todo o país. Em 1974, o partido não ia além de algumas venerandas figuras da I República, de alguma Maçonaria e de cinco ou seis dúzias de drs., espalhados pelo Porto e por Lisboa. A geração da crise académica rejeitou quase completamente o que lhe parecia ser um instrumento do “sub-imperialismo” alemão. Não achava o PS “revolucionário” que lhe chegasse e fundou o MES (uma sombra do MIR chileno) e, quando o MES se desfez numa inqualificável loucura, os mais sensatos (11 ou 12, se isso) passaram a almoçar juntos num hotel de Lisboa, sob a designação de GIS (ou Grupo de Intervenção Socialista). Escusado será dizer que não intervieram em nada de consequente.

Mas, mesmo sem eles, Soares conseguiu suster ou moderar os golpes — porque eram verdadeiros golpes, preparados na sombra e executados à revelia dos poderes nominalmente legais — do PC e do MFA. Durante meses pôs na rua manifestações cada vez maiores de um povo que, ao contrário do “slogan”, se começava a desunir. Quando uma greve de tipógrafos (não de jornalistas) fechou o jornal socialista “A República”, Portugal e a Europa compreenderam de uma vez quem eram o MFA e o dr. Cunhal.

E o dr. Cunhal e o MFA ficaram mais longe de resolver o seu grande problema: a eleição para a Constituinte. Prometida pelo programa original dos militares, sinal para o mundo da boa fé dos “revolucionários” do dia essa eleição tinha de se fazer e, simultaneamente, não se podia fazer. Se por acaso se fizesse, ganhava Soares e todo o plano de Cunhal e dos seus camaradas do MFA iria abaixo. E se por acaso não se fizesse a ilegitimidade do PREC (como na altura sentimentalmente se chamava ao delírio da esquerda) não deixaria a mais leve dúvida a ninguém. Felizmente uma parte do MFA, que se recusava a ser o braço forte da repressão comunista e a receber ordens do PC, insistiu na eleição e calou a facção mais excitada do exército. Em Abril de 1975, o povo desunido votou: à volta de 38 por cento em Soares e à volta de 12 por cento no PC.
Mas nem perante esta arrasadora evidência a “festa” terminou. À boa maneira leninista, a televisão e a imprensa insultavam e caricaturavam a Assembleia, houve cercos de operários indignados por causa dos representantes do país se atreverem a discutir os problemas do país, Cunhal garantia a uma senhora italiana (muito célebre nessa altura) que em Portugal nunca haveria uma “democracia burguesa”. A “inteligência” de cá desceu a abismos de indignidade a que raramente alguém desceu e a seguir andou anos a comprar do seu bolso os seus próprios livros, com o fim de purificar o mercado e de aparecer limpinha ao dr. Mário Soares.
A atmosfera de medo e de intimidação não parou com as eleições de 75. As manifestações continuavam, a censura apertou nos jornais, na RTP e nas rádios. José Saramago apelava à revolta no “Diário de Notícias”. Quem falava no parlamento ou em votos era um puro “burguês” dedicado a esmagar as “classes trabalhadoras”. E começaram a correr rumores de guerra civil. Os rumores eram absurdos por três razões. Primeiro, porque nenhuma das partes tinha dinheiro. Segundo, porque a “revolução” indisciplinara as tropas do PC (e a URSS proibira disparates). Terceiro, porque a gente de Otelo não passava de uma mascarada sem valor militar. Não podia haver uma guerra civil, mas podia haver uma matança e algumas figuras justificadamente trataram de se esconder ou de tomar precauções. Soares, com a cabeça a prémio, foi à Alameda e a seguir ajudou, à sua maneira, o golpe de 25 de Novembro, que removeu de cena os partidários do PREC.
Infelizmente, o dito PREC deixara Portugal em ruínas e os militares no centro do regime político. O Presidente da República (Eanes) comandava efectivamente o exército. O Conselho da Revolução, sem espécie de mandato, aprovava ou desaprovava a legislação da Assembleia, com o propósito de preservar intacta a sua preciosa “revolução”. Mas Soares, Balsemão, Freitas do Amaral e Mota Pinto, entre si e contra algumas facções internas no PS e mesmo no PSD, acabaram por meter os militares nos quartéis, sem lhes deixar um vestígio de influência política.
Nesse ponto crítico, Eanes, a meses de sair de Belém, decidiu organizar um novo partido para ele e para os amigos: o PRD. Mas Soares, entretanto eleito Presidente da República, não o deixou viver. À primeira oportunidade dissolveu a Assembleia, sabendo perfeitamente que ia entregar uma maioria a Cavaco. E, de facto, entregou, porque o PRD juntava só o oportunismo e ressentimento e sem poder não valia um cêntimo. Soares viu desfilar os seus inimigos íntimos pela televisão. Mas ganhou. Ganhámos nós.

