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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O jornalismo de investigação carece de muito cuidado

A propósito da crise dos jornais e do congresso de jornalistas, a RR foi entrevistar o chefe de edição do jornal francês Le Canard Enchainé que por cá custa € 1,60 ( mais 40 cêntimos que em França), tem oito páginas sem qualquer publicidade e emprega, segundo se diz, cerca de 30 jornalistas. Quase não tem fotografias mas tem muitas ilustrações, cartoons e caricaturas. É um sucesso quase centenário porque tem lucro e continua a vender bem. Não tem sítio na internet com as notícias todas e dedica a atenção aos assuntos domésticos, sendo um dos principais media de investigação jornalística.

Sobre as investigações o seu editor é muito claro:  só publicam algo quando estão seguros de o poder fazer com rigor "porque temos uma enorme preocupação com a verificação exaustiva de todas as notícias que damos. Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história."

 Aqui fica a entrevista:

RR:

O jornal "Le Canard Enchaîné" pode ser descrito como o irredutível gaulês da imprensa a nível mundial. Há 100 anos que sai para as bancas francesas. Em papel, claro, e impresso a duas cores – preto e vermelho. Com uma redacção relativamente pequena, com aproximadamente 30 jornalistas, vende, semanalmente, 400 mil exemplares.
Apesar de não ter escapado à queda nas vendas, o jornal, que nunca teve publicidade, dá lucro – cerca de três milhões de euros, em 2015.
A Renascença falou com Érik Empatz, editor-chefe deste jornal que faz sátira, mas também jornalismo de investigação, para tentar perceber o segredo para este "pato acorrentado” manter a independência de grandes grupos económicos.
Qual é o segredo do vosso sucesso?
Para começar, a razão do nosso sucesso, é que desde o início, que o "Canard" é um jornal completamente independente. Isto quer dizer que o nosso jornal nunca dependeu de um grupo financeiro e sempre foi independente da publicidade. Ou seja, desde o início que nunca tivemos publicidade. Não dependemos dos grandes grupos económicos, como foi acontecendo com outros jornais franceses que foram comprados. Penso que é isso que nos torna fortes.
Actualmente, as pressões exercidas sobre os meios de comunicação, e sobre os jornais em particular, não são tanto pressões dos Governos a dizer "não devem escrever isto ou aquilo". Existem muitas pressões económicas, pressão dos anunciantes, que, de uma forma ou de outra, dizem: "Se escreverem mal da nossa empresa, retiramos a publicidade do vosso jornal". Como se sabe, neste momento, os jornais são muito dependentes das receitas publicitárias e isso cerceia-lhes a liberdade. Mas nós temos liberdade plena e, sem dúvida, que essa é a razão do nosso sucesso.
O custo de produção do vosso jornal é baixo...
Sim, custa 1,20 euros. E não aumentámos o preço do jornal desde 1993.

Há 24 anos que não aumentam o preço do jornal?
Sim. Consideramos que o jornal vende bem e que os nossos leitores devem beneficiar das nossas vendas. Mas, por outro lado, não oferecemos nada.
Refere-se ao facto de "Le Canard Enchaîné" ter uma presença muito limitada na internet e nas redes sociais e não disponibilizar conteúdos digitais de forma gratuita?
Não cometemos um erro que muitos jornais em França – e noutros países – cometeram, quer sejam diários ou semanários. A maioria precipitou-se e foi a correr para a internet. Passaram a disponibilizar os artigos de forma gratuita. E, depois, graças a esta "fórmula gratuita", perderam uma boa parte dos seus leitores.
Muitos jornais perderam metade dos leitores e, agora, é muito difícil regressar a uma fórmula em que o leitor tenha que pagar para ler. Nós não fizemos isso. Para já, a nossa presença na internet é extremamente minimalista. O nosso site apenas disponibiliza os títulos do jornal às quartas-feiras. Por enquanto, a internet não está no topo das nossas prioridades porque as nossas vendas em papel ainda são muito boas. Vendemos 400 mil exemplares por semana. E vamos continuar a vender o jornal em papel, enquanto isso for possível. Se, um dia, passarmos apenas a estar disponíveis na internet, o que deverá acontecer no futuro – provavelmente, num futuro muito próximo –, isso será também porque em França há uma diminuição muito acentuada dos pontos de venda. Existem cada vez menos quiosques, desapareceram muitos nos últimos anos. E isso é muito preocupante. Mas, por enquanto, as nossas vendas são boas. O jornal dá lucro e o problema ainda se não coloca.
No dia em que passarem definitivamente à versão digital, será através de um modelo pago?
Sim. Passaremos directamente a um modelo pago, de certeza.
São um jornal satírico que também faz jornalismo de investigação. Já revelaram muitos escândalos e dão muitas notícias. Como conseguem unir estas duas facetas e, em simultâneo, serem um jornal com tanta credibilidade?
Para responder a essa pergunta, tenho que voltar à questão da independência. Quando investigamos negócios, por exemplo, que envolvem bancos ou somas de dinheiro importantes, não estamos acorrentados. Temos uma certa independência que nos permite investigar a fundo esses casos. Por outro lado, somos muito rigorosos em relação às informações. Como temos uma tiragem muito significativa e somos credíveis, quando fazemos perguntas, as pessoas têm tendência a responder-nos.
Não têm dificuldade em investigar?
Se telefonarmos a um ministro, por exemplo, ele responde. Sempre que ligamos a alguém importante, se o "Canard" ligar a perguntar, é atendido e temos respostas. Isto também acontece porque temos uma enorme preocupação com a verificação exaustiva de todas as notícias que damos. Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história. Mas é o facto de não abdicarmos desse rigor, em detrimento da velocidade de publicação, que, no fim das contas, nos garante a reputação de sermos exactos e precisos nas investigações que levamos a cabo.
Têm uma regra que exige um certo anonimato aos vossos jornalistas. É muito raro ver um jornalista do "Le Canard Enchainê" num canal de televisão a comentar uma investigação, um escândalo que tenham revelado, por exemplo...
No último ano, tivemos alguma presença na televisão, fomos a alguns programas, a propósito da celebração dos 100 anos do jornal. Fizemos um livro de comemoração do centenário do "Canard" e também fomos para o promover, tem vendido bem. Mas, fora deste quadro, a regra do nosso jornal defende que as nossas informações e comentários são reservados aos nossos leitores, às pessoas que compram o jornal. É por isso que não participamos de programas de debate com outros jornalistas ou comentadores para discutir determinado tema ou assunto. Não o fazemos porque consideramos que isso não é benéfico, não nos traz nada de palpável. Somos muito discretos.
No que diz respeito aos artigos que não são assinados, isso tem a ver com o facto de serem artigos nos quais trabalharam várias pessoas e serem relativamente curtos. No entanto, também temos muitos artigos assinados. O anonimato não é literal. Mas é verdade que permanecemos muito discretos. Não alimentamos nem defendemos o vedetismo, nem seguimos a onda dos jornalistas-vedeta. É algo que não faz parte da cultura do nosso jornal.
O "Le Canard Enchaîné" alia a investigação jornalística à sátira, através de uma linguagem humorística muito própria. Referem-se a muitas das personagens políticas através de alcunhas que criaram para elas. É isso que vos diferencia de um jornal como o "Charlie Hedbo"?
O "Charlie Hedbo" também é um jornal satírico, mas não fazem investigação. Nós fazemos as duas coisas: investigações jornalísticas sérias, mas que tentamos sempre dar a conhecer aos nossos leitores sem nos levarmos muito a sério. Ou seja, tentamos escrever essas histórias de forma engraçada. Maurice Maréchal, que fundou o "Canard" durante a I Guerra Mundial, em 1916, um dos anos mais mortíferos da guerra, tinha uma “fórmula” para dar as notícias. Dizia: "Quando vejo uma coisa que me escandaliza, a minha primeira reacção é indignar-me. Mas a minha segunda reacção é rir-me. É mais difícil rir, mas é mais eficaz." Nós tentamos seguir esta máxima. Tentamos falar de coisas muito sérias, de contar histórias, de fazer investigação, de escrever editoriais, de comentar, de opinar, mas fazê-lo sempre sem nos levarmos demasiado a sério. Tentando sempre rir das coisas.
Em Portugal, os jornalistas passaram os últimos dias em congresso, a discutir o futuro do jornalismo e dos jornais. O "Le Canard Enchaîné" tem uma receita que funciona, vende, dá lucro. Como resolver os problemas que muitos jornais enfrentam?
No "Canard" não damos lições a ninguém. Temos perfeita noção do luxo que é podermos fazer o que fazemos, da forma como o fazemos, nos dias que correm, e sem termos de enfrentar problemas de vendas ou de falta de rendimentos publicitários. Não queremos nem podemos estar em posição de dar lições a quem quer que seja. Mas, se tivéssemos apenas um conselho a deixar, seria este: a independência de um jornal começa na caixa registadora. O quero dizer com isto é que devemos tentar ser o mais independentes possíveis em termos financeiros. A independência financeira dá uma força que agrada aos leitores. Porque, quando todos os jornais vendem espaços publicitários aos mesmos anunciantes, às mesmas empresas, e dão todos as mesmas notícias, o mesmo tipo de informação e no mesmo tom, é fácil de perceber que, ao fim de um tempo, deixam de fazer falta ao leitor.
Os jornais são de tal forma parecidos que se estão a tornar irrelevantes?
“Voilá”! É preciso preservar a alma do jornal e a sua especificidade. Devemos fazer o que sabemos fazer bem e ser um jornal particular, diferente. Não devemos tentar ser parecidos com todos os outros. Devemos é ser diferentes uns dos outros. E tentar ser o mais independentes possível, em termos financeiros. Se temos um conselho muito vago a deixar, é este. Mas, repito: nunca nos colocamos em posição de quem dá lições. Isso é algo que também não faz parte da nossa cultura enquanto jornal.