A pretensa heroicidade do homem de Estadão em 1975 sai mais uma vez reforçada num papel único de lutador pela sua sobrevivência pessoal e política.

Sobre a luta no PREC é sempre destacado o seu papel na Fonte Luminosa mas VPV desvaloriza ipso facto tal ocorrência ao escrever que Portugal nunca correu risco verdadeiro de guerra civil na altura. Por falta de dinheiro…

Ora o que um então apoiante das “fantasias de Spínola”, Paradela de Abreu escreveu em 1983 no livrinho Do 25 de Abril ao 25 de Novembro ajuda a compreender outra realidade que não é muito falada, porque deslustra a figura do Homem de Estado que nunca foi.  



Sobre a circunstância de Spínola ser apenas uma "fantasia" sem importância, a "26 de Abril de 1974" nem a História rememorado lhe valerá. Só admira como se tenha esquecido tanto...

Basta ver estes recortes de imprensa estrangeira ( tirados do livro de Joaquim Vieira e Reto Monico ( e não Monica, como escrevi antes, por lapso) , Nas Bocas do Mundo, de 2014, da Tinta da China) nesses primeiros meses de 1974, ou seja o tal 26 de Abril, para perceber o logro e as armadilhas da memória. Se um historiador que viveu os acontecimentos distorce tanto assim uma realidade vivida o que não fará ao especular acerca da que não chegou a viver ( séc. XIX, por exemplo):


Onde é que aparece aqui Mário Soares como figura de imposição europeia e determinante? Em lado nenhum a não ser na referência da revista Le Nouvel Observateur, do seu amigo socialista ( e que o visitou em casa) Jean Daniel.

É isto a grande referência do 26 de Abril de 1974? É isto quando a imprensa considerava o mesmo Mário Soares como pessoa muito duvidosa para conseguir "dar a volta" ao comunismo de Cunhal, perante as hesitações e erros políticos?
Spínola mai-las suas "fantasias",  era efectivamente o herói da Revolução e foi-o durante o Verão de 1974, ou seja aquele tal 26 de Abril desse ano.

Enfim, VPV anda esquecido. Ou nunca se lembrou, o que será bem pior e mais provável.

ADITAMENTO:

Do sítio do Observador (que tem espaço de comentários...o que agora descobri) está lá um que merece transcrição porque não é dos que falam do que nem sabem. É de um antigo militar que assim escreve:

Esta crónica poderá ser um epitáfio á memória do amigo Mário Soares mas no contexto histórico é uma imbecilidade. Quem controlou sempre a situação em Portugal no período referido foram os militares moderados do Regimento de Comandos, da Escola Prática de Cavalaria, da Escola Prática de Artilharia, da Escola Prática de Infantaria, do Regimento de Cavalaria de Estremoz, do Regimento de Cavalaria de Santa Margarida, outras unidades do Norte e ainda a Força Aérea. Os outros, conectados com o PCP, eram uns meros "brincalhões" sem qualquer utilidade operacional, á excepção dos Fuzileiros. Regimento de Polícia Militar e Regimento Artilharia 1 (Ralis) não contavam para o "Totobola" do PREC...
Eu próprio fiz parte do Batalhão de Caçadores 4513/75, mobilizado para Angola desde Junho/75 até Novembro/75, em Santa Margarida, e nunca houve da nossa parte qualquer hesitação em seguir para Africa. Simplesmente a ordem de embarcar nunca chegou. Treinámos com afinco o IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional) de tal modo que morreu nos exercícios o furriel-miliciano Crespo, da 3ª companhia, atingido por tiros de helicanhão. Havia, portanto, quem estivesse disposto a seguir para o Ultramar.
No 25 de Novembro, como se sabe, Mário Soares e os amigos socialistas fugiram para o Porto, onde se refugiaram junto a algumas das figuras mais tenebrosas da sociedade portuguesa desse tempo. Ele sabe de quem estou a falar mas não escreve porque...é chato!
É destas coisas que gosto de ler porque dão uma perspectiva realista à História e não repenicam nem papagueiam meras fantasias.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Entrevista de Daniel Oliveira ao i: um compêndio de oportunismo

 Dani, o vermelhinho, reciclou a vidinha na social-democracia. Escreve no Expresso e fala na SIC. Por mês, entram-lhe no bolsinho para aí, sei lá,  uns dez mil euros, não?

Pois isso fará toda a diferença. E a prova é que estão aqui todos os cambiantes que fazem de alguém um canalha político. A escola está aqui toda nestas frases de circunstância.

 Daqui:

"Para mim, a solução – e aí discordo de muita gente do PCP e do Bloco –, eu acredito na reconstrução do espaço à esquerda que tem como polo central a social-democracia. Penso, aliás, que foi essa plataforma que Bernie Sanders conseguiu oferecer, um núcleo duro social-democrata com uma série de sectores radicais que apostaram nessa candidatura. Não digo que tem de ser sempre em torno dos partidos socialistas, mas de respostas sociais-democratas – isso dependerá de país para país. Infelizmente, acho que o Syriza perdeu esta batalha. Acho que António Costa conseguiu perceber isso a tempo, ao contrário do que aconteceu em Espanha, onde os socialistas perdem pé para o Podemos.
Em quem votaria hoje?
Hoje votaria no BE. Tenho muitas críticas ao Bloco, mas acho que teve um papel positivo ao ajudar a construir esta solução. Não fez mais que o PCP, mas eu tenho muitas divergências ideológicas com o PCP. Tenho divergências em matérias de política interna, como se organiza e de política internacional. Estou bastante satisfeito até com a gestão do Partido Socialista. A razão por que votaria no BE e não no PS é que acredito que a solução mais à esquerda para este país exige que isto seja uma solução partilhada. Não quereria ver o PS com maioria absoluta porque acredito que mesmo que António Costa quisesse seguir outra política, não conseguiria, porque as suas alianças seriam outras, e seriam exclusivamente internas e não externas. E isso, historicamente, deu mau resultado. Há coisas que ainda me incomodam no Bloco deste ponto de vista: do ponto de vista estratégico, é muito mais frágil que o PCP, continua a ser um partido com pouca estratégia e muita tática, e com pouco rumo. E neste sentido não se percebe o que procuram sem ser a curto prazo. Não preciso de amanhãs que cantam como o PCP, mas gostava que isso fosse mais claro no Bloco. Nos momentos mais difíceis da geringonça, vejo o PCP mais firme no percurso que decidiu fazer do que o Bloco: demasiadas vezes, o Bloco distrai-se com o seu próprio fogo-de-artifício, e não é tempo para isso. Vivemos um tempo de muita urgência. Mesmo que isso implique alguma cedência. Portugal é hoje um oásis de normalidade no mundo. Aqui ainda se pode discutir em padrões normais, não estamos a discutir o mais elementar dos direitos humanos, e isso vale tanto que todos os partidos têm de estar à altura deste facto. Devem pensar todos 20 vezes antes de colocarem em causa uma solução que, enquanto os partidos não se desentenderem, tem claro apoio maioritário. Até porque as pessoas têm consciência disso. Há, apesar de tudo, um ar diferente do que se respira no resto do mundo. Às vezes não sinto que os três partidos valorizem esta solução, que é acarinhada pelos eleitores.

(...)