Agora tomemos o caso paradigmático do Correio da Manhã. Na edição de hoje aparece esta página:


As notícias acerca deste caso da "máfia do sangue" tem sido escritas na perspectiva da culpabilidade assente dos suspeitos e não deveria ser assim.  Não é necessário tomar partido neste assunto assumindo logo que os suspeitos são corruptos, praticaram os factos e apresentando sempre a versão de uma investigação criminal que ainda não terminou.

Seria preferível, a meu ver, apresentar os factos tais como se vão descobrindo, sem juízos de valor implícitos a não ser os que decorrem dos próprios factos.

Gostaria mais de ler um jornal que apresenta os factos de modo neutro e sem ocasionar desmentidos como o que agora se pode ler no jornal, uma vez que há tempo para que tais circunstâncias se esclareçam.

Andar sempre à cabeça das notícias sobre estes assuntos com a mentalidade inquisitória conduz ao erro e leva sempre a um jornalismo fraco e tendencioso, mesmo que tal agrade a muitos leitores e possa incentivar vendas.
O jornalismo do Correio da Manhã, neste aspecto dos casos mediáticos com incidência criminal tem sido muito ligeiro, com incorrecções frequentes e denota pouco cuidado e atenção a certos aspectos que deveriam merecer essa atenção, mormente os que contendem com a honra das pessoas.
A jornalista Tânia Laranjo faz um bom trabalho que é por vezes completamente desmerecido por essa atitude persecutória implícita no modo como relata os factos e escolhe as frases. Bom jornalismo não é isso, parece-me. Seja neste caso, seja no do Sócrates.

A sobriedade inteligente nos relatos não significa que omitam os aspectos que podem ser duvidosos e suscitem reservas devendo o jornalismo dar conta disso mesmo para as pessoas saberem e ficarem informadas.

Não vale tudo no jornalismo. Tal como o Le Canard Enchainé ensina...

A Extrema-Esquerda comunista continua por cá e o Público é a sua guarida

No Público de hoje mostra-se que o director Dinis que sucedeu à artsy Bárbara é carta do mesmo baralho e até do mesmo naipe.

Três artigos a propagandear as ideias fósseis da esquerda comunista e da extrema-esquerda. Nem em 1975 havia tamanho desplante em fazer passar como democrático e plenamente integrado na sociedade burguesa quem nunca aceitou os respectivos princípios ideológicos.

A prova está aqui mas não há gente que queira saber ler. São mais analfabetos que os da percentagem mirífica que existia antes do 25 de Abril e era sempre apontada como sintoma de subdesenvolvimento.

Quem dá guarida a estes trânsfugas dos bons regimes comunistas é cúmplice dos seus desideratos. Há 40 anos que é assim.

Neste caso, o patrão Belmiro ou quem o substituiu resfolega de complacência porque deste modo tem "paz social" na empresa. É um pizzo que paga a esta mafia fossilizada em Portugal.