 Pegando num caso da actualidade, como vê o caso José Sócrates?
Vejo como?
Acho que inicialmente não acreditava muito na possível culpabilidade do antigo primeiro-ministro. Hoje tem a mesma impressão?
A questão nunca se pôs assim para mim. Eu nunca coloquei a questão assim e as pessoas tendem a não compreender isto. Há uma coisa de que eu tenho muito receio...
É não acreditar na justiça portuguesa?
É mais do que isso. É qualquer tentativa de ultrapassar a frustração política que sentimos encontrando nos tribunais o que não resolvemos na política. Tenho uma resistência à partida que choca com a vontade que tenho de que os nossos interesses e os do Estado sejam defendidos dos corruptos e de pessoas que o utilizam para seu benefício próprio.
Receia uma judicialização da política?
Não quero uma República dos juízes. Não confio mais em juízes que em políticos. Confio menos até, porque nos políticos eu voto, e nos juízes não. O político, se for mau, eu arranjo maneira de me livrar dele, como nos vimos livres do José Sócrates, e dos juízes não. A segunda coisa a que eu me oponho é a aliança tática entre os jornais tabloides e a justiça, que eu acho que é perigosíssima para a democracia, a utilização dos tabloides para se fazer na praça pública o que não se consegue nos tribunais. Estas são as minhas duas resistências. Sobre o processo em concreto, não sei mais do que a maioria das pessoas. Eu não tinha, e isso distingue-me de muitas pessoas, nenhuma convicção especial sobre José Sócrates: nunca votei nele, nunca o apoiei. Não tinha nenhuma convicção sobre a sua honestidade pessoal; hoje tenho algumas e nem dependem do resultado em tribunal de coisas de que ele possa ser acusado criminalmente. Há coisas que eu sei, porque o próprio confirmou, sobre uma dependência económica em relação a uma pessoa que não têm justificação possível. Não há nenhuma justificação legítima. Ao contrário de outras pessoas honestas que apoiaram Sócrates, compreendo que essas pessoas se considerem traídas; eu não me considero porque nunca tive essa posição em relação a ele.
Chegou a almoçar com ele?
Várias vezes. Mas também almocei com Marcelo Rebelo de Sousa e, como é natural, conheço muitos políticos. Conheço quase todos os políticos que estão no activo. Conversei várias vezes com José Sócrates, nunca sobre estes temas, sempre sobre política. É uma figura que eu continuo a considerar curiosa.
Porquê?
Há um lado trágico e excessivo da figura que a torna curiosa do ponto de vista romanesco. É uma figura, no que tenha de odioso e extraordinário, densa. Há qualquer coisa tão excessiva em José Sócrates, nos seus defeitos e nas suas qualidades – muitas estão relacionadas. Ninguém põe em causa que Sócrates era um combatente temível e extraordinário, e isso vem do seu excesso. Desse ponto de vista, ele é uma figura interessante. Há outras que, nesta perspectiva, visto de fora, considero muito interessantes: Paulo Portas, com densidade intelectual e até como personagem. A razão por que eu nunca tive qualquer interesse em Passos Coelho e Cavaco Silva é que eles eram figuras desinteressantes e sem nenhuma densidade. São bonecos de coisas previsíveis, sem qualquer interesse. Há muitos anos escrevi que, depois de Cunhal e Soares, só havia duas figuras políticas intelectualmente extraordinárias na política portuguesa: Francisco Louçã e Paulo Portas.

Como se ensina a História em Portugal

Este ano faz cem anos que a Revolução Russa triunfou, acabando com o regime monárquico dos czares e impondo a oligarquia comunista que durou até ao final da década de oitenta do século.

Antes de tal suceder, em Outubro de 1917, a Revolução Russa foi uma espécie de 25 de Abril de 1974. Em 2 de Março de 1917 o czar Nicolau II da dinastia dos Romanov abdicou do trono e entrou em funções um governo provisório, muito à semelhança do que ocorreu por cá, com Spínola e o de Palma Carlos.
Lenine só entrou na Rússia em 3 de Abril de 1917, vindo da Suíça e com poucas esperanças de tomar o poder. Mas foi aí que enunciou "dez teses", diante dos bolcheviques.
Em Julho já havia manifestações contra o governo provisório, tal como por cá aconteceu. Um certo Kerenski formou então um "governo de salvação revolucionária" , mas em Setembro Trotski torna-se presidente do Soviete e em Outubro aconteceu a "insurreição" bolchevique e o triunfo do comunismo em marcha, com a tomada de assalto ao palácio de Inverno. Foi criado o Conselho dos comissários do povo e a polícia política Tcheka entrou em funções.
O resto foi, ao contrário do que por cá aconteceu, o triunfo da Revolução de Outubro que por cá queriam que tivesse acontecido em Novembro...

Como é que isto se sabe por cá? Lendo revistas estrangeiras, nomeadamente francesas.

A Revolução Russa de 1917 não começou em Outubro, com Lenine, mas em Fevereiro com a deposição voluntária do czar Nicolau II, dos Romanov que até aí tinham um poder formal impressionante sobre toda a Rússia. A família desse czar, mulher e cinco filhos, foi dizimada pelos bolcheviques, em segredo,  e Lenine terá eventualmente dado assentimento póstumo. O mistério da morte dos Romanov só após a queda da URSS se tornou possível investigar devidamente. O comunismo tem horror à História.