Aqui há dias o mesmo Louçã, agora estrela televisiva como nunca antes tinha sido, até disse que a patarata da Mortágua, filha do pirata, ainda viria a ser um dia ministra das Finanças! Só se for num dos episódios do "Governo Sombra"...




terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Uma vergonha de Estado, por causa de um juiz do STJ


Observador:

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH )condenou o Estado português num caso que envolvia um texto escrito por José Manuel Fernandes (atual Publisher do Observador), em 2006, quando era diretor do Público. Esse texto, A estratégia da aranha, uma crítica ao discurso de tomada de posse como presidente do Supremo Tribunal de Justiça, de Noronha do Nascimento, foi considerado difamatório pelos tribunais portugueses, que condenaram o jornalista a pagar uma indemnização de 60 mil euros àquele juiz.

O texto em causa e pelo qual José Manuel Fernandes foi condenado nos tribunais portugueses a pagar uma indemnização ao juiz Noronha Nascimento ( o que considerou, juntamente com o PGR Pinto Monteiro que não havia indícios criminais contra José Sócrates, em 2009, relativamente a um crime de atentado ao Estado de Direito e mandou destruir as escutas indiciadoras):


Noronha de Nascimento, o homem que vai presidir ao Supremo, representa a face sombria da nossa justiça
Querem um símbolo, um expoente, um sinónimo, dos males da justiça portuguesa? É fácil: basta citar o nome da Noronha de Nascimento e tudo o que de mal se pensa sobre corporativismo, conservadorismo, atavismo, manipulação, jogos de sombras e de influências, vem-nos imediatamente à cabeça.
O juiz - porque é de um juiz de que se trata - é um homem tão inteligente como maquiavélico. Anos a fio, primeiro na Associação Sindical dos Juízes, depois no Conselho Superior da Magistratura, por fim no Supremo Tribunal de Justiça, esta figura de que a maioria dos portugueses nunca ouviu falar foi tecendo uma teia de ligações, de promiscuidades, de favores e de empenhos (há um nome mais feio, mas evito-o) que lhe assegurou que ontem conseguisse espetar na sua melena algo desgrenhada a pena de pavão que lhe faltava: ser presidente do Supremo Tribunal de Justiça. O lugar pouco vale (quem, entre os leitores, sabe dizer quem é o actual presidente daquele tribunal, formalmente a terceira figura do Estado?). Dá umas prebendas, porventura algumas mordomias, acrescenta uns galões, mas pouco poder efectivo tem.
O problema, contudo, reside neste ponto: tem, ou terá? Os senhores juízes, que aqui há uns tempos se empenharam na disputa com o Tribunal Constitucional para saber quem era hierarquicamente mais importante (ganharam os do Supremo a cadeira do protocolo, deram aos do Constitucional a consolação de terem ao seu dispor um automóvel topo de gama...), nem sequer são muito respeitados. Por sua culpa, pois sabe-se que alguns passam pela cadeira do Supremo apenas uns meses e para engordar a sua reforma. O presidente daquele agigantado colégio de reverendíssimos juízes pouco poder tem tido, só que Noronha de Nascimento apresentou-se aos eleitores - ou seja, aos seus pares, aos que ajudou a subir até ao lugar onde um dia o elegeriam - com uma espécie de programa que arrepia os cabelos do mais pacato cidadão.
O homem não fez a coisa por pouco: ao mesmo tempo que vestiu a pele do sindicalista (pediu que lhe aumentassem o salário e que dessem menos trabalhos aos juízes...), pôs a sobrecasaca de subversor do regime (ao querer sentar-se no Conselho de Estado) e acrescentou o lustroso (pela quantidade de sebo acumulado) chapéu do "resistente" às reformas no sector da justiça.
Se era aconselhável que um presidente do Supremo Tribunal desse mais atenção a Montesquieu e ao princípio da separação de poderes do que à cartilha da CGTP, Noronha de Nascimento fez exactamente o contrário. Reivindicou como um metalúrgico capaz de ser fixado para a posteridade numa pintura do "realismo socialista" e, esquecendo-se de que é juiz e representante máximo do "terceiro poder", o judicial, pediu assento à mesa do "primeiro poder", o executivo. É certo que o poder do Conselho de Estado é tão inócuo como o penacho de ser presidente do Supremo Tribunal, só que a reivindicação contém em si duas perversidades. A primeira é ser sinal de que Noronha de Nascimento se preocupa mais com o seu protagonismo público do que com os problema da justiça. A segunda, bem mais grave, é que o homem se disponibiliza para ser o rosto de uma fronda dos juízes contra as decisões reformistas do poder político, neste momento objecto de um consenso alargado entre o partido do Governo e a principal força da oposição.
É tão patético que daria para rir, não estivéssemos em Portugal e não entendêssemos como funcionam as estratégias das aranhas. O homem, creio sem receio de me enganar, é tão inteligente e habilidoso como é perigoso. Até porque tem já um adversário assumido: o novo procurador-geral da República, Pinto Monteiro, um dos raros que tiveram a coragem de lhe fazer frente.


A vergonha que recai agora sobre o tribunal que condenou aquele jornalista dá maior ênfase à vergonha que consistiu ter no STJ um juiz como Noronha Nascimento pelos motivos aqui apontados.

Porém,numa coisa se enganou JMF no seu artigo de 29.9.2006 no Público: Noronha não era forçosamente inimigo de Pinto Monteiro e que este lhe faria frente. Eram, aliás, do mesmo naipe e bastou o Face Oculta para o comprovar. Na festa de lançamento do livro de José Sócrates sobre a tortura, relativamente ao qual existem fundadíssimas dúvidas de que tenha sido autor exclusivo, estavam lá os dois...


Este assunto foi por aqui debatido, na devida altura. E o conselheiro ufanou-se disso, depois, o que aumenta agora a vergonha.

Espero que José Manuel Fernandes escreva agora sobre o mesmo e o significado desta condenação do Estado português, bem como quanto ganhou o juiz conselheiro em  causa nesta acção. Com números.

O Público acrescenta mais e publica o comentário de JMF:

 Sobre o valor da indemnização por difamação, a quantia “é extremamente alta em si mesma”, diz o TEDH, e equiparada “ao valor médio da vida” segundo o decidido pelo Supremo Tribunal quando em caso de morte, o que revela para a instância europeia uma “clara intenção punitiva”.

Por ter considerado haver uma violação da Convenção, segundo o artigo 41 do mesmo documento, o queixoso deveria poder reaver a indemnização paga a Noronha Nascimento, mas como foi o PÚBLICO a custeá-la, não foi dado provimento ao pedido do jornalista de uma indemnização de 67 mil euros – correspondente ao que tinha sido sentenciado a pagar por difamação, acrescido de juros. Foi-lhe sim atribuído o direito de receber 9400 euros pelas custas judiciais do processo.  
O Estado português pode ainda recorrer, mas cabe ao tribunal europeu decidir se aceita apreciar de novo a questão.
"É uma derrota para a justiça portuguesa, que neste caso não fez nada bem", comenta José Manuel Fernandes. "Noronha do Nascimento utilizou toda a artilharia que tinha à sua disposição - intimidando-me não só a mim como a minha família. E a sentença do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem fala disso".

A atitude de Noronha Nascimento em envolver a mulher do jornalista é uma habilidade saloia de um jurista de quico na crista, como cantava José Afonso: obter a ruína do casal como vingança pessoal. Foi o que o TEDH disse, ao mencionar o carácter punitivo da acção.  E isso será  inqualificável porque não se limita a tentar obter uma indemnização por danos sofridos, mas a uma punição pelo facto.
Como alias se revela imoral receber 67 mil euros de indemnização paga pelo Público e ficar a rir-se disto tudo.
De resto a culpa desta vergonha não é apenas de Noronha Nascimento mas dos juízes de primeira instância do tribunal Cível de Lisboa e do colectivo da Relação que subscreveu o acórdão que agravou a indemnização.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

As enfermeiras no Estado Novo podiam casar?

Acicatado por uma questão pertinente acerca do celibato obrigatório das enfermeiras durante o Estado Novo, tendo ficado com a pulga atrás da orelha perdi, sei lá, meia hora a tentar saber mais alguma coisa.

E descobri isto:

Em primeiro lugar que as mulheres portuguesas não querem saber bem o que foi o Estado Novo e por isso escrevem estas aleivosias com assinatura de catedráticas como uma das Belezas que deveria saber melhor...


No sítio de alguns Comunas escrevia-se em 2012 o seguinte:

O Decreto n.º 32:612[10], de 31 de Dezembro de 1942, estabelece, como condições para a admissão a qualquer escola de enfermagem “bom comportamento moral e o teor de vida irrepreensível” e “para os candidatos à enfermagem hospitalar, do sexo feminino, ser solteira ou viúva sem filhos” (alíneas d) e e) do art.º 4º). Segundo Tavares6, este documento marca a passagem efectiva do ensino e do exercício da enfermagem para o controlo do Estado Novo, pois até então as escolas de enfermagem estavam sob a égide dos hospitais, passando, com aquele diploma, para o controlo do Estado.

De facto, o diploma em causa dizia tal coisa assim:



 O problema é que esse diploma foi modificado cinco anos depois, em 1947, através do Decreto Lei 36 219 de 10 de Abril de 1947 e que passou a dizer assim ( é interessante ler o preâmbulo do diploma em que se diz claramente que o Estado não é detentor exclusivo desse tipo de ensino):


Isto significa claramente que aquele segmento acerca do celibato obrigatório para as enfermeiras desapareceu da lei ordinária, logo em 1947 e depois em 1952, através do Decreto Lei 38 884 de 28 de Agosto de 1952  ficou assim :


Logo,  o que se depreende dos escritos destas esquerdistas que não querem saber de História para nada a não ser para a propaganda anti-salazarista do costume,  é que o Estado Novo, de 1942 a 1947 entendeu que as mulheres que iam para enfermeiras deveriam ser celibatárias. As razões para tal se calhar viriam do tempo da I República, jacobina e maçónica. Não sei mas é possível indagar, o que aliás não é feito por aquelas sufragistas da era moderna que apenas pretendem manipular idologicamente os factos históricos. Se tal não fosse assim teriam esclarecido que desde 1947 desapareceu tal imposição legal.

Em 1947,  pouco mais de uma dúzia de anos depois da Constituição de 1933, tinha já desaparecido da lei tal entrave que serve agora de pretexto a esta gente para denegrir o Estado Novo, abarcando por isso todo o período que vai de 1933 a 1974, amalgamando todo o período do Estado Social de Marcello Caetano e falsificando a História mais uma vez para deleite e proveito de mentes avariadas. Porque só mentes avariadas falsificam dolosamente a História com estes propósitos turvos.

Aliás se quisessem contextualizar o tempo dos anos 40 até poderiam indagar se noutros países se colocava a mesma questão e de que modo era resolvida.

Nos EUA, até meados dos anos vinte do séc. XX  era assim...não muito diferente de cá.

Campos e Cunha deve estar varado!

 ionline:

Armando Vara não tem dúvidas de que Luís Campos e Cunha queria mudar o rumo da Caixa Geral de Depósitos e garante que, durante o almoço que ambos mantiveram – revelado este mês pelo ex-ministro das Finanças no parlamento –, a insatisfação com a antiga administração do banco público foi clara. Há dez dias, durante a audição na comissão parlamentar de inquérito, Campos e Cunha revelou ter almoçado com Armando Vara numa altura em que disse estar a ser pressionado por José Sócrates para demitir a administração do banco público. Explicou ainda que o almoço se tratou de um encontro entre amigos – negando que fosse um convite a Vara para a administração – e que, por isso, pagou do seu bolso e rasgou a factura à frente do convidado.

Portanto, se bem entendo a historieta de Armando Vara, um indivíduo com credibilidade acima de qualquer suspeita e que gosta de robalos,  é simples: o seu amigo José Sócrates nada tem a ver com este assunto das pressões para demitirem a administração da CGD e aí colocarem outros indivíduos mais competentes. Tal inclui o antigo empregado de balcão bancário em Trás-os-Montes cujos méritos,  o melhor aluno do curso de Direito do ano de Marcelo, Santos Ferreira, gabou publicamente, reconhecendo-lhe categoria  insuspeita na arte de emprestar dinheiro a empresas com prognóstico de falência ( Vale do Lobo).

Campos e Cunha tinha dito que sim, no Parlamento, como relata o DN da altura.
  
"A relação com a CGD não teve um período de maturidade suficiente, porque estive apenas quatro meses no Governo. Desde o início, como ministro das Finanças, fui pressionado pelo primeiro-ministro [José Sócrates] para demitir o presidente da CGD e a administração da CGD", afirmou o ex-governante, que não acatou essas orientações.
"Por princípio, acho que deve ser dado tempo para as pessoas trabalharem e concluírem os seus mandatos", explicou Campos e Cunha, durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito à gestão da CGD, dando como exemplo o facto de não ter demitido nenhum diretor geral durante a sua curta passagem pelo executivo socialista, em 2005.