Por cá, estas histórias não se conhecem nem se divulgam, de tal modo que até um tarimbeiro da politiquice esquerdista, Louçã de sobrenome, filho de um oficial da Armada salazarista, escreve patacoadas num prefácio a um biografia de Estaline que o Expresso anda a publicar aos bochechos. Para esse politiqueiro da extrema-esquerda a Revolução Russa começou em Outubro e pôs fim a um regime ignóbil de ditadura monárquica. "Uma Revolução contra uma ditadura e uma guerra, que libertou milhões de servos e prometeu o fim da exploração" foi assim que este palerma, elevado a figura de culto, escreveu no prefácio.

Não admira muito porque a noção de História que temos em Portugal sobre a Revolução de Outubro continua a ser a que é veiculada pelo O Militante do PCP.

Hoje o Sol publica uma entrevista com uma historiadora que publicou um livro sobre a viagem de Lenine, da Suíça até ao sítio da revolução de Outubro.

O esquema é sempre o mesmo, por cá: conta-se a partir de um olhar sectorial para árvores bem podadas e perde-se a visão essencial na floresta de enganos que elas ocultam. De há 40 anos a esta parte que a História contada nos media tem sido esta tristeza.

 Pelo contrário, em França aproveitou-se a efeméride par dar a conhecer o contexto, a cronologia histórica, a explicação dos acontecimentos e até uma entrevista com a mesma historiadora mas inserida nessa visão periférica ( aparece na revista L´Histoire deste mês):


Em Portugal o que conta é a História do O Militante...e depois o resultado é este, sem paralelo na Europa Ocidental:


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O monstro dos impostos continua esfomeado

24Sapo:

De acordo com a síntese da execução orçamental de 2016, divulgada hoje pela Direcção-Geral do Orçamento (DGO), a receita fiscal líquida do Estado aumentou 1.375,4 milhões de euros até Dezembro, um aumento de 3,5% face ao ano anterior, totalizando os 40.224,9 milhões de euros.

No entanto, a arrecadação da receita com impostos ficou aquém da última projecção do Governo, que foi apresentada em Outubro do ano passado aquando do orçamento deste ano. Nesta altura, o Ministério das Finanças apontava para uma receita fiscal de 40.953,8 milhões de euros e acabou por arrecadar menos 728,9 milhões do que o antecipado
.

Seria interessante saber e comparar qual era a receita fiscal equivalente, no final do ano de 1973. Com guerra em três frentes ( Angola, Moçambique e Guiné), perceber como se governava então e se relativamente aos serviços prestados pelo Estado o custo de vida era mais alto ou mais baixo que hoje.

Há quem saiba fazer as contas. Duvido é que o queira fazer...

Mas uma breve consulta dá-nos alguns números:










Enfim, números. Para todos os gostos?

Vão é para o raio que os parta!

Ontem na TVI, agora num espaço mediático sempre ao dispor de certas personalidades, animado por uma cretinice sorumbática , o advogado Júdice, um dos maiores sucessos profissionais do Portugal pós 25 de Abril ( tem um dos maiores escritórios de advocacia do país) referiu-se ao depoimento de Hélder Bataglia sobre Ricardo Salgado.
 Arranjou um estranho paralelo com a "delação premiada" que é instituto processual no Brasil mas ainda cá não chegou, para dizer que sendo assim o depoimento de Bataglia era nulo. Não estava previsto na nossa lei processual penal. Não o disse tal e qual mas foi esse efeito que pretendeu comunicar, perante o ar seráfico da animadora daquele espaço televisivo que nem contestou para perguntar mais nada.

A melhor resposta a estas pessoas é dada por Eduardo Dâmaso hoje, na Sábado: "vão dar banho ao cão!"




Salazar dixit

Observador:

Portugal “fica mal na fotografia quando comparado com quase todos os países do mundo”, no que diz respeito ao endividamento do Estado e do sector privado, lamenta a agência Fitch. Para que o “rating” suba e saia de “lixo”, terá de haver “mudanças estruturais”, avisa o analista responsável pela notação de risco de Portugal. A Fitch avisa que estará atenta a qualquer solução para a banca (Novo Banco, crédito malparado) que afecte as contas públicas.
As declarações foram proferidas por Federico Barriga Salazar, diretor da Fitch, durante a conferência que a agência Fitch realiza anualmente em Lisboa.
“A ligação entre o sector bancário e a dívida pública é muito importante. Qualquer solução que se encontre para o sector bancário que tenha impacto na dívida pública, estaremos muito atentos”, afirmou o analista, lembrando que não pode falar muito sobre Portugal porque está iminente uma nova decisão sobre o “rating” de Portugal (3 de Fevereiro).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Qual é o spread dos jornalistas?