Isto foi logo desmentido por José Sócrates, outro cuja credibilidade nesta como noutras matérias é imbatível,  conforme relatava a Sábado:

 "Há anos que o Dr. Campos e Cunha aproveita os quatro meses da sua passagem pelo Governo para atacar os seus antigos colegas. Considero tal comportamento desprezível e sempre o ignorei por não querer quebrar a regra que sigo de não comentar a vida interna do Governo a que presidi", acusou Sócrates numa nota enviada à comunicação social, esta sexta-feira.

"Hoje sinto que tenho o dever de o desmentir: as suas declarações a propósito da Caixa Geral de Depósitos são falsas e sem nenhuma correspondência com a verdade", assinalou o antigo governante. E reforçou: "Esclareço que nunca fiz qualquer pressão para demitir a administração daquele banco. Esclareço ainda que a vontade de substituir a referida administração sempre me foi manifestada pelo então ministro das Finanças que, ao contrário do que agora é afirmado, na altura considerava que não estava à altura da missão do banco"
.

Campos e Cunha não se ficou, ao contrário de agora com este peão, Vara, conforme o Observador contou:
 
O ex-ministro das Finanças Luís Campos e Cunha reagiu, em declarações ao Observador, ao desmentido de José Sócrates emitido esta sexta-feira sobre o seu depoimento na Comissão de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos. O professor universitário de Economia, que esta semana denunciou aos deputados pressões do então primeiro-ministro para demitir os administradores da CGD em 2005, também desmente o antigo chefe de Governo: “Por amor de Deus, estive quatro meses no cargo e não demiti a administração da CGD. Mas, quando saí, esta foi demitida no dia seguinte por outra pessoa”.
Nessa época, a CGD era dirigida pelo social-democrata Vítor Martins, que foi substituído por Carlos Santos Ferreira, próximos dos socialistas, e que passou a integrar Armando Vara na administração. Foram nomeados por Teixeira dos Santos, o ministro que sucedeu a Campos e Cunha e que ficou no Ministério das Finanças até ao fim do Governo de José Sócrates.
“Para mim o comunicado foi uma honra”, ironiza Campos e Cunha. “Mas ao contrário do que ele [José Sócrates] afirma, eu disse no depoimento no Parlamento que os outros membros do Governo não tinham nada a ver com esse assunto e nunca foram envolvidos”.

O ministro que demitiu a Administração da CGD, Teixeira dos Santos, celebrizado por chamar a troika na terceira bancarrota do país em menos de 40 anos,  também já contou a sua versão, conforme conta o Sol:

“O primeiro-ministro nunca me pressionou no sentido de fazer qualquer mudança ou de nomear fosse quem fosse para a administração da Caixa”, declarou, depois de classificar como uma “coincidência” ter escolhido precisamente Santos Ferreira, o nome que Campos e Cunha diz que Sócrates lhe tentou impor.
“Creio que foi uma coincidência. Ninguém está em condições de assegurar que esse nome foi sugerido ao meu antecessor. É a palavra dele contra todos”, disse o antigo responsável das Finanças, que começou por insistir na defesa de que tanto Santos Ferreira como Vara foram ideias suas para acabar por assumir – depois de Hugo Soares recordar que é crime mentir numa comissão de inquérito – que falou com pessoas que lhe indicaram nomes, embora tenha tido dificuldade em referir com quem teve essas conversas.

Pressões? Nenhumas. Coincidências apenas. Mas...avisado das consequências em mentir no Parlamento lá admitiu que afinal os nomes lhe foram soprados...mas não se lembra bem por quem. Armando Vara, foi um deles e Teixeira dos Santos não se lembra quem terá sido a pessoa que lho indicou. Deve ter sido um anónimo qualquer e Teixeira aceitou de bom grado e nem falou com o então primeiro-ministro.

Sobre a credibilidade deste Teixeira que é professor universitário e komentador de tv estamos também bem conversados.

Assim, resta a versão de Campos e Cunha contra estes personagens de opera bufa, responsáveis pelos desmandos que se conhecem na CGD e noutros sectores.

Em quem se deve acreditar? Por mim, nem se coloca a dúvida...mas julgo que um tribunal de júri também não teria qualquer dúvida.

Francisco Louçã e a sua História de algibeira

O Expresso já publicou dois tomos do livro de Simon Sebag Montefiore sobre Estaline. No prefácio assinado por Francisco Louçã aparece esta passagem:



" A tragédia do século XX é esta: uma revolução contra uma ditadura e uma guerra, que libertou milhões de servos e prometeu o fim da exploração, que se anunciou como uma alvorada de uma humanidade cooperante, foi dominada por uma burocracia fechada, temerosa e por isso agressiva, cujo poder se ergueu sobre uma pirâmide de vítimas."

Algumas dessas vítimas foram os "kulaks" que o autor descreve assim:



Não se trata de burocratas fechados, temerosos e agressivos. Trata-se de uma política deliberada de um grupo de revolucionários que "virou à esquerda" assumindo-se como bolcheviques, dizimando os camponeses e pequenos proprietários de terras e também técnicos industriais que não lhes fossem afectos ou que se lhes opunham, para que fosse possível construir a nova sociedade socialista.

Não se tratou de qualquer desvio de burocracia desvairada pela revolução. Tratou-se pura e simplesmente de uma política colectiva, deliberada e capitaneada por Estaline.

Do mesmo modo, a História não foi aquilo que Louçã escreveu. A tal Revolução não se fez para acabar com a exploração e "libertar milhões de servos".

Louçã, ignorante ou cábula não sabe que antes dos bolcheviques apareceram no poder houve na Rússia um período de anos felizes, como lhe chama a revista francesa Historia, de Dezembro de 2016:


A Rússia dos "dias felizes" ainda durou uns anos, antes e após a queda do regime czarista dos Romanov.

E na luta pela conquista do poder que se seguiu à queda dos czares tudo se alterou. Foi nesta fase que interveio o governo de Kerenski e entre Junho de 1917, data do primeiro congresso dos sovietes de toda a Rússia ( dominado pelos Mencheviques e socialistas revolucionários de Kerenski que tinham como lema "a terra a quem a trbalha") e Outubro de 1917, data da revolução que foi ganha pelos bolcheviques de Lenine, o período histórico não foi como Loução conta que era e aqui já foi desmontado por José Milhazes.

A revista francesa Histoire & Civilisations, do jornal Le Monde explica bem, nestas três páginas o que sucedeu e Louçã aparentemente não sabe. 


 A frase, a vários títulos  assassina de Louçã, até da sua credibilidade como professor seja lá do que for, corresponde a uma visão revisionista e truncadora da realidade história como é típico destes teóricos embebidos em marxismo-leninismo e seria bom que houvesse gente a denunciar este "energúmeno" com acesso permanente às tv´s onde fala como quer a convite de jornalistas ainda mais ignorantes.

A crise do jornalismo não é só de falta de "sustentabilidade dos media" ou de salários baixos. A Lourença não ganha o salário mínimo. Antes pelo contrário, ganhará mais que o presidente da República, precisamente para fazer as figuras que anda a fazer, há anos a esta parte: dar cumprimento aos ensinamentos de Gramsci...


Quem bem faz a cama...bem se deita nela

Isto está mau...esta gente anda a perder milhões.



E não há meio de descobrirem como estancar a sangria dos cabedais que ganharam com a honradez do costume local.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Os jornalistas portugueses em congresso

Os jornalistas portugueses fizeram o seu 4º Congresso em pouco mais de trinta anos. O 1º ocorreu em Janeiro de 1983 e foi um acontecimento então celebrado por ser o primeiro depois do 25 de Abril de 74. 

O 2º foi já em 1986 e houve a preocupação em criar um código deontológico para exprimir "em  normas consensuais os valores éticos com incidência na profissão."

Só em 1998, mais de dez anos depois se realizou o 3º Congresso, mais aprofundado nos temas debatidos, porque se verificou que "12 anos passados sobre o último Congresso, se registou uma profunda alteração na paisagem mediática portuguesa. As transformações ocorreram no jornalismo, mas afectaram também o perfil dos jornalistas portugueses, como indicia o 2º Inquérito Nacional e prenuncia a sondagem realizada junto da geração emergente, representada por estagiários e por estudantes finalistas de Comunicação Social. Aos velhos e graves problemas e bloqueios de carácter sócio-laboral, juntam-se agora novas questões no domínio das práticas jornalísticas, da ética e da deontologia."

18 anos depois, as transformações continuam e os problemas agora corporativizaram-se um pouco mais com a "precariedade" no emprego e os baixos salários ( tudo culpa do Passos, certamente).

Devo dizer que tenho algum respeito e consideração pela maioria dos jornalistas que escrevem notícias, mas tenho muitas reservas em relação a quem manda escrever ou controla o que se escreve, exercendo o papel de novo censor que nunca desapareceu do jornalismo.

Tenho ainda menos respeito pelas escolas de jornalismo que aliás não conheço, mas conhecendo os frutos saberei dizer como será a árvore.

A propósito disso vão já os primeiros recortes:

Os primeiros respeitam a uma entrevista com um jornalista que não frequentou aqueles cursos que empregam antigos jornalistas como professores que ensinam a rotineira forma continuada do " que vem de trás toca-se para a frente".
Hugo Rocha, do Comércio do Porto, "decano dos sindicalistas" é claro no que diz: o jornalismo não se aprende. Muito menos se os professores forem de estirpe tão cultivada como as judites, campos e ferreiras de todos os matizes.  Aprende-se a ler e a escrever nas escolas comuns. Aprende-se História, Geografia e outras "ciências sociais". Estuda-se e lê-se muito e depois pratica-se a escrita de notícias cujas normas se aprendem na tarimba das redacções que já não existem, imitando estilos ou criando o seu próprio segundo o talento próprio ( lembrei-me agora mesmo de Rui Miguel Tovar, do jornalismo desportivo e que gosto de ler, precisamente por isso).

Também gostava de alguns jornalistas da velha guarda esquerdista como Adelino Gomes, pelo savoir-faire radiofónico e pela voz timbrada de bom locutor. Quanto à essência do que lia ou relatava era uma desgraça completa, eivada de preconceitos ideológicos aprendidos no esquerdismo militante.

É esse um dos problemas básicos e essenciais do jornalismo português: qualquer repórter de arjeta se julga predestinado a dar pareceres ideológicos sobre o que relata e os destinatários que aguentem o cabotinismo ou desliguem a fonte.
E é isso que está a acontecer ao jornalismo português: cada vez mais há quem desligue a tomada de atenção porque a manipulação, a desinformação e a pura propaganda tomam frequentemente o lugar cimeiro na deontologia pessoal do jornalista de causas.


Isso mesmo foi de alguma forma mostrado pelo jornalista que em Portugal rema contra a maré e dirige o Correio da Manhã, Octávio Ribeiro.
Não parece ser um indivíduo muito culto,  mas é seguramente um indivíduo atento ao que o público pretende, tentando assimilar o que o público precisa, de acordo com a ideia peregrina de outro jornalista reciclado na crónica, Henrique Monteiro, tal como declarou no último Expresso da meia-noite.

Segundo o editorial de Octávio Ribeiro no CM de hoje:


O CM é o jornal que incomoda os zelotes do pós-jornalismo como José Pacheco Pereira e é disso que se trata: do jornalismo que relata sangue suor e lágrimas que muitos preferem nem ver, substituindo-o pelos artigos artsy-artsy, para uma meia dúzia de leitores e de opinião concentrada na ideologia do politicamente correcto.



Depois há outra categoria que classifico como híbridos. Aprenderam jornalismo em vãos de escada no intervalo de outros cursos mais expeditos como   Economia ou Gestão e estavam no sítio certo à hora certa para os fretes certos a certos figurões.




Este tipo de jornalismo redunda nisto:




 Mas tal não os incomoda demasiado porque a finalidade de tal jornalismo não é a sua sustentação económica mas apenas a dos seus interesses globais. Para estes os jornais ou media em geral são um custo conveniente associado a uma actividade que pouco ou nada tem a ver com jornalismo.

Enfim, o jornalismo português é uma vergonha nacional muito por causa disto que o articulista João Pereira Coutinho explicava ontem no Correio da Manhã:




Evangelho de nosso senhor Mário Soares segundo s. Vasco Pulido Valente

O articulista de escol, Vasco Pulido Valente que escreve no Observador depois de deixar a loca infecta do Público, decidiu verter as suas memórias hagiográficas acerca dessa figura de adamastor da nossa História Contemporânea que assinava Mário Soares e que segundo a sua própria mulher teve uma vida que sempre lhe protegeu os caprichos.

O resultado do estudo sumário desses caprichos é um texto medíocre, pretensamente documentado em factos históricos cuja interpretação pessoal perverte o sentido da realidade ainda vivida por muitos.

Aqui fica a primeira parte desse texto que pouco mais é que uma hagiografia despudorada de alguém que viveu no mesmo meio, frequentou as mesmas famílias, usou dos mesmos privilégios e foi educado em modo semelhante. Entre parênteses o meu comentário:



 No dia em que Mário Soares desembarcou em Lisboa, em Santa Apolónia, em Abril de 1974, não desembarcava sem apoios, sem um instrumento e sem um papel. Havia muita força sob a sua aparente fraqueza.