Uma boa ideia, aqui, vinda de Nuno Garoupa um dos tudólogos mais em voga:

Escreveu recentemente sobre a imprensa. Porque acha que esta se declara em crise? 
O consumidor da classe média portuguesa não está disposto a pagar por conteúdo. Se se faz copy/paste de tudo o que é notícia, é óbvio que quem escreve a notícia não é valorizado. Esse é um dos problemas para o jornalismo em Portugal estar assim e eu não sei se tem uma solução fácil. E nas televisões ainda é mais grave. Com os problemas financeiros, a linha editorial acabará por ser sempre pró-governo - qualquer um que lá esteja - e perde--se a independência que é necessária.

Os Panama Papers não foram um “grito” em nome dessa independência?
Foi uma pequena machadada. Não se pode fazer uma capa a dizer que vem aí uma bronca e depois ai, ai, que o leitor é que tem de ir fazer a pesquisa pelo jornalista. Era interessante ver quantos jornalistas e políticos tinham hipotecas no BES com spread zero. Aí não há lista nenhuma e nem é ilegal, mas saber a quantidade de gente com empréstimos sem spread seria importante. É uma forma muito indirecta de ser financiado...

Can no more

Morreu Jaki Liebezeit um músico alemão ( nasceu em Dresden, em 1938, antes da destruição da cidade pelos aliados) que fez parte de um grande grupo de música popular, os Can.

Há quase 40 anos ( em Maio de 1977) estiveram em Portugal em concerto em Lisboa e Porto e a revista Música & Som dessa altura dava conta do acontecimento:


Jaki Liebezeit tocava percussão e os discos mais importantes do grupo já tinham sido publicados e está aí a lista. Os primeiros originais valem pequenas fortunas, mesmo usados.

Olhando para a foto lembra-me o que andei, na altura,  para encontrar um polo às riscas como o do músico da direita...mas encontrei, numa feira, com peças de roupa deixadas por conta das fábricas de exportação, porque tinha um pequeno defeito.
Na altura e na sequência da primeira bancarrota,  era assim que se encontrava o que não havia por cá: nas feiras, vendidas por ciganos e sobras ou restos que as fábricas já não queriam para exportar. Era roupa fora de série, de qualidade superior e cujo lote de primeira escolha ia preencher as prateleiras das lojas francesas ou americanas. Era fabricada no Vale do Ave, um dos poucos redutos produtivos que o PREC deixou intacto e serviu para termos as divisas que necessitávamos para comprar o que comer...

Esta actriz tem alguma coisa a ensinar ao país?



Pelos vistos tem, segundo o Dinis do Público que volta a dar páginas e páginas de publicidade política, ou seja propaganda, a uma das forças de extrema-esquerda que existem em Portugal, o Bloco de Esquerda.

Esta actriz pretende manter em cena, em cartaz permanente, a sua troupe de farsantes que procuram passar a ideia que são muito democratas e burgueses o suficiente para aceitarem as regras das democracias ocidentais, com os seus sistemas de produção de bens e serviços.
A contradição representa-se há dezenas de anos e a fantasia já ocupou o lugar da realidade que quase ninguém denuncia.
O BE é um partido revolucionário, trotskista se preciso for que pretende a alteração da sociedade e do seu modelo de produção, a la longue se necessário se tornar e rapidamente se as circunstâncias o permitirem.

Para o Público no entanto, assim não é porque a actriz empregada na política tem ideias que passam por ser o mais normais possível, dentro dos padrões da democracia burguesa que ideologica e programaticamente execram.
Não faz mal algum a contradição porque nunca é apresentada como tal, pelo Dinis e seus colegas da imprensa formatada no mesmo modelo.

Não se pergunta à actriz o mais básico: que sociedade verdadeiramente pretende? A do seu programa de partido a fazer de conta ou a de uma democracia burguesa que não o admitiria? A reestruturação da dívida, apresentada como solução mágica para os problemas é ideia baseada em que sistema de produção de bens e serviços? O que admite as multinacionais e a livre troca de bens e serviços dentro da União Europeia? Também sendo, o entendimento é comum ou apenas táctico e destinado a confundir os votantes, apresentando este BE como um partido igual aos outros?