[Falso: o próprio MS disse que nesse dia nem sabia bem o que o esperava e até veio um pouco a medo do que poderia encontrar]

A carreira de Mário Soares não teve nada de particularmente notável até 1962.
Como muito boa gente começou aos vinte anos pelo PC, atraído pela aventura (e os perigos dela), pelo radicalismo e pelo facto simples de não existir na oposição qualquer outra alternativa. Com o PC e pelo PC trabalhou no MUD e, a seguir, na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República. A “colaboração” com os comunistas, se assim se pode chamar, porque ele chegou a dirigente, não resistiu à ineficiência e à intolerância geral da seita. Em 1950, é expulso do “Partido” por “indisciplina” e “derrotismo”.
 [ em 1962 MS tinha já quase 40 anos e nessa idade quase toda a gente notável produziu o que de melhor teria na sua essência. MS a partir dessa idade produziu política de pendor socialista-marxista com laivos de oportunismo de gaveta para escapar às contradições. Como tinha renegado o comunismo em que acreditou até aos 26 anos ( que tolo!) aderiu à chamada social-democracia europeia de pendor socialista nórdico, único destino dos arrependidos do comunismo que não deixaram de ser marxistas] 

Isto, que lhe deu tempo para acabar de se formar em Histórico-Filosóficas e começar o curso de Direito, também o deixou isolado e sem destino político evidente. Fora a actividade platónica de um pequeno círculo de advogados da Baixa, não havia nesse tempo desértico nada a que ele pudesse aplicar a sua habilidade e energia política. De quando em quando, lá vinha um abaixo-assinado ou protesto de personalidades, que no fundo só serviam para actualizar os ficheiros da PIDE. A oposição foi um incómodo para a Ditadura, mas nunca foi uma verdadeira ameaça. Certamente sem grande esperança e por puro desemprego cívico, Soares funda em 1955, a Resistência Republicana com uma dezena de amigos, que não se distinguiu por coisa alguma na vida política portuguesa; e adere ao Directório Democrático Social de três figuras venerandas da democracia (António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes), que eram um símbolo mais do que uma força.



Entretanto o mundo mudava. Em 1958, aparece surpreendentemente a candidatura de Humberto Delgado (com o apoio de Soares), que revelou ao melancólico país da Ditadura a extensão e a fúria de uma boa parte da população. E, em 1962, a chamada “crise académica”, para grande estupefacção dos próceres do regime, veio provar que nem com os filhos da burguesia podiam contar. Infelizmente, as relações entre os dirigentes da “crise” e Mário Soares não foram boas. Primeiro, por culpa dos dirigentes da “crise”, que com uma ridícula arrogância desprezavam a “velha” oposição republicana (mas não o PC). Eles mobilizavam de um dia para o outro milhares de estudantes, tinham uma espécie de imprensa (em stencil), tinham instalações, tinham automóveis e tinham dinheiro. E o que tinham os democratas da Baixa, excepto 30 anos de mal empregada indignação e de conspirações falhadas? Mas, fora isso, que já não era pouco, o pessoal do movimento académico, quando não militava no Partido Comunista, exibia – por competição e para defesa própria – um radicalismo que Soares já várias vezes rejeitara. A geração de 1962 ficou por isso longe da social-democracia europeia e do futuro PS até muito depois do “25 de Abril”.

[ Bastava este encadeado de frases relacionando factos para se perceber e não entrar em contradições evidentes que o regime de Salazar era mais tolerante do que querem fazer crer; era mais "democrático" do que fascista e era menos ditatorial do que o pintam. Nas ditaduras de Leste não havia nenhuma destas veleidades e nas ditaduras verdadeiramente fascistas muito menos. Mas enfim. O mito tem de perdurar senão perde-se o sentido da História que agora contam] 

De qualquer maneira estas pequenas questões domésticas interessavam pouco perante a guerra de África, que em 1961 começou em Angola. Dos políticos portugueses com uma certa notoriedade só Soares percebeu que a Ditadura deixara de ser um pequeno problema de um país pequeno e sem influência para se tornar um problema internacional, em que tarde ou cedo as grandes potências se envolveriam. A oposição já não se fazia, ou devia fazer, em Lisboa ou no Alentejo, mas na América e na Europa, principalmente na Europa. Em 1962, Soares transformou a Resistência Republicana em Resistência Republicana Socialista e, em 1964, criou na Suíça a Acção Socialista Portuguesa, uma maneira hábil de se ir ligando aos grandes partidos europeus.

[Então só MS é que percebeu a natureza maléfica da coisa? Genial, o indivíduo epicurista. A não ser que nos lembremos de um livro editado em 1962, de Manuel José Homem de Mello ( "o homem dos americanos") que defendia, dentro do regime, a oposição à guerra no Ultramar, com um prefácio do general Craveiro Lopes...e como ele havia outros.
Trazer MS para a frente única desse combate ideológico, agora, parece-me extravagante, sem mais.
Por outro lado, a oposição que se fazia na Europa não era  certamente a de um De Gaulle. Confundir a oposição esquerdista, comunista ou socialista marxista, com toda a oposição é um erro ]


Estabelecer a credibilidade da oposição portuguesa num Ocidente anticomunista e desconfiado era uma extraordinária tarefa para um extraordinário homem. [ Não acredito nisto. Estamos a falar do final dos anos sessenta? Soares à solta é que iria convencer a Inglaterra, França, Alemanha e EUA da bondade da sua posição anticomunista, mas contra a guerra? Santa ingenuidade que só se compreende em quem faz hagiografia]  Sem a sobre-humana simpatia e a sobre-humana confiança de Mário Soares talvez fosse impossível. Mas, pouco a pouco, ele conseguiu; [ mas ele conseguiu o quê, exactamente? Quem é que dava importância a MS nesse tempo? Quem é que lhe reconhecia méritos políticos de monta? Quem é que o ajudava nesse labor? Os comendadores do regime que o sustentaram em Paris? Santo Deus como é difícil compreender VPV por vezes...]  e Salazar percebeu. [ Percebeu que MS era o génio da nossa política encarcerado ainda na garrafa? Não desvalorizemos a inteligência de Salazar. Salazar não admitia oposição comunista ou marxista ao regime e particularmente à guerra no Ultramar. Qualquer regime tem destas idiossincrasias, como a Inglaterra democrática o teve no tempo das Malvinas ou a França no tempo da saída dos pieds-noirs do Norte de África. MS era um opositor mas não necessariamente O Opositor. Julgo arriscado refazer a História atribuindo-lhe tal papel em prognose póstuma]  O regime não se inquietava excessivamente com a agitação da Baixa ou com um ou outro protesto de estudantes, nem sequer com as raras greves que o PC ia promovendo. Mas Soares falando à solta na América, na Alemanha ou em Inglaterra, era um risco real, ainda por cima com uma guerra em curso e sendo ele advogado do general Humberto Delgado, que a PIDE matara. Salazar não hesitou em o desterrar para S. Tomé. [ Desterrou-o para S. Tomé para não andar à solta armado em traidor à Pátria que queria entregar ao comunismo esquerdista, como aliás quase aconteceu em 1974.]

 Quando ascendeu a Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, provavelmente para mostrar o seu duvidoso liberalismo, arranjou uma tranquibérnia jurídica para permitir que Soares voltasse a Portugal. [ A tranquibérnia resultou eventualmente de se aperceberam ( Marcello Caetano) que MS não era tão perigoso quanto isso,  deixaram-no à solta]. 
No congresso da Oposição dos anos setenta, em 1973 Voltou e imediatamente concorreu à eleição para a Assembleia Nacional (como na altura se chamava o “parlamento”) com uma lista de gente socialista ou próxima do socialismo, rompendo com a tradição de “unidade” anti-salazarista sob a qual o Partido Comunista se disfarçava sempre. Mais do que isso. Marcelo prometera eleições “honestas” (que evidentemente o não seriam) e Mário Soares trouxe a Portugal um grupo de inspectores da Internacional Socialista, que as declararam falsas. [ MS não apareceu em Aveiro-mandou a mulher- porque estava no bem-bom de Paris, sustentado pelos próceres do regime e poderia ter aparecido, mas teve medo de ser preso. Entre os organizadores do Congresso estavam luminárias como Salgado Zenha e Francisco Sousa Tavares. Não admira que entre estes, MS tenha lugar de destaque como político de génio para o agora hagiógrafo improvável...]

 Dali em diante, a presença em Portugal do homem que o denunciara em público como mentiroso e que lhe retirara qualquer espécie de legitimidade era intolerável para Marcelo Caetano. Ameaçando Soares com a prisão e o desterro, Marcelo conseguiu que ele ficasse num exílio forçado até 1974. Mas perdeu mais com esta manobra do que ganhou. Por uma vez relativamente livre, Soares tinha tempo e meios para expandir e fortalecer a ASP, que em 1972 a Internacional Socialista admitiu como membro pleno; e para escrever um livro, o “Portugal Amordaçado”, publicado em francês. [ Este livro medíocre não passa de um panfleto. Atribuir-lhe virtualidades por exemplo semelhantes ao Portugal e o Futuro de Spínola, é ver a História ao contrário. Alguém o leu, porventura?] 
 Mas nem nestes anos de solidão se aproximou dos novos “resistentes”, que haviam fugido à PIDE, à guerra e a Penamacor (uma unidade penal), e que em Paris se deixaram absorver pelo “renascimento marxista”, conduzido por um louco, Louis Althusser, que acabou por se proclamar um profeta e matar a mulher. De revista para revista, esta gente discutia com ódio teológico as miudezas da sua fé, enquanto Soares tratava do que era importante e consequente. [ Pois foi mesmo com estas loucuras que MS alinhou politicamente e isso a hagiografia releva como se fosse algo de somenos...]


Por essa altura, já o império soviético se começava a desfazer. A Europa de Leste e a própria URSS estavam endividadas ao Ocidente até ao pescoço e a URSS, em particular, não queria pagar uma segunda Cuba ao dr. Álvaro Cunhal e mesmo depois do “25 de Abril” foi parca com o PCP e crítica da política “revolucionária”. A Europa ocidental, pelo contrário, ainda não sentia a gravidade da sua decadência e abria a porta a um (ainda modesto) alargamento. Soares já se tornara parte dessa Europa. Conheceu Brandt, Schmidt, Callaghan, Nenni, Mitterrand e a generalidade das grandes personagens que, tarde ou cedo, decidiriam do nosso destino. [ Exactamente, conheceu essa gente socialista da Europa numa altura em que os respectivos países eram capitalistas de raiz e essência e com isso podiam fazer social-democracia. Eram ricos porque alguém, ou seja, o capitalismo, produzia a riqueza necessária a tal e julgo que VPV já escreveu sobre isso. Por isso mesmo é lamentável que não recorde essa circunstância e dê alento a um mito que tal nunca compreendeu, julgando que o dinheiro nasce do chão ou cai das árvores, quase literalmente]

Em 1973, fundara o PS na Alemanha, com dinheiro alemão e o patrocínio do SPD, e no dia em que desembarcou em Santa Apolónia não desembarcava sem apoios, sem um instrumento e sem um papel. Havia muita força sob a sua aparente fraqueza.

Talvez haja uma razão para perceber esta hagiografia encomiástica que eleva um político medíocre aos píncaros olímpicos da nossa modernidade. 
VPV pertenceu a um meio social muito parecido com o que Mário Soares experimentou. 

Mário Soares teve este background pessoal e político, como relatava em Outubro de 1990 ao Expresso:


VPV teve um background semelhante. A família é toda jacobina ou aparentada. Em Março de 1971 o regime de Caetano permitia isto: enaltecer o jacobinismo republicano e laico que esteve na origem dos desmandos da I República. Se fosse uma verdadeira ditadura nunca permitiria e estas pessoas estão constantemente a esquecer estes género de factos, a ocultá-los e a falsificar a História, na ânsia premente de diabolizar o passado de que não gostavam e no qual foram educados pelos pais e avós. Portugal não era só esta gente e até passava muito bem sem esta gente, mas enfim as coisas são o que são.  E são muitos e muitos factos que o demonstram...






Há um artigo de VPV na revista Cinéfilo de Fevereiro de 1974 que ajuda a perceber estas idiossincrasias que o levam a defender um medíocre como se fosse o último génio da paróquia. É este:

Mário Soares teve o mesmo género de ambiente...mas apenas depois do 25 de Abril de 1974. E isso deveria dar que pensar. Aliás, VPV chegou a pensar nisso, mas já foi há muito tempo, em Janeiro de 1992, no Independente ( e tem outra crónica de Agosto de 1991 que não encontrei que ainda é mais demolidora da personagem)  e deve estar esquecido:



Mário Soares, conforme disse a sua própria mulher, nunca passou disto: a política como um meio de atingir um fim que era apenas o seu bem estar pessoal. A Pátria? Nunca teve. E isso parece-me tão claro que até dói.