Até quando perdurará esta fantasia de entendermos, salvo seja, os media entenderem a extrema-esquerda como uma ideologia capaz de governar um Estado como Portugal?

Será isto a vingança do 25 de Novembro de 1975? Se não é, parece. Veja-se o caso das filhas do pirata e outros que tais.

domingo, 22 de janeiro de 2017

As receitas dos fósseis

24Sapo:

Em entrevista à agência Lusa, o secretário geral da CGTP, Arménio Carlos, garantiu que as estruturas sindicais da Intersindical vão bater-se no terreno pela instituição de um salário mínimo de 600 euros, que não foi conseguido em sede de Concertação Social, para romper com o modelo de baixos salários, acentuado pela redução excepcional da Taxa Social Única (TSU) pelo terceiro ano consecutivo.

"A medida da TSU fomenta o modelo de salários baixos e trabalho precário e coloca permanentemente a Segurança social e o Orçamento do Estado (OE) a financiar as empresas que actualizam o Salário Mínimo Nacional (SMN)", disse. O sindicalista considerou que o salário mínimo está a ser usado para reduzir os encargos das empresas com os trabalhadores, "o que é errado, falacioso e falso", dado que "o grande problema das empresas hoje não está nos salários".

Citando dados do Banco de Portugal, lembrou que em 2015 os salários não representavam mais de 13,6% dos custos totais do trabalho. "Há custos mais elevados, mas não há coragem para os atacar", disse Arménio Carlos, referindo os custos de contexto das empresas, nomeadamente com a energia, combustíveis e as telecomunicações
.


Portanto, para este fóssil do sindicalismo, comunista do PCP, a receita que não explica mas se encontra implícita abaixo naquelas duas páginas do O Militante, é simples de entender:  acabar com o capitalismo, voltar ao PREC de 1974 e 75, estatizar as empresas de energia. combustíveis e telecomunicações e já está.

A frase chave é esta: "Agudizam-se as contradições do sistema a começar pela contradição entre o carácter social da produção e a apropriação privada dos meios de produção o que trava o desenvolvimento das forças produtivas"...está lá, preto no branco e quem esquece isto ou não quer ler, como o palerma que dirige o Público, faz o jogo objectivo destes fósseis ideológicos e conduz-nos directamente a isto por  que já passamos há 40 anos:




Para tal foram atacar o "capital" o que está muito bem explicado neste livro:



 Resultado? Bancarrota.


 Estas pessoas não se enxergam e os "públicos" não sabem isto?! Ainda não perceberam que este Arménio quer isto, outra vez?

Quererão porventura um Portugal como a Venezuela da actualidade? Se calhar querem mesmo...


O livro dos mortos comunistas

Na Europa já ninguém reconhece o comunismo como força política válida e alternativa de poder. Veja-se este artigo na revista francesa Philosophie, último número em que analisa de que doença padecerá a esquerda, no caso francesa, mas alargada a todo o continente. Com excepção de um pequeno reduto na extremidade ocidental, Portugal, que assim figura como uma aldeia de Astérix, ninguém tem um partido comunista e os países que o tiveram despacharam esse lixo histórico para o âmbar das memórias perdidas:


O comunismo na Europa acabou, excepto para uns fósseis que ainda por cá habitam no âmbar ideológico que os consome e fazem esta revista bimestral:


Ao mencionarem as relações internacionais do PCP são incapazes de citar um único partido comunista europeu condizente com o PCP. Nem um. Mas há um no extremo-oriente que se lhes assemelha: o do Vietname!


Quem quiser saber mesmo a sério o que o PCP deseja e sempre desejou para o nosso país há décadas e décadas tem aqui um pequeno vademecum:


Sempre que esta pequena seita de fósseis precisa de exposição eleitoral lá estão os media de sempre prontos ao frete de espanejar o âmbar para mostrar a relíquia. Tudo porque o pai, ou o tio, avô ou mestre foram do Partido ou estiveram presos por causa disso e publicam textos de página com as belíssimas ideias que ninguém pode seguir e a Europa já abandonou há décadas.

Por cá existe ainda o culto a estes mortos, com o respeito que lhes é devido, por causa da família que sofreu as agruras do fassismo ou a solidão das celas de recolhimento onde salgaram as ideias fossilizadas.